– Não, é mesmo. – Anita garantiu ao desconfiar dos olhares dela para os dois, com ela segurando em mãos sua jaqueta e a camisa de Ben, que ela acabou pegando junto. — Aconteceu uma coisa lá atrás, é isso que eu vim te avisar. – Anita disse jogando a camisa ao garoto, para que ele vestisse.

– Que coisa. – Perguntou Bernadete tensa.

– Bom não tem um jeito, preciso de dizer isso, então eu vou falar com o mais simples. – Ela falou, não sabendo como prosseguir. — Tem uma cobra no banheiro. – Surrou Anita discretamente.

– O que? — Cobra. – Bernadete quase gritou. – Como gente, que cobra. – Questionou cochichando dessa vez.

– Não sei, cobra, uma jiboia, uma sucuri, uma naja, não sei. – Anita respondeu nervosa.

– Bernadete seu eu não tivesse visto, eu também iria achar que ela endoidou de uma vez, mas o fato é que tem uma cobra naquela peça depois do banheiro. – Ben reforçou as afirmações de Anita, após se recompor.

– Ai meu deus, como é que é isso, o que eu faço agora. – Tem cliente, como que eu vou resolver isso. – Bernadete proferiu totalmente perdida. – Isso aqui é um lugar onde se produz comida, agora tem uma cobra, o que vão pensar. – Se perguntou ela afoita.

– Oi o que houve, eu ouvi vocês falarem de cobra. – A senhora simpática, se juntou aos três após ouvir parte do burburinho.

– Não imagina, tá tudo sob controle. – Bernadete quis disfarçar.

– Realmente, a cobra deve ter entrado sem querer lá, a gente vai tirar ela de lá. – Afirmou Ben tentando passar calma.

– A gente quem, não vocês não contem comigo pra isso, se fosse um gato, um cachorro, um passarinho, um barata, até um elefante se fosse, eu ajudava, agora cobra, muito obrigado, não pretendo ficar amiguinha dela. –Anita se recusou, quase passando mal já. – Mais claro, que a gente vai ter que tirar ela de lá né, nem que tenha que se jogar uma bomba naquele banheiro, mais ela não pode ficar lá, não é. – Anita retrucou tensa. — Ai deus!

– Anita. – Ben a repreendeu.

– O que, ah não, você quer o que, que eu vire amiga de infância, daquela coisa gigante, a não to fora. – Anita resmungou.

– Gente vocês falaram, então não é uma cobra comum. – Afirmou à senhora. – Só um intente. – Disse ela.

– Você quer o que, espantar a ciente da tua mãe. – Ben retrucou. – Para de ser fresca. – Ben repreendeu Anita por tanto drama.

– É que, ai Ben. – Anita percebeu que tinha falado demais.

– Gente socorro. – Bernadete falou passando a mãos ao rosto.

– A Iolanda, ela fugiu, não tá na sacola. – Disse a senhora alterada.

– Io... – Quem? – Ben gaguejou sem compreender.

– A Iolanda meu filho. – Respondeu. – Ela fugiu da sacola, danada. – Explicou à senhora.

– Espera a senhora, tem uma cobra de estimação. – Bernadete ficou confusa.

– Oi, o que. – Anita pronunciou pasma. – Não dava pra criar um cachorro não. – Disse ela.

– Tenho, ela deve ter fugido, mas ela é boazinha não faz mal a ninguém. – Afirmou ela.

– Eu imagino, a senhora é bem corajosa não é. – Anita rebateu incrédula.

– Isso que eu chamo de ser diferente, não é. – Afirmou Ben.

– Então eu vou lá, cadê ela, onde ela tá. – Perguntou a nobre senhora afoita.

– Tá na peça que você guarda, as coisas lá atrás, depois do banheiro Bernadete, onde tava o vazamento. – Anita explicou.

– Ela tava lá, não é, deve estar lá ainda – Ben confirmou.

– Eu vou lá com a senhora. – Bernadete se dispôs, saindo com a senhora, mesmo não apreciando em nada a situação.

– Iolanda. – Anita repetiu. – E eu que achei esquisito, a Meg querer criar um hamster no apartamento. – Disse Anita ofegante.

– Menina você tá branca. – Soraia firmou se assustando.

– Hey, o que você tem. – Questionou Ben, percebendo certo desajeito no comportamento de Anita.

– Não, não deve ser nada, minha pressão que deve ter baixado com essa confusão toda. – Anita especulou.

– Tem certeza. – Insistiu ele, a aparando.

– Tenho, eu não comi nada hoje, desde que levantei, estou em volta de uma coisa e outra. – Anita se explicou não querendo preocupá-los. – É, o que você pensa que tá fazendo. – Retrucou ela, ao perceber toda a proximidade dos dois.

– Nada ué, impedindo talvez que você caía dura no chão. – Ben respondeu.

– Eu hein. – Anita disse, retirando a mão dele que estava em volta de sua cintura.

– Porque, você prefere, se estender aqui, ok tudo bem. – Ele ironizou, impaciente se afastando um pouco.

– Acho que até prefiro. – Anita respondeu o fuzilando com olhar.

– Tá certo, não esta mais aqui quem pensou. – Afirmou Ben, sorrindo debochado com o mau-humor da garota.

– É, é, hãm, é. – Soraia pigarrou, querendo chamar atenção. – Vocês querem um pedaço de bolo, acabei de fazer. – Perguntou ela.

– Eu acho que eu aceito sabia. – Disse Anita, tentando restabelecer à calma.

– É até que não é uma má ideia, afinal pra que a pressa, não é. – Concordou Ben.

– E por acaso você foi incluído no assunto quando. – Anita falou com desdém.

– Ah não, pensei que a Soraia tivesse falado vocês. – Ben revidou, passando por ela e sentando a mesa. – Você sempre teve problemas com plurais mesmo. – Brincou ele.

– É, deve ser por isso também que eu tinha que me cuidar pra não zerar a parte de gramática da prova de português. – Ironizou Anita.

– Vai sentar ou não, olha que quem sai perdendo é você. – Ben não cedeu.

– Pra você, nem em sonho meu caro. – Anita retrucou, puxando a cadeira e sentando ao lado dele, enquanto Soraia disfarçava o riso, enquanto cortava o bolo para os dois.

– Aqui gente, espero que vocês aprovem. – Soraia falou, alcançando os pratos aos dois.

– Jamais Soraia, eu tenho certeza que você continua arrasando ainda mais. – Anita garantiu.

– Ah que loucura gente. – Bernadete falou chegando de volta.

– E ai Bernadete, como ficou a história lá. – Perguntou Anita apreensiva.

– Ah normal eu acho, a dona Luiza, a senhora dona da cobra, da Iolanda, resgatou ela e acabou indo embora. – Explicou ela.

– É eu só espero, que ela não queira denunciar a Anita por maus tratos, não é. – Ben disse travesso.

– Ué gente, por favor, era uma cobra, nossa sei lá também. – Anita se defendeu. – E eu posso ser acusada de assassinato a qualquer momento também, caso você não pare de me irritar. – Esbravejou ela.

– Como se isso fosse algo muito difícil né. – Ben a encarou sorridente, que ignorou, ele não podia negar que havia certa intenção por parte dele em implicar com ela, sem nenhum propósito especifico, mas por simplesmente sentir certa satisfação em vê-la lhe respondendo atravessado, ou em deixa-la emburrada apenas.

– O importante é que ficou tudo numa boa, e ela vai voltar depois pra acertar os detalhes da encomenda. – Bernadete disse aliviada, servindo um copo com água.

– É ainda bem. — Comemorou Anita também, cortando o bolo com o garfo. – Já chega de problema, já basta esse evento da mamãe, que anda tirando o sono de todo mundo, eu não dormi nada essa noite, deitei tarde pra caramba, e cai da cama hoje de novo. – Contou ela, em meio a um espirro.

– Eu acho que você deveria tirar a roupa. – Disparou Ben.

– Que? – Ela ficou atônita já o interrompendo, ao processar as palavras dele – Bateu com a cabeça foi. – Rebateu Anita se enfurecendo, soltando o garfo sobre o prato bruscamente e o encarando.

– As molhadas né, por outras, já tá espirrando aí, vai é acabar pegando um resfriado isso sim. – Ben se explicou, sorrindo debochado. – Não vai querer ficar doente logo hoje. – Alegou, Anita apenas balançou a cabeça negativamente, sorrindo de canto de forma acanhada.

– Palhaçada. – Resmungou ela, não dando atenção para ele, e voltando a comer o bolo, Bernadete e Soraia apenas se encaram confusas, devido às implicâncias de ambos.