Enredo erronêo
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Passaram-se semanas sem que eu soubesse algo sobre Alice, sequer nos cruzamos na rua de sua casa, a qual passo todo dia para ir estudar. Nada. Cheguei a procurá-la em diversas redes sociais, mas não tive sucesso. Como, em pleno século XXI, uma pessoa não está online? Fiquei horas pensando nisso e cheguei à constatação de que talvez ela seja uma pessoa introvertida afinal, apesar de sempre estar sorridente nas vezes que a encontro. Talvez ela simplesmente não goste de ver frases com os mais absurdos erros de português, e as fotos onde mulheres são tratadas como objeto sexual, mostrando toda a pele possível. Há muitas razões para ela não estar online, e isso é decepcionante, como irei saber mais sobre sua vida? Como irei me atualizar? Como manterei esse pequeno encanto que se criou em meu peito?
A vida seguiu, sem Fernando e sem Alice.
Quando se tem os mesmos amigos que seu ex é difícil não o encontrar em cada bar, nas noites de balada. Isso me faz querer deixar as noitadas por uns tempos, minha mãe não teve nenhuma objeção sobre isso.
Em uma sexta-feira à tarde, Júlio, melhor amigo de Fernando, aparece na minha casa. Ele trabalha como vendedor em uma loja de doces, sempre me presenteia com os melhores chocolates e dessa vez não foi diferente.
—Veja só! -disse ele mostrando um saco com trufas.
—Meu Deus, eu te amo! -puxei a sacola de suas mãos e o abracei.
Ao me afastar, ele segura meu braço de leve.
—Escute, isso tudo contigo e o Fernando é... uma merda. Sinto falta dos nossos rolês. Sei que ele também. -ele faz uma pausa, me solta. – Na verdade, ele pediu pra eu falar que ele... está esperando conversar e se resolverem.
—Não tem o que resolver, Júlio. -digo me afastando.
—Pensa direito, vocês se amam.
—Eu não sei mais se amo ele. -digo revirando os olhos.
—Tem outro na jogada? -ele pergunta como se isso fosse explicar tudo.
—Não tem! -solto um suspiro – Escuta, eu sei que tudo isso deve mexer contigo, por que pra mim está sendo uma porcaria total, mas eu não pretendo voltar com ele. Pode dizer isso pra ele. Agora vai embora.
—Eu... -ele tenta argumentar, mas eu o interrompo.
—Obrigada pelo chocolate. -faço cara de choro.
—Ok, tudo bem. Estou indo.
Ele sai e eu fecho a porta. Sentei na cama e joguei o saco de trufas longe. Que merda eu estou fazendo da minha vida? Não esperava uma resposta. Cansei de procurar por elas há muito tempo, talvez fosse por isso que Fernando quis mostrar o quão insatisfeito estava nosso relacionamento. Ele com suas regras, seus horários de academia, cursinho para o Enem e seus pais esnobes que nunca foram com a minha cara. E eu? Eu só quero encarar esse teto sem ter uma crise achando que ele vai cair sobre mim. Quero ler e escrever. Quero viver. Não me tornar mais um aliado do sistema. Eu quero liberdade. Eu quero me entregar de verdade à alguém que queira isso também. E talvez tenha visto os mesmos anseios naqueles olhos azuis cinzentos de Alice, não sei dizer o que ela tem de especial, mas ela tem algo. Algo que me intriga, algo q eu adoraria descobrir.
Pego o celular e volto a buscar por Alice, mas nada mais uma vez. Desisto. Vejo uma notificação, um convite para um evento na praça, ao ar livre. Não seria nada mal. Poderia convidar uma das gurias, mas não estou com paciência para explicar o que aconteceu comigo e Fernando. Então, decido ir sozinha. Antes de entrar no banho dou um gole na garrafa de vodka que estava esquecida dentro do armário, entre os livros e o cinzeiro de Fernando.
Saio do banho e me visto mais rápido possível, parte por querer sair logo, parte por que é outono e quando a noite se aproxima traz junto de si o ar gelado.
Andando pela rua o coração acelera só de imaginar Alice sentada em sua varanda com aqueles quilômetros de lábios bebericando um chimarrão ou saboreando o amargo de um cigarro. Será que ela guardou os cigarros de Fernando? Será que fumou algum e pensou em mim? Mas, tudo o que vejo ao cruzar por ali é o pai dela atirando pequenas porções de arroz aos pombos. Certa vez que cruzei ali, ele me disse o quanto era lindo observar “eles vêm, comem e vão embora batendo as asas com mais força que...” não consigo lembrar qual termo ele usou, droga.
Acelero meus passos após cumprimenta-lo. Está escurecendo, o evento já começou. Tiro meu cantil da bolsa, não o uso desde a última festa, não lembrava o que havia ali dentro, mas assim que abro sinto o cheiro, é whisky, que eu provavelmente roubei de meu pai. Dou um gole e o guardo de novo.
Ao chegar na praça, persigo a multidão, Bukowski se envergonharia, para chegar ao palco principal. É um show ao vivo de uma banda local, mais famosa por seus sons acústicos. Normalmente eu acompanharia o show e até cantaria algumas músicas, mas esse ritmo, tão calmo, me leva as lágrimas. Desisto de assistir e sento em um dos bancos no meio da praça, pego mais uma vez meu cantil e meu celular. Nenhuma mensagem ou ligação. Deixei de existir.
Permaneço sentada até o líquido acabar. Não posso dizer que estou bêbada, mas minha visão turva quando foco em algo. Esforço-me para não chorar. Eu não devia estar tão triste, mas sinto meu peito pesar. Talvez seja uma crise, melhor ir pra casa. Levanto e começo a caminhar devagar. Dou apenas alguns passos e sinto alguém tocar meu ombro.
—Mariana... -é a voz de Fernando.
—Me esquece. -digo e acelero.
Não olho para trás, mas tenho certeza que ele ficou parado me olhando ir embora. Sempre foi assim. Ele é um idiota completo, se tivesse um pouco mais de atitude... Não! Agora não importa mais, chega de remendar o que há muito se rasgou.
Meu celular vibra dentro da bolsa, não preciso de muito esforça pra adivinhar quem é. Sigo meu caminho pra casa. A noite chegou, está escuro e frio e minhas mão geladas não se esquentam dentro do bolso do casaco.
Ao longe, vejo um carro na frente da casa de Alice. Não sei dizer se é dela ou não, mas assim que a porta abre, ela sai de dentro e eu consigo ouvir meus batimentos tornando-se mais rápidos. Eu quero correr até ela e dizer que ela não sai da minha cabeça e todo esse mistério que envolve ela me deixa ainda mais intrigada. Que se ela não fosse casada, ou se houvesse o mínimo de reciprocidade nessa atração, eu agarraria ela ali mesmo. Mas, me controlo, acelero apenas um pouco os passos e continuo a observando.
Ela se encosta no carro e retira a carteira de cigarros do bolso, acende um e traga com pressa. O que ela está fazendo? Está realmente muito frio e a casa deve ser tão aconchegante quanto o seu abraço, por que ela não entra?
Finalmente estou há poucos metros dela, mas não sei como reagir, não sei se a cumprimento, e abraço, tudo que eu queria, ou só aceno e sorrio, ou cruzo reto, sem dizer nada. Enquanto enlouquecia com meus pensamentos ela que começa a falar.
—Não vai nem cumprimentar? -larga a fumaça e sorri. Esse sorriso.
—Desculpa, eu... -paro em sua frente.
Ela aproxima o rosto do meu, sinto meu coração parar totalmente de bater, e me cheira, se afasta. Eu deveria ter roubado um beijo.
—Whisky? -pergunta sorrindo.
—Sim. -sorrio sem jeito após sentir meu coração voltar a bater.
Ela balança a cabeça negativamente. Não sei o que dizer.
—Um gosto um tanto clássico para um jovem. -ela diz para quebrar o silencio.
—Já disse que não sou tão jovem. -sinto minhas bochechas corarem.
—É verdade, disse sim. -ela mostra a carteira de cigarros, a carteira que dei pra ela, em oferenda. Não gostaria de um, mas pego por educação.
Coloco-o na boca e ela se inclina com o isqueiro na mão para acende-lo. Quanto clichê cabe em um só encontro? Trago para que ele se acenda e ela se afasta mais uma vez. O vento traz seu perfume até meu nariz, ele é mais forte que a fumaça. Um aroma doce, com pequeno toque de canela, misturado a fumaça fica ainda mais convidativo.
—O que faz aqui fora? -pergunto tentando focar em outra coisa.
—Honestamente? Pensei em ti e lembrei que deixei os cigarros dentro do carro. Vim busca-los. -ela diz, agora quem está sem jeito é ela.
—É mesmo? -não consigo esconder o sorriso.
Ela se aproxima de mim, envolve minha cintura com uma das mãos, posso sentir o seu perfume, seus dedos perfeitamente alinhados em minha lombar, seus cabelos voando lentamente. Como alguém pode ser tão linda? Alice usa a outra mão, que segura o cigarro, para, também, segurar meu queixo. Ela beija minha bochecha e me solta devagar. Não posso negar minha decepção.
—Eu poderia citar Tati Bernardi agora. -ela diz olhando pra baixo. E eu pego a referência.
Eu gostaria de entender tudo o que está acontecendo e por mais que agora eu esteja incrivelmente sóbria, parece que ela também está interessada em mim, parece ser recíproco, e eu devo estar pirando.
—Podemos fazer algo qualquer dia desses? -pergunto
—Claro. -ela sorri e joga fora o toco de cigarro.
—Quer o meu número ou podemos só... nos esbarrar por aí? – eu digo tentando parecer calma e casual.
—Prefiro o teu número. – ela ri.
Pego uma caneta dentro da bolsa e ela me oferece a mão para usar de papel. Escrevo devagar para poder sentir a sua pele por todo tempo que me for possível.
—Pronto. -digo largando o braço dela.
—Eu vou ligar. -diz observando meus números tremidos em sua pele.
Me aproximo dela, dou um beijo no canto na boca e sigo meu caminho.
Não sei o que está acontecendo, não sei se tudo isso é verdade, mas eu vou esperar ela ligar.
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