Em Tom De Azul

11 Um pouco mais do mesmo que sempre t’escrevo


Notas iniciais
Um presente a um amigo, cheia de reflexões sobre a vida e tudo aquilo que pensamos e que queremos ser.

Um pouco mais do mesmo que sempre t’escrevo

Li Clarice em demasia, estou a sofrer de fetiches d’alma. Vontade de brincar com palavras, desfazê-las, abri-las para ver o que encontro por dentro da sua essência – a essência da essência haverá de ser a coisa mais bela, haverá de ser matéria elementar do universo, encontrarei talvez mesmo resquícios de poeira daquela primeira explosão que dizem ser a causa primária da vida. Fiquei no rebuliço disso. O que haveria antes dessa explosão primeira? Haveria outra explosão? Haveria o nada? Haveria uma melodia criadora?

Outro mal meu: Fascínio por mitologia. Leio demais, procuro o significado da minha existência na crença dos outros, porque sou cética e acredito parcamente até naquilo que meus olhos veem, porque até isso é passível de distorção e reinterpretação da mente. Posso ver algo, aquilo que o é de verdade, mas a minha mente revira a imagem, a alarga ou a diminui, dependendo do meu humor, e a transforma em arte imitação da vida. Ou seria a vida imitação da arte? Vemos primeiro com a mente interior e só depois com os olhos externos?

Veja o que estou fazendo! Duvidando de minhas próprias verdades até que sobre somente uma interrogação alarmante toda avermelhada dentro de mim! Queria ter certezas, mas a sina de nascimento meu foi outra.

Não veio anjo a tocar trombeta alguma, subiu à terra a horda do inferno, seres deformados, demônios com chifres e masculinidade latente a me atormentar, a dizer – Vens! Sucumbires à fome do conhecimento, pois tua sina é esta, estar satisfeita com tua condição de ser jamais. E, logo tu, que és desse sexo maldito e corrompido, que tem volúpia e, ao qual, o desejo, tua fonte primária, é negada desde o momento do parto. Pois mulher alguma nasceu para ser dona de si mesma. Dona de si mesma é puta, e puta tu és.

Tudo consequência do meu feminismo que é mal visto por esta sociedade. Pergunto-me quando é que vamos crescer, não apenas eu e você, mas o mundo, e enxergar os erros do passado e concertá-los. Acho que nunca. Humanidade é criança eterna, que só quer, quer e quer. Todos nós pereceremos nesse querer eterno.

E o que há de terrível nisso?

Não, não é sobre isso falo. É e não é.

O que quero te dizer – e que tem a ver com tudo isso, prometo – é que, estava conversando dia desses com primo meu, aquele de sempre, sobre viver a vida fora de casa, festas, baladas gays, paz interna, e ele me mostrou uma visão de mundo diferente da minha, mais comedida, digo, comportada, o padrão exato do que é nos ensinado. Crescerá para viver em bares apertados, cantando mulher, porque mulher não pode cantar homem, não é o papel dela, frequentando atividades esportivas para ganhar corpo e manter a saúde (a verdade, para mim, é que a perdemos desse jeito, no culto ao corpo perfeito), adorar futebol, porque brasileiro que o é tem que amar uma bola (e por que não duas?), arranjar alguém para enrolá-lo no papel-rótulo de namorado/namorada, viver dessa vida até cerca de trinta e pouco, então casar, claro, e ter filhos, uma casa, carro, emprego estável, mesmo que ele o mate, e uma mulher invejável, porque não se esqueça jamais que mulher é adorno da casa, tem que saber ser mulher, limpar, passar, cozinhar, cuidar do lar, dos filhos, do marido e de si mesma.

Ele me revirou do avesso, porque me fez pensar sobre o estilo de vida que levamos. Será que somos nós a viver pela metade por causa de nossa vã libertinagem?

E penso nos meus medos – afogar-me nos vícios de escritor maldito, sexo, álcool, drogas, cigarro, passar a madrugada em claro recolhido às palavras na falta dum’alma morna para fazer companhia na vida e na cama.

E penso em tudo que ainda quero experimentar. Será que essa vontade de viver no limite irá me matar?

E penso em tudo que já fiz, na minha escassa vergonha, na minha ousadia leviana, na minha boca que não sabe escolher palavras, na minha rebeldia burguesa, na minha teimosia obtusa. Sou libertina e vulgar e corrupta até os ossos. Exatamente o que queria ser.

Mas o que isso faz de mim?

Aos olhos dos outros, é exatamente isso. Mas de um jeito destrutivo, horroroso, sou a marginalidade da sociedade de falsos valores morais.

Aos olhos meus, sou exatamente isso. Mas de um jeito inocente, não menos desesperado. Sou alguém que quero viver para além do que me é permitido. Quero provar do pecado, da vergonha e da dor só para ter motivo para escrever.

Se levar a mesma vida dos outros, escreverei as mesmas linhas clichês sobre amorzinho que eles. Não quero amorzinho, quero um tornado de águas chamejantes, quero derrubar árvores e fazer tremer os prédios do Japão.

Falando sério agora: Temo também as consequências dessa vida minha, do gosto pelo perigo, da coragem de arriscar sempre.

Olho para o lado e vejo amigos meus com esse medo também tornarem-se mais quietos, mais comportados, começarem a transformação de borboleta rubra para lagartixa, de volta ao casulo de onde vieram. Estão perdendo as asas da liberdade. Parte de mim compreende, quer segui-los. Parte de mim é amaldiçoada com vozes na cabeça que comandam – Seja e escreva.

Preciso ser borboleta para descobrir o que está além das copas das árvores, que céu se esconde por trás do céu verde das folhas. Quero conhecer o sol, mas pressinto a tragédia de Ícaro. O amor será a destruição!

Um novo ano se espreita em minha porta e bate, pede licença para entrar. Pergunto – Por que não entra logo?

E ele fala – Está preparada, moça?

Não, nunca estive, mas isto nunca t’impediu.

Ele continua na soleira, a me observar, porque ainda não o dei permissão para entrar.

O que queres desse ano novo? O mesmo de sempre? Um pouco mais do mesmo? Uma vida completamente nova? Mas não é isso exatamente o que pedimos a todos os anos novos?

Eu quero o te sempre, não minto:

1. Terminar de escrever uma história.

2. Começar um romance.

3. Postar no meu blog semanalmente.

4. Estudar mais sobre Literatura e tudo aquilo que m’instiga.

5. Viver mais. Viver sem medo.

6. Ser uma pessoa melhor. E dizer tudo aquilo que sinto.

7. E escrever mais. Escrever sobre tudo, amargura e felicidade, desejo e castidade, escrever sobre pessoas que não são eu, criar mundos que só vejo quando fecho os olhos, e emocionar, atingir o leitor como um soco ou uma carícia ou um dardo venenoso. Escrever. Escrever, para ser.

Nesse fim de ano, contudo, farei algo que jamais fiz, não prometerei que terei mais coragem e disposição para fazer tudo o que falo. Fiz isso todos os anos e movi-me lentamente na direção que queria. Dessa vez, jogar-me-ei na correnteza e que seja!

Não é um ano novo, nós é que temos a impressão de que o é. A verdade é que o tempo não se renova, ele é uma linha comprida que se segue do Nada para o Sempre. A não ser, claro, que acredite em religiões que veem o tempo como um ciclo e que nossas almas são eternas, estão fadadas à reencarnação, a viver uma vida de novo e de novo até alcançar a Plenitude. Até se transformar em música também. Se estiveres confuso, estou a falar do pouco que sei e que se sabe e do muito que se supõe sobre o folclore celta. Tu bem sabes que tenho desses desvarios pagãos.

De qualquer forma, mesmo que o tempo seja, de fato, cíclico, e não acredito nisso nesta vida, este tempo que se enrola e que se fecha, comendo a si mesmo para renascer, se houvesse de nascer um novo ano todo ano novo, haveria também de nascer novos dias; e outros, desaparecer, nascer novos instantes, horas a mais, para que nos permitisse cumprir tudo aquilo que prometemos.

E há ainda as supertições nas quais não acreditam, mas muitos as fazem. Um dia, talvez, eu tente também. Custa nada. Nem a minha dúvida custa.

O que mais quero dizer é que, onde quer que estejas, espero que se sintas amado e que não tenhas que sentir jamais o gosto amargo de saber que se está perdendo algo, que os anos estão a passar e que as pessoas já não mais se sustentam juntas. Há algo quebrado nas famílias, nas rodas de amizades e em nós próprios. Algo para o qual só muito tempo haverá de reparar ou de terminar de desmontar. Não pense nisso, viva o já. Viva como bem quiser, faça tudo aquilo que quiser, rale o joelho, quebre o braço e a cara, chore, mas viva. E, por favor, jamais seja como eles – reles mortais que têm apenas esta vida comportada e incompleta, com seus empregos infelizes e suas famílias mortas, com os seus sonhos sobre carros, corpos, joias e marcas e mais marcas, celulares, computadores, sem palavra, sem som, sem pensamento. Apenas o eco do vazio que é a vida deles – desde o nada para o nunca.

Seja a sua própria Comuna de Paris. Quebre as regras deles, experimente do perigo e escreva sobre isso, sobre a sua própria destruição.

31/12/14