Enfim

1 Enfim


Notas iniciais
Olá queridos! Essa é uma história curtinha, não tive a intenção de dar uma lição de vida nem nada, é apenas uma reflexão. Interpretem e entendam do jeito de vocês, à vontade. Espero que gostem ^-^

A razão de ainda estar ali, ela não sabe ao certo. Talvez, depois de tantos anos, seja difícil partir.

A sua volta uma casa grande, vazia, fria e escura, onde um dia já houve cor e felicidade. A casa que passou por gerações, que recebeu gerações, testemunhou reencontros, partidas, amores, decepções, dias bons e ruins, agora estava lá deixada à deriva do tempo. Tempo esse que trouxe muitas alegrias para sua vida, como seus filhos, os quais logo saíram de casa, depois seus netos, todos reunidos nos finais de semana. O mesmo tempo que trouxe o vazio, a solidão, a melancolia, que esqueceu momentos e apagou lembranças. Os filhos cresceram demais, os netos não cresceram o bastante.

Ela passou muito tempo em uma rotina solitária, seus dias se voltaram para as suas plantas, seus artesanatos, seus bichos, afazeres domésticos, remédios, os mesmos programas de tv e os mesmos vizinhos. Reconhece que as plantas e os animais proporcionaram-na uma ótima companhia, mas não consegue negar a falta que sua família lhe faz. Depois do último grande evento naquela casa, visitaram mais três ou quatro vezes, e depois nunca mais.

Os quartos vazios e sem uso acumulam poeira, na geladeira sobra espaço, dos grandes sofás apenas uma poltrona é ocupada, as plantas já perderam seu verde, muitas luzes não são mais acesas, o telefone não toca. Nem mesmo a vizinhança sorri. As crianças que antes corriam e brincavam, cresceram e partiram, assim como as dela.

Mas então, por quê? Por que continuar ali, depois de tanto tempo abandonada? Abandonada sim, mas não esquecida, pelo mesmo motivo que a mantém neste lugar. Lembranças. Os momentos eternizados em molduras por todo canto, as ocasiões registradas em textos guardados com carinho, os sentimentos presentes em coisas materiais tratadas com imensa importância. Lembranças as quais todos carregam, perto ou longe, que fazem tudo valer a pena e geram sorrisos em meio à lágrimas, e também lástimas em meio a risos. Definem quem nós somos e nos lembram de quem fomos, ajudando a formar quem seremos. Quando não temos motivos para levantar de manhã, buscamos forças nos bons momentos. E quando não sobram memórias para resgatar, saímos e criamos novas.

Há muito tempo ela não lembrava, não olhava para os pequenos fragmentos reunidos ao longo dos anos, não sorria. Enfim, voltam as emoções, as sensações, os dias felizes que na hora pareciam insignificantes, mas agora são tesouros. Tem tudo que precisa. O que lutou para conseguir e o que lamentou ser inevitável se resumem em uma satisfação, uma realização. Ela então vai até a varanda, senta-se em sua velha cadeira de balanço, e com uma serenidade da qual nem se recordava, encara o próprio túmulo.

Talvez, depois de tantos anos, seja hora de partir.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!