Bernardo

Ele tinha ido em casa buscar uma muda de roupa para Emília, quando voltou soube que ela tinha passado mal e tinha sido atendida na emergência do hospital ali em frente, ele está indo para lá quando Carol o aborda.

—Senhor Bernardo.

—Sim, o que houve com com minha esposa.

— Ela teve uma queda de pressão, mas já está voltando com a Jéssica.

—Mas ela esta bem? Porquê eu não fui avisado?- ele está muito assustado, parece estar em uma montanha-russa, a todo o instante algo acontece.

— Foi tudo muito rápido, o senhor tinha acabado de sair e Jéssica queria saber bem o que estava acontecendo antes de lhe chamar e…

— Eu vou falar com ela, qualquer coisa sobre minha mulher eu quero imediatamente ser avisado.

—Sim senhor Bernardo, eu compreendo...

— Porquê você não esta com elas?

— Eu precisei resolver algumas coisas do caso.

— Conseguiram a liberdade provisória ?

— Prefiro que a Jéssica converse com o senhor. ..

— Porquê? Não conseguiram é isso? Vamos me diga -diz mais alto que gostaria — Me desculpa, não quis me exaltar, mas…

—Tudo bem,esta tudo bem- Carol olha para os lados, há algumas pessoas olhando para eles, Bernardo falou alto demais, sabe o quanto ele esta nervoso, ela já o viu várias vezes no escritório e ele sempre foi gentil e educado, sabe que é a situação tensa- Vem senhor, vamos sentar aqui, quer uma água?

—Não obrigada- eles sentam.

— olha a Jéssica ali- ela diz com um certo alívio, não queria ser ela a mensageira de más notícias, eles levantam e vão até ela.

— Jéssica, onde está Emília?, como ela está? Posso vê-la?, Porque não fui avisado? — ele a enche de perguntas.

—Oi Bernardo- ela nem sabe por onde começar, ela em todo esse tempo em que trabalha para ele nunca o viu assim, mas também essa é uma situação completamente diferente- Bom Emília esta bem, ela está vindo com os policiais, posso ver com a delegada se pode vê-la…

— Mas ...- ele pergunta, sabe que tem algo aí

—Bernardo não sei, com dizer – ela pensa um pouco- vamos sentar?

Eles sentam novamente.

— Diga Jessica ...

—Nós ainda não conseguimos a liberdade provisória, ao menos esta noite Emília dormirá aqui- ele levanta, anda de um lado a outro- sinto muito Bernardo, nós...

—Será só essa noite? – ele fica parado de frente para ela, olhando-a nos olhos, a advogada nunca viu tanta tristeza em um olhar, mas tem que ser o mais sincera possível.

— Eu não posso te prometer que amanhã ela irá sair daqui, mas prometo usar todos os recursos para que seja o mais breve possível.

— Eu posso vê-la agora?

— Irei falar com a delegada Dias.

— Jéssica, preciso pedir também que deixem ela ligar para casa, temos uma filha pequena, você sabe , elas nunca se separaram, e a menina pediu para falar com a mãe, então se você puder...- ele segura um soluço, anunciando o choro, seus olhos já estão cheios de lágrimas, por fim ele diz mais como uma súplica – Por favor.

Jéssica olha para e sai, Carol pega a bolsa com as roupas e vai atrás.

Emília

Ela já esta de volta a delegacia, naquela mesma sala, quando acordou no hospital, por um breve momento achou ter tido o pior pesadelo da sua vida, mas ao olhar para o lado vê junto ao médico a delegada Dias e a sua advogada, ela tem vontade de chorar por ver que é tudo real, mas não o faz, parece já não ter mais lágrimas ou forças, se deixa conduzir pelo momento, responde as perguntas de forma mecânica, parece estar aérea a tudo, só sente quando é picada por uma agulha, Jéssica lhe diz que pediu um exame toxicológico, nem se dá ao trabalho de perguntar o porque, se deixa levar de lá para cá, feito uma boneca. Já esta de noite, mas nem sabe que horas

são, a porta se abre entram a advogada, delegada e Bernardo, seus olhos parecem ter ganhado vida, brilham, em meio a toda a tristeza, ela dá um leve sorriso, mas ela sente ter algo errado, pois ele fica parado no mesmo lugar.

— O que houve?- ela perguntou ansiosa, Jéssica senta ao lado dela, mas Emília não a olha, esta com os olhos fixo em Bernardo.

— Emília – Jéssica a chama- Nós ainda não conseguimos sua liberdade provisória...

—Como?- enfim ela olha para a moça, e compreende a situação- Terei que ir para a cadeia, para uma cela...

— Essa noite você ficará aqui na delegacia- é Naide quem diz.

—Não...não- Emília levanta e começa a negar com a cabeça- Não.. por favor não

— Emília ...- Jéssica tenta tocar em sua mão, mas ela se afasta mais indo de encontro à parede.

— Não toca em mim, eu não quero ficar aqui- ela olha para Bernardo que esta rígido – Eu não a matei, não- e chora escorregando para o chão, escondendo a cabeça entre os joelhos, como quem quer se proteger do mundo, balbuciando o tempo todo que não a matou.

— Meu amor- Bernardo esta abaixado junto a ela, com a mão em suas costas, acariciando.

— Bernardo me tira daqui, por favor.-ela o abraça, chorando ainda mais, sussurrando- Por favor... por favor...

— Se eu pudesse eu faria, meu amor- ele aperta ela forte em seus braços.- Emília, olha para mim- assim ela faz, ele limpa seu rosto, beija a sua testa- Deixaram você ligar para casa, assim você fala com Lívia e Miguel- ao ouvir os nomes dos filhos, seu olhos novamente enchem de lágrimas- Mas você tem que estar calma para falar com ele, esta bem?

— Sim — ela toca o rosto do marido, ele sentindo o toque suave de sua mão, fecha os olhos, esquecendo de onde estão — O quê disse a eles?

— Eu disse que você precisou viajar- ele levanta do chão e a ajuda ela a sentar novamente na cadeira e ele senta ao seu lado, entrelaçando sua mão a dela, olha para Naide, que pega o telefone e alcança para ele, o combinado era ligar do celular dela no viva voz. – Esta pronta?

Ela só faz que sim com a cabeça, ele disca o número e coloca no viva voz. Ao ouvir o toque de chamada Emília sente seu coração acelerar, apertar mais forte a mão de Bernardo.

— Alô- alguém diz do outro lado.

— Beth sou eu Emília- ela consegue dizer se controlando.

— Ah, graças a Deus, nem vou perguntar como esta pois já devo imaginar.

— Ai Beth... eu ...- ela engasga.

— Esta tudo bem Emília...

—É a mamãe?- Lívia ao ouvir o nome da mãe corre até onde Beth esta- Deixa eu falar com ela madrinha, por favor.

Emília esta do outro lado se segurando, ouvindo a voz da filha, segura tão forte a mão de Bernardo que, ele com a outra mão afrouxa um pouco.

— Beth a põe na linha por favor- pede ele.

—Mamãe- a menina agarrou o telefone com tudo, Emília nada consegue dizer- Mamãe a senhora esta ai? madrinha não é a mamãe?- ela a olha em dúvida, e vai entregar o telefone quando ouve...

— Minha bonequinha é a mamãe sim- Emília consegue dizer por fim.

— Mamãe — ela diz alegre e Emília em meio as lágrimas sorri- Mamãe, o papai disse que foi viajar.

— Sim é verdade- Emília olha para Bernardo.

— Mas mamãe a senhora nem se despediu, me deu um beijo...

— Eu sei minha filha- ela respira fundo- Eu não tive tempo...eu

— Mamãe quando volta?

— A mamãe não sabe- Emília coloca a mão sobre a boca para abafar um soluço, não quer que a filha perceba que ela chora.

— Minha pequena- Bernardo entra na conversa- Lembra que papai disse que assim que possível ela vai voltar.

— Papai o senhor está com a mamãe e não me levou isso não vale,- ela se atreve a perguntar tirando um tímido sorriso dos pais pela esperteza da filha.

— Sim pequena eu vim trazer roupas para a sua mãe.

— Mas eu queria ir junto papai, eu quero ver a mamãe- ela pede já ameaçando chorar, eles ficam um pouco em silêncio.

— Lívia, eu queria falar com o seu irmão, pode chamá-lo, por favor- pede Emília, para distrair um pouco a filha.

— Sim mamãe – ela passa o telefone para Beth e sobe as escadas para chamar o irmão.

— Beth como eles estão?

— Miguel esta quieto, Lívia esta agitada, mas estão bem, nada sabem, não deixei ligarem a TV, nem saírem.

— Beth por favor, mais do que nunca cuida deles pra mim.

— Sim, claro pode deixar, Emília...-Beth iria falar mais, mas as crianças voltam, ela passa o telefone para Miguel.

— Emília – ele fala com um fio de voz

— Oi meu querido- ela sente uma das mãos de Bernardo acariciar suas costas.

— Eu nem quero falar com você- ele diz meio bravo, Beth até se assusta, Lívia arregala os olhos

— Como assim meu filho?- ela pergunta.

—Você prometeu, prometeu e não cumpriu.

— Miguel, meu menino- ela então se lembra da promessa que lhe fez- Meu filho, eu prometi, eu nunca, nunca mais vou embora, nunca mais.

— Mas você saiu, não falou nada, não está mais aqui...

— Mas vou voltar meu filho, eu vou....-ela diz em desespero, não queria fazer nenhum deles sofrer.

— Quando...- ele começa a chorar

— O mais breve...

— Deixa eu falar agora Miguel- Lívia puxa o telefone da mão dele

— Espera Lívia, espera- eles entram em um duelo pelo telefone

— Calma crianças, calma- diz Bernardo.- A mamãe não tem muito tempo, Miguel se despede, depois Lívia .

— Emília volta logo- ele diz – por favor *mamãe*- dizendo isso ele corre escada acima pois era a primeira vez que ele a chamava assim, como ela sentia ele ser seu filho, ele também sentia ela ser sua mãe, pega de surpresa Emília fica sem reação, Bernardo sorri e lhe beija o rosto.

— Mamãe...mamãe- a filha chama ela desesperadamente.

— Sim minha filha.

— Eu não acho a minha boneca, sabe onde está ?

— Já viu no carro de seu pai, você sempre esquece lá- há um silêncio, é a hora da despedida, Emília se adianta- Minha filha preciso desligar.

— Amanhã vai ligar de novo?

— Eu não sei minha filha, eu não sei-

— Eu te amo mamãe.

—Eu também minha bonequinha- ela desliga o telefone, Bernardo abraça, e ela chora

Naide pega o celular guarda no bolso, e conversa com Jéssica , e sai, sem deixar transparecer e emoção que sentiu.

— Bernardo dez minutos- diz Jéssica ela e Carol também sai.

— Dez minutos? – Emília diz ainda agarrada a ele, com seu rosto escondido no pescoço dele, nem percebeu a saída das três moças.

— Elas nos deram alguns minutos a sós- ele lhe diz ela afasta um pouco para olhar para ele, ele acaricia o rosto dela.

— Bernardo, você acredita em mim? Que eu não a matei a Malu.

—Sim eu acredito em você, sempre, jamais pensaria algo diferente- ele fala sem deixar de fazer carinho em seu rosto, que fica tocada pelas palavras dele, lágrima rola de seu olhar- Não chore por favor, queria poder fazer algo para poder te ajudar, queria poder fazer mais.

— Bernardo, você pode.

— O quê, me diga faria qualquer coisa para poder lhe ajudar.

— Você não vai gostar, mas por favor me ouça, me deixa falar antes de você ir.

— Fala Emília, prometo te ouvir.

— Bem quando a polícia me prendeu, tinha umas pessoas lá- ela olha bem para ele- Entre essas pessoas estava Lia...

— Emília...- ele diz se levantando.

Você prometeu me ouvir- ela o segue com o olhar, que volta a se sentar do lado dela, ela segura em sua mão — Eu a vi, sei que é difícil acreditar em mim, mas Bernardo eu não matei Malu, não sei porque alguém a mataria, mas porque eu ali, eu ao lado do corpo, eu levando a culpa, e só há uma pessoa que me odeia tanto, que será capaz de fazer isso, a Lia.

—Emília eu não sei- ele lhe diz, ela olha bem para ele, que entende que naquele olhar está pedindo uma chance – Está bem se o que me diz for verdade como ela fez? Onde ela está ? Como iremos prova?

— Lembra dos diários?

— Sim claro que lembro- como ele podia esquecer dos horrores que ele leu- Mas eu nem sei onde estão talvez a polícia tenha as cópias, pois eles levaram na época do sequestro...

— Não precisa – ela fala –Eu tenho eles- Bernardo a olha estranhando- O que lhe dei foram as cópias lembra? Os originais eu guardei, bem antes de chegar ao apartamento naquela noite, e a um tempo atrás eu recomecei a ler, não queria que você soubesse, pensei que talvez ali tenha alguma informação sobre onde ela possa estar, ou alguém que ela conheça, enfim algo.

— Onde eles estão.

— Sei que vai ser uma tortura para você ler como tem sido para mim, as coisas descritas ali são de revirar o estômago, pode dar para a advogada, você quem sabe, eles estão com Beth, ela tem me ajudado.

— Eu irei ler…

A porta se abre, um policial aparece dizendo ter acabado o tempo

Emília automaticamente segura na mão dele.

— Só um minuto, por favor – ele pede o policial se vira, Bernardo levanta puxando Emília para seu braços, depois desse abraço apertado ele ergue a cabeça dela para olhar para ele- Uma vez eu te disse que iria cuidar e proteger você, nossa família, reafirmo a minha promessa, vou lutar com todas as forças para te tirar daqui- Emília não pode deixar de chorar, ele encosta bem o rosto ao dela, sua testa encostada a dela, e sussurra – EU TE AMO- e a beija, um beijo doce e terno, que fazem esquecer de onde estão