Notas iniciais
Espero que gostem. Me desculpem pela demora.

Os dias seguintes foram arrastados e insípidos.

Lena demonstrava sinais cada vez mais claros de uma depressão, eu sentia cada vez mais saudades da Senhora Deville e menos fome. Na escola, a biblioteca passou a ser inabitável, abarrotada de alunos preocupados com as notas – quando a corda em volta dos seus pescoços começou a apertar. Passavam praticamente a tarde inteira estudando todas as matérias de uma vez e quase não era mais possível encontrar uma cadeira vaga.

As preparações para a festa beneficiente apareciam de forma sutil nas paredes e pilastras da escola.

Os amigos de Pette não mexeram mais comigo e os de Whip não me fizeram mais perguntas.

Porém um certo alguém passou a me procurar com mais freqüência, fazendo com que uma pessoa se afastasse de mim.

Na última aula que tive com o senhor Holt, Charlie foi à escola e ficou me esperando até o momento em que nossa aula acabou. Mas eu não esperava por isso então levei um susto quando, ao sair do prédio, vi seu conversível estacionado embaixo do carvalho da escola.

Lembro-me perfeitamente de avisar à minha mãe, e somente à ela, que não iria almoçar naquele dia. Charlie estava no seu quarto, distante demais para ouvir por trás das paredes. E, se me recordo bem, ele e Lena iriam ao centro da cidade procurar por algum utensílio doméstico requisitado por uma das nossas empregadas. É claro que a possibilidade de Charlie perguntar por mim à minha mãe não era impossível mas, como uma criança, ela sentia ciúmes quando meu tio citava meu nome e eu já a vira inúmeras vezes mudar de assunto ou simplesmente ignorá-lo, deixando-o sem uma resposta.

Em suma, ele não deveria saber que estava tendo aquela aula.

Mas era meu tio Charlie.

— Como foi o ensaio? – Uma voz perguntou atrás de mim. Dessa vez não tomei susto.

Eu sabia quem era, só existia uma opção. Abaixei a cabeça e virei meu corpo.

— Bom. – Respondi. Ficamos em silêncio por vários segundos até que ele desencostou da parede e caminhou até mim, à sua maneira vagarosa, que me deixava ansiosa e receosa.

Charlie esticou uma das mãos e acreditei que eu ele fosse me acariciar. Mas seus dedos passaram longe do meu rosto e ele só abriu a porta e esperou eu passar por ela. Em momento algum levantei o rosto mas não precisava para adivinhar sua expressão: raiva. O tom da sua voz fora de deboche e ele estava claramente me provocando. Consegui sentir seu cheiro de creme de barbear e perfume importado. E os nós dos dedos da mão que agarrava a porta estavam brancos tamanha força com que ele os apertava.

Ele estava enfurecido.

Por eu não ter lhe contado nada? Por eu ter perdido o almoço? Ou ele havia visto eu fazer o dueto com o senhor Holt? E o que ele tinha a ver com isso?

Voltamos para casa em silêncio e isso se estendeu por toda a semana. Charlie não trocou mais palavras comigo, além das necessárias. Toda manhã, tarde e noite eu ganhava uma saudação e só. Mais nada.

Toquei algumas vezes no piano para incentivá-lo e dirigir qualquer outra palavra a mim mas... Nada.

Eu estava começando a sentir falta das suas inconveniências, sem contar que a situação estava ficando cada vez mais visível, ao ponto de em um dos nossos almoços minha mãe comentar se havia acontecido algo entre “nós”. Neguei e Charlie riu.

Na escola as coisas também não corriam bem. No dia seguinte procurei pelo senhor Martins e pedi que me dispensasse das aulas de ensaio e por conta da “pela bela recomendação do Senhor Holt” ele aceitou meu pedido.

Passei a ser uma das primeiras alunas a sair da sala, quando o sinal tocava, e voltava sempre caminhando para casa. Não tinha paciência para aguardar os vinte minutos que o ônibus escolar precisava esperar. Na verdade, eu tinha medo de quem poderia me encontrar.

Sim, eu estava fugindo como uma adolescente ridícula. E de tão ridículo, não consegui evitar por muito tempo.

Waylon Holt passou a me procurar nos intervalos das aulas pela manhã, me encontrando “por acaso” durante o horário do almoço e mais de uma vez insistiu para eu me encontrar com ele na sala de ensaios, após todas as aulas.

Comecei a ficar assustada. Eu sentia que ele me perseguia de fato. Eu – tentava – fugir dele mas nem sempre conseguia.

A grande noite havia chegado.

Eu estava realmente muito nervosa, mas decidi que treinar o dia inteiro não era má ideia.

Minha mãe recebeu uma ligação sendo convidada para o evento e gritou comigo durante o almoço do porquê eu não tê-la chamado. Tentou incluir Charlie na briga mas ele se manteve calado e não levantou seus olhos na minha direção.

Eu havia escolhido The Road to You, de Stefano Guzzetti e esperava que o público gostasse. Pela primeira iria tocar uma música que eu já ouvira tantas vezes meu pai tocar para mim. E em todas eu o assistia quieta até o final do ato, quando começava a chorar e bater palmas, como se sempre fosse a primeira vez.

— Foi uma bela escolha. – Escutar sua voz depois de dias foi estranho. E bom. Muito bom. Virei meu corpo para o local em que o escutara e Charlie estava com um dos ombros encostado na parede próximo à janela. Parte do seu corpo estava na penumbra então só pude ver que vestia calça e paletó bege, com uma camisa azul claro, pronto para o evento.

— Obrigado. – Só consegui dizer e continuei na mesma posição, olhando para o lugar que acreditava estar sua cabeça.

Silêncio.

Ninguém disse nada. E nem Charlie saiu das sombras mas nem por isso deixei de sustentar meu olhar.

— Vamos? – De repente minha mãe apareceu descendo as escadas em um vestido azul claro chique demais, que fazia com que suas mechas ficassem mais laranjadas e seus olhos mais azuis. Ela em frente a porta e sorriu.

Fiz um aceno com a cabeça e um leve tremor percorre minha espinha e senti minhas pernas fracas. Sabia que se tentasse levantar agora iria falhar. Sentei de lado e respirei fundo. Céus, como eu fiquei tão nervosa em segundos?

— Aonde está Charlie? Já precisamos ir para o carro.. – Ela comentou e fingi não escutá-la. Lena ligou todas as luzes do jardim e caminhou para fora da casa.

Me apoiei no piano mas ainda sentia que ia cair. E foi quando uma mão extremamente delicada contornou minhas costas e apertou levemente a lateral da minha cintura, me puxando e me colocando de pé. A sala rodou um pouco mas eu havia onde apoiar a cabeça e um perfume masculino misturado à creme de barbear inundou minhas narinas.

Inalei alto.

Olhei para cima e Charlie tinha os olhos limpos sem nenhum vestígio do seu cinza traiçoeiro.

— Pronta?

Apenas concordei com a cabeça e meu tio me guiou até o carro, como o perfeito cavalheiro que era. Ele me segurava firme, sem demonstrar nenhum desconforto ou vergonha e Lena fechou a expressão quando nos viu.

Notas finais
OBRIGADO POR COMENTAREM! XOXO