Enquanto a chuva cai.
1 Um amor sobre a tempestade
Notas iniciais

Com a chuva, caindo
Com as flores, florindo
E seu amor?
Cada vez mais lindo.
Pela janela, se via o dia escuro. Raio após raio caia, espantando toda e qualquer pessoa que transitava a rua alagada. Risos e cantaroladas eram escutadas do lado de dentro da floricultura, jatos de água voam entre as belas flores.
O ruivo cuidava daquelas flores com tanta paixão, que nunca tinha visto antes. Rosas vermelhas e brancas, vivas.
–Como estão lindas hoje minhas vermelhinhas. Sabia que são minha cor preferida? –Falou docemente em quanto cantarolava.
Margaridas floriam como nunca!
–Brancas e amarelas! Como o sol e as nuvens. Uma bela combinação não é mesmo? –Cheirou-as de perto e sorriu.
Mas uma em especial lhe chamou atenção: Lírios brancos como as nuvens e cheirosos como perfume. Sorriu ao ver como suas “crias” estavam lindas.
–Porque não irem para o vaso de minha casa? Merecem ser recompensadas por tanta beleza! –Falou espirrando um pouco de água e indo buscar um pedaço de papel pardo e cordão. –Aqui, ficarão belíssimas lá. –As enrolou e deixou em cima da mesa. Tirou o avental, botou as mãos na cintura e sorriu. –Quando virar uma grande atriz quem vai cuidar tão bem assim de vocês quanto eu?
Vestiu seu casaco, fechou a porta e obviamente pegou as flores, esquecendo-se do guarda-chuva e voltando imediatamente para o pegar.
Grell Sutcliff, era ‘uma florista’. Desde sempre sentiu-se como uma mulher e assim ficou, a senhorita Sutcliff, como muito conhecido no bairro. Amava as flores como a maior coisa da existência, mesmo que ultimamente esteja amando alguém nessa intensidade, como se fosse explodir. Apenas não parava para seguir com seu sonho, ser uma ‘atriz’ perfeita.
[...]
Com um dia estressante, se encerrava. Viu o processo em cima da mesa e se aliviou. Menos um caso,mais um cliente.
William T. Spears, um advogado não muito famoso na cidade, mas o mais famoso do bairro. Com certeza não esbanjava fortunas e nem queria, apenas queria o possível para viver bem.
Arrumou suas papeladas, e como esqueceu a pasta em casa, colocou em um saco plástico e saiu, se deparando com a linda chuvarada que caia. Esbravejou e teve vontade de gritar, mas apenas saiu caminhando calmamente.
–Spears! Senhor Spears! –Gritava Grell em meio da rua, sem resposta o fazendo revirar os olhos. –WILLIAM!
–Grell? –Perguntou a si mesmo ao ouvir o ruivo correndo com um guarda-chuva em sua direção.
–Carona? –Perguntou colocando o guarda-chuva em cima do moreno e dos papeis.
–Não se molhe ao menos. –Falou o puxando para de baixo do guarda-chuva também. –Cinco dias com a loja fechada, pelo menos o teste deve ter dado certo não? –Perguntou em quanto tomava a sombrinha das mãos de Grell.
–Saberei ainda hoje! –Falou segurando os lírios em baixo do guarda-chuva para que não pegassem a chuva forte, que um tanto agressiva para as flores. –Essa chuva, agressiva de mais a elas.
–Cuida tão bem dessas flores. –Disse com admiração.
–Elas são minha companhia, mesmo que não falem. –Falou com um sorriso triste olhando nos intrigantes olhos verdes de Spears que por dentro teve uma pontada de arrependimento de não ter o ruivo mais próximo como antigamente.
–Vamos logo, não quer que fique gripado para a sua estreia não? -Falou pegando um lenço que tinha no bolso e limpando uma gota que havia caído nos óculos de hastes vermelhas. –Melhor?
–Claro, claro. –Falou cheirando as flores e encostando sua cabeça no ombro do moreno que estranhou o ato e não disse nada. –CORRE! –Falou puxando o guarda-chuva da mão de William e correndo da chuva forte que caiu a mais.
–SEU IDIOTA! –Falou correndo atrás do ruivo e o puxando pelo braço. –NÃO FAÇA ISSO! –Disse arrancando uma gargalhada do ruivo e deixando um riso fraco sair de seus lábios.
–Sorria mais... Agradeço.
[...]
–Entregue. –Falou em quanto paravam na frente da casa de William. –Vou seguir meu rumo.
–Quantas quadras sua casa é daqui Grell? –Perguntou procurando as chaves.
–Seis porque? –Perguntou em confusão.
–Entra. –Falou.
–Oque?
–SÓ ENTRA! –Falou o puxando em quanto ouviu um estrondo de um trovão. –E fica aqui até isso passar. –Falou fechando a porta e tomando as flores da mão do ruivo. –Vou botar em um vaso em quanto fica aqui, não podemos as deixar secas não é?
–Claro que não. –Falou sorrindo timidamente ainda parado na porta da casa. –Não tem mesmo problema eu ficar aqui?
–Grell são apenas alguns minutos, no máximo poucas horas. –Falou pegando o casaco da mão do ruivo e pondo no cabide. –Vamos, sem cerimonia. Já fomos mais próximos que isso.
–Okay... –Falou sentando-se na ponta do sofá. –Obrigada. –Disse em um resmungo em quanto William ia botar uma água para ferver.
–Assim não funciona nada. –Falou puxando o ruivo pelos ombros para sentar direito no sofá. –Melhor. –Voltou para cozinha ouvindo a chaleira chiar e deixando Grell corado, sozinho na sala. –CEREJA OU HORTELÃ?
–QUE? –Perguntou desentendido.
–CHÁ SUTCLIFF, CHÁ. DE QUE?
–CEREJA! –Falou por final, ainda analisando um quadro que pairava em cima da mesa.
–Te ofereceria chá preto, mas a noite não parece ser propício–Falou estendo a xícara a ele que aceitou timidamente. –Oh...Minha mãe e eu, Sinto saudades.
–Imagino... Senhorita Karmen era realmente uma boa pessoa. –Falou em quanto se lembrava da infância. –Ela me ajudou quando ninguém ao menos pensou.
–Grell? –Perguntou ao ver uma lágrima rolando dos olhos verdes. –Hey...Não chore... –Falou começando a ter uma pequena crise de nervosismo.
Sua fraqueza? Ver alguém chorando, principalmente alguém que esteja fraco interiormente. Não sabia oque fazer, o ruivo tremia ao lembrar da época mais escura da sua vida.
–Grell....me olhe por favor... –Pediu baixo, nervoso. –Sutcliff? –Chamou mais uma vez e sentiu um aperto sobre si. –Está tudo bem, estou aqui, você está bem.... –Falava palavras reconfortantes baixo, tentando acalmar o ruivo que soluçava. –Princesa? –Perguntou soltando um riso baixo, lembrando-se quando brincavam de realeza quando eram menores, ele sempre fora sua princesa, e ele sempre fora seu príncipe...Como o tempo os afastou.
–Mu-muito obrigada... –Sussurrou entre soluços. –William...Obrigada por não me deixar morrer. –Falou apertando mais a camisa branca do moreno assustado, ao ouvir um trovão soar.
–Morrer? Sutcliff? Oque você está falando? –Perguntou segurando o rosto dele firmemente que embestou em olhar para baixo. –Grell porque morrer?
–Na época que eu vim pedir ajuda... E-eu estava com grave depressão... –Falou segurando as mãos dele e as tirando de seu rosto. –Meus remédios acabaram, eu estava com medo... Eu não tinha ninguém.
[...]
Com a chuva caindo, o pequeno ruivo corria entre os carros. Com lágrimas se misturando as gotas de chuva ele gritava por alguém, internamente.
–SENHORITA SPEARS! –Gritou batendo na porta. –Senhorita...Spears... –Pediu com menos força se sentando.
–OQUE QUEREM A ESS...Garoto Sutcliff? –Assustando o garoto que recuou o ajudou a se levantar. –Oque aconteceu?
–Minha...eu...aqui...-Falou estendo um bilhete a senhora de cabelos negros que o fechou e pegou na mão do garoto.
–Vamos...Entre, já lerei. –Falou afagando os cabelos ruivos já longos. –Poderá ficar doente Grell.
–Eu não ligo. –Falou segurando o choro e entrando na casa, ficando parado na porta. –Licença...
–Venha, não precisa ser acanhado. –Falou o dando uma toalha. –WILLIAM! –Gritou pelo garotinho que desceu correndo com os cabelos bagunçados. –Pode por fa...
–GRELL! –Falou abraçando o garoto. –Oque foi? Oque você sente? –Perguntou em quanto a mãe mesmo foi pegar uma muda de roupa seca para o ruivo que soluçou. –A-aconteceu? –Perguntou oque mais temia vendo o amigo só assentir. –Vai ficar tudo bem, eu sei. –O pegou no colo com muita dificuldade, o fazendo corar e o colocou no sofá. –Eu vou te fazer um chá okay? Só um minuto.
–Wi-will? –chamou baixinho.
–Sim? –Falou escorregando.
–Não...Não me deixe...Você não... –Pediu fazendo o moreno sentar no sofá novamente, deitando o ruivo em seu colo e secando os cabelos do mesmo com a toalha.
–Vai ficar tudo bem...
...
–Pode nos falar agora, oque aconteceu? –Perguntou estendendo uma xícara com chá de cereja, muito receoso aceitou.
–Pode ler...a carta vai explicar. –Falou entregando a carta novamente a mulher que leu cautelosamente, deixando uma lágrima escapar. –Por favor...Eu não sei nenhum orfanato na cidade, algum hospital, algum lugar onde eu possa ir. –Pediu entre lágrimas, serrando os dentes. –Me ajude...Me leve até algum lugar a onde eu possa ficar até...
“Grell.
Eu não posso viver com essa humilhação de ter um filho como você.
Então tenho de ir, “minha garota”
Assinado> Sra. Sutcliff”
–Você fica. –Falou Karmen abraçando o pequeno que chorava. – Você fica conosco, não posso deixar um amor de... menina? –Questionou fazendo o Grell largar um sorriso amarelado. –Sozinha não é?
A partir desse momento, Karmen e William trataram Grell como uma princesinha. Mas o moreno sabia que tinha algo errado, mesmo atrás daquele sorriso.
–Gre-Grell? –Perguntou esfregando os olhos no meio da noite ao ouvir choramingos. –A-aconteceu algo? –Perguntou se mudando para o colchão abaixo com seu travesseiro.
–Porque ela não me aceitou? –Perguntou virando-se para William que estava ligando uma vela por falta de luz. –Minha mãe... Me largou por não me aceitar como sou.
–E oque você é? –Instigou sem resposta. –Uma princesa? A mais linda? –Perguntou o puxando para cima e o rodando, fazendo sair uma gargalhada gostosa de seus lábios.
–Se eu sou uma princesa... –Falou meio tímido. –Você seria meu príncipe Will? –Perguntou se deitando no colchão, já sonolento novamente.
–Acho que sim Grell...Acho que sim.
[...]
–Por isso... Você estava chorando aquela noite? –Perguntou receoso, com dor queimando em seu peito.
–Sim... Will, ela não me aceitava, nunca me aceitou. Mesmo com depressão, ela não queria nem me olhar. –Disse fazendo-o abraçar fortemente, um ato que fez o ruivo estranhar.
–Então quando você disse até...
–Até a depressão e a solidão me consumir, e eu acabar me matando. –Falou rindo sarcasticamente. – Não sendo um fardo para ninguém. Devia ter feito isso, teria poupado você e a senhora Karmen.
–GRELL! Você não é um fardo. –Falou levantando e indo até a cozinha, de lá trazendo o vaso com lírios. –Você é tudo oque alguém poderia querer. –Falou o puxando, colocando uma flor atrás de sua orelha. –Tudo com oque um príncipe poderia querer. –O puxou pela cintura –Você é a minha princesa não lembra?
E com isso, todo o sofrimento acabou. Selou seus lábios apaixonadamente, fazendo o ruivo relaxar em seus braços. Seus lábios? Quentes, salgados como suas lágrimas. William rio ao pensamento.
–E agora... –Falou o pegando no colo, dessa vez sem dificuldade alguma e sentando-se no sofá. –Minha princesa terá o príncipe que merece...
–Will?
–Oque? –Perguntou afagando os cabelos ruivos.
–Como a princesa eu ordeno... –Falou fazendo o moreno soltar uma gargalhada. –Ao meu príncipe não me deixar.
–Eu prometi isso já...Mas prometo de novo. –Falou colando suas testas. –Eu nunca irei lhe deixar. Eu te amo... –Falou lhe dando um beijo menos intenso que o ultimo. –Minha princesa.
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