POV Rubi

Hoje era dia de matrícula, mesmo a professora nova deveria participar da recepção aos novos alunos, que iriam se inscrever após terem feito a entrevista e sido chamados para se matricular, além dos antigos alunos que viriam fazer a rematrícula então eu estava lá, entrando na escola, meu coração disparava, com o nervosismo.

Cumprimentei o seu Carlos, o porteiro e zelador da escola, e entrei no pátio, onde um círculo de classes e cadeiras fora formado, eles decidiram fazer o processo todo no pátio, assim teria mais espaço para todos.

“Oi. Rubi!” Cumprimentou a professora Ana de Biologia alegremente, eu acenei tentando mostrar animação quando estava sentindo meu estômago revirar.

“Oi Ana!” Cumprimentei.

“Tu tá verde.” Disse a Carmela, se Sociologia, rindo levemente.

“Nervosa, tu sabe que eu sou a novata e inexperiente.” Relembrei minha colega.

“Não fica, eu sei que é fácil falar, mas não faz muito eu tava no teu lugar.” Ana comentou suavemente. “Os primeiros anos parecem um bicho de sete cabeças, e parece um teste cada pergunta dos alunos...”

“Tu só tá piorando as coisas pra ela, agora.” O professor Alberto de educação física disse com o jeitão jovial. “Parece e é um bicho de sete cabeças, os alunos vão te testar, vão encher teu saco e vai ter dias que tu não vai mesmo querer vir, ou vai querer sair correndo da sala de aula, mas sabe como eu resolvi isso?”

“Como?” Perguntei, esperando para ter alguma saída.

“Me aproximando deles, mostrando que eu posso ser alguém com quem eles podem se abrir e contar.” Alberto explicou.

“Verdade, melhor coisa que tem é quando a gente recebe um abraço de um aluno depois de dar um conselho, ou eles vem agradecer por ter ajudado a resolver um problema.” Comentou a Ana.

“Ou mesmo por mostrar apoio, quando eles sentiram que perderam tudo, ou todos.” Pontuou Carmela. “Então, se aproxima dos teus alunos, mostra que tu vai estar lá para eles sempre. Tu ganha o coração deles rapidinho.”

“Certamente.” Confirmou o professor José de história. “E seja criativa, quando eu inventei de dar aula de revolução francesa, vestido de Napoleão Bonaparte, montado em um cavalo de pau! Foi a melhor aula que eu dei.” Contou o Zé sorridente.

“Se tu trouxer assuntos atuais na aula então, coisas que eles curtam, usar YouTube, ou séries de tv, usar diálogos de personagens como exemplos para mostrar na prática, algo mais próximo da realidade deles, sabe?” Comentou o professor Antônio de Inglês. “Eu uso Pretty Little Liars, e a gente faz teorias, e discussão de episódios em Inglês” Contou ele.

“Então vocês estão dizendo que para eles não me odiarem, eu tenho que basicamente pensar como eles.” Comentei rindo.

“Isso! Falar a língua deles, tu vai ser mais que uma professora, mas uma amiga que entende, um ouvido compreensivo, e um ombro para chorar quando eles precisarem.” Confirmou a Carmela.

“Valeu gente! Me sinto muito melhor agora.” Disse eu sincera, já me sentindo aliviada pelos conselhos.

Depois de me acomodar em uma das classes, colocar os papéis que a diretora havia me dado em cima da classe, vi que vários alunos acompanhados pelos seus responsáveis já havia começado a chegar.

Minhas mãos estavam um pouco suadas, como se eu esperasse algum tipo de caos aparecer, quando o primeiro aluno se aproximou com o pai dele, não pude deixar de sorrir ao ver a case da guitarra nas costas dele, isso certamente era um assunto que poderíamos compartilhar.

“Bom dia, meu nome é Professora Rubi.” Disse eu com um sorriso que esperava não ser muito tenso ou nervoso.

“Pedro.” Disse ele com um sorriso amigável. “Tu é professora nova? Eu to aqui desde a sexta série, nunca te vi.”

“Ah sim, eu sou nova aqui, e vou ser uma das professoras de Português, espero que tu acabe na minha turma.” Comentei.

“Geralmente os professores que os alunos são indicados pela diretora, são aqueles que darão aula para a turma deles.” O pai do Pedro comentou com um sorriso simpático. “É um prazer te conhecer, meu nome é João Pedro.” Disse ele apertando a minha mão em um cumprimento. “Que alívio não Pedrito, a primeira professora que tu conheceu é bem simpática.”

“Verdade.” Comentou o meu futuro aluno com um sorriso alegre e olhos verdes brilhavam em empolgação.

“Aqui estão a lista de materiais e materiais didáticos que tu vai precisar para este ano, o livro de regras da escola e a agenda escolar.” Avisei entregando os papeis para o aluno. “Espero que a gente se de bem.”

“Eu também sora.” Comentou ele, com um grande sorriso. “Agora o próximo professor...” Ele perguntou olhando para o pai.

“Professor Alberto de Inglês.” Disse ele com um sorriso leve.

“Certo, até mais professora.” Disse Pedro com um sorriso alegre e seguiu.

“Próximo!” Chamei.

Era uma família, de três, a mãe, o pai e finalmente a filha de cabelos dourados encaracolados, olhos azuis cobertos com os óculos de armação roxa vestindo uma camiseta de banda, algo naqueles olhos turbulentos me pareciam familiares, eu não conseguia ter certeza da onde, ela sorriu timidamente, os olhos um pouco baixos, tentando meio que se esconder atrás do corpo grande do pai.

“Desculpa professora, a Julia está se sentindo meio tímida hoje.” Disse a jovem senhora com um voz suave. “Meu nome é Inês e este é meu marido Osvaldo.”

“Muito prazer em conhecer vocês, e prazer em te conhecer, Julia.”

“Foi mal, sora, mas sabe como é, escola nova... e tal.” Comentou ela, com a voz baixa.

“Ah, eu entendo perfeitamente, também sou nova aqui.” Contei, tentando passar o máximo de tranquilidade para minha aluna, mas meu coração estava acelerado. “Gosta de Alanis?” Ela assentiu animadamente, os olhos arregalados.

“Eu sei que muita gente usa camiseta de banda pra parecer legal, e nem gostam ou conhecem as bandas e cantores que estão estampados!” Ela rolou os olhos, eu assenti rindo levemente. “Eu vejo que tu pode entender e não foi uma pergunta retórica, tipo afirmando o óbvio ou coisa assim, mas a Alanis é tipo uma mentora que surgiu quando a minha vida se tornou um inferno.”

“Verdade, a nossa filha mais velha apresentou, e foi o que tirou a Julinha da cama.” Comentou o pai da Julia, eu tive uma sensação de dejavu, mas fiz de tudo para não mostrar.

“Bem, para mim ela teve o mesmo efeito.” Contei. “Meu nome é Rubi, serei tua professora de português.” Disse eu, Julia esticou a mão e eu segurei, pude sentir uma energia diferente quando nossas mãos se tocaram, evitamos nosso olhos, eu pude ver que Julia estava olhando um ponto nos papéis em cima da minha mesa, soltei rápido. “Hum...” Limpei a garganta tentando me recompor. “Então, aqui é a lista de material escolar, o livro de regras e agenda da escola.”

“Obrigada Ru-“ Ela negou com a cabeça. “Obrigada professora.” Disse ela, tentando se afastar dos pais.

“Julia!”

“Desculpa mãe, eu só vou ali no barzinho, como eu disse antes... eu não tava pronta pra vir.” Disse ela e vi apenas um flash de Julia correndo para longe das mesas.

“Desculpa professora...” Pediu o pai dela um pouco constrangido.

“Tudo bem, foi como ela disse, escola nova, pode afetar qualquer um de maneiras diferentes, eu sei bem.” Prometi.

“Mas prometo que não é nada contra ti professora... meu nome é Luciana, e essa é a minha irmã Luana.” Disse uma das gêmeas vestindo uma camisa rosa claro. “A Ju só tá lidando com algo que aconteceu ano passado, ela disse que não queria vir, nós meio que insistimos.”

“Obrigada gurias, eu fiquei preocupada que pudesse ser eu.” Comentei, a voz baixa.

“Não te preocupa, não é.” Luana disse suavemente.

Quando terminei com todos os alunos que deveria atender na primeira meia hora, fui dar a minha pausa, decidi ir sentar em um banco perto das hortas da escola, para minha completa surpresa, Julia estava lá, eu vi que os pais dela foram para o interior da escola falar com a diretora em particular.

“Desculpa pelo mico de antes.” Disse ela, parando de tocar o violão, não me encarando.

“Posso?” Pedi.

“Claro.” Disse, deslisando para o lado, me dando mais espaço.

“Tenho dez minutos de pausa.” Comentei.

“Que bom, imagino quão estressante deve ser dia de matrícula, só enquanto eu tava no pátio da frente, eu ouvi pelo menos três otários reclamando antes mesmo das aulas começarem, não gostaram da cara dos professores.” Comentou ela soltando uma risadinha, rolando os olhos. “Por essas e por outras eu vou pra o bacharel em letras, não licenciatura.”

“Tu já decidiu?” Perguntei surpresa.

“É, eu amo literatura, gramática me odeia, mas eu me esforço, desculpa, provavelmente eu não vou ser a tua melhor aluna.” Admitiu.

“Eu vou ser professora de literatura também, para a tua turma.” Confidenciei.

“Que bom... desculpa por antes, de verdade, eu não tava pronta pra aparecer aqui... as gurias praticamente me arrancaram da cama, não queria vir.” Explicou. “Aconteceram coisas na outra escola... eu não superei ainda... Alanis me ajudou e me ajuda, e to descobrindo que tocar violão também tá ajudando muito.” Ela disse baixinho. “Talvez um dia eu te conte.”

“Eu realmente consigo te entender, não te preocupa, espero que um dia tu possa me ver como uma professora em quem tu pode confiar e se abrir.” Eu disse pra ela, esperando que esse dia chegasse.

“Eu tenho certeza que sim.” Ela sorriu, os olhos dela se iluminaram.

“Que bom.” Olhei meu relógio e suspirei frustrada. “Hora de voltar.”

“Boa sorte com o bando de adolescentes que não querem nada da vida.” Ela brincou.

“Obrigada. Vou precisar” Bufei, eu sentia que podia ser eu mesma com ela.

“Um conselho?” Perguntou ela, assenti. “Seja tu mesma, mostra que tu tem algo em comum com os alunos, como tu fez comigo lá na frente. Não te esforça pra agradar eles, só seja tu mesma.”

“Obrigada Julia, vou seguir o teu conselho.” Disse eu, um sorriso brincando em meus lábios.

“De nada, vai lá... tu consegue. Se tu tiver nervosa... fecha os olhos e respira fundo. Uma professora minha me disse isso várias vezes, te imagina em um lugar calmo e respira três vezes, com certeza vai te ajudar.” Prometeu ela, e posicionou os dedos no cabo do violão, dedilhando uma melodia suave.

Eu pude sentir meu coração enchendo de conforto e leveza, sorri pra ela, Julia era como um anjo que trazia paz e segurança para as pessoas, levantei, olhei pra ela, ela apenas assentiu, fechou os olhos e seguiu tocando.

Eu me direcionei para o pátio da frente sentindo meu corpo e meu peito relaxarem completamente, eu não tinha certeza se fora a conversa, o conselho, as palavras doces, a empatia, ou algo mais que isso, mas o fato é... que eu sabia que poderia continuar com as matrículas.

POV Julia.

Eu sabia que era um erro, ver a Bi antes do primeiro da de aula, e eu não posso culpar a apenas a Lua e a Luci, ou meus pais por insistirem que eu fosse, sentir a energia do lugar, conhecer meus professores, e colegas novos, que não eram novos, mas deixa quieto.

A verdade é que eu queria ver ela, eu queria ter certeza que a Bibi tava bem, que ela não tinha se afundado em uma depressão, e mais que isso, queria confirmar que ela não me reconheceria.

Por mais que doesse lembrar dela, por mais que fosse pesado ter apenas a mim pra contar, eu precisava ter certeza, sabia que o que vim fazer aqui era importante, sabia que precisava focar, e mais que isso eu sabia que não poderia envolver mais ninguém, especialmente ela.

Quando as gêmeas foram para casa, e os meus pais foram falar com a diretora, eu me esgueirei para o pátio de trás, precisava ficar sozinha, ver a Bi... foi difícil, e o melhor lugar pra mim seria ficar longe de todo mundo. Tive que ignorar meus sentimentos, quando a Bi veio pro pátio de traz, manter uma fachada que eu ainda não havia criado para encarar ela sem surtar ou quebrar, ou pior, me expor.

Eu iria fazer isso sozinha, eu iria proteger, ajudar e guiar eles e ela, sozinha, como um anjo da guarda, e para dar voz aos meus pensamentos, comecei a dedilhar Guardian da Alanis, acompanhando com a minha voz.

‘I’ll be your keeper for life, as your guardian…”

Ouvi passos se aproximando de mim, parei imediatamente, levantei os olhos, para minha surpresa, Andreia estava postada na minha frente, sorri leve.

“Tu é nova.” Disse ela com a voz firme, mas eu pude sentir uma suavidade.

‘Bom trabalho afirmando o óbvio’ Pensei rolando os olhos internamente, sentia falta de implicar com a Deia, especialmente quando ela finalmente deixou a máscara cair na primeira vez, até pediu desculpas. “Tecnicamente.” Brinquei. “Na escola, é eu posso dizer que sou.” Comentei rindo. “E tu? É nova ou é velha?”

“Muito engraçada.” Ela rolou os olhos zombeteira. “Um conselho pra ti, anãzinha, metida a roqueira...”

“Não sou metida a roqueira, eu curto, mas não quero isso pra mim, mas vai lá, qual o conselho?”

“Eu não te conheço, mas pela tua roupa, tu tem cara de quem tá querendo causar por aqui.” Ela apontou, eu realmente estava planejando isso.

“Senta aqui?” Pedi batendo no espaço ao meu lado.

“To bem em pé.” Ela atacou.

“Tu não precisa tentar me intimidar pra colocar medo, sabe? Eu sofri bullying, só duas professoras me protegeram e só não foram demitidas porque acionaram a SEC antes.” Comentei ela ofegou.

Ela finalmente sentou ao meu lado, ainda um ar altivo, mas sabia que não iria durar muito, conhecia muito bem a fachada da Andreia.

Respirei fundo “Eu não vou deixar isso acontecer de novo esse ano, nem nunca mais... eu não vou entrar no teu caminho porque eu quero me dar bem com todo mundo, mas se alguém que pode ser tu ou qualquer outro...” Disse eu encarando ela com os olhos determinados. “vier pegar no meu pé ou das minhas amigas... eu certamente não vou me esconder atrás de ninguém para nos defender.”

“Eu respeito isso.” Disse ela, a máscara começando a cair. “Andreia Paiva-Goulart.”

“Julia Almeida-Gomes.” Apertei a mão que ela me oferecia.

“Não espera que eu sente contigo no recreio, mas... eu não vou entrar no teu caminho, se tu não entrar no meu.” Disse ela com a voz firme.

“Tudo bem, mas posso te dar um conselho?” Perguntei, ela assentiu. “Quando tu for zoar alguém pela aparência e altura... tenta não usar um problema médico real... esse tipo de comentário pode afetar alguém que tem esse tipo de problema... quer me zoar? Me chama de Hobbit, baixinha, gnomo, até Leprechaun se tu quiser, mas anã...” Torci o nariz. “Não é muito legal, tá?”

“Vou pensar em algum outro apelido, senão tu vai me chamar de Santana Lopez, sem nem me conhecer.” Disse ela.

“Tu tá mais pra Quinn.” Eu ri alto, ela assentiu. “E eu gosto da San, ela tem uma história legal e várias camadas, ela não é uma otária, nem a Quinn, à primeira vista eu teria te chamado de Regina George.” Disse eu rindo alto, ela me fulminou com os olhos. “Mas tu não é como ela, então como eu gosto da Quinn e da San, eu diria que se as duas tivessem uma filha... tu seria a filha delas.” Brinquei, ela gargalhou.

“Concordo, acho que a gente vai se dar bem, Pixie.” Disse ela zombeteira.

“Taí, gostei... eu vou pensar em um legal pra ti então.” Comentei, analisando o rosto dela.

“Acho justo.” Comentou ela, assentindo.

Andreia era bonita, os cabelos pretos lisos, presos em um rabo de cavalo, mostravam bem o rosto dela, os olhos verdes tinham um brilho de desafio, lembravam a Kate McGrath como Morgana em Merlin, eu já tinha o nome perfeito pra Andreia, ela vestia um vestido beje de manga longa, estremeci levemente sabendo o que manga longa em pleno verão significava, que ia até os joelhos, a pele bronzeada do sol dava um ar mais jovial a ela.

“Já que tu me chamou de Pixie, acho justo te chamar de Lady Fae, ou só Fae.” Comentei.

“Lady Fae, eu gosto disso... eu sei que não é ofensa, porque o termo Fae vem do povo Feérico da Irlanda, um nome diferente para fadas, podem ser consideradas cruéis, mas também, são simbolizadas como protetoras.”

“Que bom, temos algo em comum além de Glee.” Comentei sorrindo levemente, ela arqueou a sobrancelha. “Nós duas temos interesse em mitologia.”

“Verdade... só um conselho... tu deveria investir nisso.” Ela apontou para o violão.

“Só como hobby, amo música, mas quero me tonar uma escritora e tradutora um dia.” Expliquei.

“Legal, eu vou voltar pra lá, vai comigo?” Perguntou.

“Muito cheio, vou ficar aqui mais um pouco. Só um pedido?” Perguntei. Ela assentiu. “Não espalha que eu sofri bullying tá?”

“Não te preocupa, eu vou manter o teu segredo, em retorno.” Ela me encarou, assenti. “não espalha que eu posso ser legal.” Exigiu ela, a voz firme, não fria.

“Todo mundo tem uma história por traz.” Dei de ombros. “eu aprendi isso já faz um tempo, então não te preocupa, teu segredo tá salvo.”

“O teu também.” Prometeu e levantou do banco.

Não podia acreditar que eu me distraí a tal ponto que me deixei ser pega tocando violão, mas a Andréia não iria sair espalhando, ela se manteria afastada no primeiro mês de aula, manter a fachada de menina popular que precisa se manter no topo, ela não seria legal com uma novata, então eu tinha certeza que este segredo também tava salvo.

Meus pais me enviaram uma mensagem avisando que a matrícula já havia sido feita, também falaram com a diretora, nós finalmente iríamos para casa. Fiquei calma, como eu conhecia a escola como a palma da minha mão, sabia como chegar no portão evitando o burburinho do pátio da frente, coloquei o violão na case, pus nas costas e segui para o portão pelo prédio principal, usando uma das portas laterais.

A mãe me fulminou assim que me viu, eu sabia que eles ficaram constrangidos, mas eu tentei convencer todo mundo a me deixar quieta em casa, apenas dei de ombros ignorando o olhar assassinos.

“Onde tu te enfiou?” O pai perguntou.

“Explorando, afinal eu vou estudar aqui, queria saber como andar dentro da escola.” Comentei caminhando na frente deles.

Não ia deixar meus pais pra traz, mas eu culpava eles, pelo menos parte de mim culpava eles, mesmo que eles não tivessem como saber a real razão de eu não querer ir hoje.

O pai nem insistiu para eu ir junto comprar o resto dos materiais escolares, o que eu não havia comprado em Orlando, então apenas me deixaram em casa e foram na papelaria mais próxima.

Queria ir direto pro meu quarto anotar os nomes dos professores nos cadernos, aparentemente apenas dois professores diferentes da primeira vez, eu teria duas extracurriculares, música e japonês, que seriam no turno da tarde em alguns dias da semana, assim como Judô, o bom é que não precisaria desistir do cursinho de Inglês.

“Como foi lá?” A Milla perguntou quando eu entrei em casa.

“O inferno que eu imaginei que seria, a mãe veio me fulminando até em casa.” Dei de ombros. “Era pedir muito pra eles só me deixarem sozinha? Cara! Eu nem tinha que tá lá pra isso.”

“Eu sei, mas pais querem o melhor pros filhos, mesmo que eles não entendam que nem sempre o que eles acham ser o melhor, realmente é.” Ela comentou, me abraçando e beijando o topo da minha cabeça.

“Conheci a professora de Português e literatura.” Contei, sorrindo levemente. “Ela parece legal.”

Como se eu já não soubesse. “Conheceu mais algum?”

“Não me dei a chance de fazer isso, eu queria ficar sozinha.” Esclareci. “Mas já sei os nomes deles, tá nas listas que a professora Rubi me deu, então eu já vou passar pros cadernos de cada matéria.” Avisei.

“Tá, quer comer alguma coisa?” Perguntou ela, neguei com a cabeça.

“O bar da escola tava aberto, comi uma coxinha.” Menti só pra ela não se preocupar, eu estava certa que havia aprendido a mentir pra mana ao longo dos anos.

“Eu sei que tu tá mentindo, tu não me engana.” Ela acusou, bufei frustrada. “Quando tu sentir fome, desce. Eu comprei lanche, tá na cozinha.”

“Valeu.” Disse eu com a voz leve.

Fui pro meu quarto, tranquei a porta tirei a case das costas, coloquei o fone de ouvido para abafar o som e comecei a tocar, nossa música, minha e da Bi, senti as lágrimas caindo como uma chuva torrencial, os soluços saindo pela minha garganta, balançando meu corpo, mas não parei de tocar.

“Eu preciso conseguir fazer isso sozinha. Sem ti Bibi.” Sussurrei assim que a melodia terminou.

Finalmente consegui escrever os nomes das matérias e professores nos cadernos, coloquei o DVD de Supergirl no notebook, sentei na cama com ele nas pernas, era bom que de alguma forma tocava os DVD’s das séries que ainda não existiam no notebook, então comecei a maratonar a primeira temporada de novo, apenas pra me distrair do turbilhão de emoções que foi hoje.