English Rose

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Obrigada por lerem :)

Memphis, Tennessee, 2017: Francis Bonnefoy girava de um lado para o outro repetidas vezes sobre uma cadeira próxima ao balcão do Jone’s bar. Cansando-se, parou levemente tonto, não sabendo se aquela desorientação era por conta dos giros ou das duas doses do famoso Tennesse whiskey, o doce Jack Daniels. Um burbon feito de milho, mais milho e seu principal ingrediente: milho. “Um bom desentupidor de vasos”, pensou. Estava acostumado com o whisky europeu, especialmente um puro malte. Sorriu – na verdade, ele queria mesmo era um bom vinho francês, mas aprendeu a gostar dos destilados, já que vivera 7 anos na Grã-Bretanha. Lembrou:

Brighton, Inglaterra, 2013: Bonnefoy acorda numa manhã chuvosa, senta-se na cama e, com a visão ainda meio turva, vê que Alice Rose Kirkland já não estava lá. Ainda sonolento, teve dificuldade em se levantar, o que piorou quando sentiu os azulejos frios do chão, mas não conseguia encontrar as pantufas vermelhas que tinha; “ela deve ter feito uma ‘arrumação’ nas minhas coisas e as escondeu de novo”, pensou.

As chaves faziam barulho na porta da cozinha, pois alguém tentava abri-la por fora. Era possível enxergar Alice entrando, mesmo ele estando ainda no “quarto”, isso porquê o apartamento não tinha paredes que o dividissem da cozinha, que também era a sala de estar. O único cômodo realmente isolado era o banheiro (apenas um) motivo de brigas matinais dois dois.

O francês foi em direção a ela, que estava deixando as sacolas de papel do supermercado na bancada. A moça tinha 22 anos, cabelos longos e loiros, quase castanhos, olhos verdes e pele pálida, com algumas sardas. Era magra, aparentando ainda não ter entrado a puberdade – o que às vezes conferia olhares maldosos ao casal – e baixa o suficiente para não alcançar as prateleiras, embora sempre tentasse diversas vezes antes de, contrariada, pedir ajuda do namorado.

A cada passo que andava, percebia que ela não o via. A inglesa era míope e provavelmente perdera os óculos novamente. Ela ficou de costas, próxima ao móvel improvisado de madeira que os dois chamavam de mesa e começou a ler as cartas que haviam chegado pelo correio naquela manhã. Suas mãos moviam-se freneticamente, como se estivesse procurando algo, lia nome por nome e, sem olhar o conteúdo, descartava algumas numa pilha e separava outras, as contas, e os cartões postais. Parou. Em suas mãos estava um envelope branco para o qual ela olhou fixamente, parecendo preocupada.

Francis abraçou-a por trás. Ele, 1,90. Ela, 1,57. Por conta disso, o de olhos azuis descansava sua cabeça sobre a dela “embrulhando-a”. Kirkland sempre reclamava que os longos cabelos dourados dele encostavam no nariz dela, fazendo-a espirrar, mas, na verdade, ela amava cada minuto desses quase infindáveis, abraços.

Por um momento, parecia tudo bem, até que o franco deu uma espiada na carta que permanecia nas mãos da britânica para ver de que se tratava. Foi então que ambos ficaram paralisados por um breve período. Ela se virou, o encarou e, reconhecendo o olhar do namorado, soube a hora certa de descobrir o conteúdo da correspondência.

Bonnfoy fechou os olhos — Je vous salue, Marie, pleine de grâce, le Seigneur est avec vous... – sussurrava enquanto ouvia o rasgar do papel. Ao abrir os olhos, deparou-se com o sorriso encantador da namorada, foi quando percebeu que conseguira. Ela pulou em seus braços e lá ficaram por mais alguns minutos. Eram perceptíveis as lágrimas que ela deixava cair sobre a blusa azul dele. Tudo estava bem. Tudo estava perfeito.

— Temos que comemorar! – Disse o de sotaque latino.

Alice sorriu. Sabia exatamente o que a ocasião pedia. Correu até a prateleira e pegou uma garrafa do Macallan que herdou de seu avô. Era o seu whisky favorito, e do qual Francis havia aprendido a gostar. Ele se sentou enquanto a jovem servia uma dose para cada e degustaram em silêncio, apenas apreciando a companhia um do outro. Apenas apreciando o momento. Quem dera não acabasse.

A inglesa olhou no relógio. Já era quase hora de trabalhar (era garçonete na cantina de um italiano muito simpático). Deu um beijo de despedida, falou sobre o quanto estava orgulhosa e saiu.

Francis continuou olhando para a carta. Estava escrito que uma gravadora havia apreciado a tão rejeitada demo do cantor. Finalmente iria viver de sua arte, finalmente conseguiria dar a sua English Rose – como a chamava carinhosamente – uma boa vida. Finalmente poderia pedi-la em casamento.

Mas os planos mudaram. Veio a fama, e com ela, as viagens, para propagar as músicas apaixonadas do europeu no Novo Mundo. E 4 anos se passaram desde então. Sendo que, desses, 3 foram nos Estados Unidos, onde estava morando de fato.

Memphis, Tennessee, 2017: O francês pareceu acordar de um sonho. Durante todo esse tempo, seu coração batia apenas pela English Rose e por sua casa, a qual deixou de ser a França há muito tempo, para ser aquele pequeno apartamento na paradisíaca Brighton.

— Mais uma dose e você não vai conseguir voltar andando. – Disse o barman, que já o conhecia e, acima de tudo, conhecia a capacidade hepática de cada um dos clientes frequentes. Retirou o copo de perto de Francis. Era um homem interessante, sempre falava de seu lar, Roma, Itália, e de seus dois netos, dos quais o mais novo é, curiosamente, dono da cantina na qual trabalha, ou trabalhava, não se sabia mais, Alice.

— Hoje é aniversário dela.

— Eu nunca te contei isso, mas, como tivemos essa mesma conversa três anos seguidos, acho que posso dizer o quanto entendo a sua dor. Eu vim aqui em busca de meus sonhos. Filho, você sabe que eu perdi meu verdadeiro amor pela exata razão que você cruzou o mar.

E, naquele momento, o italiano pareceu reflexivo. Limpava o copo com um guardanapo enquanto parecia perdido em lembranças. Até que continuou:

— Não valeu a pena para mim. Espero que você tenha um destino melhor que o meu.

O franco agradeceu a hospitalidade, pagou a conta e foi andando até seu apartamento, que era bem próximo do bar. O lote não lembrava em nada sua pequena moradia na Inglaterra. Era grande, luxuoso, com empregados à sua disposição. Tão grande que parecia vazio. Foi até o telefone, havia algumas mensagens na caixa postal.

“Francis, boa noite, aqui é o pai de Alice. Eu sei que você não fala com ela há anos, nem perturbaria você com essa ligação, mas é que ela insiste em falar com você. Infelizmente houve um incêndio no restaurante de Feliciano Vargas – o neto mais novo do barman- e ela acabou inalando muito monóxido de carbono. Está estável, mas insistiu que queria te ver.”

Foi então que olhou em volta. A televisão de 75 polegadas. A poltrona de meio milhão de dólares. Os tapetes indianos... Não valia a pena. Só de pensar em perder Kirkland... Não... Não conseguia nem imaginar essa possibilidade. Pediu para que sua secretária conseguisse um jeito de embarcar no próximo voo para a Inglaterra, além de outro pedido mais fora do convencional ainda. Ambos realizados prontamente. Na manhã do dia seguinte já estava entrando no quarto do hospital da ex-namorada.

Alice sorriu ao vê-lo. Ela mudou. Cortou o cabelo, estava mais séria, mas ainda tinha aquele ar travesso que o encantava. Os dois abraçaram-se e não quiseram se soltar. Conversaram, riram, brincaram, como se nenhum segundo tivesse se passado.

— Agora você já pode ir. Estou bem, juro. É que vi minha vida passar diante dos meus olhos e percebi que ainda tenho um assunto inacabado: você. Não terminamos, lembra? Só fomos deixando de nos falar. Pedi que viesse para podermos conversar, por um ponto final e finalmente seguirmos em frente.

Bonnefoy assustou-se por alguns segundos, olhou para baixo e sorriu, riu, gargalhou. A inglesa o observou sem entender.

— Eu vou ficar.

— Vai? Podemos passear então pelo tempo que você ficar. Mas, como eu disse, temos que acabar com isso de uma vez por todas, eu sinto muito. – os olhos dela ficaram rasos d’água, mas parecia ignorar isso. – Por quanto tempo você pretende permanecer aqui?

Foi naquele momento que ele agradeceu por sua secretária ser tão eficiente. Afinal, se não fosse por ela, nada do que estava prestes a fazer seria possível. Sentou-se na cama. Eles se olharam de forma brincalhona, pois sabiam que era contra as regras do hospital. Francis retirou uma pequena caixa da bolsa de couro marrom que carregava consigo e a abriu, mostrando um belo anel de diamantes. Kirkland paralisou num misto de surpresa e alegria.

— SIM! – Ela gritou.

— Calma! Deixa eu pelo menos falar. – Disse enquanto ela concordou, chorando, mas, dessa vez, de felicidade. – Minha English Rose, você aceita se casar comi...

— Sim, sim, sim, sim, sim. Mil vezes sim! – Ela não o deixou terminar novamente, mas não importava. – Eu senti tanto a sua falta. Eu amei você todos esses dias que ficamos longe um do outro.

Eles se abraçaram. Parecia perfeito, até que o monitor de batimentos cardíacos mostrou o mais inesperado. O corpo frágil de Alice soltou-se como um tecido nos braços de Bonnefoy. Soou-se o alarme. Alguns segundos em seguida, médicos, enfermeiros e toda uma equipe que Francis não conhecia invadiu o quarto. Ainda estava a segurando, e não pretendia soltá-la, até que uma jovem médica o avisou de que deveria se afastar e teve que pedir a dois enfermeiros que o tirassem da sala. Da porta, observou enquanto eles agiam rapidamente.

Ausência de pulso; apnéia; hipóxia; acidose; cianose; epidefrina; ritmo chocável; desfibrilador... sem sucesso; desfibrilador... sem sucesso; mais uma vez... outra...

O francês não conseguia entender a linguagem médica, mas sabia o que estava acontecendo. Estava vendo o amor da sua vida partir. Eles pararam. Por quê? Por que desistiram? Deveriam passar quantos minutos, horas, dias... o tempo necessário para trazê-la de volta. Anunciou-se a hora da morte e fez o silêncio. O anel ainda estava nas mãos dele. O perfume dela ainda estava no corpo do de olhos azuis.

Sem falar com os médicos, distraído, foi em direção à porta do hospital. Pegou um taxi, ainda sem conseguir processar o ocorrido. Foi ao único lugar onde estaria seguro: seu lar, o pequeno apartamento que dividiam.

Estava do mesmo jeito que há 4 anos. A de olhos verdes sempre seguia a mesma rotina, o que parecia não ter mudado durante todo aquele tempo. Ele a teve, por mais um breve período e a perdeu de novo. Foi à dispensa, a garrafa de Macallan ainda estava lá. Sentou-se no velho sofá empoeirado e tomou-a como se fosse água. Entre os goles, choro e confusão, gritos, raiva, ódio, decepção, mas, acima de tudo, arrependimento. Como ele pôde, por tanto tempo, estar tão cego? Em que mundo era certo trocar a mulher da sua vida por uma vida de fama, mas vazia? Ele dizia que queria dinheiro para pedi-la em casamento, mas, quando conseguiu, não voltou. Por quê?

Precisava voltar ao hospital. O pai dela precisaria de um ombro para chorar, já que também perdera sua companheira, mas já fazia muito tempo. “Deve ser de família”, pensou, tentando encontrar humor naquilo, como ela faria.

O álcool já estava fazendo efeito. Tonto, Francis andou alguns quarteirões, até uma rua que parecia não estar movimentada. Cambaleando, deu alguns passos adiante, ouviu o som de uma buzina e a luz dos faróis vindo em sua direção como duas estrelas. Sabia, naquele momento, que era o seu fim.

Preparou-se para o impacto, mas o que sentiu foi uma pequena e delicada mão puxando-o para longe do perigo. Ao abrir os olhos, estava do outro lado da rua, jogado no chão, mas salvo. A queda, porém, provocou impacto na sua cabeça, e, enquanto estava desorientado e num estado quase inconsciente, sentiu uma mão macia acariciando seu rosto e um cheiro de maçã, o perfume favorito dela. Foi então que a viu, sorrindo para ele, feliz por ele estar vivo.

— Minha English Rose, cuidando de mim do outro lado?

— Sempre, Francis. Sempre.

Notas finais
A fic foi inspirada na música English Rose, do Ed Sheeran. Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=-4Qb7tqvfvQ
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!