Em Família
32 Triunvirato
Notas iniciais
No dia seguinte Lena acordou cedo e se vestiu. Escolheu seu melhor e mais curto vestido – um azul marinho de costas nua e com tule, acentuando ainda mais seus olhos e cabelos claros –. Calçou saltos e desceu as escadas com cuidado, mas antes mesmos de chegar aos primeiros degraus, escutou o dueto tocado no piano
Eles já haviam acordado.
Lena tentou evitar mas não podei deixar de olhar para Charlie e sua filha, dividindo o banco do piano, e no momento em que passou Charlie tinha uma das mãos atrás das costas da menina, praticamente a abraçando-a. Ele sorria diabolicamente.
Lena se enfureceu ainda mais e respirou fundo, fechando os olhos. Andou até a cozinha mas já havia perdido a fome.
Sem saber o que fazer passou as mãos pelos cabelos e se dirigiu até a mesa de jantar do recinto ao lado. Ela havia compreendido que Charlie era louco, e precisava afastá-lo da sua família. De Evie. Porém estava sozinha nessa guerra e ela temia que já a havia perdido.
Passou o dia sentada naquela cadeira, na mesma posição. Incapaz de movimentar um músculo.
Charlie e Evie saíram após o ato e só retornaram quando o crepúsculo nascia.
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Sai do meu quarto e desci as escadas cuidadosamente – ainda não havia me acostumado por completo com aqueles saltos, mas eram lindos demais para eu não tentar dominá-los – e encontrei Charlie ao pé da escada olhando para cima. Para mim. Ele tinha as mãos nos bolsos e estendeu um delas para me firmar nos últimos degraus.
– Vamos tocar mais um pouco? — Perguntou mas nesse segundo meu estômago roncou baixo.
– Vamos comer alguma coisa antes. – Expliquei e ele concordou com a cabeça.
Charlie seguiu até a cozinha e eu abri as portas de correr da nossa sala de jantar. Liguei as luzes e tomei um susto.
Sentada na ponta da mesa, minha mãe tinha as mãos entrelaçadas sobre o móvel e seus olhos estavam vermelhos. Momento algum ela olhou para mim. Parecia em transe.
– Sabe de uma coisa eu sempre me perguntei porque temos filhos, afinal. – Lena começou com a voz falha. – E a conclusão em que cheguei é...que em algum momento de nossa vidas percebemos que as coisas estão arruinadas e sem concerto. – Ela suspirou alto e abaixou a cabeça, mexendo os dedos das mãos. Por um momento pensei que fosse chorar – Então decidimos recomeçar, passar uma borracha. Um novo começo. E então temos filhos. Pequenos cópias eu podemos virar e falar: “Você fará aquilo que não pude fazer”, “Você terá sucesso naquilo que eu falhei”. Porque queremos que alguém faça certo dessa vez.
– Mas não eu. – Lena cala e aos poucos seu rosto toma traços de fúria e quando ela gira seus olhos para mim. Firmo à tentação de me afastar um passo. Eu nunca vira olhos tão furiosos antes. – Pessoalmente falando eu mal posso esperar para ver a vida destruir você.
Engulo seco e num ato de coragem cruzo os braços e apoio meu corpo na parede mais próxima.
Lena pisca e vira o rosto, tornando à expressão em que acredito que começará a chorar a qualquer momento.
– Evie, quem é você? Você deveria me amar não deveria?
Não respondo.
Nesse momento alguém começa a assobiar uma melodia conhecida por mim e desvio o olhar para o piano, onde Charlie está sentado de costas para as teclas com os braços apoiados sobre o tampo.
Lena segue meu olhar e empina o nariz. Se levanta e caminha devagar até parar em frente ao meu tio.
– Suba até o meu quarto. Gostei do seu desempenho.
Escutamos o salto de Lena bater sobre todos os degraus até chegar ao corredor, e então caminhar até seu quarto.
De onde estou olho para Charlie que levanta o indicador de umas das mãos, a mais próxima à mim.
– Evie, faça uma mala bem pequena. Partiremos em breve. – Ele diz e se levanta, colocando as mãos nos bolsos antes de tornar a assobiar e pegar o caminho até o quarto de minha mãe.
Sento-me no mesmo local em que meu tio estava segundos atrás, e cruzo as pernas e braços.
…
E agora?...
Quais seriam as roupas mais adequadas para eu levar?, penso.
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