Enquanto o Sol se Pôr

5 Outra vez, Maria


Notas iniciais
Boa leitura ~ o/ (LÊ ATÉ O FIM)

Já não era tão cedo quando acordei, o sol já se erguia do chão há bastante tempo. Eu dormira demais... Mas também era de se esperar, nunca chegara tão tarde em casa, ainda levara um bom tempo para tirar toda aquela roupa molhada e tomar um banho quente. Eu havia gostado de tomar o sorvete, assim como do passeio pela chuva. Realmente era o melhor sorvete da cidade.

Esfreguei os olhos.Alguns pássaros ainda cantavam pendurados na minha janela, já deviam achar que eu estivesse morto, sorte que não fossem urubus. Como meu pai não era muito rápido em mudanças e montagem de móveis, é claro que eu ainda dormia no colchão num canto do quarto, mas aquilo já estava ficando até bom. Não seria eu quem cobraria para a cama ser logo montada.

Espreguicei-me um pouco, ao sentar, uma leve dorzinha nas costas. Esfreguei os olhos mais uma vez.

Do corredor vieram alguns passos, e vinham para o meu quarto. Me virei pra porta. Era minha mãe, o rosto coberto por alguns pedaços de frutas e creme.

_Meu Deus, o que é isso? – O susto foi de verdade

Ela não sorriu:

_Meu amorzinho, você não vai almoçar hoje? Está doente? Foi a chuva, eu sei... Eu sabia que eu não podia te deixar pegar chuva. Seu primo Flavinho, toda vez que pegava chuva...

_... o nariz dele sangrava, eu sei... o nariz dele sempre sangrava.– Eu completei desanimado _Mas eu não estou passando mau mãe, eu só estava cansado...

_De que? – Ela perguntou rápido, curiosa _O que você fez que te cansou assim, meu amor?

A minha mãe poderia ficar naquela preocupação daquela forma à tarde toda. Eu precisava trocar de assunto:

_O que é isso no seu rosto?

Ela sorriu um pouco:

_Ah... você reparou. – E sorriu mais um pouco _É um creme que me recomendaram, a gente fica dez anos mais jovem. Foi uma mulher daqui de perto que me recomendou. Muito simpática...

Eu fiz uma cara de nojo, ela fingiu não ver, e continuou:

_Olha, agora mesmo vieram algumas meninas aqui atrás de você. Mas como você está meio doentinho, eu disse que não ia poder atender.

_O que? Mas mãe... – Pulei do colchão o mais rápido que conseguia _Eu não to... aaah, quem era?

_Duas garotas, Marcos, ninguém tão importante. Uma delas era aquela sua amiguinha da árvore...

_MÃE! – Corri até o guarda-roupa atrás de alguma coisa melhor pra vestir

_Onde você pensa que vai, Marcos? – Ela perguntou caminhando até a porta, tampando a passagem, talvez achando que eu sairia por ali correndo, desesperado, era o que realmente me vinha na cabeça

_Era a Maria mãe, ela é muito minha amiga. – Tentei explicar, ela cruzou os braços

_Ah, é? Filha de quem? Mora onde?

_Eu não sei, meu Deus... Ela mora ali, ó, no fim da rua! – Apontei pra um ponto qualquer

_Meu filho, sua mamãe se preocupa com você! Eu não acho que você deve ficar andando com gente que mau conhece – Não era ela que ficava feliz quando eu fazia amiguinhos? _ Você tem que analisar as pessoas primeiro, não ir assim... Eu falo isso pro seu bem. Pode ser um viciado, um ladrão... um mau elemento!

_Mãe, ela é só uma “garota”? – Eu disse

Ela não pareceu convencida:

_Seu primo Cadu, lembra dele? O filho da Marisa? Então, ele começou a namorar com uma “garota”... era loira, linda, de bons comportamentos, ninguém imaginava que iria dar no que deu!

_O que aconteceu? – Perguntei chegando mais próximo à porta

_Ele acordou um dia no apartamento, sozinho, de cueca, no chão! Não tinha mais nada lá... a moça tinha levado tudo, os móveis, os quadros, tudo!

Ela era realmente preocupada, me assustava às vezes:

_Mãe, a gente só conversou. E eu só vou ver o que ela quer!

_Começa assim, Marcos, começa assim! – Ela procurou me alertar, ainda entre mim e a porta, mas eu procurei uma forma de passar, ela fez uma expressão que não entendi bem o que significava

Desci as escadas, minha mãe ainda atrás de mim, me alertando sobre meninas e o mundo inteiro. Quando cheguei na sala ela já falava sobre camisinhas, mas meu pensamento estava novamente bem longe dali. E ela ainda não calara quando cheguei à porta.

_Mãe, eu não vou demorar muito – Bem que eu queria

_... e aí nascem os bebês, e os bebês vomitam... O QUE? – Ela se assustou, um pedaço do novo rosto dela caiu no chão _ Não vai comer nada? Tem um pedaço de bolo ali, e as torradas...

Eu neguei, e me virei pro jardim. Nada de beijos de despedida. O sol estava muito quente, o dia tão claro. Corri pela grama verde, até a calçada, ainda escutando os gritos preocupados da minha mãe. A rua não estava tão vazia como eu esperava, alguns carros e pessoas passando a todo momento. Algumas velhinhas me mediram assim que eu passei por elas. Tentei fingir que não ligava, mas acabei por ficar todo desconcertado. Caminhei mais rápido na direção da casa de Maria, os pensamentos rondando a minha cabeça. O que eu iria falar com ela? Como eu a chamaria? E quem era a garota que estava com ela? Como eu estava ancioso... Fiquei com raiva por sentir aquilo. Tentava colocar na minha cabeça que aquilo era uma coisa normal.

Mas quem seria mesmo a tal menina? Devia ser uma grande amiga da Maria, daquelas em que a gente conta tudo, e que se a outra não gostar de alguma coisa, você também deveria parar de gostar. Então a Maria devia ter levado ela para me conhecer, e pra ver se me aprovava como um novo amigo. Ai meu Deus, eu não iriaser aprovado, nunca. Eu era... era, tão... sei lá, desinteressante. Avistei a casa de Maria e atravessei.

Parei em frente ao jardim, como uma estátua presa à calçada. Eu teria mesmo a coragem de chama-la? Devia! Eu era tão covarde!

Olhei a casa, silenciosa, aparentemente vazia. Reparei em cada detalhe, desde a porta muito branca às janelas gigantescas... A casa era grande, e muito bonita, talvez a mais bonita da rua. Eu queria entrar, mas não conseguia sair do lugar. Minhas pernas comandavam mais o meu corpo do que minha mente. Elas nãio sairiam dali e pronto, mesmo se eu quisesse.

_Vai ficar aí só olhando? – Maria vinha na calçada, de braços dados com uma garota muito pequena, tão pequena que a diria anã

Me olharam, as duas, esperando uma resposta.

_É porque eu achei que não tinha ninguém. –eu respondi, baixo

_E não tinha mesmo! – Quem falava agora era a outra garota, uma voz bastante diferente, parecia que falava pelo nariz _A gente deu uma saída.

Maria me olhou, sorridente como sempre, estava linda, os cabelos pareciam até mais negros, e o rosto brilhava mais. Ela veio até mim, e me abraçou, eu não conseguia mesmo sair do lugar.

_Dorminhoco! – Me disse perto do ouvido, e olhou nos meus olhos, há alguns palmos de distância do rosto _Fomos atrás de você hoje, e você não quis atender a gente!

Ela não parecia nem um pouco irritada com aquilo, mas a frase parecia forte, pelo menos pra mim.

_Não, a minha mãe não me chamou, e... – Calei, as duas me olhavam como se eu acabasse de chegar de outro mundo, não completei a frase

Maria fez um sinal para que a gente fosse à casa dela, eu a acompanhei. Ela caminhou dizendo:

_Essa é a minha amiga, Cláudia. – A baixinha me deu mais uma olhada, tentando imitar o sorriso de Maria, ela nunca iria fazer, nem parecido

Maria mau abriu a porta e Cláudia se soltou dos braços dela, como uma criança faz quando acaba de chegar no parque de diversões. Correu pro sofá, e terminou com um pulo, digno das melhores ginastas olímpicas.

_Ela sempre faz isso! – Maria sorriu, caminhando para a sala do sofá

Eu a segui, cada passo controlado por meus pensamentos. Me sentei, bem ao lado dela, como ela mandou. As duas estavam com os pés sobre o sofá branco, bem à vontade, me olhavam, a Cláudia mais curiosa.

Maria colocou o cabelo atrás das orelhas, como sempre, e disse, para mim:

_Mas e aí? O que tem arrumado de bom? Saiu? Já conhece alguém?

_Bem... Eu conheci o Rodrigo, e a família dele... – Respondi olhando-a, não nos olhos

Foi Cláudia quem respondeu, entrando na conversa:

_E conheceu o pai dele também? – Ela se divertiu com aquela fala, rindo e olhando Maria

Não entendi. Queria rir também, mas respondi sério.

_Conheci. Ele é bem... um tanto que..

_Insuportável – Maria completou a minha frase, séria, parecia não gostar mesmo do pai de Rodrigo

_Já o filho... é uma gracinha! – Cláudia sorriu

_Não é tanto assim... – Maria discordou

Maria logo tratou de trocar de assunto, falar do Rodrigo não parecia agradá-la tanto. Ficamos ali, sentados por algumas horas. Maria contou que os pais demorariam a voltar, por isso eu podia ficar bem à vontade. E eu fiquei. A presença de Cláudia e a impressão que eu podia causar nela não me intimidaram muito, surpreendentemente, e com algum tempo eu já estava ali, como se estivesse na minha casa. A Cláudia sim, já era da casa, toda hora corria até a cozinha e trazia alguma coisa diferente para comer. A Maria fazia as pessoas se sentirem assim, bem, como se tudo no mundo fosse uma coisa boa, como se nada pudesse deixar a gente triste, como se cada pessoa fosse melhor amiga de todas as outras. Eu me sentia assim com ela.

Conversamos, muito. Cláudia era realmente engraçada. Não tão simpática, mas muito engraçada. Tinha a mania de criticar os outros, isso eu reparei logo, mas não importava muito com aquilo. Era só uma forma dela nos fazer rir. Falaram de toda a vizinhança, até de umas velhas lésbicas, que eu imaginei ser aquelas que me olhavam mais cedo.

Não recusei quando Cláudia me ofereceu uma pipoca, não era bem o que eu queria na hora, mas já me batia uma fome... uma imensa fome! Comi, não mais que ela. Mas já estava bem.

Depois de muito tempo Maria me sorriu, agora com um olhar muito vivo, como se acabara de ter uma ótima idéia.

_Vamos na sorveteria? – Me disse _É o melhor sorvete que você vai tomar!

Eu sorri de volta, eu já conhecia. Eu já tomara. Mas não quis deixá-la perder aquele sorriso de menina esperta. Bem, o que eu tinha certeza, era que aquela sorveteria ali era muito bem freqüentada e querida pelo povo da vizinhança. Não tinha dúvidas. Cláudia amou a idéia.

Saímos da casa, as meninas conversando sobre alguém que caíra há uns dias atrás, num acidente com uma bicicleta. Para mim aquilo era muito normal, essas coisas de equilíbrio não era comigo. Estávamos na calçada, já chegando na sorveteria quando a buzina soou, bem atrás de nós. Olhei, uma moto diminuía a velocidade.

Cláudia gemeu baixinho:

_É o Rodrigo!

Rodrigo parou e tirou o capacete, assim como fazem os galãs de filme. Sorriu, passando a mão nos cabelos. Nos mirou por um instante, como que querendo entender a cena.

_Onde vocês vão? – Perguntou, mais pra mim

_A gente vai na sorveteria. – respondi

_Ele não quer ir com a gente? – Cláudia disparou, corando um pouco

Juro que ouvi algum som sair de Maria, mas não a olhei. Rodrigo respondeu, ainda com os olhos pregados em mim, como se eu fosse o único ali, ou como se ele quisesse me dizer alguma coisa que as meninas não podiam ouvir. Eu sabia bem o que era. Ele não queria mesmo que eu acabasse gostando da Maria. Eu queria dizer pra ele, denovo, que aquilo não iria acontecer, que ela só era uma amiga, mas não podia.

_Eu não posso – Ele disse _Estou trabalhando!

Ele apertou a minha mão, com mais força do que precisava e colocou o capacete. Ligou a moto e disparou pela rua. Mal sabia eu que aquela seria a última vez que eu o viria em duas semanas. Seguimos para a sorveteria. Procurei esquecer Rodrigo, assim como procurei falar o mínimo possível com Maria. Não queria que ela criasse um grande laço de amizade comigo, para o próprio bem do Rodrigo. Mas... como eu queria aquela amizade. Jurei pra mim que o amor do Rodrigo por ela deveria ser maior, e por isso, eu não deveria interferir naquilo. Mas era impossível não querer estar perto de Maria... ela me envolvia de uma forma que eu não sabia explicar.

***

Assim se passou alguns dias, tão rápido que eu nem percebia. Minha mãe ainda não se acostumara com as minhas insistentes saídas à tarde, muito menos à noite. Permanecia num papo de que eu estava namorando, que não me agradava. Eu podia dizer, finalmente, que eu tinha amigos. Pelo menos amigas. Não passava um dia sequer sem que Maria ou Cláudia viessem atrás de mim. Eu gostava daquilo, já estava me acostumando... E tudo caía numa rotina bem interessante, sorveteria, passeios na praça, em lojas, filmes em casa. Até o dia que ele apareceu, me gritando da calçada. O Rodrigo. Eu já tinha até esquecido como era a sua voz.

Notas finais
reviews serão bem-vindos ! Fazem as ideias fluirem melhor, não acha? Jáá escrevo mais. Bem... saindo da apresentação dos personagens e começando a viver o drama! AGUARDEM