Encontros, desencontros e novos encontros
90 Capítulo 90:
Notas iniciais
– Chá de camomila, acho que você tá precisando pra encerrar a noite. – Serguei veio de perto da pia, alcançando uma xícara com chá a melhor amiga.
– Hum acho que é tudo que eu to precisando sabia, ficar calma, muito calma... – Anita brincou mexendo com pressa as pontas dos dedos que seguravam a xicara, ainda remoendo tudo que havia se passado no casarão, e tomando um gole.
– O estresse com o Vitor te desestabilizou legal, não é. – percebeu Serguei, puxando uma cadeira a sentando de frente para ela. Conhecia Anita desde sempre, e sabia como ninguém quando a amiga se encontrava chateada com algo... E sua fisionomia naquele instante, a sua frente segurando a xícara de chá em mãos era um bom exemplo disso.
– É, foi meio desagradável... – a garota se ateve a um suspiro tenso, mas não negou que havia realmente ficado um pouco abalada. – Engraçado Serguei, eu saí da situação, provavelmente de intolerante, arrogante, metida, mais eu tenho certeza que agora, tudo isso tá pesando muito mais pra mim do que pro Vitor. – Anita desabafa sincera, soltando lentamente a xícara sobre a mesa, parecendo pensativa.
– Olha Anita! — o ruivo olhou para a amiga o mais sincero que conseguiu. — Eu posso não ter uma opinião formada pra te dar, ou talvez eu nem tenha que me meter nisso, mais... – O que sem dúvidas eu posso te afirmar com certeza é que, agradar a todos, é impossível, e em todas as vezes que tentamos fazer isso, é a gente que acaba infeliz minha amiga. – discursou o ruivo.
– Você tem razão. – ela sorriu timidamente ao concordar. – Mais vem cá, bonitinha tua casinha, eu não tinha vindo aqui depois que vocês reformaram. – Anita comenta, olhando tudo em volta, de forma detalhista, como era comum, e às vezes ela nem sabia se isso era pela profissão ou estava entranhado em sua personalidade mesmo, desde sempre. – Sem ofensas tá, isso não foi uma ironia. – Anita ri, desfazendo qualquer mal entendido, que pudesse passar na cabeça de Serguei.
– É morar com a mãe a vida toda não dava, e com a Flaviana junto pior, minha mãe já tava quase enlouquecendo, apesar de não se opor a gente ficar juntos. – ele disse, sem jamais pensar algo do tipo em sua cabeça, no fundo mesmo longe, e até levando uma vida diferente da sua, Serguei sabia que Anita ainda era a mesma menina simples de antes. — Mais fala, e o namoro como tá. – pergunta Serguei.
– Namoro, olha não sei se namoro, não é uma palavra muito forte pra definir, mas está indo tranquilo até. – diz Anita o corrigindo.
– Ah não é namoro, pra cima de mim dona Anita. – Serguei caçou implicante com a explicação que recebeu. – Qual foi? – ele fala meio que rindo.
– Ué Serguei. – Anita também acabou rindo. – Eu não fui pedida em namoro, e também acho que nem coloquei as coisas dessa forma pro Ben... – Na verdade, eu acho que a gente já, tentou tanto, levar uma relação dentro dos padrões de normalidade, que hoje nós relaxamos com isso. – ela tentou esclarecer o que foi dito antes, mas sem o convencer.
– Ah então vai me dizer que não tá apaixonada. – o rapaz indaga com ar de deboche, que ficou evidente para Anita que o encarava séria.
– Eu não sei. – ela não confirma nada. – O que eu sei, é que eu sinto algo muito forte pelo Ben, acho que há essa altura nem tem como eu negar, mas te dizer que isso é amor, ai é confuso... – Anita suspirou enquanto sua mente passeava em pensar no que Ben poderia estar fazendo naquele momento. – Quando eu cheguei aqui, era curiosidade, alguma coisa muito sutil que me puxava pra perto dele, quase que sempre, ai eu passei a cogitar que era só uma atração ridícula e sem sentido e que hora passava, só que não passou, foi ficando pior... – ela riu de si mesma. – Ai entrei naquela fase de sofrer igual uma louca, fiquei em dúvida, aí teve uma hora que... – Virou isso, uma tentativa muito louca de superar tudo sabe, se dar uma chance, talvez aquela que a gente nunca se deu. – ela afirmou entre um sorriso. – Uma parte de mim, gosta muito de estar perto dele, já a outra, aquela que sabe que a vida não é um mar de rosas, que quebrar a cara, ok, faz parte, mas óbvio que tudo tem um limite. – Me diz que é perigoso, muito perigoso, o que eu to fazendo, talvez eu tenha medo mesmo de acabar com a cara no chão de novo, ou pra ser mais objetiva o corpo inteiro, a vida já me surrou muito meu amigo, o que me fez não ter medo de muita coisa, enfrentar alguém de igual pra igual hoje, passar por cima de qualquer coisa, e algo que eu faço sem nenhum pudor, mais... – a garota se cala pensativa.
– Com o Ben é um pouco diferente. – o ruivo diz, completando a frase ela.
– Exato, acho que é por isso... – Ele desperta em mim, a bondade de uma Anita, que poucas pessoas conhecem, e é incorporada por mim em poucos momentos, mais perto dele não, perto dele essa Anita vive intensamente, ganha alma própria, e vai apanhar na cara também né. – gargalhou ela, encerrando tais palavras com certo exagero.
– Ai minha amiga, só você mesmo. – Serguei começou a rir sem parar. – Mais e aí, eu acho que mesmo com todas essas inseguranças aí, rondando essa cabecinha doida, cheia de ideias, tem uma garota decidida que sabe, que as vezes é melhor viver um ano em um segundo, do que milhões de segundos em anos, sem valer a apena. – ele fala.
– Ai paraaa! – Não dá conselho errado pra ela Serguei, por favor. – Anita ficou a rir.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
No dia seguinte Flaviana chegava cedo em casa, e de relance escutou uma voz de mulher vindo do banheiro, intrigada a patricinha se aproximou da porta astuta.
– Ah mais sabia, Serguei seu descarado, não posso nem virar as costas. – a garota grita, quando vê alguém forçando a porta e a abrindo.
– Ai Flaviana, ai que susto Flaviana. – Anita se surpreende ao sair do banheiro distraída.
– Anita. – a morena repete boquiaberta.
– Maluquinha você voltou, porque tá gritando. – o garoto veio da cozinha onde preparava um café para ele e Anita.
– Isso, não, isso não é isso. – Flaviana falou confusa gaguejando. – Serguei. – ela o reprende com o olhar.
– Espera você não tá achando que. – Ai Flaviana só você. – Anita acaba rindo ao entender. – Não Flaviana, eu não estou tendo nada com o Serguei, ele só me convidou pra dormir aqui como amigo, e no outro quarto, se você quiser pode ver a cama ainda está desfeita. – Anita esclarece calma.
– Que ideia hein. – o ruivo a olha ofendido, enquanto a namorada fica sem reação.
– Ah, eu, achei que nem era a Anita, tá bom viajei, só um pouco. – ela não nega. – Ah mais eu tava com tanta saudade meu amor, tanta, tanta. – afirma Flaviana indo abraçá-lo e beijá-lo, interrompendo o sermão que Serguei estava prestes a lhe dar.
– E Flaviana só você. – Serguei desistiu de brigar sorridente.
– Ué gente, te deixo sozinho, aí quando chego, vejo uma voz suave vindo do banheiro da nossa casa, gente pensei o óbvio não é. – ela disse natural.
– Hãm, o amor é lindo mesmo. – Anita proferiu abismada com o quase ataque de ciúmes da namorada do amigo. – Bom fiquem aí, que eu vou terminar o café. – disse Anita, vendo que os dois ficariam ali parados, sem nem ligarem pro resto. – Só vou dar uma ajeitada no cabelo. – informou ela, retirando a toalha dos cabelos molhados, enquanto os dois apenas se beijavam apaixonados e alegres.
~~~~~~~~~~~~~~~~
– Bom dia. – desejou Ben, quando saiu da cama e já encontrou Anita na cozinha.
– Oie, achei que essa casa iria ficar silenciosa, por mais algumas horas, depois da festinha. – Anita brinca lhe cumprimentando com um beijo.
– Bom isso eu não sei, eu fui dormir logo depois que você foi embora com o Serguei. – Ben sorriu alegre.
– Hey que foi, eu fui embora com o Serguei. – Anita perguntou sentindo estranheza com a forma como ele fez tais colocações.
– Não, eu sei, é que... – Pode ter sido só impressão, mas eu senti que você saiu daqui, meio esquisita ontem. – indaga ele, a encarando detalhista, e Anita tenta segurar a tensão que se abateu em si.
– Não, não saí não. – ela garantiu não querendo atormentá-lo com seu bate boca com Vitor.
– Ok, eu acredito. – Ben hesita por um segundo em continuar a insistir. – Mais não foi nada que eu fiz não né, que te chateou. – ele ainda a pressiona.
– Para de ser desconfiado, vem cá, você acha mesmo que se você tivesse feito algo que desagradou, eu não teria discutido, jogado na tua cara. – Anita desmente qualquer coisa se justificando.
– Aí depende, de duas coisas, se você tivesse só ficado com raiva sim, você teria. – ele fala tomado de sinceridade. – Mas se você tivesse ficado magoada, não... – Teria saído pela tangente, como você fez ontem. – Ben alega, sem tirar os olhos dela.
– É sério, você não fez nada, eu juro, eu juro pela minha vida, acredita agora, ou você acha que eu quero morrer. – Anita afirmou em um tom divertido, e recebe um abraço. – Olha eu to indo lá na Julia pra gente ir pra praia, vamos comigo, vai dar um dia lindo. – ela o convida.
– Eu vou sim, mais antes eu vou passar na casa do Marcelo pra pegar minhas coisas que ficaram perdidas por lá. – explica ele.
– Então você não vai mais se exilar pra fugir de mim. – Anita diz com sorriso alegre.
– Fugir? – Tá, tá aí uma coisa que você entende como ninguém não é. – ele profere de um jeito irônico a olhando.
– Sem graça. – disse ela, sem prolongar a discussão o beijando.
– Ai cara, to mal, que soneira. – Giovana mal percebia que gritava enquanto descia as escadas. — E a casa, meu deus. – a ruiva viu tudo virado de cabeça para baixo literalmente e se viu ainda mais apavorada, com toda preguiça que estava, como limparia aquilo tudo.
– Realmente, se eu estivesse nos Estados Unidos, diria com toda certeza que passou um furacão por aqui. – Ben caminhou até a sala, concordando com a irmã em total sarcasmo.
– Cara vai dar um trabalhão pra limpar isso. – Vitor que descia com Clara também ficou atônito com toda bagunça.
– Ahan, vai, e vai demais, meus amores. – Anita foi irônica, os encarando com deboche.
– Anita e agora. – Giovana apelou para a ajuda da irmã, que sempre era tão organizada.
– Agora vocês vão limpar essa lambança, que tá por tudo mesmo, vão recolher o lixo, as garrafas, os copos, e todo o resto que não estava aí até ontem. – ela discursou de braços cruzados.
– Mais você vai ajudar né. – Vitor afirmou. – Ah Anita poxa. – implorou ele.
– Vou, claro que vou. – Anita ia dizendo séria, mas no final deu uma risada. – Pra praia, curtir o meu dia, já que vocês optaram por curtir a noite, não foi. – ela respondeu altivamente. – Ah e... – Olha antes de dizer que não vão limpar, lembrem-se de uma coisa, minha mãe e Ronaldo, podem estarem chegando por aí, a qualquer momento, ah e eles vão ficar tão decepcionados, e furiosos... – ela diz rindo. – Tchauzinho. – E Pedrinho, antes deu ir pra Ju, vou deixar você na casa daquele teu amigo, como você tinha me pedido ontem, não vai trabalhar, sendo que você não armou festa nenhuma. – disse Anita ao irmão caçula.
– Tá bom. – o pequeno responde, vendo que o dia já começaria agitado.
– Ben. – Giovana puxa assunto com irmão insistindo sua atenção.
– Ben o que? E eu estou de saída, inclusive, e é aquela história, tudo tem uma consequência, agora arquem com ela. – afirmou Ben, os lançando um olhar severo antes de deixar a sala, quase tropeçando no meio de toda bagunça.
– Bom dia gata, achei que não te veria tão cedo. – Marcelo falou brincalhão quando tropeçou com a garota no corredor. – Você tá legal depois que do que rolou ontem. – ele perguntou.
– Não, mais já foi, melhor esquecer. – Anita não escondeu que a situação não tinha passado por completo. – Achei que você tivesse ido com o Ben, ele me disse que iria pra tua casa. – ela alerta.
– O Ben, pois é, eu já estou atrasado, ele vai me matar isso sim. – o garoto percebeu que havia perdido a pressa quando parou para falar com ela.
– Tá bom, to indo pra Barra, praia, aparece lá, a Meg vai comigo. – ela disse.
– E eu que achei que ela só tinha levantado pra me dar bom dia... – É, sou trouxa. – brincou Marcelo fingindo ofensa.
– Ai tadinho. – Anita zombou dramática.
– Ai meu deus, eu já vi que essa loira vai acabar com o resto do meu juízo né. – ele nem percebeu a confidencia em meio ao sorriso.
– Se tinha algum, bom saber. – Anita só fica rindo dele.
– Ah bonitinha, me zoando. – ele a olhou entre uma careta. – Mais assim, leva a chave do carro, aí a gente vem tudo junto depois, e com esse trânsito que deve estar infernal há essa hora, até se eu for de a pé chegou mais rápido, na casa da minha mãe, e como eu amo dirigir né, já viu. – fez piada ele.
– Tá bom, mais tem seguro. – brinca Anita.
– Para chatice, não faz a louca não, que você não é tá, e fui. – ri ele se despedindo.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
– Bom diaa, dona Julia. – Anita cumprimenta animadamente a amiga quando a vê abrir a porta.
– Nossa quando você me disse que iria madrugar não brincou não né. – respondeu Julia vendo a amiga ocupar a sala de casa.
– Sério que tá cedo, ai desculpa. – Anita se puniu.
– Não é que, pela confusão que tava na tua casa ontem, achei que tipo as oito, seria como onze horas. – riu Julia.
– E nem me fala, só espero que aquela bagunça não sobre pra mim, até porque eu não dei festa nenhuma, Giovana e Vitor que me desculpem, mais não estou afim de fazer boa ação hoje. – Anita diz um pouco estressada com os irmãos.
– Ih amiga, nem esquenta. – Julia ri. – Bom eu acabei chamando o Fred também, aí falando pra minha mãe, você acredita que ela se animou também. – Julia informou.
– Ué vamos todos. – fala Anita com um sorriso animado.
– Oh Anita. – a mãe de Julia entrou na sala com um sorriso simpático.
– Oi, tudo bem. – a garota responde sorridente.
– Meu deus, mais impressionante você não mudou nada menina, o mesmo rostinho, o cabelo talvez, tá mais claro. – a mulher diz, dando um abraço na grande amiga da filha.
– Ih gente, depois que inventaram tinta de cabelo, ficou difícil mesmo. – Anita exclamou brincalhona.
– Oi to entrando. – Meg falou quando viu a porta entreaberta.
– Entra, pode ficar a vontade. – Julia garantiu.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
– Vem cá, não iria pegar um táxi, porque mudou de ideia. – Anita confronta Marcelo quando o vê abrir a porta.
– E eu iria, só iria mesmo, porque eu acho que todos os táxis dessa cidade foram pra direção contrária, entendeu. – ele zombou indo se apoiar em Meg. — E antes que você me pergunte por que não peguei um ônibus, ia demorar do mesmo jeito. – ele disse se antecipando.
– Não se atrever a dizer, que foi porque ele é um rapaz da zona sul, que só vê mesmo ônibus, quando ele passa. – Ben fez piada.
– É, é... – Engraçadinho né irmão, mais você sabe que vai ter volta depois. – Marcelo falou com cara irônica.
– Vocês querem parar de discutir e vamos pra praia né. – Anita segurou o riso.
– O Fred, mandou um torpedo, ele já chegou. – Julia contou entre um sorriso simpático.
– E a tua mãe Marcelo, cadê. – Anita indagou.
– Eu não sei, quando cheguei só tinha um bilhete, fui viajar, minha mãe é assim né gente, de vez em quando saí por aí, meu pai é que na moral, não sei como ele deixa ela tão solta, olha se fosse minha mulher eu não iria gostar não. – opina o garoto. – Mais deve ser isso né, a formula da relação duradoura, sem cobranças e muita confiança, não sendo atoa que eles tão juntos há 25 anos. – ele imaginou bem humorado. – Mais praia não é, vamos logo. – ele convidou a todos, animado.
Fale com o autor