Emissário do caos
6 Lua cheia
–Então temos um novo amigo para brincar?.
Escuto o que Scott diz ao telefone e tento me recompor, levanto da cadeira ainda pensando no que aconteceu. A faca ensanguentada em minhas mãos, acordar no meio de uma floresta, o noticiário relatando a morte das pessoas com a frieza que se lê uma lista de compras. Meu corpo começa a ficar leve e a cozinha começa a girar ao meu redor. Ja sabendo do que se tratava me apoio com as mãos á mesa, fecho os olhos puxando e expelindo o ar de meus pulmões com força.–Hey Dylan, temos problemas, tem um novo assassino na cidade.–É, eu vi no noticiário.Me esforço para não parecer que estou a ponto de ter um A.V.C, tomo um copo de água me acalmando.–Irmãozinho, você ainda não deve ter aprendido tudo, mas eu consigo escutar seus batimentos, estão parecendo uma escola de samba.Ta tudo bem?.–Não, quer dizer, sim, eu só quero ficar um tempo pensando.Subo as escadas correndo, pego o telefone digitando desesperadamente o número de meu pai. O que eu fiz ?. Não conseguia parar de repetir a mesma pergunta, mas em resposta minha memória parecia limpa como uma folha em branco.A ligação cai em caixa postal. Maravilha pai, está perfeito aqui sem a sua ajuda. Miro a parede e preparo para jogar o celular contra ela, paro por um segundo.Eu não fiz nada, só preciso manter a calma e entender o que está acontecendo.Coloco minha jaqueta e saio sem me despedir do Scott, subo na bicicleta seguindo caminho em direção á floresta. Adentro em meio às árvores, com dificuldade para pedalar devido á terra que havia ficado úmida e lamacenta, decido seguir o resto do caminho a pé. Empurrando a bicicleta até o centro da floresta onde acordei, começo a procurar por qualquer coisa que me faça lembrar do que aconteceu. Agacho cavando a terra fria, sem nada para encontrar, desisto quando o cansaço toma conta de meu corpo.O que eu estava fazendo aqui ontem?. Olho para o lado vendo uma rosa branca que crescia sozinha em meio aquela terra, admirado toco em uma de suas pétalas, me afasto assustado quando a flor reage a meu toque tomando um tom seco e morrendo. O que está acontecendo comigo?.Levanto saindo da floresta o mais rápido que posso. Subo na bicicleta passeando pelas ruas em pedaladas lentas, esforçando-me ao máximo para ignorar tudo de estranho que vem acontecendo desde que cruzei a entrada dessa cidade.–Dylan!Escuto me chamarem, quebrando a imersão em que eu estava em meus pensamentos, freio a bicicleta procurando quem havia falado comigo.–Oi!Respondo entrando na lanchonete vendo todo o pessoal da alcatéia junto, sento na ponta da mesa pedindo um café . A garçonete anota meu pedido de má vontade e volta com uma xícara de um café minguado e sem cor. Dou um gole seguido por uma careta.–Horrível.Afasto o café de perto.–O café daqui é ruim mesmo, devia ter experimentar o milkshake, é bem melhor.Escuto Stiles e sorrio em resposta, pego meu celular e vejo o canto inferior da tela marcando lua cheia.–Hoje é lua cheia.Engulo em seco olhando pros lados, desviando meu foco do decote de Lydia que a deixava mais sensual do que de costume.–Isso mesmo, Liam,Hayden e o Isaac ainda não conseguem controlar a transformação muito bem, quero que ajude a gente hoje.Olho pro Sccot sem entender muito bem seu pedido.Ele quer que eu ajude?, sério?, é primeira vez que estão colocando confiança em mim.–Claro, vou gostar muito, no livro do Deaton tem algumas coisas que vão ajudar.Hayden continua a passar chantili no nariz de Liam, os dois rirem como se fossem o casal mais apaixonado do ano. Acho que esses dois nem sabem que estou aqui.–Então cunhadinho, esta gostando da cidade?Lembro do noticiário, dos desmaios e do encontro com seu avô assim que Allison pergunta.–Claro, estou aproveitando demais.Scott me olha com cara de desaprovação.Droga, esqueci que não posso mentir perto deles. Levanto da mesa deixando a minha parte paga.–Bom, ja vou indo, encontro vocês a noite.–Vamos nos encontrar no antigo albergue, não se atrasa viu?Aceno com a cabeça em confirmação assim que escuto Stiles e saio da lanchonete pegando minha bicicleta.–Hey, eu vou com você.Me viro vendo Scott logo atrás de mim sorrindo, balanço a cabeça em negativa levantando a bicicleta do chão.–melhor não cara, eu to precisando ficar sozinho.Viro de costas, pronto para subir á bicicleta e seguir caminho quando ele segura meu pulso firmemente.–E desmaiar mais uma vez? Nem pensar, eu não vou mais tirar os olhos de você rapazinho.–Eu não sou uma criança!.Solto sua mão de meu braço bruscamente, ele me olha sem entender o motivo da minha atitude.–Eu....eu só preciso ficar sozinho......desculpa mesmo.Subo na bicicleta e pedalo sem olhar para trás, sinceramente nem eu sabia o porque de ter agido com ele daquela maneira. Lembro de mais cedo, a vontade de jogar o celular na parede.Eu nunca fui desse jeito, está tudo bem, só preciso de uma boa noite de sono.
Scott ja me esperava quando cheguei em casa, sentado na escada da entrada. Assim que ele me vê se levanta entrando em casa sem dizer uma palavra, entro logo atrás. Eu devia falar pra ele o que está acontecendo. Deito no sofá procurando alguma coisa sobre a lua cheia no livro que ganhei do Deaton, a cada página que virava era uma porção de poeira que eu acabava aspirando, seguida de um espirro constante.Acordo com o livro em meu peito, coço os olhos levantando, seguro o celular em mãos focando a visão que ainda estava um pouco turva. Seis da tarde, preciso me arrumar pra encontrar eles.Tomo um banho demorado deixando a água quente tocar meu corpo, torcia para que ela levasse embora aqueles ultimos dias, queria que eles escorressem pelo ralo assim como a espuma da esponja. Desço as escadas vestindo minha jaqueta da equipe de canto da escola, há alguns anos eu e alguns colegas montamos uma banda, tínhamos até certo sucesso, mas eles queriam um vocalista animado, que pudesse correr pelo palco prendendo a atenção de todos os expectadores, não um cadeirante que precisasse de ajuda para subir e descer do palco toda vez que fosse se apresentar. A jaqueta é a única lembrança que sobrou daquele tempo, meu primeiro pensamento foi em joga-la fora quando fui expulso da banda, mesmo assim o tempo que estive com eles foi um dos melhores que ja tive. Aposto que agora eles iriam engasgar com o próprio veneno quando me vissem correndo por aí.Interrompo meus pensamentos quando noto que não tem mais ninguém em casa, caminho até a cozinha encontrando um prato de lasanha. Bom, fui eu quem pedi para passar um tempo sozinho. Após comer lavo o prato seguindo de bicicleta até o local marcado.Abro o portão com dificuldade por conta da ferrugem que corroeu algumas partes do trilho, entro encontrando todos rindo em roda.–Não precisa ficar acanhado Dylan, ainda temos meia hora para a lua.Escuto o que Lydia diz e em seguida ela estende sua mão para que eu me aproxime, sento em meio a eles, observando todos felizes e animados, como podem estar assim sendo que logo terão seus amigos transformados em feras raivosas?.Estavam contando da época em que Jackson, o ex namorado da Lydia havia se transformado em kanima e atormentado o pessoal por um bom tempo. Apenas pelo fato de ele ter magoado a Lydia já era motivo suficiente para eu odia-lo, ainda mais agora sabendo de tudo que fez.Pouco antes do ápice da lua todos levantam, ajudo o Stiles a acorrentar o Isaac em um pilar de aço.–Quando começar eu quero que se afaste um pouco pequeno, O.K?Escuto Isaac e sorrio apertando as correntes, concordo com a cabeça esperando a lua começar a surtir efeito neles. A transformação dos três começa lentamente, seus olhos brilhavam em tom amarelo ouro, logo suas presas e garras saltavam para fora e se debatiam sem parar.Hayden gritava como se estivesse sendo torturada do pior jeito, Liam rugia com ferocidade de um leão preso em cativeiro, o único que havia parado de se debater e entrado em um silêncio mortal era Isaac.Todos se aglomeram ao redor do Liam quando suas correntes se quebram, me mantenho afastado, nunca entrei em uma briga antes, não seria dessa vez que nocautearia alguém.Scott segura um braço, Malia o outro, Allison e Lydia também estão preparadas para entrarem na briga a qualquer momento. Com um forte tranco, Isaac quebra as correntes que o prendiam, ninguém o viu fazer isso além de mim, estavam todos focados no Liam quando ele me ergueu do chão, segurando pelo meu pescoço e me colocando contra a parede. Lembro do meu primeiro encontro com o lobisomem em São Francisco, o medo corria em minhas veias, trazendo uma sensação de frio extremo, suas garras penetram em meu abdômen lentamente, grito de dor sentindo o sangue molhar minha camiseta, ele larga meu pescoço preparando sua mão livre para uma coisa pior, eram suas garras, que me mantinham suspenso no ar contra a parede.–Dylan!.Escuto o grito de Scott, sua voz modificada pela transformação e pela ferocidade, ele corre em minha direção o mais rápido que pode, Isaac mira meu pescoço novamente, mas sua intensão não é mais o sufocamento, consigo ver a sede de sangue em seu olhar. Por apenas um segundo sinto uma faísca de raiva, as garras de Isaac cortavam rapidamente o ar mirando minha garganta. Acerto seu estômago com um soco, o que o leva a ser jogado a alguns poucos metros de distância.Caio no chão assim que ele se afasta e fecho os olhos sentindo a dor tomando conta do meu corpo.Scott olha o que eu faço com o Isaac e se aproxima ajoelhando do meu lado, ele toca o machucado fazendo pressão no mesmo, as veias em suas mãos ficam salientes por alguns segundos e minha dor se alivia de um modo inexplicável.–Como eu fiz aquilo?–Sinceramente Dylan, não sei, acho que não passa de uma explosão de adrenalina. Todos conseguem retomar o controle, Isaac se aproxima, a preocupação era visível em seu rosto.–Droga pequeno, vai melhorar, desculpa mesmo.Me esforço para sorrir tentando demonstrar que ja estou bem.–Não tem problema, estou comemorando que consegui me virar sozinho pela primeira vez.Levanto com a ajuda deles, manco um pouco entrando no jeep, Lydia senta ao meu lado, seu sorriso fraternal não saia do rosto.–Foi muito forte hoje Dylan.Ela segura minha mão, mesmo eu sabendo que para ela isso não era nada demais, sinto seu calor se espalhando por todo meu corpo. A noite trouxe algo bom pelo menos. Sorrio virando de lado, pego no sono enquanto Stiles dirige horrivelmente a 140 km/h.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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