Notas iniciais
Estou muito feliz por ter finalmente postado essa narrativa! Já estava com essa ideia na cabeça há algum tempo, mas não tinha a imaginação nem a coragem para postar... Bem, neste primeiro capítulo, vou apresentar dois dos protagonistas da história. Espero que goste e que tenha uma boa leitura!

Escondida atrás de uma árvore, Scarlet sentia os cheiros vindos da rua à sua frente. Espiou por um dos lados, com um de seus olhos esmeraldas observando a movimentação das pessoas.

Um homem assava pedaços de carne de porco pendurados por hastes de ferro em grandes fogueiras, gritando ordens para seus escravos. A carne pingava gordura, quente e de aspecto delicioso. A garota tinha que experimentar uma daquelas. Mas como poderia? Depois de alguns segundos pensando, teve uma ideia. Era algo bobo, que provavelmente não iria funcionar, mas ela tinha de tentar, afinal, não comia nada já fazia dois dias. A fome doía tanto em sua barriga quanto em suas memórias, pois ela fazia a garota se lembrar da comida de sua avó, algo que não gostava de recordar.

Colocou sua capa vermelha de lado e de sua aljava retirou uma única flecha. Era tudo o que precisava. Tirou sua besta, que estava atada às suas costas, e carregou com o dardo.

De joelhos, posicionou a arma ao lado da árvore e mirou em um dos pedaços de carne suculenta. Respirou fundo, travou a besta na direção do alvo e apertou o gatilho. A flecha saiu zunindo rapidamente e atingiu o pedaço em cheio sem ninguém perceber. Com a força do impacto, a carne foi retirada das hastes e caiu surdamente um pouco adiante em cima de algumas folhas.

Era só questão de tempo até que um dos escravos ou o próprio dono da comida encontrasse aquele tesouro ali, e por isso Scarlet correu rapidamente em sua direção. Tentou não chamar muita atenção, e parecia estar dando certo, pois conseguiu pegá-lo sem que ninguém a percebesse. Escondeu-o em sua capa escarlate e saiu andando normalmente pela rua de terra batida.

Passou por vários forasteiros, vendedores, compradores e moradores, mas não se importou com nenhum deles. Eram pessoas comuns para uma cidade-mercado como Rivertown. Cercado por dois rios que se conectavam com o mar, o Andarilho e o Peregrino, a cidade era bastante conhecida por seu comércio e com certeza uma das mais lucrativas do reino.

Continuou andando e virou uma esquina, e continuou mais ainda, até chegar ao ordinário “Casa do Andarilho”. A taverna era feita de madeira velha e alta, cheia de janelas. Ficava ao lado do rio homônimo, e estava servindo como uma casa temporária para a garota. Além de servir uma ótima cerveja (sim, Scarlet já havia experimentado a bebida), era um estabelecimento bastante frequentado por pessoas que precisavam de caçadores de recompensas, o que rendia algum dinheiro para ela.

Não entrou no estabelecimento: decidiu saborear a carne ali fora, para que ninguém se intrometesse em sua refeição. Sentou-se ao lado da taverna e do rio, encostou seus cachos castanhos na madeira velha e abocanhou um pedaço generoso da carne de porco. Estava realmente deliciosa, e foi questão de minutos até a garota terminá-la.

Só naquele momento de prazer reparou em suas roupas: a camisa e calça de couro estavam sujas, ainda mais com a gordura que escorrera da comida, e precisaria lavá-las em breve. Porém, a capa vermelha às suas costas estava completamente limpa, exceto por algumas manchas espalhadas por aqui e por ali. Precisava cuidar dela, afinal, era a única lembrança material que restara de sua família...

Repentinamente, um barulho de vidro se quebrando veio de cima e alguns cacos caíram ao seu lado. Alguém caiu da janela mais alta do estabelecimento e saltou para o seu lado, como se tivesse voado até ali. Enquanto os cacos do vidro ainda caíam, Scarlet observou o rapaz que apareceu ao seu lado: mais alto que ela, com cabelos ruivos bagunçados e estranhos olhos castanhos, imponentes e ao mesmo tempo belos. Era um pouco pálido e magricela, com um queixo fino e boca pequena, aparentando ter entre dezesseis e vinte anos. Usava uma camisa rasgada verde clara, que lembrava folhas tropicais, e uma calça marrom, feita de tecidos rústicos, além de botas de couro. Tinha um cinto na cintura, e atado a ele estavam duas adagas. Sorria feito um idiota, como se não tivesse acabado de ser atirado do segundo andar de uma taverna.

– Olá, nobre senhorita. O que faz aqui, perto de um estabelecimento como esse? – sua voz era mais fina do que a de um garoto normal de sua idade. Levantou-se normalmente e fez uma referência sarcástica, ainda sorrindo.

– Você acabou de ser lançado do segundo andar e não sofreu nenhum arranhão – a garota não escondeu seu espanto – Como?

– Ora, eu tenho meus truques. Se me permite perguntar, qual o nome da senhorita? – deu outra reverência sarcástica.

– Não me chame de senhorita – ela tirou sua besta e apontou para a testa do rapaz- ou vai acordar em um saco amanhã, sendo jogado dentro do rio. É algum tipo de bruxo? Quer usar meu sangue em seus rituais?

– Se me permite dizer, sua besta está desarmada – continuava sorrindo – E agora, qual o seu nome mesmo?

– Por está tão interessado nisso? – disse a garota, colocando sua arma de lado – Scarlet Crimson. Qual é o seu?

– Peter Pan ao seu dispor, senhorita – mais uma reverência.

– Quer parar com isso? – mandou Scarlet, mal-humorada. Levantou-se e pôs-se na frente do rapaz encarando-o. Peter era uns cinco centímetros mais alto que ela.

– E se eu não parar? O que vai fazer, senhorita? – ele soltou uma gargalhada e agarrou a mão de Scarlet, segurando-a firmemente – Atirar em mim com sua besta?

– Não – respondeu, levando a outra mão ao seu próprio cinto, e de lá retirando uma adaga – Te esfaquear já vai servir! – a lâmina zuniu na direção do rosto de Peter Pan, que se desviou rapidamente, mas não conseguiu evitar um corte de raspão em sua bochecha esquerda.

– Oh, é assim que você trata seus amigos? Então tudo bem! – o garoto retirou suas próprias adagas e tentou um golpe duplo, em forma de “x”. Scarlet conseguiu desviar pulando para trás e Peter deu uma rasteira em suas pernas, derrubando-a e desarmando-a. Lançou uma das lâminas ao lado do rosto da adversária, e a adaga atingiu o chão com força e ficou cravada ali – Quer mesmo continuar com isso? Não podemos simplesmente entrar e tomar uma cerveja como pessoas normais fazem em um primeiro encontro?

– Eu não sou sua amiga e não vou a lugar nenhum com você! – Crimson arrancou a arma do adversário do chão e jogou-a contra o próprio, que se desviou lançando o corpo para o lado. O pé da garota saiu assobiando e atingiu a barriga do garoto com força, fazendo-o cair para frente. O punho dela também veio, com toda a sua força, e atingiu o rosto de Pan com um estrondo. O corpo dele caiu e soltou um gemido de dor, parecendo estar desmaiado. Scarlet se levantou e tirou um pouco da sujeira que o chão tinha deixado em sua roupa, que já estava suja. Virou-se para pegar suas coisas, mas percebeu um movimento atrás de si.

Só teve tempo de olhar para trás e de ver Peter Pan segurando uma de suas tão afiadas adagas, com um olhar assassino e um sorriso sangrento.

Notas finais
Espero que tenha gostado desse capítulo e que comente o que achou dele!Tente adivinhar em quais personagens a Scarlet e o Peter foram inspirados! Acho que está na cara, não é? Bem, apenas para reforçar: esta foi apenas uma introdução para a história e alguns protagonistas, por isso teve um pouco de embolação. E no próximo capítulo espero poder contar mais sobre o passado dos dois e apresentar mais algum(uns) personagem(ns).Então, até a próxima!