Em Meio ao Caos
1 Prólogo
Notas iniciais
O quarto cheira a lilases e coisa velha. São quatro da manhã e ela se remexe na cama, esfregando os pés nas pernas do amado, que deitado de bruços, navega no mais profundo sono. Algo a acorda, e aos poucos, ela abre os olhos suavemente.
A escuridão a incomoda. Ela se desgruda dele e gira o corpo para o lado, tateando a mesa de cabeceira, buscando cegamente pelo abajur caro que ganhou de um parente que agora ela não se lembra. Aliviada, ela encontra o interruptor e a luz amarela incendeia o seu rosto.
A única coisa que se escuta são os grilos lá fora, inquietos como em todas as noites — ela já estava acostumada com aquele som, graças aos quatro anos em que residia naquela minúscula e desinteressante cidade. Ela olha para a janela por um segundo, e algo lhe vem à mente. Algo nem um pouco fresco, algo antigo, algo que faz um calafrio repentino e traiçoeiro descer por sua espinha.
Instintivamente, ela franze o cenho e alcança a gaveta, puxando-a com muito cuidado para não acordá-lo. Suas mãos vasculham a gaveta velozmente, e quando seus dedos tocam a moldura familiar, seu coração pula dentro do peito. Sentindo o mesmo bater com violência contra suas costelas, ela traz o retrato para mais perto de si.
O rosto que nele habita é nostálgico e aparentemente doloroso. Seus olhos ardem, e ela sabe que não é pela claridade. Um suspiro trêmulo foge de seu peito e as memórias parecem atingi-la como um trem em alta velocidade. Ela fecha os olhos de súbito.
Ela sentiu falta daquele rosto. Não esperava encontrá-lo, mas o encontrou. E por incrível que pareça, ela o encontrara em meio ao caos.
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