Em Tom De Azul
3 Valeska
Valeska gostava de acumular livros. Comprava-os todas as semanas, e todos os dias conferia, ao menos duas vezes ao dia, o andamento de seus pedidos. Ficava tão ansiosa e animosa que se esquecia dos seus problemas mundanos.
Valeska lia dois livros por ano – um no começo, outro no término. Ela admirava pessoas que gostavam de ler, mas, apesar de esforçar-se com ardor, não conseguia tirar prazer da leitura. Valeska tinha dificuldade de concentração, precisava a todo instante estar conferindo o andamento da vida das pessoas que dizia detestar, ver com quem saíam, com quem namoravam, o que falavam, a quem procuravam quando estavam se sentindo tristonhas. Valeska passava o dia inteiro grudada ao celular – não era dela, era uma parte dela. Precisava saber o que todos estavam fazendo, sem perceber que a única que não estava propriamente vivendo era ela. Portanto, para ela era demasiadamente complicado – quiçá arriscado – tirar uma ou duas horas do dia para repousar a cabeça no travesseiro e perder-se em um livro.
Mesmo nunca os lendo, Valeska sempre comprava mais livros. Adorava ver a sua pequena estante dobrar-se com o volume deles. E toda nova aquisição era motivo de festividade, tirava foto, postava em todas as redes sociais e avisava a todos os amigos que o seu novo livro chegara. Ela sequer os tirava do plástico, do jeito que chegavam, após um abraçado apertado, iam descansar na estante dela.
Todos os dias, ela os olhava, orgulhosa de todo o conhecimento que acreditava ter.
O motivo de Valeska gostar tanto de comprar coisas que nunca usaria era o seu vazio interior. Ela estava convicta de que as pessoas jamais a amariam, por isso acumulava coisas, as quais poderia afirmar “É meu!”. E como ela gostava de dizer “É meu, é meu, é para sempre meu!”.
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