Em Família
30 Heresia
Notas iniciais
Eu estava nervosa. Não pelo fato da mentira, não. Eu já havia mentido muitas vezes – até demais e não tenho o orgulho de admitir – mas temia por estar fazendo isso à um policial. O que, além de não ser certo, implicava que eu poderia sofrer fortes sanções.
Por isso eu temia.
Prendi meu cabelo num rabo de galo.
– Sim xerife, eu estava com fome então parei no Rocket’s para comer fritas. Encontrei Whip no estacionamento e decidimos dar uma volta.
– Á noite? A floresta é perigosa... – O xerife enrugou suas sobrancelhas cinzas e me olhou por sobre seus poucos cílios.
Sorri e cruzei os braços, tentando não desviar o olhar.
– Mas eu não estava com medo. Não com o Whip lá. – Olhei para meu tio que olhava para nós, escorado na lareira. – Ele é muito forte.
– Entendo...
– Passamos momentos muito gostosos juntos. – Completei, medindo as palavras. Por um momento jurei ter escutado Charlie soltar um riso debochado, no outro lado da sala.
– E depois? – O xerife insistiu.
– Depois eu voltei para casa. Acho que Whip também disse que faria a mesma coisa.
– Sabe que horas foi isso? – Ele perguntou e eu travei. Meu cérebro procurou a melhor resposta, que não deixava nada certo mas também não abriria oportunidade para mais questionamentos.
Me atrapalhei.
– Bom, era...
– Quando comeu as fritas que horas eram? Você disse que depois de comer as fritas tiveram um “momento gostoso”. Teve ter ficado com fome novamente, certo? Eu posso encontrar alguém que me diga o horário que os viu.
– Eu acho... Eu acho que deve ter sido... Bem, eu estava envergonhada, era a primeira vez que saia com um menino. Não queria ser vista... – Eu não conseguia. Não conseguia pensar em nada. Eu não tinha um álibi, alguém para dizer que havia me visto com Whip no Rocket’s. Logo a polícia ligaria os fatos e eu seria uma suspeita. E mais tarde encontrariam o seu corpo e eu iria presa.
– Você chegou em casa às nove e meia da noite. – E de repente Charlie apareceu ao meu lado colocando as mãos nos bolsos, sorrindo para o policial carrancudo à minha frente. O xerife levantou uma de suas sobrancelhas grossas e encarou meu tio, claramente nem um pouco satisfeito com a sua intromissão no meu interrogatório.
– Estava passando “ IlTravatorre” na TBS.
Olhei para Charlie que também olhou para mim. Sorri junto com ele.
– Sim, quando eu cheguei em casa meu tio estava assistindo TV... Então eu assisti com ele.
O xerife anotou algo no bloquinho que tinha em mãos e balançou sua caneta gasta.
– Só um instante... “Eu Trouvatóire”. O que é isso? Um filme estrangeiro?
Charlie riu.
– Não, é uma ópera. O senhor quer que eu escreva?
– Não, tudo bem. – O xerife negou e olhou meu tio com olhos curiosos.
– Espero que o Whip esteja bem. – Disse chamando a atenção do velho de volta para mim. Foi o suficiente para ele tagarelar.
– Os pais estão transtornados, já faz um bom tempo desde o seu desaparecimento. Mas tenho o pressentimento de que ele vai aparecer. – O velho sorriu.
– Tenho certeza disso. – Disse da forma mais sincera que consegui. – Vai me avisar se souber de alguma coisa, não vai?
– Vou sim. – Ele sorriu para mim e se despediu. Eu e Charlie o acompanhamos até a porta e assim que a fechei eu e meu tio trocamos um olhar receoso. Não tivemos tempo de proferir palavra alguma pois a campainha tornou a tocar.
– Me esqueci de perguntar. Sua governanta entrou em contato depois de ter saído da cidade tão de repente?
Talvez eu estivesse inventando mas pude sentir uma pontada de acusação na sua pergunta. Fiquei em silêncio, encarando os olhos cansados daquele senhor. Ele estava me ameaçando?
Charlie apoiou sua mão na porta, encostando sutilmente na minha e eu pigarreei.
– Não. Ela não entrou.
O xerife bufou.
– É estranho como as pessoas desaparecem de você. – O senhor se despediu mais uma vez e eu tranquei a porta assim que ele nos deu as costas.
Charlie caminhou até a escada e subiu alguns degraus, parando em frente à janela que dava para a frente da casa e, de forma sutil, puxou a cortina para o lado. O segui e fiquei à sua frente, entre o corrimão e ele, no mesmo degrau dos seus pés.
Era como se ele tivesse parado já sabendo que eu iria até ele e deixado a distância necessária para eu me acomodar.
– Ele vai voltar. – Charlie disse.
Observamos a viatura da polícia dar a volta e sumir.
– E o que faremos?
Charlie suspirou e deixou o braço cair. Ele demorou alguns segundos antes de responder.
– Eu acho... Que vamos adorar Nova York.
Engoli seco. Sem dizer nada empinei o nariz e girei meu corpo, me apoiando no corrimão envernizado. Charlie sorria e, por conta da claridade externa (estávamos próximos à janela, lembra?), seus olhos estavam ainda mais azuis.
– Quando partimos? – Perguntei. E ele não conseguiu esconder o arregalar dos olhos. Mesmo que sutilmente, na proximidade em que estávamos, era impossível eu não enxergar.
Charlie ficou sério e seus olhos percorreram cada contorno do meu rosto, demorando nos meus lábios. Então ele levou uma mão até meus cabelos e delicadamente puxou meu elástico. Minhas mechas negras caíram sobre meus ombros e ele inalou alto, trincando o maxilar duro.
Um pequeno ruído surgiu do canto do corredor, no topo da escada e eu olhei de onde vinha.
Uma cabeça loura arruivada tentou fugir e se esconder de volta nas sombras mas já era tarde. Nossos olhos se encontraram e ela parou no lugar.
Minha mãe nos observava enrolada em seu hobby de seda.
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