Em Família
2 Um Pretexto Honesto
Notas iniciais
Soltei um último suspiro pesado antes de começar a tocar.
Comptine d'Un Autre Été, de Yann Tiersen, ecoou na mansão, que desde a chegada da trágica notícia, estivera em completa ausência de som. Até mesmo as criadas ficaram avessas em andar na casa, pisando sobre o assoalho e fazendo com que seus sapatos de saltinho quebrassem o silêncio fúnebre.
Infelizmente ouvi a voz de minha mãe chamar meu nome em meio ao início da melodia. Ignorei-a.
Ela chamou mais uma vez e deixei minhas mãos caírem pesadamente sobre meu colo e joguei os pés para o lado, virando-me no banco. Não precisaria encará-la para saber que tinha um falso sorriso estampado no rosto.
– Os convidados já vão chegar. Pode ajudar a Senhora Deville na cozinha? – Pediu num tom meloso que eu nunca escutara se dirigir a mim. – Por favor. – Não tive vontade de encará-la e passei a observar uma arranha que cruzava meus pés, à minha frente. Ouvi seu suspiro e sabia que encontraria um olhar de reprovação. – Não faça isso comigo, Evie. Não hoje. – Ela esperou, em vão, por uma resposta minha e a escutei subir para o quarto. Provavelmente retocaria a maquiagem impecável.
Levantei-me e andei preguiçosamente até a cozinha. Certamente não haveria lugar melhor do que lá. Com tantos convidados logo a mansão ficaria insuportável e convidado algum gostaria de ir conhecer aquele recinto. Eu só queria fugir deles.
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Sentada na mesa de madeira redonda de três lugares que havia ali, eu tinha um dos ovos cozidos entre as mãos, na missão de retirar-lhe a casca. No cômodo ao lado, ouvia as empregadas comentarem sobre meu pai, enquanto mergulhavam algum aperitivo em óleo vervente.
– Quando abriram o carro, o corpo dele estava torradinho. Feito torresmo. – Comentou uma, alto demais.
– Que acidente terrível.Pobrezinha... Evie era tão grudada com o pai. Quem vai cuidar dela agora? – Perguntou a outra.
– Ah, ela ainda tem a mãe.
– A mãe? Cuidar dela? Rá, é mais provável o contrário. – Essa, certamente, estava conosco a mais tempo do que a outra.
– Ah..quer saber? Esse acidente é muito estranho! – disse a novata.
– Ficou sabendo do que andam falando?
– Está tudo bem? – Uma voz conhecida soou mais alto do que as vozes das cozinheiras. Nervosas disseram palavras de afirmação sobrepostas e uma delas passou por mim, segurando uma travessa de prata com mais aperitivos.
A dona da voz sentou-se ao meu lado, depositando algo que segurava sobre a mesa.
– Será que vai faltar recheio? – Senhora Deville questionou, pegando um pouco e balançando em frente ao meu rosto. Não pude evitar de mostrar-lhe um sorriso sem dentes.
– Seu ovos recheados me lembram de quando eu era criança.
– Você pode ter crescido mas ainda deixa cair as cascas dos ovos no chão. – Ela disse se agachando para juntar as cascas que eu tinha deixado cair em volta da minha cadeira.
Com o ovo já totalmente limpo, coloquei-o junto com os outros prontos para receberem o recheio e me estiquei para alcançar outro ovo que precisaria passar pelo mesmo processo, quando avistei o que a Senhora Deville havia deixado sobre a mesa.
– Os sapatos não estão apertados, não? – Ela me perguntou, ainda agachado no chão.
Era um buquê de lavandas roxas, pressas pelo caule por uma fita amarela. Reconheci-a na hora. Era a mesma fita que havia adornava meu presente todos esses anos.
– Já achou o seu presente de aniversário? – Perguntou ficando de pé ao meu lado.
– Achei a caixa mas estava vazia. – Menti.
– Tem certeza? Olhou direito? – Ela me olhava com um sorriso travesso no rosto. – Olhe de novo.
– Sempre achei que era meu pai quem deixava os sapatos para mim, no meu aniversário. – confessei. – Mas todo esse tempo tem sido... – Deixei a frase morrer e procurei pelo colar que meu vestido de Push preto com gola padre cobria. Puxei o pingente até ser exposto e segurei a chave na frente do rosto, onde a Senhora Deville conseguia vê-la.
– Fala pra mim o que ela abre. – Pedi.
– Como eu poderia saber? – Ela respondeu ainda sorrindo e se sentou ao meu lado para, também, descascar os ovos.
Suspirei decepcionada e foi então que escutei um murmúrio de risos vindo da sala de jantar. Os convidados já haviam chegado, mas que parentes seriam estes que estavam rindo na festa de enterro do meu pai? Andei até a porta e encostei o ouvido. Uma voz que eu nunca ouvira antes se pronunciou quando os risos cessaram. Ansiei em descobrir seu dono, principalmente após tê-lo escutado dizer: “Meu irmão era muito meticuloso.” e empurrei a porta de dobras, saindo para a sala.
Ao lado da mesa de aperitivos encontrei minha mãe, junto aos meus avós paternos, conversando com um estranho que ficara de costas para mim. Ele segurava um dos nossos vasos de cristais que enfeitava a mesa.
– No começo era um jogo de quatro vasos. Mas ai eu quebrei um, quando criança. – Ele devolveu o vaso para mesa e falou aproximando o rosto ao da minha mãe. – Agora eu estou vendo que nessa casa...alguém deve ter quebrado o outro.
Ela sorriu e balançou a mão, num gesto de vergonha e conseqüentemente olhou para o lado. Me viu parada, encarando-os, a alguns passos de onde estavam.
– Evie?! Ah, venha cumprimentar o tio Charlie. – Minha mãe disse e apontou para o homem que estava de costas para mim, no mesmo segundo em que ele virava para em encarar.
Esbugalhei os olhos. Era ele. O mesmo homem. Usando o mesmo paletó bege sobre o suéter marrom, que cobria a camisa branca. Seu nariz reto e fino, arrebitado, logo abaixo das suas orbes azuladas. Seu cabelo era pretíssimo e seu rosto oval. Em conjunto, tudo dava-lhe um ar jovial mas bastou eu olhar para sua boca que um arrepiou cruzou minha espinha. Estava sorrindo da mesma forma de quando o vi no cemitério.
Eu nunca me esqueceria daquele sorriso.
– Oi, Evie. – Disse com os olhos fixos em mim.
Senti meu estômago se contorcer e meu ouvido zumbiu. Minha mãe chamou-me novamente mas sua voz estava longe, muito longe. Meu corpo parecia estar em outro plano.
Fui acordada do meu transe quando senti o toque da minha mãe sobre a pele do meu rosto e automaticamente cruzei os braços, me esquivando do seu contato e deixando os olhos caírem para o chão.
– Ela detesta que a toquem. Sou a mãe dela, que castigo, não? – Lena compartilhou com meus avós; que me encaravam como se eu fosse algo anormal. Ela suspirou e todos ficaram em completo silêncio.
Eu sentia os olhos azulados daquele estranho sobre mim, e sabendo que minha presença, ali, era desnecessária me virei para voltar para a cozinha. Adentrei e precisei piscar algumas vezes para ter certeza de que minha pressão não caíra muito – anomalia que sempre me acontecia quando passava por certas situações.
– O que houve, Evie? – perguntou a Senhora Deville, vindo até meu lado. – Você está muito pálida...Há algo errado?
Eu precisava me recompor. Não gostaria de compartilhar com ela algo que somente eu entenderia. Talvez não compartilharia aquilo com ninguém, nunca.
Mentir me pareceu sensato naquele momento.
Engoli seco e encontrei seu olhar preocupado, como o deu uma mãe. A mãe que nunca tive.
– Sim. Meu pai morreu. – Respondi e ela suspirou compreensiva, acariciando meu braço.
Havia acreditado.
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