Em busca da verdade
2 Capitulo 2 Parte 1-2
Valer a pena
Acordei novamente com aquela preguiça boa, levantei da minha cama macia e confortável, a cada passo que dava em direção ao banheiro só pensava em querer voltar a dormir, mas infelizmente eu tinha aula e para piorar a situação ainda era segunda-feira.
Poderia ser feriado, mas depois de faltar quase dois meses na escola, minha mãe já estava desconfiando que eu estivesse mentindo, bom quase isso né? Eu prometi que mudaria, e é isso que eu vou fazer.
Nem deu tempo de ficar aproveitando meu banho de banheira por alguns longos minutos em paz, e já começaram a cobrar muito de mim.
– Cássie, você vai se atrasar! Saia logo desse banheiro e vai se arrumar antes que você perca o ônibus... De novo. — Falou com tom de insatisfação.
– Já vou Lilly. – Comecei a me bater na banheira jogando água para todos os lados. A coragem era pouca, mas o dever era grande. Era mais triste ainda na hora de sair da água. O vento que passava pela janela me fazia ficar arrepiada. – Mais que saco. – Eu dizia a mim mesma me olhando no espelho.
Encarei meu reflexo por alguns minutos, conformada com a situação, eu teria de cumprir minhas promessas. Finalmente decidi sair do banheiro.
Bum!
Escorreguei no piso molhado graças a minha birra de criança mimada. Além de ter de secar o banheiro, agora eu teria de sentir dor pelo resto do dia.
– Eu. To. Bem... – Tentei me estabilizar segurando na banheira — Parabéns Cássie, bem maduro da sua parte. – Levantei-me e sai resmungando, como sempre.
Olhei para a água dentro da banheira, estava com pouco azul por causa da tinta do meu cabelo. Enfiei a mão dentro da água tirando o tampão fazendo a água descer pelo ralo, não levou muito tempo, mas logo ela já estava vazia.
Já estava na hora de enfrentar aquelas pessoas novamente, mesmo depois de quase dois meses, eu ainda não queria ver o rosto deles, gostaria até de me mudar de escola, mas minha mãe como sempre iria querer saber o motivo e fazer todo aquele drama desnecessário, por isso preferi guarda-los para mim. Eu não iria morrer por enfrentar mais alguns meses, já que era ano de formatura.
Ansiosa!
Peguei minha roupa preferida como já se era esperado, calça jeans, all star rosa e camisa de manga longa preta de um ombro só. Meus cabelos soltos jogados ao vento destacavam algumas mechas azuis que fiz durante meu período de ''descanso''. Minha franja na altura de dois dedos acima do nariz, me deixava com um ar mais madura quando jogada de lado.
Minha pele era bem branquinha, algumas pessoas chegavam a perguntar se eu estava doente, principalmente no inverno. Qual é, eu era branca e não doente. Às vezes eu usava maquiagem que me deixava mais morena, mas apesar de tudo preferia minha cor natural.
E pra que modificar a boa obra do papai do céu?
Cheguei à cozinha e vi um café da manhã perfeito em cima da mesa, na qual Lilly o havia preparado a manhã toda — pelo o que ela disse — e apesar de seus esforços preferi só um copo de leite gelado e sai correndo para não perder o ônibus.
Antes de passar pela porta, dei uma longa olhada neles e em como estavam todos felizes, não entendia o porquê do sorriso em seus rostos.
Ignorei-os.
Peguei meus fones de ouvido que estavam na minha mochila e continuei andando. Pela minha falta de atenção não percebi que o ônibus escolar estava indo embora sem mim, tentei correr para ver se eu o alcançava.
Corri igual uma doida e acabei perdendo a carona, que frustação! Eu já gostava de acordar cedo agora eu tinha que ir andando, e se eu voltasse para casa com minha cara de tacho com certeza ouviria alguns palavrõezinhos que preferia evitar.
Continuei andando sem olhar pra frente tentando alcançar meu celular no meu bolso direito, me distrai um pouco e acabei esbarrando em um rapaz, ele era alto, tinha cabelo castanho escuro e olhos castanhos claros, um verdadeiro príncipe encantado.
Se fosse outro dia eu até ficaria mais encantada, o problema era que eu não queria papo com ele e nem com ninguém, sem contar que fui um pouco grossa na minha escolha de palavras e gestos...
– Ai! – Exclamou o garoto. — Você não olha por onde anda garota?
– Desculpa, desculpa foi sem querer... ! — Peguei minhas coisas do chão, olhei para ele e sorri.
– Desculpas não irão voltar ao passado. — Disse ele com aquela cara de sarcasmo.
– Mas poderão mudar o futuro! — Ergui a sobrancelha tentando parecer simpática fazendo graça.
– E quem disse que eu quero mudar o futuro?
– Bom ai já é com você, não posso fazer nada para ajudar! — Dei um sorriso falso e sai andando.
– Hei, não vire as costas para mim deste jeito. — Disse ele me puxando pelo braço.
– Hei, quem você pensa que é? Você não pode sair por ai assediando as pessoas deste jeito, isso dá cadeia sabia? — Ergui a sobrancelha para ver se eu tinha atingido ele de alguma forma.
– Eu? Assediando você? Faça-me o favor e conte outra história. — Que sádico da parte dele!
– Da licença, eu preciso ir. Sabe necessito fazer algo de útil da vida além de ficar assediando as pessoas. – Sorri e sai andando mais uma vez.
– Volta aqui. — Disse ele me prensando numa árvore que tinha perto da minha casa, fiquei sem folego.
Antes que ele pudesse fazer alguma coisa, eu dei um chute nas coisinhas dele e sai correndo e rindo igual a uma doida. Foi então que eu percebi que tinha derrubado meu celular — voltei correndo, foi um risco que eu tive que correr, mas ele nem conseguia se mexer direito, foi moleza. Peguei meu celular e sai correndo mais rápido que a mulher maravilha.
Olhei para trás para saber o que ele estava fazendo e a única coisa que eu fiz foi conseguir rir sozinha, penso se alguém que me viu correndo. Porque ai seria um bom motivo pra me acharem doida. Só sei que ele ficou parado abaixado me olhando com raiva, mas nem liguei só sei que corri o mais rápido possível para longe dele.
Esperando nunca mais o encontrar.
Correndo igual uma doida consegui chegar á escola á tempo de fazer a prova. Subi as escadas do colégio e entrei correndo para dentro da sala. Não poderia perder essa prova, isso valia muito para mim e mesmo sem eu ir à escola eu conseguia passar de ano com provas e trabalhos, mas também não poderia tirar menos que sete nas atividades. Uma das minhas matérias preferidas era física.
Nem procurei minhas amigas ou a diretora, só sei que estava atrasada e entrei na sala correndo, torcendo pelo professor não ter reparado meu atraso.
Olhei ao redor da sala e não vi Duda ou Bella, elas devem ter faltado, assim que eu chegasse em casa eu ligaria para elas e contaria a novidade que eu havia voltado. Não liguei antes porque queria fazer uma surpresa e pensando bem... Parece que não deu certo.
Depois que a prova acabou peguei minhas coisas e fui andando bem devagar até meu armário, como sempre esquecendo minha senha, mas isso não faz sentido porque eu era muito boa com números e como se esquece duma senha? Fiz algumas tentativas de bater nele para ver se abria e nada, respirei bem fundo e debrucei-me sobre o armário que ficava ao lado do bebedouro. Debruçada ainda no armário, alguém de mansinho veio interrompendo meus pensamentos.
– Hãm... Oi! – Exclamou Lia – Uma aluna que apesar de boazinha não ia muito com a cara das pessoas e sabia muito bem quem prestava e quem era pilantra, ou seja, quem se aproveitava das pessoas. Não éramos bem '' amigas '' mas tentávamos entrar no jogo.
Não dei muita confiança, mesmo assim respondi com minha cara de psicótica, porém realçando minha linda simpatia, só que não.
– Oi! – Respondi tentando lembrar o que eu estava pensando.
– Você está com problemas com seu armário? – Segurava alguns livros e seu celular com um fone de ouvido pendurado em sua camiseta. Seus cabelos loiros realçavam sua beleza.
– Estou sim, mas acho que esqueci minha senha... De novo. – Fiquei com raiva e bati a cabeça no armário com força.
Lia deu um sorriso e disse com um tom sarcástico.
– Acho que você não esqueceu sua senha, pois eu soube que a diretora estava trocando os armários dos alunos... E eu acho que trocaram o seu também, mas isso não faz sentido, pois semana passada todos nós fomos avisados sobre isso. — Com a mão na boca Lia tentava entender a situação.
Ai como eu não sabia disso? Faltei na escola por um bom tempo, mas mesmo assim eu acho que eles teriam me avisado sobre isso. Por que eles não me avisaram? A próxima coisa que eu deveria fazer era ir lá naquele lugar cheio de cobras e sangue sugas, sim, professores e diretores e tentar resolver a situação.
– Ah... Obrigada, mas foi à senha mesmo, ou não... — Bebi um pouco de água e sai andando.
Fui um pouco má com ela, mas o que eu posso fazer se as pessoas são assim? Ninguém se importa com ninguém, elas são simplesmente educadas e fazem perguntas por educação, mas no fundo não estão nem ai, assim como eu que não me importei com a ajuda dela, então por que ela se importaria em saber a verdade?
Desisto.
Não sou dramática, mas já me disseram que se houvesse um concurso de rainha do drama eu ganharia. Da para acreditar? Não faço pouco caso, mas depois de certo ponto, nós também deixamos de se importar.
Nesses cinco minutos que faltavam para dar o sinal, fiquei imaginando o que eu ia fazer para tentar explicar para a diretora o porquê eu estava faltando. Nem deu tempo de pensar em uma única palavra o sinal já havia dado, que tédio, nada pior que ir para a escola depois de quase um assédio sexual, nem deu para imaginar como aquilo foi engraçado. Mas foi melhor do que ficar em casa escutando minhas músicas depressivas.
Logo o professor estaria em sala de aula, e nós não poderíamos entrar atrasados, pelo menos não sem a permissão da diretora. Eu não era fã da matéria de história, mas eu não queria que colocassem falta pra mim, principalmente depois deu ter acordado cedo e sair correndo para escola.
Decidido.
Eu iria entrar e enfrentar de uma vez aquela jaula. E o calor não ajudava, muito menos com as janelas emperradas.
Fui para a segunda aula, até porque já estava atrasada como sempre. A sala estava num clima estranho, o diretor estava esperando os alunos entrarem, nem reclamou do nosso atraso. Logo pensei que seria algo grave ou algo tão bobo que faria a aula passar mais rápido que o normal.
Esperai ai... Eu disse certo? Diretor? Ele nem trabalhava nesse período. Afinal, por que ele estava aqui?
E se fosse algo comigo? Os motivos são claros... Ele não ia muito com a minha cara, mas graças a Deus ele trabalhava a noite.
Havia dois diretores, um no período da manhã e um no da noite. O diretor Marcus era o diretor da noite, e francamente não sei o que ele fazia aqui. E a diretora Susanna era da manhã. Ela era bem mais legal que ele.
Entreolhamo-nos e fizemos cara feia um para o outro. Bem maduro da nossa parte.
O diretor não era bobo, muito menos velho rabugento, era perfeitamente lindo com cabelos escorridos, olhos verdes, jovem, experiente, com uns trinta e poucos anos, e apesar do que tinha de beleza ele tinha duas vezes pior de severidade, nem dava para fazer uma piadinha com ele que logo os alunos já levavam bronca ou pior... Suspensão. Se bem que ele aparentava ser bem mais novo do que realmente era. E apesar da nossa rixa, eu o achava bonito.
Sentei-me no fundo da sala como de costume, coloquei meus fones de ouvido, debrucei-me sobre a mesa gelada e coloquei um livro qualquer em frente ao meu rosto para que não me vissem, fechando meus olhos bem de vagar quase adormeci. E mesmo com a música alta eu ainda sim conseguia ouvir a inquietação da sala.
Percebi que as garotas olhavam atentamente para o diretor, ele deveria estar falando algo muito importante, porque ninguém nunca presta atenção nele. E então percebi que não era só para o diretor que elas estavam olhando, mas também pelo motivo dele estar lá.
Poderia ser algo grave. Pela expressão das garotas fui obrigada a abaixar o volume da música, olhei para elas e depois para frente.
– Só pode estar de brincadeira. — Eu disse um pouco alto demais, tanto que todos olharam para mim, meus olhos arregalaram-se, meu coração bateu mais rápido, me sentindo um pouco desconfortada com a situação e vergonhada, para variar.
Tentei disfarçar abaixando a cabeça fingindo que voltaria a dormir para não ser obrigada a ouvir tais palavras.
Cada coisa que me acontece que parece que estou num reality show. Mesmo não querendo, escutei com atenção tudo o que o diretor dizia.
– Classe, este será seu novo colega de sala. Claro que ele é um aluno exemplar e tem boas notas. Apesar de seu estilo, ou sua aparência... – Apesar do insulto ele me parecia bastante alegrinho. — Ele se chama David, um aluno de intercambio que estará conosco até o fim do ano. Se puderem, ajude ele a se estabilizar na escola e concluir suas metas. — Disse o diretor todo orgulhoso só porque ele é um garoto de intercambio. Grande coisa, esta escola nem é tão boa assim, não precisava exagerar. Se bem que isso daria alguns pontos para o colégio.
O professor logo se levantou começando a falar, interrompendo o diretor, suas palavras pareciam sair de sua boca em câmera lenta.
– Querido David, seja bem-vindo. — Disse o professor.
– Obrigado. – O aluno novo respondeu.
– Para ajuda-lo, gostaria que você escolhesse uma garota ou um garoto para lhe ajudar a se estabilizar melhor. Lembrando que quem ele escolher ira ganhar alguns pontinhos na nota. — Disse o professor com um sorriso malicioso olhando para todos a nossa volta.
Em questão de segundos quase todos os alunos, principalmente alunas, levantaram a mão, levantei a cabeça meio confusa. Eu estava um caco, morrendo de sono.
Normalmente quando se é aluno novo, você chega à sala e faz amigos, não existe isso do diretor vir e apresenta-lo. Pelo menos não aqui...
Nesse meio tempo o aluno novo olhou para cada um presente e me viu, deu um sorriso malicioso.
– Quem é ela? — Perguntou apontando para mim. Para mim! Foi tão vergonhoso, queria cavar um buraco e me esconder. O que ele tem contra mim? E ainda ele perguntou alto, como se quisesse que todos o escutassem.
– Ela se chama Cássie, você não quer escolher ela, quer? – Respondeu e perguntou, querendo colocar palavras em sua boca. Respondeu alto também. Acho que eles fizeram algum complô contra minha pessoa, só pode.
– Sim, eu a escolho. — Em uma fração de segundos meu coração disparou, como ele poderia querer me escolher? Eu nem ia para a escola direito, e agora vou ter que ir para ajudar esse cara a se estabilizar, um cara que além de tudo quis abusar sexualmente de mim (tecnicamente).
Eu diria não, mas os pontos, ah... Os pontos isso iria facilitar muito minha estadia no colégio, como recusar um premio tão bom? Eu deveria ser a melhor para isso acabar logo e...
– Pensando bem, vou querer aquela ali. – Nossa... Sua expressão era repugnante, eu aqui pensando e fazendo planos para conseguir me socializar com esse ser desenvoluido.
Será que ele consegue ler mentes? Como ele consegue me deixar mais confusa do que já sou? Como ele ousa mal chegar aqui e já estar brincando com as pessoas deste jeito? Quem ele pensa que é? Arh! Como pode mal chegar e já me irritar tanto? Exagero da minha parte? Acho que não.
– Ah, então desta vez você tem certeza? – Por que eles conversavam tão alto? Ninguém é obrigado a escutar.
Ele olhou para mim de novo, eu não fui tonta, mostrei o dedo para ele já que eu sentava no fundo ninguém me veria, o professor estava de costas para a classe e o diretor esta distraído. Posso garantir que ele ficou surpreso e riu da situação passando a mão pelos cabelos, fez cara de quem estava pensando, olhou bem nos meus olhos e concluiu.
– Não, pesando bem, prefiro ficar com a Cássie, claro se ela não se importar! — Sua frase enfatizou todos, tanto que todos me encararam, e deveriam estar pensando... ''Quem quer ficar com essa esquisita? '' Mas eu não me importei, me senti até elogiada.
– Não... — Todos me encararam... — Claro que não me importo. – Me senti aliviada, terminar logo com os joguinhos dele.
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