Notas iniciais
Acordei com meu telefone celular tocando. Meus olhos se espremeram com a claridade e tive dificuldade de mexer meu corpo. Minha mente ainda transitava em mundos paralelos, deixando minha vida um pouco mais alegre. Pelo menos enquanto eu sonhava. Levantei-me da cama e caminhei até a mesa do computador. Peguei meu telefone e o atendi.
– Alô? Falei enquanto bocejava.
– Fêê, oie! É a Lena, desculpa te ligar tão cedo. Como está?
Tão cedo pensei. Olhei para o relógio do próprio celular e vi que eram oito horas da manhã. Eu tinha dormido quinze horas, isso explica o meu corpo todo dolorido.
– De cara com a vida, mentira. Estou morrendo de sono, e a culpa é tua. Como estás? Falei lentamente.
– Eu estou bem, foi uma ótima noite, mas então, aproveitando o fim de semana, o que tu achar de irmos ao shopping?
– Tu me ligas às oito da manhã para perguntar se eu quero ir ao shopping sendo que a merda do shopping só abre às dez horas? Tu ainda estás bêbada? Andou tomando drogas?
– Ai Fê! Eu te liguei agora para dar tempo de tu te arrumares e ficar bonitinho.
– Posso ser gay Lena, mas não vou demorar duas horas para me arrumar.
– Ai tá, dá próxima vez te ligo avisando para estar no shopping em quinze minutos. A raiva em sua voz era evidente.
– Tá, tá, tá, desculpa. Só eu e tu?
– Não, vai ir eu, tu, a Dai e o Mika.
– Ok, vou me arrumar. Um pouco antes de desligar o telefone consegui ouvir um yes abafado vindo do outro lado da linha.
Antes de me vestir fui tomar um banho. A água estava gelada, fazendo com que eu acordasse. Fiquei dez minutos lá e quando saí do banho meu irmão entrou no banheiro para falar comigo.
– Pô, eu estou pelado né. Falei enquanto botava a toalha em frente as minhas regiões baixas. Ele me encarou nos olhos.
– Tá bambiboy, que tu vai fazer hoje?
– Vou ao shopping com umas amigas.
– Nenhum machinho pra ti?
– Um, uma ilusão.
– Ok, eu vou sair e provavelmente não volte até amanhã, Eu deixei dinheiro em cima da mesa, se precisar de algo de urgência é só ligar. E boa sorte hoje.
– Ok, obrigado.
Ele sorriu para mim e fechou a porta do banheiro. Apesar de eu estar quase sempre brigando com ele, eu sabia que lá no fundo, bem no fundo, quase do outro lado, eu amava ele.
Logo depois que escutei o barulho da porta de entrada bater eu saí do banheiro e fui para meu quarto me arrumar. Fiquei um bom tempo lá, esperando a hora de sair, que parecia nunca chegar. Ora eu tocava piano, ora eu ia escutar música, eu realmente não sabia o que fazer.
Depois de alguns surtos de tédio, acabei pegando minhas coisas e saindo de casa. Desci os três lances de escada do meu prédio, abri o portão principal e peguei um taxi na esquina de minha casa. Levei cinco minutos para chegar ao shopping, e, quando entrei pelo hall principal, me lembrei de que eu não havia combinado um ponto de encontro com meus amigos.
– Que legal. Falei em tom alto.
Assim que terminei minha frase senti duas mãos cobrindo meus olhos. Geralmente era eu quem fazia esta brincadeira, mas sempre havia um contragolpe.
– Dá uma dica. Pedi em voz alta, logo em seguida senti uma joelhada na minha panturrilha, o que significava que a pessoa era bem mais baixa do que eu. Lena?
– Ai, seu chato. — Berrou Lena.
– Desculpa. Dei uma risada. E para de berrar no shopping, não quero passar vergonha de novo.
– Tá, o dia que eu não for escandalosa significa que eu morri. E quando que eu te fiz passar vergonha? Disse ela me olhando nos olhos um tanto surpresa.
– Aquele dia que nós viemos pra cá e tu gritou no meio da praça de alimentação que um homem estava com o zíper aberto.
– É verdade, aquele dia foi vergonhoso mesmo.
– Mas onde estão os outros em?
– É, né, assim, a Dai não vai poder vir.
– Eu te odeio Helena Bonkür. Dei uma risada.
Lena pegou a minha mão e correu comigo para um quiosque do Mcdonalds. Lá ela pediu uma casquinha mista e eu um Sandae. Sim, eu era gordo. De espirito. Depois de pegarmos o sorvete nós caminhamos até um banco vazio perto do quiosque e nos sentamos.
– E então? Perguntou Lena.
– E então o quê? perguntei de boca cheia.
– Está dando um tempo ao tempo?
– Não sei, é mais difícil do que... Minha frase foi interrompida por outro par de mãos. Ah, de novo!? Dá uma dica.
– Deixa eu pensar. Já sei, Tempo! Disse Lena se controlando para não rir.
– Mika?
– Acertou. Ele estava de pé atrás de mim, então só tive que jogar minha cabeça para trás para poder vê-lo, mas acabei encostando-a em sua barriga. Corei. Mas então, o que significa Tempo.
– Ah, é quê... Vacilei. Quer sorvete? Levantei meu copo de sundae.
– Opa, quero sim. — Michael contornou o banco e se sentou ao meu lado. Peguei um pouco de sorvete com a colher e levei até sua boca enquanto brincava de aviãozinho.
– E então Boys, que acham de um filme?
– Tentador Lena, mas eu não tenho tanto dinheiro. Falei com cara de cachorro sem dono.
– É uma bixa mesmo. Fiquei olhando sério para ela. Se eu pudesse voaria na garganta dela. Ainda bem que Mika não se tocou.
– Ok, já que os Boys estão duros, vamos lá na Saraiva Megastore. Adoro aquela loja.
Lena não esperou eu e Mika terminarmos o sorvete. Ela o pegou de nossas mãos, jogou-o no lixo e nos puxou. Caminhamos até o segundo andar, passando por lojas de instrumentos musicais, que eu e Mika tentava dar uma olhada, mas éramos puxados, e de acessórios, que Lena tentava olhar, mas nós a puxávamos. Quando chegamos à Saraiva fomos até a seção de ficção.
– Código da Vinci, Fortaleza digital, O Pequeno Príncipe. Ótimos livros. Disse Mika enquanto empilhava os livros em seus braços. Gosta de ler que tipo de livro Fê?
– Basicamente Harry Potter, Senhor da Chuva, Fronteiras do Universo, mais ficção e mitologia.
– Deixarei vocês conversando sobre os livros e vou até a seção jurídica. Já volto aí. — Lena deu as costas para nós e caminhou rumo ao outro lado da loja, nos abandonando. Enquanto eu e Mika pegamos alguns livros e nos sentamos em uma mesa.
– É bom este livro? O Senhor da Chuva. Disse Mika com um tom meio sombrio.
– Sim. Sorri. — Conta a história de uma guerra entre criaturas de luz e criaturas das trevas.
– Eu, particularmente, prefiro coisas mais reais, tipo O Código da Vinci, já leu?
– Não, mas tenho-o em casa, só que me falta tempo para ler.
– E, tu já estás melhor? Falo sobre ontem, no banheiro. Eu não gostava quando aconteciam estas quebras de assunto.
– Pode se dizer que sim, às vezes eu me irrito comigo.
– Envolve alguém?
– Sim, mas...
– Tu gostas da Lena né?
– EU? Falei um tanto alto de mais. Não, ela é minha amiga, nunca faria nada com ela.
– Sério? O tom de dúvida era claro em sua voz.
– Sim! respondi suavemente.
– Mas está gostando de alguém não é? — Minha única dúvida no momento era entender o porquê de uma pessoa, que não se importava com a minha existência, queria saber tanto da minha vida.
– Sim, mas está fora do alcance. Era estranho estar falando assim, escondendo que ele era a pessoa.
– Mas tu és amiga dela? Ou é mais platônica? Gelei.
– Bem, digamos que a minha existência não seja tão importante para ela. Minhas mãos começaram a tremer.
– Tenta te aproximar dela, tu és um cara legal, é bem provável que consigas algo.
– Tudo bem, mas ainda acho que...
– BUH! — Graças a Lena o livro que eu estava segurando deu um duplo 360 invertido no ar. Acho que eu só não gritei por que tapei a boca com minhas mãos. Será que eu posso pedir os vídeos de segurança? Aposto que esse treco que tu fez com o livro vai ser catalogado no livro dos recordes.
– É. Apoiei meu rosto em minhas mãos. Eu estava vermelho, muito envergonhado.
Depois do pequeno incidente nós três ficamos andando pelo shopping. Fomos a lojas de jogos, de roupas, de comida e terminamos nosso tour com uma guerra de bichos de pelúcia no supermercado. Passadas duas horas nós fomos embora, Mika foi para sua casa e eu resolvi invadir a casa de Lena.
Caminhamos até sua casa e nos dirigimos para o quarto dela. Ele era um tanto grande, cheio de fotos com amigas e muitos desenhos e frases pelas paredes laranja de seu quarto. Lena se sentou em sua cama e eu fui tocar uma musica no teclado que havia em seu quarto.
– O que houve Fê?
– Oi? Eu estava tão concentrado na musica que não ouvi uma palavra que Lena disse.
– Tu não costumas tocar musicas lentas, o que aconteceu? Não teve uma manhã boa? Suspirei.
– Sabe Lena, a psicologia diz que quando tu amas alguém, tu projetas nela várias qualidades, que talvez não existam de verdade. E além de projetar, tu as amplias, tornando a pessoa perfeita aos teus olhos. Mas à medida que tu vai conhecendo ela, as projeções são quebradas e tu perdes um pouco desse encanto, o que te deixas um pouco triste. Ou, como diz minha psicóloga, com uma depressão interna. Não sei como falei tudo isso sem parar de tocar teclado.
– Nossa! Nunca tinha me dado conta disso.
Após minha pequena reflexão eu e Lena fomo para a cozinha fazer nosso almoço. Cozinhamos pedaços de carne e esquentamos um pouco de polenta que havia na geladeira. Desde que conheço a Lena, faz cinco anos, eu vi os pais dela umas dez vezes. Era como se eles não gostassem de ficar em casa, estavam sempre viajando devido ao trabalho.
Comemos, lavamos a louça e eu fui para casa. Nada de muito especial aconteceu enquanto eu caminhava, apenas vi dois gatos brigando, mas fiquei com pena deles e os separei.
Minha tarde foi estupidamente inútil. Fiquei engordando e vendo alguns episódios de Sakura Card Captors e Shaman King, além de me atualizar sobre as notícias do mundo, como o fato de eu não ter feito um tema de literatura.
Mesma sabendo que não me dou bem na matéria eu me recusei a fazer o dever. Eu tinha mais coisa para fazer, como deitar na minha cama e sonhar com Michael.
Fale com o autor