Enredo erronêo
1 Capítulo 1
Caminhei atordoada, jamais pensei que seria assim, após uma discussão boba que leva mais um relacionamento ao fim. Talvez, não sei, seja por que meu estado emocional estava alterado, mas para toda pessoa ao qual meu olhar encontrou naquela rua, onde o breu era afastado pelas luzes nos altos postes, eu via mais um coração partido, eu encarava as expressões vazias e imaginava se era assim que também aparentava.
E então, como em um filme clichê de romance barato, pingos de chuva molharam meu rosto, já úmido pelas tímidas lágrimas que caíram durante meu percurso até o bar mais próximo, que estivesse aberto àquela hora da noite. E ao encontrar um foi possível aceitar que naquela noite não só o meu coração se quebrou, mas o de milhares de pessoas pelo mundo e mais ou menos oito delas estavam naquele bar.
Sentei-me numa mesa ao longe dos demais esperando que toda aquela tristeza não me afetasse. Uma, duas, três doses de uísque depois e minha visão começou a embaralhar. Fixei-a na porta de entrada, tentando não encarar a mulher do outro lado do bar que chupava com ânsia o pênis do namorado, que ao longe, de onde estou, parece um tanto pequeno. O vidro estava embaçado, mas era possível perceber quando uma mulher se aproxima da porta, logo ela abriu-a. Um rosto conhecido, não avistado há certo tempo, um rosto que lembra infância e livros.
Meus olhos a seguiram até a mesa onde ela sentou, um garçom se aproximou, ela pediu, ele saiu, ela largou a bolsa sobre a mesa e olhou para os lados, talvez à procura de alguém conhecido, olhou para frente, me viu encarando-a, abriu um sorriso, e desviou o olhar.
—Mais uma dose? –perguntou o garçom pondo-se em minha frente.
Ele atrapalhou minha visão, e por alguma razão isso me irritou, eu queria ficar a admirando, relembrando a infância e os livros empilhados um sobre o outro.
—Não, obrigada. –respondi após me recuperar. –Quero a conta, por favor.
Ele assentiu com a cabeça e se afastou.
Então ela voltou a minha frente. Pela primeira vez notei seu cabelo encaracolado longo e castanho. Seria o teor alcoólico em meu sangue? Talvez, mas pela primeira vez eu a vi como a bela mulher que és.
—Sua conta. –disse o garçom retirando-me de meus pensamentos.
Peguei minha carteira, e coloquei o valor da conta sobre a mesa. Levantei para ir embora.
Caminhei em passos lentos na esperança que ela me notasse, mas não houve nenhuma objeção até minha saída do estabelecimento.
Ao guardar a carteira em minha bolsa esbarrei a mão na carteira de cigarros do, agora, meu ex-namorado e sem pensar peguei-a. Abri-a, retirei o isqueiro e um cigarro, acendi-o. Não fora um ato desesperado por uma lembrança, não fora uma maneira de me sentir próxima a ele, fora apenas uma necessidade do momento, fora apenas um cigarro.
Meus pulmões encheram de fumaça e então eu os esvaziei ao expirá-la para fora. É simples. Um simples vício que me lembrou dele, droga, foi impossível não derramar mais algumas lágrimas. Mas eu as ignorei, deixei que escorressem, não limpei meu rosto e deixei que meu rímel descesse junto á elas. Não era uma dor forte, mas era uma dor incomoda, como se eu tivesse batido meu dedo mingo no pé da mesa, esse não é um bom exemplo, mas era assim que me sentia, mas não só meu dedo doía, e sim todo o meu corpo.
Acelerei meus passos, a chuva já não caia, mas não era hora para uma jovem estar na rua.
Senti uma mão sobre meu ombro e parei de caminhar. Ela se pôs ao meu lado.
—Está com tanta pressa assim? –ela perguntou tentando normalizar a respiração.
—Faltam apenas quatro horas para o dia amanhecer. –eu respondi como se fosse óbvio a minha pressa.
—Ok. –ela sorriu. –Acho que vamos pelo mesmo caminho. –começou a caminhar e eu a acompanhei.
—São bons? –perguntou ela referindo-se aos cigarros.
—São. –respondi após dar uma tragada.
—Posso? –ela leva a mão para a carteira.
—Claro. –disse após largar a fumaça.
Ela pegou a carteira de minha mão e retirou um cigarro. Acendeu com um isqueiro que pegou de seu próprio bolso.
—Bom. –disse ao constatar a autenticidade do cigarro.
Entregou-me a carteira e eu balancei a cabeça negativamente.
—É toda sua. –disse encarando o breu a nossa frente.
—Mesmo?
—Sim. Não é minha. –mais uma tragada.
—São de quem? –perguntou guardando a carteira no bolso do casaco.
—Do meu ex-namorado. –eu ri ao perceber como isso soava em voz alta.
—Sinto muito. –ela disse e deu uma tragada longa no cigarro.
De repente, assim que olhei para ela, aquela lembrança de infância e livros sumiu. Agora havia nicotina e cachos longos, sorriso branco e olhar triste. Ela era mais um coração partido? Não saberia responder então decidi perguntar.
—Coração partido? –perguntei desejando que ela compreendesse.
—Pior... Coração vazio. –ela respondeu após soltar a fumaça.
Ela compreendeu.
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