Em Cada Ponta Do Infinito
15 De volta ao Shopping.
Notas iniciais
Abri a porta e vi-o parado, todo tímido. Ele sempre foi tímido demais.
Dei um sorriso enorme, e o abracei com força.
– Eu senti tanto a sua falta – Sussurrei em seu ouvido – Tanto, tanto...
– Eu sei que sou irresistível – Ele falou, como se nossa amizade tivesse voltado em menos de dois segundos – Mas se me segurar mais forte, vou virar um pastel.
– Engraçadinho – Falei, o soltando – Entra.
Comecei a subir a escada que levava em direção ao meu quarto e ele veio logo atrás.
– Desculpa Duca, mas eu não segui seu conselho e meu quarto continua um lixão – Falei, assim que abri a porta.
– Percebi... Aquilo em cima do seu notebook é uma pizza?
Dei um sorriso sem graça e me joguei na cama.
– Olha, Tayse eu... – Ele começou mais eu o interrompi.
– Eu sei Duca... Não precisa falar... A Pri me contou tudo.
Ele deu outro sorriso tímido.
– Mas é sério... Aquela pizza é de quando? Semana passada?
– Sim seu idiota.
– Mas e a Laura? Ela continua trabalhando aqui não é?
– Claro, Laura é uma mãe pra mim. Mas eu odeio que entrem e arrumem meu quarto. Quando ele está arrumado não parece ser meu.
– Tayse, é sério... Às vezes tenho vontade de te dar uma surra.
– Então porque não dá? – Falei, o provocando.
– Não duvide dos meus braços sem músculos! – ele falou.
– Não tenho culpa se você é um NERD magrelo.
– NERDS usam óculos e aparelho. Eu não.
– Na-na-ni-na-não! NERDS tiram notas boas. Você tira notas boas não é?
– Tirei zero na prova de matemática. E aí?
– Seu mentiroso – Falei, e joguei um travesseiro nele.
– E você? – Ele perguntou.
– Eu oque?
– Você sabe... Onde estão às blusas curtinhas, as calças justas? Você mudou muito Tayse. Não te vejo usar roupas coloridas e nem salto alto. Seu cabelo vive solto e você não faz mais penteados... Isso é algum tipo de depressão? Tipo, depois que o...
– Nem fale o nome desse estupido – Falei, o impedindo de continuar – Estou muito bem assim, solteira e com roupas sem vida.
– Pois não parece... Quando foi a última vez que você foi ao shopping? Três ou quatro anos atrás?
– Isso não importa Duca. Estou bem assim, é sério.
– Você nunca está bem sem milhares e milhares de amigos a rodeando e te paparicando. Tayse, você é do tipo de menina que nasceu pra ser fonte de inspiração, nasceu pra lançar moda na escola e ser popular.
– Não viaja Duca – Falei, rindo que nem uma idiota – É sério, de onde você tira essas ideias absurdas?
– Você sabe que não é mentira Tayse. Você sabia que depois que você usou aquela jaquetinha de couro ecológico azul Royal todo mundo começou a usar?
Revirei os olhos.
– Larga de ser besta Duca. Estou bem assim. E se você quer saber, vou doar todas aquelas roupas antigas.
– Pra comprar novas não é? – Ele falou.
– Não.
– Sim – Ele retrucou – E se quer saber, vou mandar uma mensagem pra Pri agora.
– Eu não vou Duca. Vai me dizer que agora você gosta de ficar carregando sacolas pra duas garotas no shopping?
– Que foi? Daqui a pouco eu vou arrumar uma namorada e quero me acostumar com isso.
– Uma namorada NERD? – perguntei, lembrando que ele sempre diz que a namorada dele tem que ser NERD. Não me pergunte o porquê dessa ficção por NERDS.
– Claro. Amo garotas com óculos fundo de garrafa. E você vai sim.
Revirei os olhos. Mas me lembrei de uma coisa.
– Eu vou. Mas com duas condições: amanhã você, a Pri e o Gui terão que ir comigo até a casa das crianças abandonadas carregar caixas e caixas comigo. E em segundo, terão que ir ao mercado comigo pra comprar coisas pras crianças abandonadas.
Ele pareceu pensar, mas concordou.
– Quando foi que você começou a se preocupar tanto com isso? Eu sei que o que você está fazendo é lindo, mas você não era assim – Falou – Você mudou. Pra melhor.
Dei um sorriso enorme e me orgulhei por estar mudando de verdade. A antiga Tayse, mesmo vendo essas crianças, teria jogado todas as roupas guardadas fora e ainda por cima gastaria cinco mil reais com bolsas idênticas só pra não haver ninguém com uma igual à dela. Levantei-me da cama e vesti uma calça jeans básica com uma regata.
– Não vou querer roupas com brilho e supeeeeer coloridas. Já vou avisando.
– Veremos – Ele falou rindo, e me desafiando. Entrei no banheiro pra tomar um banho demorado, e com isso, relembrei nossa história.
– Flashblack da Tayse on –
Há tempos eu vejo um garoto novato sentado sozinho. É claro que ele não e o único sozinho nessa escola, mas não sei por que, ele me chamou atenção. Ele fica só na dele, comendo um lanche e observando as pessoas passando. Tem um ar meio NERD, mesmo não usando aqueles óculos enormes e aqueles aparelhos...
– Tayse, você tá muito distraída esses dias amiga – Ouvi Ray dizer.
– Não ligue pra mim, só quero ficar um pouco quieta – Respondi, ainda com o pensamento longe. Senti o Marcelo passar a mão pela minha cintura e me dar um beijo na bochecha e eu apenas sorri.
– Não é por causa da sua mãe né? – Ele perguntou.
– Talvez – Falei. Há dois meses minha mãe morreu e eu ainda não consegui tira-la da cabeça. Todos os dias em que acordo vejo ela na minha mente, sorrindo. Olhei mais uma vez pro garoto sozinho e resolvi fazer uma coisa boa na vida – Se importa de me dar licença? Prefiro resolver algo.
Levante-me e fui em direção ao garoto. Mesmo estando de costas, percebi que todos os meus amigos me observavam. Rayane, Suelen, Pri, Gui, Natália e Marcelo.
– Ei – Falei, enquanto me sentava-se à mesa do garoto – Você é novo por aqui não é?
Vi os olhos do garoto brilharem.
– Aham – Ele respondeu.
– Nome? – Perguntei, tentando soar o mais simpática possível com o garoto, que parecia nervoso.
– Carlos Eduardo... Tayse não é?
– Claro, como você sabe?
– Todos sabem Tayse – Ele respondeu e eu dei um sorriso.
– Então... Você é de que turma? – Perguntei.
Ele pareceu não acreditar no que eu havia dito.
– Da SUA turma – respondeu.
– Ai, desculpa – Respondi, sem- graça – Desculpa mesmo, sou muito distraída.
– Tudo bem – Respondeu com um sorriso – Você é cheia de amigos pelo que percebi – continuou – Mas será que são verdadeiros?
– Flashback da Tayse off –
– Tayse! – Duca gritou, me tirando do mundo da lua – Anda logo, a Pri já está aqui.
– Já vou, já vou – Gritei, enquanto desligava o chuveiro – Calma, a noite é uma criança.
– A noite é uma criança até você lembrar que amanhã tem escola – A Pri gritou.
Apressei-me e vesti uma roupa qual quer. Enxuguei meu cabelo na toalha mesmo e sai do banheiro.
– Satisfeitos? – falei, enquanto vestia um calçado.
– Claro Barbie – Duca respondeu e Pri achou graça.
– Barbie ou Mia Colucci? – A Pri perguntou.
– Nem sei onde vocês tiram essas ideias – Falei, enquanto descia as escadas – Em primeiro lugar, não sou loira. E em segundo, não sou popular.
– Quem disse isso? – Duca perguntou me acompanhando.
– É mesmo. Você continua sendo popular, querendo ou não, todos te conhecem. E em pouco tempo, você vai voltar a usar roupas coloridas e curtinhas como da Mia.
– Só que não né – Respondi.
– Só que sim – Eles responderam juntos.
– E não vai demorar muito... – Duca respondeu – Você só precisa de um namorado.
– E eu já tenho um em mente – Pri continuou.
Resolvi ignora-los e segui em frente. Tenho pena deles. A antiga Tayse morreu. É o fim dela e ela não vai voltar.
Ela é minha inimiga.
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