Em Cada Ponta Do Infinito
10 Ciúmes? Meu Deus, não.
Notas iniciais
Rayane percebeu que eu a olhava com escárnio e debochou da minha cara. Olhou pra mim e me mandou uma piscadela ridícula. Revirei os olhos pra ela e desviei o olhar, apear de saber que daqui a pouco eu voltaria a olhar de novo.
Já estávamos na ultima aula, e em nenhum momento eu deixei de encara-los... Ela praticamente se jogava em cima dele e ria como uma boba. Sabem aqueles típicas cenas de filmes em que a vilã paquera o mocinho e praticamente se joga em cima dele mexendo no cabelo e dando risinhos sedutores? Então, eu vivenciei isso o dia todo! Nas ultimas cinco horas.
– Se você olhar mais Tayse – A Pri falou, se virando pra mim e sussurrando – Ele vai perceber.
Tirei os olhos dele devagar e nem respondi, só me concentrei no professor de filosofia falando alguma coisa sobre religião. Idiota, eu a odeio. Odeio, odeio e odeio. A minha vida toda, ela queria o que era meu. Invejosa e recalcada.
– Tayse! – A Pri sussurrou, e eu senti um tapa na minha cabeça – Para de olhar!
Corei e abaixei os olhos.
– Não tem como não olhar – sussurrei, ainda de cabeça baixa – ela está praticamente se jogando em cima dele.
– E o que você tem a ver com isso? – ela perguntou – Eu sei que ele é gostoso e até te viu seminua, mas isso não faz ele ser seu.
Corei de novo e dessa vez olhei nos olhos dela, nervosa.
– Não adianta fazer essa cara – ela falou – se tá encarando, é por que tá interessada. Eu até acho incrível isso, sabe, fazia tempo que você não se interessava por alguém. Mas tudo tem um limite. E você tá praticamente comendo ele com os olhos.
– Quem tá fazendo isso é aquela perua ali – retruquei, e fiquei emburrada.
Revirei os olhos e comecei a rabiscar qualquer coisa no caderno. Não é por que eu estou olhando, quer dizer que eu esteja interessada. Só acho incrível como ela é oferecida. Se joga em cima até nos namorados das amigas.
***
Assim que o sinal tocou, indicando mais um final de manhã infernal na escola, corri em direção ao ponto de ônibus e me sentei. Hoje eu voltaria a trabalhar e não poderia chegar atrasada nem um minutinho se quer. Normalmente, quando eu não trabalho, vou a pé. Mas nos dias de quarta-feira e sexta-feira (que são os dias que eu trabalho) tenho que ir de ônibus... É a vida né. Na verdade, eu não sou obrigada a trabalhar, mas simplesmente odeio ficar em casa sem fazer nada.
Vi o ônibus se aproximar e me levantei, dando sinal pra que ele parasse. Cumprimentei o motorista e me direcionei pro final do ônibus, onde sempre costumo me sentar. Sinto o ônibus começar a dar partida, mas alguém bate na traseira, pedindo que parasse. Ignoro e coloco meus fones de ouvido.
– Que seja a primeira e ultima vez – ouvi o motorista dizer, apesar da música alta.
– Desculpe – alguém responde, e reconheço a voz no mesmo instante.
De novo. O garoto da festa.
Ele se senta ao meu lado.
– Já se recuperou da ressaca? – ele pergunta, mas eu apenas o olho com um sorriso sem graça. Confesso, estou morrendo de vergonha de ficar perto dele. Tipo, ele me trocou – Não precisa ficar corando – ele continuou rindo – eu gosto de tomate, mas não de ficar conversando com um.
– Seu bobo – respondo, rindo.
– Então, pela minha majestosa experiência – ele falou, estufando o peito – eu imagino que você deva ter vomitado horrores depois.
– Nossa, falou a experiência em pessoa – respondi irônica – Vai me dizer que você é algum tipo de alcoólatra?
– Você vai ter que conviver anos comigo, pra descobri alguma coisa sobre mim.
– Aham, eu nem sei seu nome – respondi.
– Um dia você descobre – ouvi ele respondendo, mas percebi que tinha um sorriso no rosto.
– Hum... quem sabe amanhã? Na chamada da escola? – Falei, lembrando que hoje os professores nem se quer fizeram uma chamada.
– Droga, é verdade...
Dou mais um sorriso.
– Eu imagino que tipo de pessoa você seja – falei e vi-o franzir o cenho – É o tipo de garoto quem sempre foi popular na escola, e que teve várias e várias namoradas. É o tipo que com um sorriso consegue o que quer.
Dou uma pausa e ele ergue uma sobrancelha.
– Só isso? – ele pergunta.
– Só.
– Pois eu já sei mais coisas sobre você do que imagina. Você se chama Tayse, tem dezesseis anos, mora em uma casa bonita e espaçosa, de dois andares. Uma sala, cozinha, banheiro e uma sala de jantar pequena no primeiro andar. No segundo, três quartos e um banheiro. Mora só com o pai e tem uma amiga loira.
Dou um sorriso, e espero que ele continue, mas ele fica em silencio.
– você não descobriu sobre mim, descobriu sobre minha casa. – falei.
– ah, mais pelo menos eu sei o básico.
– Eu sei que você estuda na mesma turma que eu, e que também mora no mesmo bairro.
– Isso é obvio – ele responde. – Eu estou pegando o mesmo ônibus que você, não estou?
– aham, mas isso serve pra que você não diga que eu não sei nada. – Falei, e empinei o nariz.
– Convencida – ele diz – Taí, mais uma coisa sobre você.
– Não sou convencida – retruquei.
– é sim
– não sou não.
– É sim – respondeu, e antes que eu pudesse retrucar, continuou – Convencida e teimosa.
Dei um sorriso ao perceber que perdi mais uma. Pensei e depois de um tempo percebi algo.
– Você é curioso – respondi.
– E o que te levou a essa conclusão senhorita?
– Você descobriu tudo sobre mim. É um curioso de contrato assinado. E ainda por cima, andou por toda a minha casa.
– Eu assisti a um filme na sua casa.
Olhei pra ele e mais uma vez ele ergueu as mãos em sinal de rendição.
– Você estava demorando demais pra acordar.
– Que filme você assistiu?
–Você só tem filmes depressivos! Marley e eu, Pra sempre ao seu lado... Você é do tipo que gosta de chorar não é?
– Vai me dizer que você assistiu Marley e eu?
Ele deu um sorriso sem graça a assentiu. Ficamos assim, conversando, e quando me dei conta, percebi que havia passado da minha casa.
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