Em Cada Ponta Do Infinito
4 A razão não deixa.
Notas iniciais
As três primeiras aulas foram um saco. Tentei ao máximo ignorar alguns risinhos da nojenta, mas meu ódio só aumentava. Eu tinha certeza que ela estava falando de mim pra Suelen e pra Natália, e não tentava esconder.
Fiquei nas três primeiras aulas, do careca, da fedida e da outra nojenta tentando mirabolar um plano, por que eu simplesmente não deixaria barato.
Assim que o sinal bateu, pedi que a Pri e o Gui não saírem da sala. A nojenta e o resto das pessoas foram saindo devagar e eu fingi que estava guardando meu material.
– Pri... Você ainda trás aquele esmalte vermelho pra escola? — Perguntei.
Ela deu um sorriso enorme e olhou pro Gui, que também sorriu. Ela começou a dar aqueles típicos saltinhos e palminhas de uma garota mimada e alegrinha, enquanto seus fios loiros saltavam no mesmo ritmo que ela.
– Venenosa! Êh êh êh êh êh! Erva venenosa Êh êh êh êh êh! É pior do que cobra cascavel... — Ela cantou.
– O seu veneno é cruel EL! EL! EL! — O Gui completou, fazendo uma voz bem mais grossa que o normal.
Sorri e cantei junto com eles.
– EXTRA! EXTRA! EXTRA! A antiga Tayse está voltando! — A Pri falou, como se anunciasse a noticia mais bombástica do mundo e bateu as mãos dela nas do Gui.
– Eu não quero a antiga Tayse de volta — falei — Mas não vou suportar ninguém com risinhos de lado pra mim.
– Mas como você sabe que ela estava rindo de você? – O Gui perguntou.
– Sei ler os movimentos da boca, lembra? – Falei – E já fomos amigas também, conheço todas aquelas caras e bocas – Ele pareceu entender e ficou em silencio, por isso, resolvi continuar – Então você trouxe Pri?
– Hellow! Você sabe que eu não ando sem o meu esmalte vermelho na bolsa Baby... – Ela respondeu, enquanto se direcionava e pegava o esmalte na bolsa.
Fui em direção a mesa da nojenta e falei:
– Olhe, eu não vou jogar horrores de esmalte na cadeira, se não ela percebe. Vou só pintar, de leve, mas o suficiente pra manchar aquela calça claríssima que quase chega a ser branco.
Eles riram e eu comecei a esfregar o pincel na cadeira.
– Mas e se secar? – O Gui falou.
– é verdade – A Pri falou.
Revirei os olhos. Não havia pensado nisso.
– Não vai – falei, mesmo não tendo certeza disso.
– Tudo bem... – A Pri falou – Alguns segundo antes de bater o sinal, a gente pode entrar aqui bem rápido e dar um pincela, depois nós saímos.
– Você é uma gênia – falei, elogiando-a – Vamos descer?
Eles assentiram com a cabeça e descemos pro refeitório. Sentamo-nos à mesa de sempre, a Pri e o Gui abraçados e eu bem na frente deles. Eles firam o tempo todo tentando me convencer de que o Math não era um completamente e perdidamente um idiota.
Revirei os olhos pela centésima vez no dia.
– Vocês querem que eu diga todos os defeitos dele?- Falei e continuei, antes que a Pri me interrompesse – Ele é nojento, safado, metido, safado, exibido, safado, galinha, safado, idiota, safado, burro, safado, anta, safado, riquinho, safado, estupido, safado, ridículo, safado, perai, eu já disse que ele é safado?
– Um pouco de safadeza às vezes é bom – O Gui falou – Não é meu amor?
– É – ela disse – e com um sorriso deu um beijo nele.
– eu mereço... – Falei – Ei! Não é porque vocês namoram desde os dez anos de idade quer dizer que podem ficar beijando pela escola.
– Não é porque VOCÊ não sai beijando pela escola, que dizes que NÓS não podemos – Ela disse, tentando ao máximo me provocar.
– Não sai beijando por que não quero tá? – Falei.
– Nã-nã-ni-na-não! Você não beija por que está em depressão.
Gargalhei ironicamente.
– Depressão? – Falei – Desculpa Pri, mas você tem cada ideia...
– Quer que eu fale o motivo? – Ela disse, e como eu fiquei em silencio, acho que ela entendeu como um não – Então tá.
– Vamos subir? Temos que terminar aquele servicinho... – Falei já me levantando, e ela fez o mesmo.
– Amor, eu não vou tá? – O Gui falou. – Preciso falar com o Math.
Eu revirei os olhos e a Pri assentiu.
– A parada é a seguinte – Falei, assim que chegamos à sala – é subir, pintar, e descer, tentando ao máximo fingir que nada aconteceu. Sem risinhos de lado OK?
– Ok. – Ela respondeu.
Comecei a pintar a cadeira, e assim que colocamos o pé pra fora da sala, o sinal tocou. Começamos a descer a escada que levava em direção ao pátio, e quando estávamos na metade, como quem não quer nada, nos misturamos aos alunos e começamos a subir novamente.
Meu plano era que ela sentasse e não sentisse nada, então sairia andando pela escola com aquela bundinha caída toda manchada de vermelho. Acho que todos já devem saber o que as outras pessoas pensariam...
Entrei na sala e já a vi sentada, conversando distraidamente com umas amigas. Eu me odiava por isso, aliás, eu não queria ser a mesma que antes, aquela que ria quando alguém caia e se machucava, ou então que fazia uma gordinha sair chorando, aquela só ajudou um NERD na vida... Eu me odiava por isso, mas ela já estava merecendo uma correção faz muito tempo, não só pelos risinhos, mas por tudo.
As outras duas aulas foram um saco, primeiro entrou um chato de biologia e depois química. Tentei ao máximo me concentrar na matéria e não ficar me arrependendo pelos meus pecados, mas era missão impossível.
No segundo em que o sinal bateu, sai correndo da sala, ouvindo algumas risadas e alguns comentários do tipo “Credo, sua ridícula”.
O mesmo que havia acontecido comigo. Ás mesmas risadas, os mesmos dedos. As vozes começaram e me atormentar e por pouco não voltei atrás. Mas não podia fazer isso. A razão não deixava.
Me concentrei no pensamento “Amanhã todos vão ter esquecido” e fui andando pra casa, sem nem esperar a Pri.
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