Em Família
8 Foi Quase
Notas iniciais
Eu havia retornado à minha rotina normal.
Estava na minha segunda aula preferida, depois de música, a aula de artes. Dessa vez o professor Martins havia pedido que desenhássemos uma réplica do vaso com duas flores, posicionado no centro da roda que havíamos feito.
– Psiu, Evie. “Meus olhos penetram o seu interior”. – Escutei o idiota loiro do Pette sussurrar no meu ouvido a frase que o nosso professor de artes havia acabado de dizer e colocar o seu caderno de desenhos sobre o meu. Ele havia desenhado um esboço do que seria eu, completamente nua. Pelo menos ele havia me feito com um bumbum avantajado.
Para irritá-lo ignorei seu desenho e continuei da onde havia parado o meu desenho, rabiscando sobre o seu. Ele retirou rapidamente seu caderno dali e fingiu me dar um soco, parando á centímetros do meu rosto. Ele fazia isso desde a quinta série e nunca havia chegado a, realmente, bater em alguém. Já estudava com ele à tempo para ter certeza de que era um covarde para, realmente, bater em alguém.
O sinal tocou e guardei minhas coisas. Apressei-me em chegar logo aos portões da escola, antes que ficassem abarrotados de alunos, se empurrando e falando alto.
Descia as escadas à caminho do ônibus escolar quando murmúrios começaram a tomar espaço em meio ao som de buzinas e adolescentes conversando; chamando minha atenção.
Várias garotas haviam parado por toda a extensão da calçada da escola e olhavam para o outro lado da rua, rindo e mexendo no cabelo.
Parei no meio da escada, sem me importar de alguém se chocaria comigo ou não e soltei o ar dos pulmões, mexendo os ombros, quando aviste um conversível familiar parado em frente ao ônibus escolar, com um homem apoiado no capô usando seus óculos Club Master. Suas mãos estavam nos bolsos da calça caqui e seu suéter mostarda se destaca no carro azul celeste. Tinha certeza de que ele não havia estacionado em frente ao ônibus escolar – o local mais exposto – por acaso. Queria mesmo era chamar a atenção.
“Nossa, ele é muito lindo!”, “Gato e ainda tem carro....”, “Ele tem um conversível!”, “Quem será que ele veio buscar?”, foram alguns dos comentários que escutei nos segundos que precisei parar para acreditar que aquela imagem era, de fato, real.
Fingi que não o conhecia e andei reto até o ônibus. Sabia que seus olhos me seguiam e agradeci mentalmente ele estar usando óculos escuros. Sentei num banco, sozinha, e precisei escutar por todo o trajeto, até minha casa, as garotas soltarem gritinhos histéricos.
Charlie, não satisfeito por eu tê-lo rejeitado, fez questão de seguir de carro o ônibus em que eu estava. As garotas aproveitaram para suspirarem ainda mais enquanto os meninos se perguntavam o porque “daquele cara” estar seguindo-os. Agradeci mentalmente por ainda não saberem que se tratava do meu tio.
Num determinado momento ele foi até o lado do ônibus em que eu estava sentada – fazendo com que todas as garotas o acompanhassem – e eu virei para encará-lo e, pela primeira vez, o vi abrir um largo sorriso de dentes. Aquilo causou uma sinfonia de gritos no ônibus e eu abaixei a cabeça, nervosa. Senti meu rosto enrubescer – todo o tempo que estava vivendo conosco ele nunca havia sorrido daquela forma, eram apenas provocativas elevações nos cantos dos lábios.
Infelizmente mais dias assim se repetiram e mesmo quando eu já havia perdido o ônibus, me negava à ir no carro dele. E Charlie também fazia questão de me seguir por todo o caminho, com o carro à vinte por hora, enquanto eu caminhava nervosa.
Chegava a ser irritante a forma como ele era insistente.
As pessoas da escola continuaram sem saber que o “Bonitão do Conversível” era meu tio e eu não sabia a quem agradecer por isso.
♠
Mesmo com a constante presença de Charlie na casa, minha mãe não estava bem. Constantemente a encontrava dormindo, ao lado e uma taça de vinho, pelos cantos da mansão – e principalmente no escritório do meu pai. Preparava-lhe lanches que nunca eram tocados. Ela só comia bem nos finais de semana, quando, pela ausência das criadas, Charlie cozinhava.
Segundo Charlie, a Senhora Deville havia deixado uma carta, avisando-nos de que teria partido de volta à sua cidade para ajudar a família que estava com sérios problemas de saúde. E como minha mãe havia vindo de uma família rica, e não tem conhecimento algum para questões de casa, acabou achou aquilo muito normal.
Mesmo depois de ter se passado mais de um mês.
♠
Eu havia acordado atrasada naquele dia a desci as escadas apressadamente. O ônibus logo passaria pelo ponto que tinha ao lado dos portões da minha casa, e se eu não estivesse lá, ele me deixaria. Óbvio.
Nem cogitei a idéia de ir de carona com Charlie. Óbvio, também.
Já tinha me afastado da porta da casa, pela qual havia acabado de sair, quando esta abriu e escutei Charlie chamar meu nome. Parei mas não me virei para encará-lo.
– Evie, vai chover. – Anunciou. Estávamos nas épocas das chuvas, mas não era por isso que eu me preocuparia em andar com um guarda chuva na bolsa. Ignorei-o e continuei a andar com passos largos até o portão de casa. Por pouco não perdi o ônibus.
Infelizmente a volta para casa não ocorreu da forma que eu esperava. Uma chuva forte caiu e eu me molhei toda. Assim que o ônibus parou em frente à minha casa, avistei uma sombrinha amarela pendurada no portão trabalho de ferro. Não precisei pensar muito para ter certeza de que Charlie havia deixado ali para mim. Como uma exímia teimosa, ignorei o guarda chuva e comecei a correr até o caminho de casa, mas em algum momento no meio dele me arrependi e olhei para trás – olhei para o guarda chuva amarelo – e voltei para pegá-lo. Mesmo que já estivesse ensopada, abri e caminhei lentamente até avistar a mansão.
Antes mesmo de entrar escutei o som das teclas do piano serem tocadas. Joguei o guarda chuva em qualquer lugar do gramado e entrei silenciosamente na casa. Assim que abri a porta, risadinhas misturadas ao som de notas aleatórias invadiram meus ouvidos.
Meu sangue ferveu na veia quando vi minha mãe dividindo o banco do piano – que, claramente, não acomodava os dois juntos – com meu tio Charlie.
Fale com o autor