Em outra vida eu serei seu.
1 A Caminho da Mansão.
Eu não sei quantas vezes mais vou conseguir dizer "adeus" para este lugar. A cada caixa que fecho, a cada objeto que guardo, a realidade de que estou indo embora se torna mais palpável. Hoje é o dia da mudança, e aqui estou eu, empacotando as últimas coisas do meu quarto. O cheiro da maresia ainda entra pela janela, e sinto que vou sentir falta disso mais do que de qualquer outra coisa.
— Ei, já está tudo pronto? — Minha mãe aparece na porta, com aquele sorriso otimista que ela sempre tenta manter, mesmo quando as coisas não estão tão bem. Eu apenas assinto, tentando não demonstrar o quanto estou hesitante em deixar tudo para trás.
Claro, eu entendo. Depois que meu pai saiu de casa e minha mãe perdeu o emprego, era questão de tempo até precisarmos fazer algo. A proposta do prefeito daquela cidade de onde minha família é originária foi um alívio. Um emprego para minha mãe e uma "nova" casa para a gente morar. Mas... é uma mansão. Quem, em pleno século XXI, vai morar numa mansão? E pior, no meio de uma floresta, como se estivéssemos prestes a nos mudar para o castelo do Conde Drácula.
Olho ao redor do meu quarto pela última vez. As paredes, antes cobertas de pôsteres de bandas e filmes, agora estão nuas. O eco dos meus passos faz o lugar parecer mais vazio do que nunca. A praia, a minha rua, meus amigos... tudo vai ficar aqui. Em troca, estou indo para uma cidade fria, sempre envolta em névoa e chuva. Não conheço ninguém lá, e para ser sincero, não faço questão de conhecer. Minha mãe disse que a cidade é charmosa, mas tudo o que consigo imaginar é algo saído de um filme de terror.
— Vai ser uma aventura, né? — Minha mãe fala como se lesse meus pensamentos, enquanto ela puxa mais uma caixa para o carro.
Aventura. Eu sorrio para não demonstrar o contrário, mas por dentro estou em pedaços. Desde pequeno, o que mais amava era correr descalço pela areia, sentir o sol no rosto e mergulhar no mar. Agora, estou trocando tudo isso por uma mansão gótica com corredores intermináveis e, claro, uma suposta maldição.
"É só uma lenda", foi o que minha mãe disse. "Nada com o que se preocupar." Claro, nada de mais, apenas o fato de que ninguém da nossa família conseguiu morar lá por muito tempo. Só isso. Mesmo assim, por algum motivo, ninguém consegue vender a mansão, pois faz parte daquelas regras esquisitas dos fundadores da cidade. Mansão de fundador só pode ficar na família.
— Pronto — falo, respirando fundo e fechando a última caixa. — Acho que é isso.
Saímos do apartamento em silêncio. O barulho dos pneus do caminhão de mudança quebrava o que deveria ser um momento de despedida. Quando fechei a porta do apartamento pela última vez, a realidade me atingiu com força. Acabou. Tudo o que conheci, minha rotina, minha vida... acabou.
Dentro do carro, enquanto seguíamos pela estrada costeira, observei a última visão do oceano. O céu estava azul, limpo, exatamente o oposto do que me esperava. Era quase como uma despedida amarga. E, de fato, quando começamos a subir as montanhas, a névoa começou a se formar, como uma cortina densa de mistério, nos envolvendo.
O caminho para a cidade parecia cada vez mais sombrio. A névoa só aumentava, e em pouco tempo, as árvores ao redor ficaram mais altas e densas. Tudo parecia saído de uma cena de filme gótico, como se estivesse sendo sugado para dentro de um pesadelo. Comecei a pensar no que os meus amigos diriam se soubessem que vou morar num lugar desses.
— Você sabe que vai se acostumar, né? — minha mãe disse, tentando quebrar o silêncio.
— Sim... — murmurei, sem muita convicção. — Parece até que vamos morar na casa do Drácula.
Ela riu, mas eu estava falando sério. Se a casa fosse metade do que eu estava imaginando, com certeza daria um ótimo cenário para qualquer história de terror.
Depois de algumas horas, finalmente chegamos à cidade. Ela era pequena, com ruas de paralelepípedos e construções antigas, cercada por colinas cobertas de árvores. As nuvens cinzentas pendiam no céu, e a chuva fina começava a cair, como se a natureza quisesse me lembrar do contraste entre aqui e o lugar de onde eu vinha. Era impossível não sentir uma pontada de melancolia.
Do centro da cidade, seguimos por uma estrada estreita e tortuosa que levava até a mansão. As árvores ao redor se fechavam cada vez mais, e o silêncio dominava tudo. Quando finalmente chegamos ao portão principal, fiquei sem palavras. Era ainda maior do que eu imaginava. O portão era antigo, de ferro forjado, com detalhes ornamentados que pareciam pertencer a outro século. Atrás dele, o caminho para a mansão se estendia por mais cinco minutos de carro. Era quase ridículo.
— Parece que estamos num filme — murmurei.
— É, eu sei que parece meio exagerado, mas logo você vai ver como aqui é especial — minha mãe disse, com um otimismo que eu não conseguia compartilhar.
O carro avançou pelo caminho sinuoso, e cada metro que nos aproximava da mansão aumentava minha ansiedade. Era enorme, sombria e imponente. As janelas pareciam nos observar, e a fachada de pedra cinzenta tinha algo de sinistro, como se guardasse segredos antigos e perigosos.
Finalmente, estacionamos em frente à entrada principal. A mansão, com suas torres e gárgulas esculpidas, parecia viva, como se estivesse esperando por nós. E, ao pisar no chão molhado da entrada, a única coisa que consegui pensar foi: “Isso vai ser um inferno.”
Bem-vindo à sua nova casa, pensei. A mansão dos fundadores. Que aventura.
Assim que atravesso a imensa porta de madeira da mansão, sinto o ar frio e denso me envolver, quase como um aviso para eu ir embora. Olho ao redor, e tudo parece maior e mais intimidador do que eu imaginava. Os tetos são altos, adornados com lustres antigos que parecem prestes a despencar. As janelas, com vitrais coloridos, lançam sombras que dançam no chão, enquanto as paredes, cobertas por papéis de parede desbotados e quadros de rostos sérios e desconhecidos, parecem me observar.
Minha mãe tenta quebrar o silêncio sufocante com uma animação que soa fora de lugar:
— Vai na frente e escolhe o seu quarto! Pode escolher qualquer um, é todo seu!
Forço um sorriso e subo a escadaria central, que range a cada passo. A escadaria, enorme e sombria, me leva a um corredor interminável no andar de cima. Sinto que estou em um daqueles filmes antigos de terror, onde o protagonista sempre toma as decisões erradas. Mas, neste caso, sou eu, e não tem volta.
Os corredores parecem se estender para sempre, e eu murmuro para mim mesmo:
— Vai levar um ano pra explorar tudo isso… e olha que nem vi os arredores ainda.
Começo a abrir as portas, uma por uma, esperando encontrar algo que pareça um pouco mais acolhedor. Mas todos os quartos são quase idênticos: grandes, com camas de dossel cobertas por lençóis empoeirados e móveis antigos que não veem um ser humano há décadas, pelo visto. O cheiro de mofo e madeira velha domina o ar, e eu me pego pensando quantas histórias essa casa deve guardar.
Depois de abrir várias portas, finalmente encontro um quarto que parece... menos assustador, talvez. Uma janela dá para o jardim, onde vejo as árvores se movendo com o vento, mas, por algum motivo, isso não me tranquiliza; pelo contrário, sinto como se algo lá fora estivesse me observando de volta. Um arrepio percorre minha espinha, mas tento ignorá-lo e coloco minha mochila ao lado da cama.
Observo o quarto mais uma vez, tentando me convencer de que aqui é "seguro". Mas, no fundo, não consigo me livrar da sensação de que há algo escondido nas sombras, algo que está só esperando o momento certo para se mostrar.
Enquanto olho ao redor, uma pergunta começa a martelar na minha cabeça: por que a mansão já tem tantos móveis? Trouxemos quase tudo da antiga casa, e não consigo entender o que minha mãe vai fazer com eles agora. Será que ela sabia disso? E se sabia, por que não me contou? Talvez ela quisesse que eu descobrisse sozinho, mas... não sei. Tudo aqui me deixa inquieto.
Volto a observar o meu “novo quarto”. Ele é enorme comparado ao antigo. Tem um banheiro privado, algo que nunca tive antes, e um closet enorme, quase do tamanho do meu quarto antigo. É estranho pensar que agora vou dormir aqui, cercado por tudo isso. E, embora tudo pareça meio empoeirado e frio, admito que há um toque de elegância sombria que é até interessante... de um jeito assustador.
De repente, algo me chama a atenção pelo canto do olho. Eu acho ter visto um movimento vindo do interior do closet, uma sombra talvez. Sinto um calafrio, mas, tentando me convencer de que é só a minha imaginação, viro-me devagar. Quando olho diretamente, não vejo nada. Só o escuro se estendendo pelo closet. Mas, por alguma razão que não consigo explicar, algo me atrai para lá. É como se o próprio silêncio do closet me convidasse a entrar, a descobrir o que está escondido.
Dou alguns passos hesitantes em direção à escuridão, o coração batendo mais rápido. Cada passo parece ecoar no quarto vazio, e me aproximo lentamente, tentando ignorar o impulso de dar meia-volta e sair correndo.
Então, antes que eu possa entrar no closet, escuto a voz da minha mãe ecoando pela casa:
— Filho! Preciso de ajuda aqui embaixo!
Sua voz me traz de volta à realidade, e eu paro, sentindo um alívio inexplicável. Olho para o closet uma última vez, e aquela sensação estranha persiste, mas resolvo ignorá-la e vou ver o que minha mãe quer.
Terminamos de organizar as coisas até o anoitecer, e a sensação de cansaço era quase tão palpável quanto a poeira que ainda pairava no ar. Ao menos, consegui trocar o colchão, os lençóis e os travesseiros da cama. A ideia de dormir naquela coisa antiga, cheirando a mofo, era insuportável. Com certeza uma noite ali me deixaria doente. A cozinha, no entanto, ainda parecia uma zona de guerra, e ninguém tinha energia para cozinhar. Decidimos sair para comer em algum restaurante da cidade.
No caminho, percebi que a cidade era exatamente o tipo de lugar onde todo mundo conhece todo mundo. Pequena, discreta, mas com olhos atentos. Logo, percebi olhares curiosos seguindo nossos passos. Algumas pessoas cochichavam quando passávamos, e logo entendemos que já éramos notícia. "A nova família dos fundadores", alguns murmuravam, como se esse título carregasse algum peso especial por aqui.
Encontramos um restaurante aconchegante, com uma iluminação baixa e um ambiente acolhedor, e nos acomodamos em uma mesa. Pouco depois de sentarmos, notei uma família jantando algumas mesas à frente. O homem, que parecia o pai, levantou-se, e logo sua esposa e a filha o seguiram. Eles vieram até nossa mesa, e o homem sorriu de um jeito que me deixou dividido entre simpatia e algo mais sério.
— Boa noite! Vocês devem ser os novos moradores, os Orsini, certo? — disse ele, com um tom de voz firme. — Sou o delegado da cidade, Marcelo. E sejam muito bem-vindos.
Minha mãe sorriu, claramente feliz com a recepção.
— Sim, somos nós! Eu sou Helena, e este é meu filho, Victor — disse ela, me apontando com um gesto afetuoso.
O delegado me lançou um olhar avaliador, como se estivesse tentando me decifrar.
— Sabe, rapaz, nossa cidade é muito tranquila, um lugar bem... familiar — ele falou, pausando antes de cada palavra. — Claro, temos nossos jovens com suas travessuras de vez em quando, mas é sempre bom fazer boas amizades. Aqui, todos devem seguir as regras, sabe? Independentemente do sobrenome que carregam.
Assenti, tentando parecer casual, mas algo no tom dele me fez perceber que isso não era só um conselho.
— Entendo, senhor... — respondi, com um sorriso sem graça.
Ele então fez sinal para que a filha se aproximasse.
— Esta é minha filha, Camille — disse, com um sorriso orgulhoso. — Ela é um exemplo de comportamento. Tenho certeza de que você e ela se dariam muito bem.
Camille sorriu de maneira tímida, mas simpática, e retribuí com um sorriso um tanto incerto. Era estranho, quase como se ele estivesse me "apresentando" a filha com segundas intenções.
— Prazer em conhecê-lo, Victor — disse Camille, num tom gentil. — Espero que você se adapte bem à cidade. Ela é pequena, mas tem seu charme.
— Ah... obrigado. É um prazer conhecer vocês também — respondi, sem saber bem o que dizer.
— Bom, espero que se sintam em casa — acrescentou o delegado, apertando o ombro da filha de leve. — Qualquer coisa, saibam que podem contar comigo.
Com um último sorriso cordial, ele se despediu e voltou para sua mesa. Minha mãe, no entanto, parecia radiante.
— Viu só? Acho que fizemos uma boa escolha em vir para cá — ela comentou, animada.
Olhei para ela, tentando entender de onde vinha tanta confiança.
— É... se você diz — murmurei, lançando um olhar rápido para a mesa do delegado e sua família.
Algo naquela cidade parecia ter um charme único, mas com certeza vinha acompanhado de suas próprias regras e expectativas. Pelo jeito, eu teria que me acostumar a estar sempre sob o olhar vigilante do delegado.
Episódio 2: Ecos do Passado
Depois do jantar na cidade, voltamos para a mansão sob um céu tão escuro que parecia engolir a estrada. O silêncio entre minha mãe e eu no carro era quase palpável. Talvez fosse o cansaço do dia, ou talvez fosse o peso invisível daquele lugar, pressionando cada pensamento.
Quando finalmente cruzamos os portões da mansão, senti aquela sensação estranha novamente, como se o próprio ar ao nosso redor estivesse... vivo. Minha mãe, exausta, mal esperou para se despedir antes de subir as escadas em direção ao quarto que ela escolheu.
Eu, por outro lado, não conseguia relaxar. Algo me incomodava. Algo que não deveria.
O closet.
Fiquei ali, parado no corredor, com o eco dos passos de minha mãe desaparecendo ao longe. O quarto estava logo à frente. Tudo parecia tão quieto, tão denso, que até minha respiração parecia alta demais. Dei um passo em direção à porta do quarto e hesitei.
— É só um closet — murmurei para mim mesmo, tentando me convencer de que estava sendo infantil.
Mas a verdade é que algo naquele lugar me chamava. Era como se uma força invisível me puxasse para lá, como um segredo escondido esperando ser descoberto.
Quando finalmente entrei no quarto, a primeira coisa que fiz foi olhar diretamente para o closet. A porta estava entreaberta, exatamente como eu a tinha deixado. O interior estava escuro, mas não parecia vazio.
Engoli em seco e me aproximei devagar.
— Ok, Victor... sem dramas. Só dá uma olhada e pronto.
Estendi a mão e empurrei a porta. O som das dobradiças ecoou no quarto vazio, e por um momento, o silêncio pareceu mais intenso. Lá dentro, tudo o que vi foi o espaço apertado e empoeirado, com prateleiras vazias e alguns cabides enferrujados.
Deixei escapar uma risada nervosa.
— Ridículo. É só um closet.
Mas quando me virei para sair, ouvi.
Um sussurro.
Congelado no lugar, virei lentamente a cabeça de volta para o closet.
— Tem alguém aí? — minha voz saiu mais trêmula do que eu gostaria.
Nenhuma resposta. Apenas o silêncio.
Mas algo mudou. A atmosfera no quarto parecia mais pesada. Fria. E, então, senti. Uma presença.
Não estava mais sozinho.
O ar ao meu redor parecia vibrar, como se alguém estivesse ali, parado, invisível. Tentei ignorar a sensação, mas foi impossível. Quando dei um passo para trás, tropecei e quase caí. Foi então que vi.
No espelho antigo do quarto, por um breve segundo, um reflexo que não era o meu.
Um rapaz.
Ele estava parado atrás de mim, com uma expressão que misturava tristeza e curiosidade. Não era assustador, mas profundamente perturbador.
Virei-me tão rápido que perdi o equilíbrio. Não havia ninguém ali. Apenas o quarto vazio.
Meus olhos voltaram ao espelho, mas o reflexo desapareceu.
— Isso... isso foi real? — sussurrei, ofegante.
Por mais que tentasse me convencer de que era apenas minha mente pregando peças, algo dentro de mim sabia a verdade. Eu tinha visto alguém. Alguém que não estava mais vivo.
— Devo informar que não somos muito adeptas das modernidades das grandes cidades. Gostamos de valores e de seus bons costumes, sabem? — disse Margareth, com um sorriso que parecia conter mais julgamento do que gentileza.
Minha mãe ergueu levemente as sobrancelhas, mas manteve a compostura, enquanto a senhora continuava.
— Eu e as senhoras estamos pensando em fazer uma pequena reunião para discutir a... peculiaridade de a senhora ser uma mulher separada. Mas, considerando que pertence a uma das famílias fundadoras, podemos abrir uma exceção e convidá-la para nosso grupo de senhoras.
Minha mãe piscou algumas vezes, como se processasse o que acabara de ouvir, mas seu sorriso não vacilou.
— Uma reunião sobre... meu estado civil? — perguntou, com uma voz calma que escondia mal a incredulidade.
— Ora, querida, não nos leve a mal! — disse Margareth, ajeitando o pequeno chapéu que usava, como se fosse uma coroa. — Apenas achamos importante preservar os bons costumes da comunidade. Afinal, os jovens precisam de exemplos corretos, não é mesmo?
Rosa, que estava ao lado, assentiu vigorosamente enquanto alisava o pano que cobria um dos pratos, como se aquilo fosse sua única função na vida.
— Sim, claro. E apesar de sua... situação peculiar, reconhecemos que o sangue das famílias fundadoras é um ponto a seu favor.
Minha mãe lançou-me um olhar rápido, os olhos brilhando com uma mistura de desconforto e raiva reprimida. Ainda assim, manteve o tom educado:
— Agradeço pela... consideração, Margareth. No entanto, estou apenas aqui para recomeçar, cuidar da minha família e ajudar Victor a se adaptar. Não pretendo causar nenhum tipo de alvoroço.
— Oh, querida, não é alvoroço! — exclamou Berenice, com um riso agudo que ecoou pela cozinha. — Apenas queremos garantir que nossos laços comunitários permaneçam fortes.
Até então silenciosa, Camélia inclinou-se para frente, com os olhos fixos em minha mãe. Sua voz era mais baixa, quase um sussurro conspiratório:
— E, para isso, precisamos manter os padrões que tornam nossa cidade... especial.
A palavra "especial" carregava um peso diferente, um tom quase ameaçador.
Minha mãe abriu a boca para responder, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Margareth retomou a conversa com um gesto teatral.
— Bem, não queremos tomar muito de seu tempo, querida. Vejo que ainda há muito a ser feito nesta casa para torná-la... habitável. Como uma boa dona de casa, claro. — Ela sorriu, os dentes manchados de batom brilhando à luz fraca da cozinha. — Não se aflija com a possibilidade de não entrar no grupo, está bem? Seremos muito compreensivas.
Elas começaram a se dirigir à porta, como uma procissão ensaiada. Minha mãe manteve o sorriso forçado até que a última delas cruzou o limiar.
Assim que a porta se fechou, ela soltou um suspiro longo e pesado, como se tivesse prendido a respiração durante toda a visita.
— Que absurdo... — murmurei, atrás dela, cruzando os braços. — Me admira você não ter mandado elas tomarem no...
— Victor! — exclamou minha mãe, girando para me olhar com olhos arregalados.
Mas seu tom de reprovação não escondia o rubor de irritação em suas bochechas.
— Você não acha que foi um pouco... além do aceitável? — perguntei, tentando controlar meu riso.
— Além do aceitável? — Ela riu amargamente, jogando as mãos para o alto. — Isso foi pura hipocrisia mascarada de gentileza! Uma reunião para julgar minha vida? E ainda sugerem que estão me "fazendo um favor"?
Ela caminhou até a pia e começou a encher a chaleira, claramente tentando se acalmar.
— Elas não são apenas intrometidas, Victor. Algo naquela mulher, Margareth, me incomodou de verdade. Como se estivesse nos testando, esperando por... sei lá.
Eu assenti, ainda pensando nos olhares que as senhoras lançaram pela casa.
Continua...
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