Recreio, por mais que eu amasse as aulas, o recreio era o momento perfeito para interação social com colegas, se conectar com novos e velhos amigos, mas pra mim, Julia Almeida-Gomes, o recreio tinha um significado maior, era o momento perfeito para o ataque.

E como se fosse interferência divina, hoje meu alvo estava estrategicamente posicionado no pátio de trás da escola, onde ficavam as hortas, arvores frutíferas com banquinhos, perfeito para tocar violão escondido, porque ninguém ia lá, ou mais que isso... sentar para se afundar completamente em um livro delicioso.

Quando entramos no pátio de trás sendo lideradas por Pedro, que estava empolgado pra tirar a guitarra da capa e nos mostrar suas habilidades eu vi o alvo do dia, Marcela estava completamente entregue na leitura, não nos notou, como se fossemos invisíveis com a habilidade de flutuar, ela nem sequer ouviu os passos pesados do Pedro afundando na grama.

Sentamos no banquinho logo em frente ao da Marcela, eu sorri levemente um plano formando na minha mente de adolescente sapeca. “Ela é a próxima, né?” Julinha perguntou.

“É, qual o plano?” Respondi entusiasmada que minha versão mais jovem estava tão determinada quanto eu.

“Pedro, ele e a guitarra são o plano. Ela vai escutar a música, e ficar curiosa, certo?” Julinha sugeriu.

Eu ri, o plano era sutil e perfeito, meus amigos me encararam confusos ou curiosos. “Qual a piada?” Paulinha questionou.

Tive que pensar rápido, forcei uma risada para me dar tempo. “Lembrei de um episódio de Glee, primeira temporada, todo mundo se veste igual a Rachel porque a Britt tá lançando mota e toma os créditos.” Menti, mas foi verossímil, melhor que dizer que tive uma conversa mental comigo mesma de 14 anos. “Então, qual a música?” Perguntei apontando pra case do violão nos joelhos do Pedro.

Pedro hesitou mexendo na lingueta do zíper. “Vai atrapalhar ela.” Ele apontou com o queixo.

Eu sorri maliciosa, era meu plano afinal de contas. ‘Perfeito, assim ela larga o livro e se junta conosco.” Sugeri.

“Tu desincentivando a leitura, Ju?” Luna exclamou, olhos arregalados, completamente estarrecida.

Dei ombros, arrumei o óculo no nariz e virei pra ela. “Amo ler, mas também adoro conversar com amigos sobre meus livros favoritos.”

“Concordo, ainda mais em livros com mistério, né?” Paula comentou. “Fazer teoria junto é a melhor coisa que tem.”

Eu assenti entusiasticamente, um sorriso de orelha a orelha. “Paulinha! Tu realmente fala a minha língua!” Disse eu empolgada.

Levantei do banco na impulsividade possível, e abracei ela, um abraço apertado, mostrando toda a felicidade que eu tava sentindo naquele momento. Claro que ela ficou surpresa, o apelido vindo do nada junto com o abraço, ela hesitou um pouco mas retornou, um abraço frouxo, mas ainda assim um abraço.

Sentei de volta. “Kid Abelha?” Pedro mais animado perguntou.

“Só se for agora.” Disse eu, meu sorriso espalhando no rosto. “Luci tu na voz.” Pedi encarando minha amiga.

Pude ver o terror nos olhos dela, tensão em seus ombros, mas não ia deixar ela fugir. Luciana tem uma voz incrível que merece ser mostrada. “Amiga!” Ela gritou em desespero. “Eu...”

“Tu tem um voz incrível mana.” Lua fez coro comigo, assentindo com firmeza. “Tu sabe disso.”

“É só a gente aqui.” Paula comentou.

“E a Marcela que tá tão afundada no livro, nem escutou.” Pedro afirmou. “Eu quero ouvir.”

Ele puxou a guitarra de dentro da capa, eu me contive para não entrar junto quando reconheci os acordes de casinha de sapê, mas a Luci... ela precisava desse momento só pra ela, eu não iria ser a amiga FDP que tiraria isso dela.

A voz da Luci entrou, eu sorri com orgulho, era como magia, uma voz forte e ao mesmo tempo doce, como se a sonoridade da voz e a melodia da guitarra atingisse bem no coração, e pro meu completo deleite, Marcela levantou os olhos do livro ainda aberto no colo.

Mas eu notei com um sorriso suave no rosto, que ela não desviou o alhar em nenhum segundo. “Plano perfeito”

“Eu te disse.” A voz inocente da Julinha respondeu cheia de orgulho. “A gente é um bom time, né?”

“O melhor, e a gente vai usar esse trabalho em equipe pra proteger nossos amigos.” Assegurei minha parceira de mente.

Quando a música terminou, nós aplaudimos com força, Marcela meio hesitante, devagarinho, como se medisse os prós e contras a cada passo caminhou até o nosso banquinho duro e apertado. Eu senti meu coração acelerar, tava acontecendo, mais rápido que eu previ.

“Vo..Vocês sabem tocar trilha de filme também?” Ela meio que gaguejou, nervosa, pude ver os dedos enroscando na barra da camiseta com uma estampa de unicórnio, era a cara da Marcela.

“Depende da música, mas se eu não conheço, posso aprender.” Pedro sugeriu.

“A gente tá aceitando pedidos em início de carreira?” Brinquei “Nem tem baixista ainda na nossa futura banda.”

Pedro ofegou, os olhos brilhando em entusiasmo, Paula levantou a mão e sorriu animada. “Baixista em treinamento.”

“Eu fico no teclado.” Luana anunciou.

“Luciana tem que ser na voz, né?” Marcela pediu, os olhos sorrindo.

“Com certeza!” Lua e eu declaramos sem nem dar tempo pra deixar ela pensar.

“E tu, Ju?” Pedro perguntou.

“To aprendendo violão, tentando e falhando tirar Landslide, mas meus dedos são tão duros que é impossível.” Menti, mas fiz o melhor bufo de frustração que pude, soou real.

“Tenta velha infância, foi minha primeira música.” Pedro sugeriu.

Assenti com um sorriso brilhante. “Mar, como tu é leitora raiz, tu tem cara de ser criativa né?” Sugeri.

Eu vi o rostinho rechonchudo avermelhando, ela baixou os olhos. “Eu sou boa em ler..., mas mais que isso....”

“Tu não imagina os cenários da história?” Paulinha perguntou.

Marcela assentiu, mas os dedos trêmulos enroscavam na barra da camiseta, eu sorri levemente, compreensiva, podia entender o nervosismo dela, a pressão.

“Não é pra amanhã, eu nem aprendi a tocar, nada ainda, esse negócio de banda leva tempo.”

“Grana...” Pedro comentou, a gente soltou uma risada.

“E uma garagem.” Paula brincou.

A gargalhada sonora que nós soltamos, rasgou o ar e ecoou por tudo. “Mas enquanto tu pensa... escreve, põe um mundo só teu no papel, começando com uma paisagem, não precisa ser nível Nárnia ou senhor dos anéis, pode ser um laguinho, um canteiro ou mesmo um jardim, caso tu queira se desafiar mais. Pode sair algo realmente incrível sabe?” Disse confiante.

Marcela sorriu o nervosismo diminuiu eu vi lágrimas brilhando nos olhos dela, quando ela saiu Pedro e a Paulinha me olharam completamente incrédulos.

“Me conta teu segredo!” Paula exclamou.

“Eu nunca vi a Marcela falando com ninguém, sempre com o nariz afundado num livro.” Ele confidenciou.

“Verdade, ela sempre se escondia aqui e nem levantava os olhos.” Paula comentou.

Eu encolhi os ombros. “A magia veio da música do Pedro e da Luci.” Argumentei. “Eu não fiz nada.”

O Pedro tocou mais duas músicas com a Luci na voz, tocaram inclusive Velha Infância e Já sei namorar, o Pedro fez uns arranjos criativos na guitarra, deixando as melodias mais do jeito dele. Quando o sinal bateu, eu e as gêmeas nos animamos, contando tudo sobre a professora Carmela, pros nossos amigos.

“Legal né, duas professoras que vieram com vocês” Pedro comentou.

Eu apenas assenti, mas anos mais tarde eu descobri que elas transferiram pra essa escola por mim, eu me senti extremamente culpada por não ter voltado, pelo menos pra agradecer.

Quando entramos na sala eu estava determinada a concertar este erro. Carmela era uma mulher linda, afrobrasileira com um sorriso de dentes alinhados, uma aura de amor e empatia.

“Olha se não são as três mosqueteiras!” Carmela brincou.

“Tá mais pra Xena, Gabrielle e Joxer mesmo.”Luana brincou.

“Eu ouvi!” Carmela disse, com orgulho na voz. “E já fizeram dois amigos?”

“Uhum, Paula e o Pedro, Pedro é guitarrista, e a Paulinha é baixista em treinamento.” Contei encarando minha amiga, sorrindo empolgada.

“Eu também toco baixo.” Carmela confessou.

Isso foi o suficiente pra Paula ficar toda animada, ela até contou sobre o sonho de ser socióloga. Quando eles e as gêmeas sentaram nos lugares, eu me abaixei um pouco, encarei, minha professora.

“Obrigada...”

“Pelo que Ju?”

“Eu sei que tu e a sora Ana transferiram pra cá depois do que aconteceu na outra escola...” Murmurei. Ela ofegou, olhos arregalados, engoli o caroço na garganta. “Obrigada.” Reafirmei e fui sentar na minha classe.

Notei que a Sofia estava sentada na classe dela, lá no fundo, era incrível, hoje ela estava vestida com um vestido que ia até o pé, era completamente fora da curva, eu não sei como a Sofia aguentava se vestir completamente diferente do resto.

“Me pergunto se falta amor-próprio.”

“Sofia?” Julinha perguntou.

“É, ela não tenta fazer o mínimo pra se encaixar.” Afirmei, encarando minha colega, enquanto puxava o caderno de Sociologia da mochila.

“Talvez seja medo... trair as crenças dela.” A minha voz madura, provavelmente a Julia que lembrava de tudo insinuou.

Eu virei pro quadro encarando a professora, eu honestamente não fazia a menor ideia de como falar com a Sofia, o que falar pra ela. Defender ela, depois de uma freira FDP jogar uma bíblia na minha cara rachando a lente do meu óculos, eu trairia a mim mesma, a Julinha, a Paula. Simplesmente não podia fazer isso.

“Pede pra Rubi...” Uma terceira voz se juntou.

Não reconheci, não era a minha voz, era uma voz madura e suave. Não importa de quem era, o conselho era bom, talvez pudesse funcionar, talvez a Bi com o coração de ouro dela pudesse mesmo ajudar a Sofia.

Senti um cutucão nas minhas costelas, olhei pro lado pra ver a Lua me encarando confusa “Chamada, quase no teu nome.”

Fiz um símbolo de coração com as mãos, e espantei os pensamentos, encarei a professora, prestando atenção. “Julia Almeida-Gomes.”

“Eu!” Respondi.

Depois de apresentar o plano de aulas, e soltar o tema, teríamos duas aulas de Química com a professora Luciane, e meu inferno pessoal, a famigerada tabela periódica.

A manhã finalmente acabara, foi um alívio, então depois de me despedir da Lua, Luci e Paula, no portão da escola, peguei meu mp4 que sempre deixo dentro da mochila, liguei o aparelho, selecionei minha playlist favorita, coloquei os fones no ouvido e segui para uma lanchonete perto de casa, assim poderia comprar um lanche para comer em casa.

Terças e quintas nunca tinha ninguém em casa quando chegava da escola, a mãe, que é professora de Português da aula em uma escola de outro bairro, o pai é professor de História de um centro universitário de um bairro mais afastado, e a mana fica na faculdade até o meio da tarde, então eu almoço sozinha.

Segunda, quarta e sexta, vinha a nossa secretária do lar, a Dona Vitória, ela sempre fazia almoço e doces deliciosos, os melhores doces que já comi, nenhum se compara com os dela.

Dona Vitória começou como babá minha e da Milla, então é como uma segunda mãe pra nós duas, nos conhece como ninguém. Cheguei na pequena lanchonete, pausei a música que estava ouvindo e entrei.

“Oi, Seu Deja!” Cumprimentei animadamente.

Como sempre morei naquela mesma rua, eu conheço todo mundo, então tenho uma relação amigável, desde os vizinhos até os garis e guardinha da esquina.

“Oi Julinha! Já vejo que tu tá morrendo de fome depois da aula.” Disse ele com um sorriso grande.

“Nem fala, to verde de fome, podia comer um boi hoje!” Contei pra ele. “Mas vou me conter e comer um xis de calabresa bem recheado e uma coca light pra ajudar a descer.” Disse pra ele, um grande sorriso abriu nos meus lábios.

“Quem não te conhece vai pensar que os teus pais não te alimentam.” A Fabiana, vizinha nossa que mora na casa ao lado brincou.

Ri alto com o comentário da Fabi. “Ah, o real problema é que eu fico faminta depois de exercitar o cérebro!” Contei abertamente, eles não puderam deixar de rir alto. “Hoje teve dois de química no fim da manhã.”

Meu xis ficou pronto rapidinho, só com o cheiro senti as lombrigas se animando e a barriga roncou alto, sentei em uma das mesinhas com toalha de plástico, carregando meu xis e a minha latinha e comecei a comer toda animada

Depois de pagar, me despedi agradeci profusamente e fui para casa, me sentindo completamente satisfeita com o lanche, o bom é que eu daria uma boa caminhada até o cursinho de inglês, e ajudaria a baixar a comida.

POV Rubi.

A manhã finalmente acabara, em vez de ir para a parada do ônibus, decidi caminhar mais algumas quadras e passar no mercado próximo, isso não arriscaria de acabar entrando inadvertidamente em alguma livraria, mesmo que tivesse que gastar uma fortuna no taxi ou carro de aplicativo, mas eu sabia que fazer minhas compras era mais importante agora do que qualquer coisa.

Foi o que fiz, me encaminhei para dentro do supermercado, peguei o carrinho e comecei a caminhar pelos longos corredores com prateleiras brancas, abarrotados de mantimentos, estava distraída enquanto comparava as marcas, checava os menores preços, quando ouvi meu nome.

“Rubi?” A voz conhecida perguntou, estremeci, fazia quatro anos.

“Pai?” Perguntei, virando em meus calcanhares hesitante.

Os olhos verdes do meu pai foi a primeira coisa que eu vi, não tinha aquele brilho caloroso que eu amava, na verdade, só vi tristeza nos olhos dele, eu senti uma dor no meu peito, e um nó na garganta.

‘maldita hora que eu decidi vir no mercado longe de casa.’

“Oi minha filha.” Disse ele com a voz triste. “Posso ver que esses anos te fizeram bem.” Comentou ele, as sardas no nariz bem aparentes. “Trabalha por aqui?”

“É, na escola Horizonte, aqui perto.” Contei.

“Ah sim, é uma boa escola, escuto boas recomendações de lá.” Comentou ele. “Fico feliz que conseguiu um bom emprego depois que te formou.”

“Pois é um amigo recomendou, ele é professor de música lá, a diretora ficou bem feliz com o meu currículo, disse que seria refrescante uma professora mais jovem com idade próxima dos alunos dando aulas lá.” Contei, um sorriso brincando nos meus lábios.

“Que bom, tá começando como substituta?” Perguntou ele.

“Não... sou professora fixa de português e Literatura brasileira.” Contei, ele sorriu com orgulho.

“Fico orgulhoso de ti...” Disse ele.

Nos despedimos logo depois desta curta interação, eu tinha que fazer minhas compras e ele apenas viera para comprar um lanche antes de voltar para o trabalho, não perguntei pela minha mãe e ele também não citou.

Meus olhos estavam marejados, não teve troca de abraços ou telefones, só uma conversa entre conhecidos no supermercado. Talvez, isso era o que éramos agora, apenas conhecidos.

Apenas me apressei a terminar minhas compra e ir para casa, acabei pagando uma fortuna no taxi, mas pelo menos eu teria os armários e a geladeira cheia.

POV Julia

Como a aula de Inglês era só às três da tarde, peguei as listas de livros que recebemos ontem e hoje, fui ao escritório da mãe e do pai pra ver se tinha os livros didáticos que os professores indicaram, no meu quarto só tem os de ficção mesmo, e alguns livros teóricos de Literatura e Gramática, que trouxe comigo.

Finalmente chegou duas da tarde, pude começar a me arrumar para a aula de inglês, estava esperançosa que seguiria com a mesma turma este ano, as vezes os alunos desistem, ou mudam, então eu nunca sabia que continuaria com os mesmos colegas.

Quando cheguei na escola já encontrei o Marcos, a Luciana e a Luana que também fazem comigo, conversando animadamente. O Marcos era um guri meio grandalhão e desengonçado, mas super querido e amigável ele mudou de cidade dois anos depois e perdi contato, uma pena.

“Julinha!” O Marcos exclamou animado, já me abraçando. “Como foi de férias? Se divertiu? Conheceu uma gostosa?”

“Cara! Nem gostosa, nem feiosa!” Contei rindo. “Eu fui pra Disney e pro sítio.” Contei rindo alto. “No sítio só tem igreja evangélica, e na Disney eu não tenho ideia, e tu, pegou alguma?”

“Ah certamente que sim!” Contou ele sorrindo animado, os olhos verdes brilhando, e mostrou a foto. “Pra minha completa surpresa, ela mora aqui em Porto, mas não vai na mesma escola que eu, podia ser um amor de verão, mas acho que vai continuar.”

“Amigo! Isso é incrível!” Disse a Lua feliz por ele.

“Pois é, e vocês duas, conheceram alguém?” Perguntou ele.

“Não, a gente foi para Natal, a gente só saiu pra dançar mesmo..” Brincou a Luciana.

“Deus! A gente tem que sair mais, gurias!” Reclamei. “E tu, dá um jeito de apresentar ela, eu quero ter certeza que ela é um bom partido pra ti.” Disse com a voz firme, ele gargalhou assentindo. A gente se conhece a anos afinal.

“Não te preocupa, tem barzinho LGBT que vai de tudo, até hetero e menor também, lá na cidade baixa, a gente marca pra um final de semana, vocês três desencalham, e eu apresento ela.” Sugeriu o Marcos. “Mas me diz, qual é a do cabelo colorido?”

“Tu sabe o que rolou na nossa escola ano passado né?” Perguntou a Lua.

“É, nem precisa falar, decidiu se rebelar contra o sistema.” Assumiu o Marcos, sorrindo compreensivo.

“Não, parecer durona na escola nova, assim não pegam no nosso pé.” Expliquei. “Elas me ajudaram com o novo visual, e a mana apresentou Alanis.” Apontei a camiseta que eu vestia

“Alanis é incrível! Super indico, além do mais, ela realmente fala com a gente né? É como se ela dissesse o que a gente precisa ouvir, não o que queremos ouvir.” Comentou a Penelope, outra colega da nossa turma. “Amei o cabelo Ju.”

“Valeu Penny.” Disse eu sorrindo abertamente.

“Então, empolgados pra esse ano?” Perguntou a Luci.

“Muito! Mal posso esperar pra começar o Inglês avançado, vai ser divertido.” Comentei. “É perfeito, que assim eu consigo o certificado do nivelamento, e consigo um intercâmbio lá, pra curso profissionalizante depois do ensino médio.” Disse eu.

“Ah isso é uma ótima ideia, tem meu total apoio.” O Marcos disse com um sorriso largo.

“Porque não uma faculdade?” Penny perguntou confusa. “Se ganhar bolsa de estudo...

“Olha, não é má ideia, talvez uma faculdade de música ou comunicação social né?” Comentei. “Se um dia eu passar em Letras, eu quero fazer aqui, não lá.”

Recebemos os materiais para o ano e fomos chamados para a sala de aula, pela professora, estava superanimada para este ano, sabia que iria me divertir, especialmente com meus amigos do Inglês, eles além da Luci e da Lua, eram os únicos que sabiam sobre mim e aceitavam, naquela época.

Como eu tinha Inglês de tarde, terça e quinta eu não pegava a Anita, o vô dela, meu tio quem ia, então depois da aula, eu, a Lua e a Luci, fomos juntas na sorveteria perto de casa, tomar um sorvete, afinal metade de fevereiro ainda é super quente, e sorvete é a melhor pedida.

“Ai um sorvete nesse calorão, é a melhor coisa, né?” Comentou a Lua, comendo o sorvete de doce de leite que ela tinha colocado na cestinha.

“Eu sei. Eu amo que eles vieram com novos sabores agora!” Disse gemendo de satisfação. “O de caramelo salgado é o melhor que tem.”

“Ah! Eu amei esse de yogurt, mas passas ao rum nada mal.” Comentou a Luci, pegando das duas bolas.

“Hum, tem razão amiga. Passas é delicioso, com caramelo junto então! É paraíso na boca.”

“Maravilhoso é esse de Rocher.” Comentou a Lua, sorridente. “Eu sei que recém é terça, mas o que tu vai fazer no findi?” Perguntou a Lua pra mim.

“Sei lá, eu queria ir ao sítio, lá eu relaxo completamente.” Comentei com saudades do meu cantinho no meio do mato, “e vocês?”

“A gente geralmente vai pro sítio final de semana, é provável que a gente vá lá, mas bem que eu queria ir numa boate. Sair pra dançar.” Disse a Luana.

“Hum, seria uma boa né mana? A gente podia falar com a mana, ver se ela topa.” Comentou a Luci.

“Vamos falar com ela, a Lu geralmente topa qualquer coisa pra não ir pro sítio, ela é muito mais da cidade.” Pontuou a Lua empolgada.

Depois de terminarmos de comer as cestinhas de biscoito, fomos para casa, as gurias me deixaram no portão da minha casa que era mais perto da sorveteria e foram para casa delas. Eu só entrei mesmo pra pegar o Quimono e voltar pra escola, pra minha primeira aula de Judô.