Em Koma
3 Parte Três
Notas iniciais
Antom estava paralisado, de pé ao lado da mesa. O suor escorria por suas têmporas enquanto seus brilhantes olhos azuis olhavam sem piscar o homem à sua frente. Oren mantinha o braço direito erguido, em sua mão uma pistola prateada que refletia as primeiras luzes da manhã. Seu rosto inexpressivo encarava o jovem. Antom umedeceu a garganta, tomando coragem para dizer alguma coisa.
“Ca-calma, por favor.” Ele ergueu os braços na altura da cabeça, talvez por medo. “O que... O que você está fazendo? Eu, eu...”
“Não precisa se assustar Antom. Mas eu preciso ser rápido, foi só eu chegar e as coisas já começaram a entrar em desequilíbrio.” Oren falava devagar, sua voz sempre no mesmo tom.
“Desequilíbrio... Do que você está falando? Abaixa essa arma, por favor.” Antom sentia seu coração bater forte, como na noite em que o estranho chegou. Suas mãos tremiam enquanto o suor frio, fruto do nervosismo, brotava em todos os seus poros. Oren, que olhava impassivo pra ele, deu um meio sorriso e abaixou a arma.
“Está bem. Mas nós precisamos ser rápidos, senão eles saberão que eu estou aqui.”
“Eles quem? Todo mundo aqui da pousada já sabe que você está aqui.”
“Não Antom, eu não me referia a eles. Mas já que você tocou no assunto... Eles não estão aqui.”
“O que? Olha, você ta indo longe demais... Ficou num papo estranho o tempo todo e agora aponta uma arma pra mim!” O rapaz se mexia sem sair do lugar, os pés indo pra frente e pra trás.
“Antom...”
“Você tem que me explicar o que ta acontecendo aqui! Eu nem fiz nada pra você querer me... matar!” o jovem olhou para a janela. Não havia chance daquilo estar acontecendo. Ele correu na direção do vidro, o rosto tão colado que a respiração o embaçava. Lá fora o Sol, que minutos antes estava nascendo, agora estava a pino. Dava pra ver as ondas de calor sobre o chão de areia do deserto.
“Eu te disse. Está em desequilíbrio.” Oren encarava um Antom aterrorizado.
“Como assim em desequilíbrio? VOCÊ PRECISA ME EXPLICAR QUE MERDA TÁ ACONTECENDO!” Antom gritou, a voz saindo rouca. Sua cabeça começou a pesar toneladas e ele caiu sentado na cadeira mais próxima. Onde estava todo mundo? Por que ninguém mais notava aquilo tudo? Por que ninguém vinha em sua ajuda? Quem era o homem à sua frente?
“Eu vou te explicar, mas você tem que prestar atenção.” Ele andou até Antom e ajoelhou à sua frente. “Antom, este lugar, estas pessoas... Nada disso existe.”
Se Antom estava confuso, agora tudo piorou. Sua cabeça começou a latejar, os olhos lacrimejando e seu rosto, incrédulo.
“Isso tudo” continuou Oren, “É uma invenção. Foi projetado pra você pensar que tudo isso era real. As pessoas, o lugar... Nada disso existe. Está tudo aqui” e apontou com o indicador para a cabeça do rapaz.
“Como assim não existe? É claro que existe... Eu, eu... Eu vivo aqui, o Bêbado, a Loira... Todo mundo vive aqui! O que você tá dizendo não... Não, não pode ser verdade.” Se não estivesse tão aterrorizado, Antom teria rido de Oren.
“Não pode, Antom, isso é verdade.” Ele colocou as duas mãos no rosto do rapaz à sua frente, segurando-o. “Olhe pra mim, olhe nos meus olhos. Isso tudo é como um sonho. Um sonho profundo e perfeito, onde nada dá errado e tudo se repete. Você não está aqui de verdade. Você está dormindo, em uma espécie de coma induzido, em algum lugar. E eu vim de lá.”
“Mas não é possível, eu, eu... O Gordo, o Garçom... O Casal também...”
“São todos projeções Antom, imagens criadas pela sua própria cabeça, talvez, pra passar a impressão de que este lugar, esta pousada, no meio do deserto, era real.”
Antom não percebia as lágrimas descerem num fluxo incontrolável pelo seu rosto. Ele tremia e sua cabeça doía, enquanto aquelas palavras eram despejadas sobre ele. Não podia ser verdade, e se fosse, ele não queria acreditar. Oren continuou.
“Confie em mim, Antom. As perguntas que eu te fiz antes. Como você chegou aqui? As pessoas, sempre as mesmas, nunca ninguém novo. Até o Entregador, vinha todos os dias, no mesmo horário. Sempre. As horas também, o tempo sempre correndo de uma maneira estranha. Você nunca percebeu isso antes, né?”
“Mas, se isso for verdade... Não, não pode ser.” Oren levantou-se dando as costas pro rapaz.
“Antom, isso tudo não é real. E eu vim te tirar daqui, mas pra isso você precisa acreditar em mim.”
“Como? Aliás, como você chegou aqui?”
“Eu dei um jeito de interferir no processo que está criando tudo isso na sua cabeça. Eu entrei na sua cabeça, eu também entrei num coma, mas pra acordar você.”
“E por que você quer me matar? Por que a arma? Você...”
“Quando você morre num sonho, acorda na realidade.”
“E isso vai dar certo? Você já fez isso antes?”
“Não, eu nunca fiz.”
“Então como você sabe que vai dar certo?”
“EU NÃO SEI SE VAI DAR CERTO!” pela primeira vez Oren gritou, desmanchando aquele rosto sem emoção. “Eu não sei Antom, mas é a nossa única chance. Você precisa acordar deste transe. Eu preciso de você acordado, senão o mesmo vai acontecer a muitas outras pessoas.”
“Mas eu não me lembro de nada. Se eu acordar, o que vai acontecer?”
“As suas memórias estão bloqueadas, perdidas, enquanto você está aqui. Quando você acordar você vai lembrar.”
Antom olhava pra ele, ainda sem muita fé nas palavras que saíam de sua boca. Ele piscou os olhos muitas vezes e respirou fundo. Passou a mão no rosto, enxugando as lágrimas e se recompôs.
“Ok. Tudo bem.” Ele respirou fundo. Ficou parado uns instantes e então falou. “Pode ser lá fora? Eu queria dar uma olhada em tudo antes de... antes de acordar.”
“Claro.”
Os dois homens saíram da lanchonete, a porta rangendo atrás deles. Antom, à frente, caminhou devagar, a areia grudando nos sapatos feios. Ele olhou o posto de combustível, a poeira cobrindo tudo, e então olhou pro prédio de três andares onde vivia. Seria verdade aquilo tudo? Todo o tempo que passara ali, era tudo uma invenção de sua cabeça? Ele olhou pro céu e o sol agora se punha, atrás de duas grandes montanhas de areia. Ele fechou os olhos e respirou fundo mais uma vez. Só havia uma alternativa, e por mais louca que parecesse, era a única. Antom então decidiu. Ele queria acreditar.
“Você disse que também está dormindo lá... onde quer que “lá” seja.”
“Sim.” A voz de Oren voltara ao tom amigável de antes. “Preste atenção no que você deve fazer. Eu estarei dormindo ao seu lado e com certeza não haverá mais ninguém acordado lá, mas tenha cautela. Não deixe ninguém te ver. Há um tubo me conectando a você, e um aparelho nas nossas cabeças. Quando você acordar, tire este aparelho o mais rápido possível da sua cabeça, senão você pode voltar pra cá e nós ficaremos presos aqui pra sempre.”
“Ok. Eu tiro esse aparelho da minha cabeça e faço o mesmo com você?”
“Não. Assim que você se desligar, você desconecta o tubo que liga o meu aparelho ao seu e só então desliga o meu aparelho. Há um botão grande e vermelho, você vai saber qual é.”
“Certo.” Antom ouviu as palavras e memorizou o que deveria fazer. Suas pernas voltaram a tremer, mas ele não deu importância. Ele devia confiar que estava fazendo o certo. Deu mais uma olhada à sua volta e sentiu o sol queimar sua pele uma ultima vez.
“Só mais uma coisa.”
“Sim?” Oren perguntou paciente.
“Por que você não me matou logo que chegou aqui? Eu acordaria logo e, se você diz a verdade, eu me lembraria de você lá e desligaria esse aparelho da sua cabeça.” Ao ouvir a pergunta, Oren sorriu, mostrando os dentes brancos debaixo da barba negra.
“Eu precisava te avisar antes. Agora que você já sabe de tudo, seu cérebro já está se preparando e talvez trabalhando a favor do seu despertar. E além disso, lá na realidade, eu te conheço, mas não tenho tanta certeza se você me conhece.”
Antom achou estranho. Se ele não conhecia Oren, por que ele estava acordando-o? Por um momento ele duvidou de tudo o que ouvira, mas agora era tarde pra voltar atrás. Ele cerrou os punhos, confiante. Então, falou.
“Estou pronto.” Fechou os olhos e, em menos de um segundo, Oren ergueu a mão direita, puxando o gatilho da pistola prateada.
A bala atravessou seu peito, atingindo o coração, e uma dor lancinante invadiu todo seu corpo. Tombou para trás com violência, mas em vez de cair no chão arenoso, sentiu a baixa temperatura de uma maca de ferro, dentro de uma sala totalmente branca.
Ao abrir os olhos, suas mãos trêmulas apressaram-se a tirar o aparelho da cabeça, que parecia um capacete luminoso. Levantou-se sentindo os ossos estalarem e viu o homem deitado na maca ao lado. Ele reconheceu Oren, e apressando-se para tirar o aparelho da sua cabeça, sentiu as memórias invadirem sua mente de uma só vez. E então, se lembrou de tudo.
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