Enquanto Estivermos Juntos
4 Capítulo 3 - Entrada Usb
Parker estacionou o jipe azul próximo de um restaurante com uma temática bem caída dos anos 80. Os pisos seguiam aquele padrão quadriculado preto e branco como se fossem de uma pista de dança, o neon do Joyce's estava completamente desligado, mas deve brilhar em roxo durante a noite. As mesas tem os assentos acolchoados na cor vermelha, todos sempre próximos das janelas enquanto o meio do restaurante tinha globos prateados rodando todo o tempo. Provavelmente era para dança. O balcão está cheio de velhos tomando café e lendo jornal e a dona ou empregada do lugar parecia atarefada demais para notar qualquer pessoa nova entrando no lugar.
— Podemos comer em outro lugar? — perguntou Zara.
— Não, como veterano é meu dever mostrar a vocês calouros o melhor lugar para comer na cidade. Apresento o Joyce's.
Olhamos para o estacionamento quase vazio do lugar. Dois mendigos dormiam em caixas de papelão no meio do lixo e um policial estava parado em frente a porta do lugar fumando um charuto.
— Clichê! — disse Zara. — Se você diz que é o melhor, vamos né!
Zara foi a primeira a entrar, tocando o sino acima da porta de vidro e atraindo atenção dos velhos. Ela anda calmamente até o balcão, pega o cardápio e após uma olhadinha dá uns pulinhos animados e se senta na mesa do canto. Miguel entra logo em seguida ignorando todos os olhares que caíram sobre ele e sentando ao lado de Zara.. Parker e eu entramos em seguida e só então percebo que cada assento tem um ventilador em cima, o que deixa o lugar ainda mais frio e com cheiro de mofo apesar do calor do lado de fora.
Talvez colocar bermuda, camiseta e chinelos não tenha sido uma boa ideia. Parker está usando calça, chinelo e blusa social da faculdade, mas geralmente ele só usa isso, então não fico surpreso, já Miguel, ele usa uma bermuda, camiseta e mesmo com o ventilador, está suando e eu estou sentindo frio, mantendo minha lógica de que isso não faz o menor sentido.
— Eles vendem batata frita — disse Zara animada. — batata frita pro café da manhã, o que acha?
Neguei porque só Deus sabe que comer porcarias durante o café da manhã faz mal.
— Não vou comer isso — respondi. Zara lançou aquele olhar felino de antes e então voltou a ler o cardápio. — Vou querer uma fatia de torta de morango e um milk shake de baunilha com chocolate.
Por falar em porcarias, eu não era um bom exemplo a ser seguido.
Miguel olhou calmamente para mim e então apontou para a torta de sorvete no cardápio, como se pedisse permissão. Parker apenas assentiu ao meu lado rindo e claramente dizendo que eu só iria pagar ao invés de dar palpite.
— Vou pedir um desses com uma taça de açaí de banana — disse Miguel. — E não Zara, açaí não tem gosto de terra. — disse ele, antes que nossa amiga fizesse a mesma piada de antes sobre a fruta preferida de Miguel.
— Mas alguém vai escolher alguma coisa? — perguntou Parker.
Zara negou e então voltou sua atenção para uma família que tinha acabado de entrar no restaurante com calouras da faculdade K. O uniforme azul céu deveria demonstrar que eles eram boas pessoas e sempre estavam prontos para os desafios que mandassem, mas conhecendo bem alguns estudantes do curso de jogos digitais, tenho certeza que não é bem assim. Eu abaixei minha cabeça e encostei no vidro enquanto um homem passava com um jornal com todas as novidades da cidade. A foto de Melissa estava na contra capa e uma das minhas da fotos da internet também.
Parker tocou minha mão, como se quisesse me confortar, mas não deu muito certo. Apenas tirei minha mão de cima da mesa e peguei meu celular do bolso.
— Desculpe a demora, Parker, minha filha perguntou por você essa semana querido. O que vão pedir? — disse a dona, Joyce.
Ela usava uma daquelas roupas antigas de vendedora. A cor deveria ser amarela ou vermelha, mas estava tão desbotada que eu não conseguia ver direito. Joyce tirou uma caneta do bolso da camisa e então sorriu para Parker. Os cabelos vermelhos alaranjados caiam com longos cachos sobre o ombro e apesar de parecer cansada, Joyce parecia gostar do próprio emprego. Eu odiaria trabalhar em algo assim.
— Diga a ela que nossos planos ainda estão de pé — respondeu Parker sorrindo. — Um balde de batata frita, com coca diet pra minha colega ruiva, um bolo de sorvete e uma taça de açaí pro meu calouro e duas tortas de morango com milk shake de baunilha com chocolate.
Joyce anotou tudo calmamente e então sorriu antes de bagunçar os cabelos prateados de Parker que estavam soltos sobre o rosto dele.
— Eu volto já, isso aqui vai ficar uma loucura hoje — disse ela.
— Obrigado Joyce — respondeu Parker sorrindo.
Zara colocou a mão por cima da mesa sorrindo, o que provavelmente deveria ser uma ironia pela coca diet, porque todo mundo sabe que Zara odeia qualquer tipo de refrigerante.
— Furacão Zara — disse Miguel rindo. — Nós pedimos outra coisa quando ela voltar.
— É uma latinha de 200ml, só pra você experimentar — disse Parker. — Vai que você conhece o novo amor da sua vida estampado na latinha.
— Eu vou beber a latinha... — disse Zara calmamente, o que significa que ela está tentando manter a pose diante das outras pessoas. — mas depois vou reciclar ela na sua entrada usb. Que tal?
Parker de branco ficou vermelho, então eu ri, porque aquilo foi a coisa mais engraçada que Zara disse desde a hora que acordei.
— Não precisa de tanto né? — perguntou Parker.
— Com certeza precisa — respondeu ela.
Não demorou muito para nossa comida chegar. Ainda calado, Parker trocou seu milk shake pela latinha de coca diet e acho que isso deixou Zara bem feliz por sinal. Acho também que se usassem toda essa tensão sexual reprimida entre eles para abastecer a energia da cidade, teríamos energia suficiente pelos próximos dez anos.
Tirei uma fatia da torta e senti toda a felicidade do mundo quando mordi e o morango começou a se espalhar na minha boca. Acho até que minha expressão mudou de emburrado para anestesiado.
— Essa é a melhor torta de morango que eu já comi — disse, com a boca cheia. — Deveria ter vindo aqui antes.
— Acho que você precisa agradecer alguém pela fatia gostosa — disse Parker se aproximando. — Que tal um obrigado por eu ter apresentado o restaurante?
— Sem chances — disse.
Terminei de engolir e tomei um gole do milk shake antes desviar minha atenção para Zara. A garota comia como se sua vida dependesse disso, o que só de pensar como ela odeia que maltratem os animais, é crueldade com as próprias batatas.
— Que foi? — perguntou ela. — Eu tô com fome! E essas batatas estão perfeitas.
Quando eu falo de boca cheia não parece grande coisa, mas já que foi ela quem fez isso, acho que minha torta perdeu completamente a essência do morango que eu estava amando.
— Vamos comer igual pessoas normais — disse Miguel. O único de todos que aparentemente tinha educação para comer. — Tá gostoso de verdade.
— Joyce's é o melhor restaurante da cidade. Ela trabalha de manhã porque diz que é mais fácil e os outros funcionários se revezam para trabalha durante a tarde e à noite — disse Parker. — Gustavo e eu sempre comemos aqui quando saímos mais tarde da faculdade ou quando estamos bêbados o suficiente pra não conseguir dirigir. A Joyce e a filha dela sempre nos ajudou.
Zara olhava para Parker como se toda aquela história fosse a coisa mais legal que ela estivesse ouvindo, mas depois, quando ela colocou outra batata na boca, as emoções se misturaram e ela riu como se não desse a mínima e acho que Parker notou muito bem isso. A maioria dos veteranos estavam com os pais desde o sábado os que ficaram deveriam aturar os calouros e suas chatices sem pensar duas vezes e como Parker era responsável por treinar Miguel, ele estava preso a todos nós por um longo feriado.
Tiro uma foto do que sobrou da fatia de torta e posto nas redes sociais. Não que eu fosse viciado nisso, mas acho que todos algum dia deveriam experimentar a comida do Joyce's sob companhia amigável.
Melhor restaurante, melhor comida
#JoyceVocêArrasa.
O cheiro das outras frituras estava aumentando cada vez mais. Mesmo assim ninguém parecia incomodado o suficiente para sair do restaurante, mas quando um dos idosos começa a fazer comentários sobre a garota que tinha se jogado do bloca b da faculdade S, sinto meu coração acelerar novamente e minha audição concentrar apenas nas batidas do meu coração. Minha respiração estava pesada e aos poucos minha visão parecia querer sumir. Fechei as mãos com força, elas estavam tão geladas e pesadas que eu mal conseguia senti-las direito e acho que no fim das contas estava tendo uma crise.
A sensação era parecida com aquela de estar atuando pela primeira vez. O frio na barriga, o nervoso de errar, a louca vontade de surtar.
Respirei fundo e mesmo que ainda tivesse metade da torta no prato, joguei o cartão em cima da mesa e mostrei a senha colada com papel no verso. Peguei o milk Shake e saí do meu lugar sem me importar com o que tenha ficado.
Não consigo ficar num lugar onde todos comentem o que aconteceu com Melissa como se fosse apenas mais uma dessas garotas depressivas que se matou por não aguentar a vida. Não ainda.
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