Cora já estava naquela posição há horas. Sentada de maneira que pudesse abraçar seus joelhos, ela observava seu quarto, que de alguma maneira, refletia a maneira como levava sua vida. Seu quarto inteiro era branco. Paredes, móveis, cortinas, roupa de cama e as únicas coisas que decoravam ele eram os objetos que pertencia, mas mesmo assim não eram o suficiente para trazer vida aquele local. Nos murais só haviam boletins, provas, datas e fotos toscas. Na escrivaninha, seu já velho computador e um porta lápis repleto de canetas mordidas. Em seu guarda-roupa suas roupas estavam organizadamente arrumadas, como se nunca tivessem sido usadas muito menos tiradas do lugar. Impecavelmente limpas e passadas. Por mais que Cora chegasse do colégio e deixasse suas coisas espalhadas, num piscar de olhos, sua mãe já havia arrumado tudo em seu devido lugar. É difícil tentar ser uma pessoa livre quando se está acorrentado em uma coisa chamada pais. Sua mãe era uma dona de casa compulsiva por limpeza e seu pai era um empresário ausente, mas ainda sim arrumavam tempo para controlar sua vida. Por que não podia ter uma vida normal ? Por que não podia ela mesma controlar sua própria vida ?
-- Querida, está tudo bem ai dentro ? -- A Sra. Sloan bateu de leve na porta. Por mais que Amanda Sloan fosse neurótica ou compulsiva, ainda tinha boas maneiras.
Foi então que Cora percebeu. Já no estava mais sentada em sua cama. Já não comparava mais seu quarto com a maneira como vivia a vida. Já não questionava mais a maneira de como vivia a vida. Arfando, Cora agora observava seu quarto. Ou o que restara dele. Todas as suas roupas estavam jogadas no chão; Muitas amassadas e algumas rasgadas. O que sobrou de seu computador permanecia na escrivaninha, mas sobre o chão havia cacos de vidro. Seu criado-mudo fora arremessado ao chão e ambos colchão e roupa de cama foram rasgado com algo cortante.

-- Está tudo bem mãe. -- Cora tentava respirar e nervosamente, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha -- Eu....eu só quebrei o...er...Abajur!

Cora respirou fundo e torceu para que sua me acreditasse e quando ouviu sua resposta um tanto hesitante, ficou aliviada.
-- Tem certeza que foi só isso ? -- Após ouvir um breve ''sim'', continuou -- Quer que eu lhe traga uma vassoura ou até mesmo te ajude a limpar isso ? É perigoso que isso fique ai no chão do seu quarto.
-- É só isso mãe, eu ficarei bem -- E esperou que isso fosse o suficiente.
-- Tem certeza ? -- Amanda ainda hesitava.
-- EU JÁ DISSE QUE FICAREI BEM -- Cora não conseguiu evitar. Estava nervosa, encurralada e sob pressão, não conseguia agir direito.
Ouve um momento de silêncio logo após aquilo e com um breve aviso de que o jantar logo seria servido, sua mãe se afastou da porta e foi embora. Cora conseguiu sentir isso, ela sempre conseguia. Assim como sentiu que precisava sair dali. Já havia desperdiçado muito tempo de sua vida e sua cabeça estava repleta de memórias futéis e desnecessárias e ela precisava mudar aquilo; E iria mudar.

Passando os dedos nervosamente por entre os cabelos, Cora olhou ao redor do caos que havia causado e começou a procurar o que poderia ser salvo. O tempo era curto e isso não ajudava nem um pouco. Essa era a nova Cora, despreparada e nervosa, mas ainda sim, nova. Com um pouco de esforo, conseguiu salvar duas mudas de roupas que estavam entre as que estavam destruídas e por debaixo do colchão rasgado, pegou um maço de dinheiro que havia juntado durante o ano. Enfiou tudo numa mochila ridícula que havia ganho de seu pai no natal retrasado e, com um longo suspiro, saiu do quarto e o trancou. Durante um tempo ficou olhando para a porta branca e intacta de seu quarto e ergueu uma mão e alisou delicadamente sua fina madeira. Sentiria falta daquele lugar. Apesar de ter ''acordado'' recentemente, havia passado por bons momentos naquele lugar. Mas era hora de seguir em frente, se jogar de cabeça no mundo, começar uma vida rasoavelmente boa. Uma que lhe agradasse pelo menos.

Desceu as escadas correndo, esperando não ser notada e no meio da escada parou, e decidiu encarar a situação. Respirou fundo e foi lentamente até a cozinha, com o punho fechado bem junto ao seu coração, em uma tentativa falha de tentar fazer com que ele batesse mais devagar. Da onde estava no corredor, ja podia ver seu pai sentado em uma das pontas da mesa de madeira rica, e sua mãe servido os pratos que estavam ali na mesa. Respirou diversas vezes antes de conseguir abaixar sua mão e deixa-la cair ao longo de seu corpo, assim como estava a outra, mas o nervosismo ainda a impedia de afrouxar seu punho. Coragem garota, sua mente gritava. Coragem.

Ela tropeçava em seus próprios pés, como se tivesse dois pés direitos, e o corredor parecia não ter mais fim, e quando parecia que perderia totalmente sua coragem, se encontrou parada no batente da porta da cozinha.

-- Mãe – Ela começou. Limpou um pouco a garganta dessa vez, já que sua voz estava falhando um pouco – Melody acaba de me ligar. Me lembrou da prova de química da semana que vem. Estou meio despreparada e ela se ofereceu para me ajudar essa noite. Tudo bem se eu passar a noite na casa dela ?

-- Não está um pouco cedo para essa prova ? -- Amanda ainda servia os pratos, não dirigia o olhar para Cora.

-- Vai ser uma semana cheia. Não terei mais a possibilidade de estudar em outro momento – Suas mãos suavam – É pegar ou largar.

Cora desconfiou que o seu riso nervoso no final da frase tivesse chamado a atenção de sua mãe, que agora a olhava de uma maneira entranha.

-- Algum problema ? Você parece nervosa. -- Ela limpava as mãos em um pano velho que tinha amarrado no avental.

-- Provas finais me deixam nervosa – Outro riso nervoso.

-- Tudo bem, vai ficar para o jantar ? -- Após receber um aceno com a cabeça negando – OK, mande lembranças aos Carlson.

Cora deu beijos rápidos em sua mãe e em seu pai, temendo que a dor da separação não fosse deixa-lá ir, mas a liberdade chamava por ela, dava-lhe forças. Passou pela porta principal, e deu de cara com a movimentada avenida que sempre estivera em frente a sua casa. Cora queria fazer as coisas rápidas, partir o quanto antes. Gritou por um táxi, e assim que este parou em frente a sua casa, estrou apressada.

-- Para onde ? -- O taxista perguntou educadamente.

-- O quão longe você pode me levar por quinhentos dólares ?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.