Encontro de Almas- volta às origens
8 Final de semana
Notas iniciais
POV Julia
Quando eu mencionara a sugestão das gurias sobre uma mudança de estilo, meus pais ficaram bastante empolgados, a mãe, o pai e a mana inclusive me deram algumas sugestões dos acessórios que eu poderia usar.
“Julinha, se tu quiser furar a orelha, colocar um segundo e terceiro furos, por mim eu não vejo problema algum, mas piercing, é muito cedo. Mesmo que tecnicamente tu não tenha mais quinze anos...”
“Mãe, eu não colocaria um piercing nem que eu tivesse 50 anos, a minha única tatuagem eu fiz quando tinha 21, ela sumiu por motivos óbvios, mas na hora certa vai aparecer, não te preocupa, eu não vou fazer furos desnecessários no meu rosto, ou corpo, não curto.” Admiti.
“Ufa, isso é um alívio. Mas qual é a tatuagem?” Perguntou o pai com um sorriso divertido e os olhos brilhando.
“O logo da Alanis no tornozelo direito.” Contei.
“Ah que legal.” A Milla disse com um sorriso leve.
“Tudo porque tu me apresentou ano passado, eu carrego os ‘ensinamentos’ dela comigo, literalmente. Alanis fez e faz até hoje uma diferença enorme na minha vida.” Contei.
“Fico feliz de ouvir isso.” A Milla disse aliviada.
Sábado finalmente chegou e eu iria junto com meus pais e a Milla encontrar as gêmeas no shopping Total, nós sabíamos que lá teria umas lojas mais populares, para pessoas de todos os estilos.
Saímos de casa antes do almoço, decidimos almoçar na praça de alimentação e fazer as compras depois, eu estava empolgada, seria legal uma ‘mudança’ de estilo, embora muitas das roupas que eu compraria agora eu tinha em casa, mas deixara pra traz.
Senti a nostalgia bater quando chegamos no estacionamento do shopping, era muito estranho ir no banco de trás do carro, com o pai dirigindo, e a mãe ao lado dele, eu estava tão acostumada ou ir na vespa, ou ir no carro da Bi, no banco da frente.
“Eu tinha esquecido que esse shopping era tão grande.” Comentei levemente.
“Quanto tempo faz que tu não vai no total?” A Milla perguntou surpresa.
“Hum, acho que desde que eu me mudei pro sítio, lá por 2026, quando a gente vinha em Porto Alegre era pra visitar mesmo, então se a gente ia no shopping, era nos mais novos.” Contei e saímos do carro.
Entramos no prédio e fomos direto pra praça de alimentação, era muito nostálgico relembrar os antigos restaurantes que tinha, novos substituíram os antigos, embora o Mini Kalzone e o Subway ainda continuassem.
“Então onde vocês querem almoçar?” O pai perguntou.
“Eu sei que tecnicamente, a gente passou quase um mês a base de hamburger, mas na realidade, pelo menos na minha eu não como um hamburger faz uns três meses, ou mais, era dezembro quando eu vim, então acho que desde junho, se importam se eu comer no Mc Donalds?” Perguntei encarando a banquinha no shopping, salivando.
A Milla não se aguentou e caiu na gargalhada. “Tu tá fazendo dieta ou algo assim?”
“Não, em Nova Santa Rita tem sushi, tem escola de música, tem umas lancherias tri boas, até pizzaria, mas Mc Donalds, Burger King, Bobs, só indo pra Porto Alegre ou Canoas mesmo pra comer, e a gente não é loca de pegar a estrada só pra comer hamburger.” Eu expliquei, eles assentiram gargalhando alto.
“Tá, eu te acompanho, porque eu não passei o mês comendo hamburger.” O pai zombou.
“Valeu, pai.” Disse eu animada, os olhos arregalados. “To louca pra comer um big tasty.” Disse animada e nos apressamos até a banca de comida.
Minha mãe e a Milla decidiram por comida chinesa, então nos separamos para pegar o almoço e nos encontrarmos na mesa. Eu havia marcado de encontrarmos as gêmeas em uma das lojas lá pela uma da tarde, então aproveitamos o almoço juntos.
Conversávamos sobre as férias quando eu vi alguém familiar carregando uma bandeja de almoço, senti meu coração acelerar, não imaginei que veria aquela pessoa ali tão cedo, meus olhos encheram de lágrimas, é claro que ele não me reconheceu, mas quando os nossos olhos cruzaram eu pude ver ele me encarando uma segunda vez.
“Ju?” A mãe perguntou preocupada.
“Ah, é um professor que vai me dar aula na faculdade.” Comentei sem tirar os olhos dele.
O Jorge continuava o mesmo, ou pelo menos não mudaria o estilo depois de velho, as mesmas camisas e calças jeans, sorri nostálgica, nem podia acreditar que estava vendo ele de novo. Funguei, engoli em seco, e dei uma mordida no meu hamburger, soltando um gemido de satisfação.
“Gente! Fazia tanto tempo!” Eu exclamei, meus pais e minha irmã não puderam deixar de rir alto.
No fim o passeio rendeu muito bem, a mãe me deu um coturno preto, não os pesados, algo mais delicado, uns dois jeans rasgados, uma jaqueta jeans com tachinha, comprei algumas cartelas de brinco autocolante para usar no nariz, e fiz dois furos na farmácia do shopping mesmo, escolhi alguns brincos para segundo furo.
“Não quis comprar camiseta amiga?” Perguntou a Lua que passava gelo na orelha recém furada, não pude deixar de rir, ela não tava acostumada com isso.
“Ah eu comprei umas camisetas do Hard Rock lá em Orlando e em Miami, não sei se vou comprar de banda, tenho pelo menos três da Alanis, acho que tá bom.” Comentei.
“Mas eu certamente vou comprar um all star.” Anunciou a Luciana, quando paramos em frente a uma loja de tênis.
“All Star é um ótimo tênis para o que vocês estão planejando.” A mãe comentou.
“Verdade.” Concordou o pai.
As gurias encararam eles completamente incrédulas. “O que? A gente já teve a idade de vocês.” A mãe deu de ombros.
Eu fiquei muito empolgada que na farmácia tinha umas tintas spray sem amônia, saía no banho, poderia usar isso só quando eu quisesse, então escolhi algumas cores diferentonas.
Foi bem divertido passar a tarde renovando o guarda-roupa para o novo ano escolar, tinha certeza que iria me divertir este ano, ainda consegui convencer a mãe a me deixar comprar cores mais escuras de sombras, rímel e delineador, nada de preto dessa vez. Agora eu estava pronta e com uma perspectiva de concertar os erros do passado, eu estava empolgada.
POV Rubi
Eu estava bem empolgada quando sábado finalmente chegou, marquei de ir ao barzinho de sempre lá na Cidade Baixa com a Regina e o Flavio, fazia um tempo que não nos encontrávamos.
A Re dava aula na escola metodista que é integrado com o centro Universitário que o Flavio dá aulas na faculdade de Fisioterapia. O Flavio é por volta de cinco anos mais velho que nós duas, mas como nós éramos vizinhos quando crianças, sempre fomos amigos, inclusive estudamos na mesma escola.
Por mais surpreendente que possa ser, a noite estava bem agradável, não muito quente, mesmo que fosse início de fevereiro ainda, decidi não me produzir muito, não estava indo lá para conhecer alguém ou ter um noite com uma mulher aleatória, só queria sair para beber com meus amigos mesmo.
Cheguei no barzinho por volta das dez da noite, uma blusa de alcinha vermelha, calça jeans e um sapato salto baixo, o barzinho era pequeno, com mesinhas dentro e na calçada, além de um pequeno palco onde uma banda cover tocava música ao vivo.
“Hei Bi!” Ouvi a voz da Regina e ela acenou.
A Re já sentada com uma long neck e um copo meio cheio de cerveja, rolei os olhos, era impressionante o quanto a Re gostava de cerveja. Me juntei a ela, depois de um longo abraço, sentei na cadeira ao lado dela.
“Oi Re! Nem esperou.” Zombei, ela deu de ombros.
“Tá quente.” Ela sorriu e tomou um gole.
“Nem tanto.” Pontuei. “Como foi a semana de matrícula?” Perguntei, já acenando para um dos garçons, pronta para pedir uma bebida.
“Como esperado, muita gente, pais fazendo um monte de perguntas e alunos que queriam estar em qualquer lugar menos lá.” Disse a minha amiga rolando os olhos.
“Não foi muito diferente da minha semana então.” Ri alto.
“Oi, querida!” O Germano exclamou animado, me dando um beijo na bochecha, ele é o garçom que sempre nos atende.
“Oi Gê!” Cumprimentei animada.
“O de sempre?” Perguntou ele, neguei com a cabeça.
“Algo leve, que não seja cerveja, o que tu me recomenda.” Perguntei.
“Hum, se tu não quer o de sempre... talvez uma garrafinha de Smirnoff Ice.” Sugeriu ele.
“Ah, é perfeito para o verão, levinha.” Comentei sorrindo. “Duas pedras de gelo, sem limão.”
“Tá, já venho com a tua, quer mais uma gelada, Re?” Perguntou ele balançando a garrafa, mal dava pra ver o resto do líquido dentro.
“Chegou que horas?” Perguntei rindo, impressionada.
“Há uma hora, eu fiquei entediada e vim.” Ela deu de ombros rindo. “Trás mais uma sim Gê.” Ela pediu.
O Flavio mandou uma mensagem avisando que não conseguiria chegar, algo com a mãe dele, apresentando outra mulher em um jantar em família, rolei os olhos ao ler alto para a minha amiga.
“Eles nunca vão aceitar que ele é gay, vão?” Perguntou a Re.
“Provavelmente não, acho que ele só segue aceitando isso para não deixar de falar com os pais, pelo menos, ele ainda é convidado para jantares em família.” Comentei e virei para o Germano com um sorriso, quando ele voltou com as bebidas.
“Essa é a pior parte, né?” Perguntou ele, entregando a garrafa para a Regina.
“Nem fala, mas pra ele deve ser ainda pior, porque os pais ficam forçando uma situação, provavelmente isso só machuca ele.” A Regina comentou.
“Não me diz, eles tão apresentando outra guria?” Germano perguntou indignado.
“É, aparentemente.” Bufei. “Eu não sei o que é pior, o teu pai te dizer ‘eu não posso aceitar algo que vai contra minhas crenças’ quando tá te entregando a chave do teu primeiro apartamento, e a tua mãe dizer ‘Eu não tenho mais filha’, ou a situação em que o Flavio se enfiou.” Comentei.
“Ai amiga! É uma pior que a outra, nem sei! Eu saí de casa por conta própria, fui morar na casa dum amigo até conseguir meu primeiro emprego em uma loja de tecnologia, um ano depois, eu tava cursando Informática na UFRGS e procurando apartamento para alugar, meus pais só ficaram sabendo depois da formatura... e amam o meu namorado!” Germano exclamo rindo.
“Mas é uma gazela mesmo.” Debochei. “Feliz por ti, de verdade.”
“Valeu amiga, e vocês, ninguém a vista? Mulher, homem?” Ele perguntou louco para ouvir as fofocas. “Quero detalhes.”
“Tu não tem que trabalhar não?” Regina brincou.
“Uma hora de folga.” Disse ele animado.
“O que tu ainda tá fazendo em pé então? Não vai ficar mais alto, sabia?” Afirmei rindo. “Puxa a cadeira e senta aí.” Pedi.
“Já volto querida, vou pegar uma batida pra mim!” Ele avisou e saiu saltitando só pra fazer a gente rir, por causa do apelido.
“O Gê não existe.” Comentei, rindo alto, tomando um gole da minha bebida direto do bico.
“Nem fala, é engraçado né? A gente conheceu ele no ensino médio.” Comentou ela.
“Eu acho que essa é uma daquelas amizades que dura pra sempre, mesmo que a gente não se veja sempre.” Assumi.
“Eu sei. Espero que sim.” Ela concordou.
O Gê sentou conosco e ficamos conversando até o final do intervalo dele, para a minha surpresa, assim que ele levantou para voltar ao trabalho, Carmela e a Ana entraram no meu campo de visão, sorri grande, e acenei, Regina virou para ver para quem eu acenava.
“Rubi! Quem diria que te encontraríamos hoje.” Carmela cumprimentou animada.
“Pois é, foi coisa de última hora.” Contei. “Essa é a Regina, minha melhor amiga, Re estas são as professoras Ana e Carmela da escola que eu dou aula.”
“Ah, prazer em conhecer vocês, finalmente pude por os rostos nos nomes, Rubi me contou sobre vocês e os colegas.” A Re contou. “Querem sentar aqui?” Ela apontou para as cadeiras extras.
“Se vocês não se importarem? O Alberto recomendou esse barzinho, disse que é o melhor.” Contou a Ana.
“É o melhor mesmo, a música é boa, assim como os aperitivos e a bebida.” Concordou a Regina.
“Eu pude ver isso, a banda toca MPB.” Comentou a Carmela, encarando o palco.
“Uhum, só os LGBT’s da MPB.” Esclareci.
“Ah, isso é incrível, só música boa mesmo.” Ana sorriu já acenando para o garçom trazer bebidas e aperitivos.
A noite foi bem divertida, foi legal conhecer mais sobre as minhas colegas, e o melhor foi que a Regina se deu super bem com elas. No final da noite já estávamos marcando a próxima noite, eu estava bastante empolgada.
POV Julia.
Como as aulas só começariam na penúltima semana de fevereiro, o pai sugeriu que passássemos as próximas semanas no sítio, eu não podia estar mais grata, mesmo sabendo que a Bi não estaria lá me esperando, nem a minha casa do jeito que nós havíamos deixado, eu estava aliviada, era como se eu voltasse para um lugar familiar e só meu.
Eu não podia estar mais animada com a ideia, decidi inclusive passar algumas noites na casa de hóspedes, visto que no futuro seria onde eu moraria, meus pais entenderam e concordaram, afinal era no mesmo terreno onde a casa principal ficava, e seriam apenas algumas noites mesmo.
Quando o carro passou pelo portão e o pai estacionou, eu senti meu corpo inteiro relaxar, e para minha completa surpresa, e total incredulidade dos meus pais e minha irmã, a minha vespa lilás, estava lá, estacionada onde eu havia deixado, ao lado da casa.
Senti as lágrimas começarem a se formar, todos os sentimentos que eu vinha segurando desde que eu voltara ao passado, finalmente transbordaram, eu caí de joelhos na grama macia, as mãos espalmadas e o choro explodiu, os soluços vieram com força, balançando meu corpo convulsivamente, senti os braços calorosos da minha irmã em volta do meu corpo, isso foi apenas a desculpa perfeita para chorar mais ainda, mais alto.
Quando eu finalmente me acalmei, sorri um sorriso enorme, mesmo que eu soubesse que meus olhos estavam vermelhos e inchados, e as bochechas marcadas com as lágrimas.
“Quem quer dar uma volta?” Perguntei, levantando apontando para a vespa.
“Vai tu primeiro.” A mãe sugeriu. Eu pude perceber que ela podia entender bem a explosão de emoções que eu estava sentindo.
“Valeu mãe.” Disse eu, dei um abraço apertado nela e caminhei um pouco hesitante em direção a minha vespa.
A chave estava lá, assim como os dois capacetes no guidão, coloquei o da Bi no compartimento embaixo do banco, vesti o meu na cabeça, e liguei o motor, dei partida, o pai abriu o portão pra mim, e como se nada tivesse mudado, e como se eu não estivesse no meu corpo de quinze anos, com a mesma habilidade da minha eu adulta, eu voei pela estrada de chão batido. A sensação de nostalgia e ao mesmo tempo liberdade, não podia ser melhor, ou mais bem vinda.
Voltei para casa, me sentindo completamente renovada, meus pais tinham um sorriso nostálgico nos lábios e combinamos que daríamos algumas voltas depois do almoço.
“Eu não faço a menor ideia de como ela veio comigo, mas eu definitivamente estou mais que grata por ela ter vindo junto.” Admiti.
“Eu pude perceber isso.” A mana brincou. “E tu realmente anda bem com ela, né?” A Milla comentou.
“Tu não tem ideia de quanto tempo levou para eu ter a confiança que eu tenho hoje. Eu tirei carteira pra moto em 2022, só consegui comprar ela em 2024, depois que consegui um emprego com carteira assinada e um salário bom, então eu tava hesitando um monte, foram meses de prática.” Contei.
“Imagino, dois anos sem praticar, é normal não ter muita confiança no começo mesmo.” A mãe mencionou.
Eu fui para o meu quarto no segundo andar, onde tinha um grande guarda-roupas, uma escrivaninha, cama de solteiro e uma mesinha de cabeceira, além da sacada que dava direto para o pomar de árvores frutíferas que o pai havia plantado, a sensação de receber o ar fresco e o delicioso aroma de flores e frutas, era incomparável.
“Um dia, eu vou ter isso de novo, um dia eu vou morar aqui de novo, e tu vai estar comigo... Bibi.” Eu sussurrei, sentindo algumas lágrimas caindo dos meus olhos.
Depois que desfiz a mala e coloquei minhas roupas no armário, fui tomar um banho, vesti uma roupa confortável e desci para a cozinha, onde a mãe e a mana já estavam começando o almoço, o pai foi para a oficina dele, onde ele gosta de passar a maior parte do tempo, não tenho ideia do que ele fica fazendo lá.
Eu tinha total certeza que as próximas semanas certamente seriam as melhores, e eu iria certamente aproveitar ao máximo.
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