Em Família
31 Psicologia da Dor
Notas iniciais
– Eu sinto muito. – Depois de longos minutes observando aquela cena, foi tudo o que Lena conseguiu dizer. Sentindo um misto de surpresa, com decepção e raiva, ela abaixou a cabeça e retornou para seu quarto.
Bateu a porta com força e se trancou durante todo o dia.
Não sentiu fome. Não sentiu sede, nem cansaço. Tudo o que queria era vingança, e só conseguia sentir raiva.
Ela era mais bela, tinha mais experiência, então porque a outra? Não bastava saber dançar, falar francês e ter uma perfeita etiqueta? Talvez Charlie preferisse as mais novas.
Um pervertido!
Mas ela poderia se passar por mais nova..
Algumas vezes as próprias pessoas daquela cidade à confundiram com uma suposta irmã mais velha de Evie. Porque Charlie também não poderia pensar que ela tinha quinze anos à menos?
Um escrápula!
No momento em que chegou no fim do corredor e viu Evie de olhos fechados enquanto Charlie tirava sua liga do cabelo, enxergou a filha repugnante que tinha. Seduzindo o próprio tio? Que patético!
Mas quando olhou para os pés da menina e a viu calçando os Loubouttin que ela acreditava terem sido comprados para si, teve a certeza de que acontecia o contrário. Desde o início, em momento algum, Charlie a viu ou prestou atenção nos seus esforços de agradá-lo. Ele já havia ido ali com um objetivo traçado.
E com o susto que levara esqueceu-se da madeira que rangia e seu pé pisou em falso, entregando-a no ato. Evie imediatamente abriu os olhos e virou o rosto e ficou dura. Seus olhos bicolores arregalados e amedrontados.
Charlie percebeu, através da menina, que algo não estava certo e logo se lembrou do terceiro elemento que morava com eles naquela casa, e que seria a única responsável para conseguir contorcer o rosto de sua sobrinha naquela máscara de medo. Charlie desceu sua mão lentamente e fitou a mulher. Seus olhos estavam límpidos e divertidos, confirmando à Lena o papel de trouxa que ela tinha certeza de estar executando todo esse tempo.
Esse foi os olhos que ela não conseguiu excluir da sua mente, por todas as horas que se seguiram.
Vez ou outra ela escutava barulho de vozes baixas, portas sendo fechadas e o salto de Evie andando pela casa.
Ao meio dia pratos e talheres foram manuseados e alguém cozinhou algo doce na cozinha. Depois de duas horas ouve uma nova movimentação na cozinha que se estendeu até o fim da tarde.
Lena dormiu em algum momento que ela só percebeu quando acordou sobressaltada pela música intensa que era tocada no piano. Era um solo.
Alguém estava alegre.
Depois, por volta das oito da noite o carro de Charlie saiu da garagem e a casa tornou-se silenciosa novamente.
Lena abriu a porta e desceu direto para o escritório de Bryan.
Ver todos aquele animais empalhados, papeis de viagens e fotos estava lhe dando nojo. Ela arrancou enfeites da parede, móveis, cadeiras, jogou gavetas inteiras e fotos ainda nos porta-retratos numa enorme pilha que estava fazendo no jardim ao qual o escritório tinha acesso. Ela pegou o isqueiro que Bryan guardava na primeira gaveta da sua mesa – uma lembrança de quando fumava – e o acendeu, jogando-o sobre a pilha. Em minutos aquilo havia se tornado uma monstruosa fogueira.
Lena ainda não sentia-se satisfeita, mas era questão de tempo até sua raiva sumir junto com todas aquelas lembrança indesejadas. Uma fumaça preta subia para o céu e Lena sentiu seus problemas indo embora junto com elas.
Lena rodeou a fogueira e num último ato jogou seu caro sobre de seda pura, não antes de lhe dar um último, profundo, inspirar, inalando seu próprio aroma doce. E rapidamente foi consumida pela chamas.
Ela suspirou aliviada e retornou para dentro de casa, deixando com que o fogo fizesse seu trabalho. Já tinha feito o que queria ali.
Subiu e tomou um longo banho.
Quando foi se deitar, Charlie e Evie ainda não haviam retornado.
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