Ensaio De Um Adeus
1 Ensaio de um Adeus
Notas iniciais
Estava quieto no ginásio, um silêncio reconfortante. A noite havia caído lá fora, e dentro do ginásio, apenas um holofote ainda estava ligado, iluminando parte da área de luta com uma luz branca e difusa. No centro da arena, ainda era possível divisar o símbolo da pokébola desenhado em vermelho e uma figura sentada no centro dela. Green observou de onde estava, próximo a porta de saída, Red cuidadosamente organizando suas pokébolas em seu cinto. Ele sempre fazia isso ao final dia, depois de verificar se seus Pokémons estavam em boas condições físicas: retirava elas do cinto no qual agora os levava e os guardava na caixa onde repousariam até o dia seguinte, para mais um dia de treinamento e, com sorte, desafiantes sedentos por desbanca-lo de sua posição. Green tinha assistido um bom número tentar fazer com Red o que Red havia feito com Green pouco mais de um ano antes. E até aquele momento, ele ainda estava para ver seu rival cair.
Green passou a mão pelos cabelos e se aproximou de Red. O rapaz continuou sua rotina, colocando as pokébolas na caixa de acrílico revestida de veludo vermelho – um presente de sua mãe quando ele atingiu o status de campeão, apesar de Green saber que ele o ouvira se aproximando. De fato, ele sabia que Red sabia que ele estava ali desde o momento em que entrara no ginásio. Ele estava sempre alerta, mesmo quando não parecia que Red sequer estava prestando atenção ao seu redor. Sacudiu a cabeça negativamente. Não sabia como havia notado essas coisas sobre Red, mas Green tinha.
Parou ao lado do campeão, fazendo sombra com corpo. Red fechou a tampa da caixa com um clic suave e ergueu a cabeça para olhá-lo, de cenho franzido e olhos semicerrados. Green sabia que estava contraluz, mas por algum motivo, ainda tinha esses pequenos momentos de querer incomodar Red. Achava que sempre teria. E duvidava que o rapaz se incomodasse ou se sentisse diferente.
“Eu já estava indo para casa.” Red disse, no tom baixo e quieto dele.
“Eu sei.” Green respondeu, assistindo Red por-se de joelhos e levantar-se. Pensou em estender a mão para ajuda-lo, mas quando viu, Red já estava de pé ao seu lado.
“Você podia ter me esperado lá, se quisesse.”
Green deu de ombros, olhando o rapaz pegar a caixa com seus Pokémons com cuidado e coloca-la dentro de sua mochila, largada a poucos centímetros de onde Red estava. Sempre surpreendia Green ver o cuidado que Red tinha com seus pokémons. Quando crianças, Green sempre tomara o outro garoto como relapso e incompetente. Somente os anos o mostraram o quanto estava errado, quão pouco realmente sabia sobre Red. Às vezes se perguntava que opiniões equivocadas o outro teria sobre ele. Na maioria das vezes, tentava não se importar com isso.
Red estalou as costas num movimento brusco, enquanto observava Green. Tirou o boné e o bateu na perna.
“Bem... Então, o que foi?”
“Tenho que estar aqui por uma razão?” Green rebateu.
“Para ter vindo aqui? Tem.”
Green hesitou, antes de assentir lentamente. Somente então percebeu que, desde que fora derrotado, nunca se dera ao trabalho de falar com Red no ginásio. Já o encontrara fora diversas vezes e o assistira batalhar outras tantas. Mas nunca, desde a derrota, os dois tinham se falado dentro do ginásio. Sequer havia percebido que aquele tabu existia até aquele instante. Encarou Red. Não sabia como ele fazia isso, o lia tão facilmente e, somente daquela vez, se deu ao luxo de dar voz a questão.
“Eu não sei.” Red deu de ombros de um jeito displicente. “Eu só percebi.”
Os dois caíram num silêncio estranho, perturbado. Green resolveu que fazer rodeios nunca fora algo que soubera fazer e foi direto ao ponto.
“Eu decidi ir para Johto. Tem muita coisa que ainda não vi lá.”
Green viu a hesitação nos olhos de Red. O rapaz lambeu os lábios e manteve-se num silêncio agourento. Green percebeu que ele não falaria nada e decidiu continuar.
“Não há muito para mim aqui. Já capturei todos os Pokémons, já cheguei ao topo da Liga. Eu preciso de desafios novos.”
Red assentiu, rápido e bruscamente. Green queria que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa. Alguma reação era melhor que aquelas palavras que ele parecia estar guardando. Ou pior, que ele realmente não tivesse nada a dizer.
“Você vai ficar?” Green perguntou de supetão. Red o encarou, de olhos arregalados e surpreso, como se a ideia não tivesse passado pela sua cabeça. De fato, Green não pretendia perguntar. Ele não queria ouvir a resposta que já sabia.
“Eu tenho que ficar.”
“Você não tem que ficar aqui. Lance pode assumir o lugar como Campeão da Liga. Você sabe tão bem quanto eu que ele deseja isso mais do que tudo.”
“Eu sei disso, Green. Mas...”. Red abaixou a cabeça.
Green entendeu. Ele tinha estado onde Red estava e, enquanto estava ali, a ideia de abandonar o posto lhe era inimaginável. Ele pôs as mãos no bolso da calça, tentando esconder o leve tremor que sentia. Green sabia que Red não iria. Ele sabia desde o momento que tomara a decisão de viajar. E ainda assim, ele iria.
“Eu parto amanhã.” Ele disse.
Red o olhou com um desespero quase palpável. Por um breve momento, Green quase desistiu, quase resolveu ficar e voltar ao laboratório de seu avô. Mas ele sabia que aquilo não era o que desejava e que o ressentimento por tomar essa decisão pensando em Red o consumiria vivo.
“Amanhã? Tão... Tão cedo?”
Green deu de ombros e começou a andar na direção da entrada. De súbito, queria partir de imediato, estar tão longe quanto podia de Red. Ele não ouviu os passos de Red e sabia que o rapaz não estava seguindo. Ele nunca o seguiria. Red era o tipo de pessoa que traçava seu próprio destino, custasse o que custasse. Não era como se ele e esperasse que Red tivesse algum gesto.
“Eu vou esperar então.” Red disse, tão baixo que à distância que Green estava, ele quase não o escutou.
“O que?”
“Eu vou te esperar. Eu também sou Campeão da Liga Johto. Eu espero. Espero você retornar.” Red deu um sorriso de lado que desejava ser matreiro, mas tinha uma tristeza indisfarçável por trás. “Para me desafiar.”
Green o encarou por alguns segundos, antes de sorrir de volta.
“Pode ter certeza disso.”
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