Encontro de Almas- volta às origens
10 Nostalgia
Notas iniciais
O Sol já estava baixo quando o último vídeo postado finalmente acabara, eu sentia as lágrimas de riso caindo dos meus olhos, minha barriga estava doendo, pude notar que a Ké dos dias de hoje e a Ké do futuro tinham um senso de humor parecidos, embora a forma dela de pensar sobre alguns assuntos tenha mudado. Mas era bom conhecer mais do lado ‘adolescente’ dela. Embora em 2012 a Kéfera já tivesse dezenove anos, tecnicamente adulta já.
Estiquei meus braços atrás da cabeça, alongando, levantei e fui até o quarto de casal, onde o meu violão estava no suporte , peguei ele, sentei na cama para afinar o instrumento, e desci até o andar de baixo onde tem uma varanda.
Quando eu morava no sítio com a Bi, final da tarde a gente sentava na varanda, com o violão e a guitarra tocando e cantando enquanto assistíamos o por do Sol. Era fantástico, a melhor sensação do mundo. Eu estava distraída tocando velha infância quando senti uma mão masculina, pesada tocando gentilmente no meu ombro. Parei de tocar imediatamente, virei meu rosto, o pai me dirigia o olhar com um sorriso.
“Tá na mesa.” O pai avisou sorrindo levemente.
Assenti, virando para ele, sorrindo de volta, retornando para o presente. “Desculpa por isso.”
“A gente entende porque, não te preocupa.” Ele prometeu, ainda assim eu me sentia culpada.
“Eu já vou lá, só vou levar o violão para o meu quarto tá?” Disse eu levantando da cadeira da varanda e dei um beijo na bochecha rechonchuda do meu pai.
Subi até o andar superior onde meu quarto estava, era impressionante que mesmo faltando anos para eu e a Bi nos mudarmos pra cá, eu conseguia sentir o cheiro dela no nosso quarto, como se uma parte dela tivesse ficado aqui, como se o nosso futuro ainda existisse, eu sabia que não tinha como, mas ainda assim, era a sensação que eu tinha.
Coloquei o violão no suporte, enviei uma mensagem pra Nay, agora que eu tinha o número dela, pelo menos podia enviar mensagens, a Naya inclusive, fez o download do WhatsApp que ela não gostava só pra podemos conversar, avisei que iria jantar, e depois chamava ela no Skype. Corri escada abaixo, seguindo para a varanda onde meu pai ainda me esperava. Sorri pra ele, senti o braço dele envolver meus ombros e fomos caminhando até a casa principal, onde minha mãe e minha irmã estavam colocando a mesa.
Senti o meu sorriso alargando quando senti o cheiro de pizza feita em casa invadir meu nariz. A mãe sempre foi uma mulher super habilidosa na cozinha, depois que ela se aposentou, ela descobriu alguns canais de culinária no YouTube, e sempre estava inventando alguma receita nova.
“Cheirinho tá bom.” Comentei me aproximando da mesa, dei um beijo na bochecha da mãe e da mana. Me juntei a elas para ajudar a terminar de pôr a mesa.
“Como foi a tua tarde?” Perguntou a Milla colocando os talheres, enquanto eu colocava os pratos.
“Ah foi boa. Uma amiga me chamou pelo Skype, aparentemente ela conseguiu voltar com parte das memórias dela.” Contei, não pude deixar de sorrir, era um alívio saber que eu teria pelo menos uma pessoa com quem conversar, mesmo que soubesse que o trabalho dela não dava muita folga para conversarmos.
“Ah que bom. Assim vocês podem conversar mais livremente. Ela mora perto?” Perguntei a mãe.
“Na Califórnia.” Expliquei.
“A rua?” Perguntou a mana.
Não pude deixar de rir com a pergunta. “Não, estado da California.”
“Sério? Qual o nome dela?” A mana perguntou, completamente chocada.
“Naya, eu não sei exatamente quando a gente vai ser ver de novo, eu não tenho o meu salário pra ir visitar ela nas férias de julho, mas pelo menos a gente conseguiu entrar em contato. Eu estava preocupada com ela. Nay passou por muito perrengue, eu fico preocupada que talvez seja difícil pra ela lidar com isso, voltar pra este ano.”
“Talvez com as memórias ela esteja madura para lidar com isso tudo de novo.” Comentou o pai.
“Eu realmente espero que sim.” Afirmei esperançosa.
Sentei para comer, a mãe havia feito uma pizza de pão árabe com presunto e queijo e uma só de queijo. Ficamos conversando enquanto comíamos.
“Ju, como tu vai fazer? Quero dizer, tu tem todo o conhecimento do ensino médio, né?” A Milla perguntou.
“Eu ainda sou um asno em matemática, química, física, gramática, então vai ser uma boa fazer isso de novo, talvez eu até relembre mais das outras matérias também.” Comentei dando de ombros.
“É como um livro, a segunda vez que lê, tu pega detalhes que tu não havia pegado na primeira.” A minha mãe comentou, eu assenti, cortando uma fatia de pizza de queijo.
“Verdade, e eu vou ter mais maturidade para lidar com algumas delas, e com algumas pessoas.” Comentei pensando na Sofia, ela foi uma pessoa extremamente difícil nos primeiros meses de aula.
“Eu tenho certeza que tudo vai dar certo.” Meu pai disse.
“Eu espero que sim, o futuro de cinco pessoas dependem disso.” Comentei e mordisquei a pontinha da minha fatia, que segurava com a mão.
POV Naya.
Depois que eu encerrei a minha conversa com a Jules, mais cedo naquela tarde, meu iPhone tocou, eu vi na tela o nome da Diana piscando. Meu coração acelerou, ela seria a primeira pessoa que eu teria contato desde que voltei, se não contasse o Motoboy que veio entregar o roteiro ontem.
“Hei Diana.” Cumprimentei depois de aceitar a ligação.
“Hei Nay, aconteceu alguma coisa? Você não entrou em contato desde que o hiato começou.” Eu podia ouvir a preocupação na voz dela.
“Sabe como é, eu gosto de tirar uns dias pra mim depois que as gravações finalizam, precisava de um tempo. E aí, tudo bem?” Perguntei.
Eu não sabia exatamente o que falar, sabia que não podia contar o que estava acontecendo, mesmo sabendo que eu tinha as minhas provas, e sabendo que a Jules contou pros pais e a irmã dela, eu imaginava que seu eu contasse para alguém, poderiam pensar que eu havia enlouquecido. Mas uma coisa era certa, eu tinha que considerar como iria seguir a minha missão, o Corey na linha do tempo original havia perdido a vida julho ano que vem, por overdose.
“Ah, por aqui tudo bem. Eu, a Amber e a Heather estamos indo em um pub hoje, ficaremos na sala vip, topa?” Perguntou ela me puxando de volta para o presente.
Pensei um pouco, eu não podia ficar trancada em casa me isolando como se estivéssemos de volta na pandemia, e honestamente eu queria sim ver minhas amigas, decidi aceitar, mas não pretendia ficar muito tempo, queria falar com a Jules, estava preocupada, eu sabia que a Rubi estava com as memórias seladas, até fiquei receosa em perguntar como a minha amiga estava lidando com isso.
“Leah vai?” Perguntei.
“A gente não convidou.” Diana informou.
“Por causa da Amber né?” Perguntei, e decidi que esta seria uma das coisas que eu iria concertar, alguém precisava explicar pra Leah sobre racismo e consequências para a vítima.
“É, você vai?” Diana insistiu.
“Claro. E eu vou falar com a Leah sobre isso, a gente não pode deixar ela continuar com este comportamento racista. Não é legal.” Comentei.
“A gente deveria ter feito isso quando o comportamento começou, espero que não seja tarde agora.” Diana disse.
“Eu tenho certeza que não, vou tomar um banho, me passa o endereço por mensagem, e o horário.” Pedi.
“É no roof top , vamos lá pelas oito horas da noite.” Comentou ela.
Eu tinha esquecido completamente como a noite dos Estados Unidos começava e terminava cedo, comparado com o Brasil, era basicamente horário de criança dormir, quando a noite acabava.
“Encontro vocês lá.” Prometi e encerrei a ligação. “Bem, como eu só vou casar em 2014, não tem problema nenhum eu curtir a noite e beijar algumas bocas.” Soltei uma risadinha, mas senti meu coração apertar, sem saber exatamente o motivo.
Fui tomar meu banho, tentando ignorar o sentimento que assolou meu peito, talvez eu só estivesse um pouco ansiosa com a ideia de sair, encontrar minhas amigas pela primeira vez desde que voltara.
Acabei enviando uma mensagem para a Jules, avisando que não poderia chamar ela no Skype pois iria sair com as meninas, Jules ficou bem empolgada por mim, pediu que eu me divertisse, e mais que isso, insistiu eu enviasse fotos pelo WhatsApp, não pude deixar de rir da minha Fan girl favorita.
‘Sempre sendo Fan girl, né?’ Eu zombei dela.
‘Não me julga NayNay, tu sabe que eu sou fan de glee, e agora estou basicamente assistindo ‘pela primeira vez’ hahaha’
‘Deus, é muito estranho isso... quero dizer, eu vou ter que gravar pela segunda vez’
‘Desculpa por isso.’
‘Não peça, eu tomei algumas decisões aqui, decisões que eu nem considerei na primeira vez, e talvez isso ajude a Lee perceber que eu não sou competição pra ela, que não precisamos ser rivais.’
‘Sonho realizado, vai curtir tua noite, eu vou curtir a minha série favorita, e não esquece das minhas fotos.’ Julia pediu e eu soltei uma gargalhada.
A noite foi bem divertida, ficamos fofocando, e até fizemos planos, comentei com elas que queria visitar o Brasil, ir para o Sul, só pra ser diferente, visto que todo mundo vai sempre para o Rio.
“Por que não vamos nas férias de Julho?” Heather perguntou se empolgando. “A gente vai estar em férias das gravações, e podemos dar uma escapada.” Ela sugeriu, não pude deixar de dar um beijo na bochecha da minha amiga, algo que surpreendeu ela por um momento.
É verdade o que as pessoas falam, o brasileiro é um povo alegre, gentil e acolhedor, para eles é normal abraçar e te fazer se sentir em casa, então é claro que alguns traços da minha personalidade mudaram um pouco, eu me tornei um misto, continuava uma ‘vadia’, isso não mudou, mas eu sabia que me tornara mais calorosa, é até engraçado que a minha eu mais jovem, não parecia incomodada com isso.
“Eu topo, vamos fazer isso.” Amber concordou se empolgando.
“Você conhece alguma cidade do sul do Brasil?” Perguntou a Diana.
“Uhum, Porto Alegre e Gramado.” Contei. “Só aviso, vai ser inverno lá, é muito frio! Bem diferente do inverno aqui na Califórnia.”
“Bem, talvez seja legal, porque o verão aqui é muito quente! Ir pro frio em Julho pode ser divertido.” Heather comentou. “Mal vejo a hora de fazer esta viagem.” Minha amiga comentou animada, eu também fiquei empolgada, e seria a desculpa perfeita para ver a Jules, matar a saudade e ter certeza que ela estava bem.
POV Julia
Como o sítio é da família do meu pai, eu tenho vários primos que moram na área, alguns assim como a minha família tinham casa onde passávamos os finais de semana, então obviamente os primos que eram da mesma faixa de idade que eu, além dos amigos da família e primos do lado da minha mãe sempre se reuniam para brincar, ou passear juntos.
Além das casas também tem o açude e um pomar com vários tipos de árvores frutíferas, então a gente sempre ia lá no pomar subir nas jabuticabeiras e comer frutas no pé, voltava com as mãos pretas de terra e várias sacolas plásticas de supermercado carregadas de frutas, e no verão, nos dias mais quentes nós gostávamos de tomar banho no açude minado de sangue suga. O sítio era como um paraíso para todos nós, e eu sempre dizia que um dia moraria aqui. O sonho se realizou.
Eu e a mana estávamos sentadas na sala da casa principal, conversando sobre o que faríamos hoje, já era segunda feira e teríamos mais duas semanas para aproveitar aqui.
“Gurias, eu preciso que vocês vão até o centro.” A mãe avisou entregando uma listinha de compras em um pedaço de papel.
“Será que eu posso ir com a vespa? A mana tem carteira, ela pode ir comigo.” Tentei.
Eu sempre fui extremamente cautelosa quando dirigia a vespa, não costurava, tentava sempre ir pelas ruas laterais e menores para não pegar muito trânsito e só voava quando as ruas estavam desertas, daí sim eu acelerava, e apostava corrida, mas nunca causei um acidente, me orgulhava disso.
“Só leva em consideração que a minha carteira é pra carro, tá?” A mana mencionou.
“Eu sei, mas acho brabo nos pararem, eu sempre sou bastante cautelosa.” Contei com um toque de orgulho na voz. “E eu conheço os melhores atalhos, pra não pegar trânsito.” Expliquei. “Posso?”
“Tudo bem, mas vai devagar, e nada de costurar.” O pai que estava entrando na casa pediu com a voz firme.
“Eu nunca costurei, acho que nem sei fazer isso. E acelerar, só quando não tem ninguém na rua, ou na estrada de terra aqui na volta.” Contei pro pai.
“Tá bem então.” A mãe concordou.
Eu estava até surpresa quando vi que os capacetes que meus pais e a mana compraram para eles havia vindo junto com a vespa, estavam todos no meu quarto da minha casa, isso facilitou, eu não precisei emprestar nem o meu, nem o da Bi.
Corri em casa, subi no quarto e verifiquei meu telefone de novo, pra confirmar se a Nay ou as gurias haviam enviado alguma mensagem pelo Whats, não tinha nada ainda, coloquei o telefone dentro de uma barrigueira junto com minha carteira onde estava a identidade e um dinheiro da minha mesada, e os capacetes, vesti uma camiseta e um short de suplex, mais surrado, afinal eu não queria sujar roupa boa com a poeira da estrada, é um saco espanar. Voltei para a casa dos meus pais, a mana já me esperava lá na varanda da casa deles, também vestindo uma roupa mais surrada, pelo mesmo motivo.
“Aqui, este é o teu capacete.” Avisei, entregando um capacete azul clarinho com detalhes em preto, os olhos azuis da minha irmã brilharam com empolgação.
“Valeu maninha.” Disse a Milla com um sorriso amplo nos lábios, mostrando os dentes branquinhos e alinhados.
“Ju, caso perguntem... diz que eu te dei de aniversário adiantado, e tu só usa aqui pra praticar antes de tirar a carteira.” O pai instruiu.
“Vou fazer isso, valeu pai de verdade.” Disse eu mostrando toda a gratidão que sentia.
Meus pais e minha irmã são os melhores do mundo, sempre me apoiando e me ajudando a lidar com toda a situação que eu havia me enfiado e me cobrindo assim eu não passaria por nenhum perrengue.
Como Nova Santa Rita é uma cidade pequena, além das ruas estreitas, e falta de calçamento nas calçadas, tem uma igreja em cada esquina, pelo menos três supermercados e farmácias enfileiradas, e como por muito tempo era uma área rural também tem muitos petshop com clínica veterinária.
Com o passar dos anos a cidade foi crescendo, comércio veio, com lojas de roupas, lojas de sapatos, artigos para casa, ferragens, mas faltava muita coisa. Hospital só na cidade ao lado, Canoas ou Porto Alegre mesmo. Por enquanto só tinha um consultório odontológico.
Montamos na vespa, eu liguei, o pai abriu o portão com o controle remoto e acelerei, pude ouvir a minha irmã gritando alegremente, mas os braços dela apertaram a minha cintura, eu não pude deixar de rir alto.
Era a melhor sensação do mundo, não tinha nada melhor que andar na minha vespa, eu amava a sensação de liberdade, o vento batendo no rosto, era bom demais, foi uma das melhores aquisições que eu fiz.
Estacionamos a vespa em frente ao mercado que nós sempre íamos, levantei o banco e coloquei os capacetes no maleiro, travei a vespa, minha irmã tinha o sorriso bobo no rosto.
“Gostou?” Perguntei, enquanto ajeitava o cabelo bagunçado e espanava um pouco da poeira, o rosto dela estava rosado.
“É bom demais, deu até vontade de tirar a carteira pra moto, e tu é realmente cautelosa né? Entrou por umas ruazinhas que eu nunca tinha visto.” Ela comentou rindo alto.
“Eu te explicou depois.” Comentei apontando com o queixo as pessoas entrando e saindo.
“Entendi.” A Milla rolou os olhos e eu soltei uma risadinha, no fim eu senti que isso tornaria nossa piada interna.
“Julia, Milla?” Ouvi uma voz conhecida atrás de nós chamando nosso nome.
Viramos em nossos calcanhares, eu tensionei fazia muito tempo que eu não via a Jana, minha prima que por um tempo estudou na mesma escola que eu iria começar este ano. Ela acabou saindo no segundo ano para fazer intercâmbio e terminar o ensino médio nos Estados Unidos, depois disto nunca mais nos encontramos.
“Jana! Quanto tempo.” Eu soltei, ignorando completamente o fato que nos encontramos a última vez no Natal, as famílias comemoravam sempre juntas.
“A gente se viu em dezembro.” Ela zombou, rolando os olhos avelãs.
A Nay sempre me chamava de baixinha, provavelmente porque ela não conheceu a Janaina, que era pelo menos uns 10 centímetros mais baixa que eu, enquanto eu tinha 1.65 a Jana tinha 1.55. E diferente de nós ela tinha a pele mais bronzeada e cabelo preto ondulado.
“Ah, faz tempo mesmo assim, quero dizer a gente não se viu em Janeiro.” Dei de ombros, mesmo sabendo que a desculpa era esfarrapada.
“Se tu diz...” Ela riu. “Tão aí faz tempo?”
“Sim a gente veio domingo .” A Milla explicou. “Como ninguém estava com saco de pegar estrada pra praia, sabendo que as aula começam segunda a gente decidiu vir pra cá. Pensei que vocês estavam em Santa Catarina.” Disse a Milla, os pais dela sempre passavam as férias em Santa Catarina.
“Pois é, este ano a gente decidiu ficar por aqui mesmo.” Ela explicou. “Fomos para Atlântida em Janeiro. Vocês foram para a praia?”
“Não, fomos pra Disney, eu a mãe e a mana.” Contei. “Vamos entrar?”
“Claro, eu preciso comprar algumas coisas que o pai pediu pro almoço.” A Jana explicou.
“Nós também.” Disse a Milla.
Pegamos os carrinhos e entramos assim que a porta automática abriu, bem na entrada tinham cinco caixas, era impressionante que algumas das gurias ainda trabalhavam lá no meu tempo, e a dona do estabelecimento ainda era a mesma.
Como era ainda fevereiro estava muito calor, então primeira parada foi nos freezers onde ficavam os containers de sorvetes, escolhemos um de passar ao rum e um de abacaxi que por sinal é delicioso. Tem pedaços. A Jana pegou um de frutas vermelhas.
A mana pegou a lista e começou a verificar o que precisaríamos comprar, é surpreendente como a Milla é parecida com o pai, passa pelo menos meia hora, sem exagero, para escolher cada produto, fazendo comparação de preço, validade, olhando os rótulos, tabelas de calorias, era um saco, eu rolei os olhos, arranquei a lista da mão dela, e coloquei no carrinho os mais baratos e dentro do prazo de validade, fazendo nossa prima gargalhar.
“A gente vai acabar indo pra casa amanhã se continuar nessa lerdeza.” Reclamei.
“Pior, se a gente deixa a lista com ela, segunda feira ninguém vai nos ver na escola.” A Janaina reclamou.
“Nem me fala, tá empolgada, pra ir pra escola nova?” Perguntei.
“Mais ou menos, eu não gostei da ideia de trocar de escola, mas o pai insistiu que o ensino médio desta é melhor que da minha.” A Jana contou.
“Foi o que eu ouvi também.” A Mila confirmou.
Uma observação, ninguém da minha família sabia sobre a minha orientação sexual, meus pais concordaram que eu provavelmente sofreria algum preconceito se contasse pra eles, o que eu entendi depois de alguns anos, quando eu encontrei o Instagram da Jana e descobri que ela votaria no Bolsonaro. Então foi a coisa certa a fazer não contar pra ela.
“Que turma tu vai ficar Ju?” Minha prima perguntou.
“1 C e tu?”
“1 B, que pena, não vamos ser colegas.” Ela comentou, pude ver que ela ficou chateada com isso.
“Bem sempre tem o recreio, certo?” A Milla pontuou.
“Verdade, inclusive a Lua e a Luci também vão e ficaram na minha turma.” Contei.
“Ah, legal. A Gabrielle da minha antiga escola também vai comigo. Mas ela vai ficar na 1 A eu acho.” Contou a Jana.
“Eu tenho certeza que tu vai fazer amigos legais lá, tu sempre teve facilidade de fazer amizades, qualquer coisa a gente passa os recreios juntas nas primeiras semanas até conhecer todo mundo.” Sugeri. “A Gabi pode passar o recreio conosco também.”
“Eu gosto disso.” A Jana disse se sentindo um pouco mais aliviada.
Terminamos de fazer as compras e pagamos, antes de sairmos contei que o pai me deu uma vespa para andar no sítio, visto que eu sempre gostei de moto, e os meus pais tinham uma carteira pra moto, eu pude ver que ela não comprou muito esta desculpa, mas deixou pra lá, nos despedimos quando saímos do mercado, a Jana chamou um carro de aplicativo, visto que ela tinha bastante sacolas nas mãos.
Eu abri o maleiro, pegamos os capacetes e colocamos as compras, fechei e montamos, liguei a vespa, acelerei e fomos para casa.
“É só eu, ou tu também acha que essa desculpa não vai colar?” Perguntei, colocando as sacolas na bancada do fogão.
“Confia em mim, não é só tu.” Confirmou a Milla soltando uma gargalhada.
“Foi o que eu pensei.” Bufei frustrada. “Quer saber, foda-se, ninguém precisa saber. Quando eu disse que fazia tempo que a gente não se via, era verdade.” Dei de ombros.
“O que houve?” A Milla perguntou, tirando os produtos de dentro da sacola.
“Então, a Jana estudou na minha escola por dois anos letivos e finalizou o ensino médio nos Estados Unidos.” Eu apertei meus punhos com raiva, lembrando daquela época. “Depois disso nunca mais nos falamos.”
“Bah, isso é uma merda.” A Milla comentou.
“É mais do que isso... Aconteceram coisas na escola... eu fui expulsa...” Disse baixinho, sem encarar a minha irmã, minha voz quebrou.
“O que aconteceu?” A Milla perguntou.
Ouvimos os passos da mãe entrando na casa, e eu neguei com a cabeça, apenas disse um depois silencioso, minha irmã fez que sim com a cabeça e continuamos organizando tudo.
“Ah vocês já voltaram, encontraram tudo?” Perguntou a mãe entrando na cozinha.
“Encontramos sim. A Jana também estava lá... ela não comprou a desculpa que eu dei da vespa.” Rolei os olhos, forçando uma risada.
“Bem, o jeito é entrar muda e sair calada.” A mãe comentou, nós assentimos concordando com ela.
Depois do almoço, a mana e eu fomos para a minha casa, o pai foi trabalhar na horta, e a mãe tirar a sesta, a Milla estava curiosa com o que tinha acontecido na minha adolescência, na outra linha do tempo, eu podia entender perfeitamente.
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