Notas iniciais
Espero que gostem :D

Mamãe está parada ao meu lado. Pelo jeito como as pulseiras tilintam em seu braço, eu sei que ela está nervosa. Talvez até mais nervosa do que eu, acho. Isso certamente justifica o porquê de ela estar sempre repetindo a mesma coisa, não é?

— Esse é o melhor dia de sua vida, Eloísa, o melhor dia.

Como também já é de praxe, eu respondo apenas com um movimento da cabeça. E talvez eu até pudesse dizer mais alguma coisa, mas, nesse momento, qualquer coisa mais brusca que isso poderia fazer desabar o véu ou o penteado que Mamãe passou horas e horas arrumando e retocando, então... Bem, é melhor não.

Também devo admitir que eu prefiro assim. Não sei se realmente queria dizer algo nesse momento. O silêncio pode ser intimidante às vezes, mas, nesse momento, eu o aprecio.

Se eu abrir a boca, pode ser que saia mais coisa do que eu esteja mesmo disposta a dizer.

— Eu sempre soube que eu ia arranjar um bom noivo para você, Eloísa. Um noivo bom e de uma família – eu a escuto dizendo. Também não é a primeira vez.

Mamãe também não se cansa de repetir isso. Mesmo quando eu era criança, ela não cansava de discursar sobre como um dia eu ainda teria um bom marido, como minhas tias ou mesmo como minhas primas mais velhas. Ela dizia que se eu arranjasse um bom marido, não precisaria passar pelo mesmo que ela.

Ah, sim! Papai sumiu antes mesmo de eu completar um ano de idade e, desde então, bem... As coisas não foram fáceis para Mamãe. Imaginem só, tendo que lidar com todas as pressões de uma mulher adulta e, ainda por cima, um bebê! Mesmo hoje, as pessoas continuam lançando olhares esquisitos para ela por causa disso.

— Você merece isso, Eloísa. Um bom casamento.

Ela parece prestes a chorar quando diz isso. Mas, para falar a verdade, isso não é surpresa alguma. Mamãe sempre foi muito chorona. Não era raro que eu a encontrasse em casa, se debulhando em lágrimas, quando eu era menor. Isso já é mais raro hoje em dia, mas, ás vezes, eu a pego olhando para o nada e, bem... Ela não diz nada, mas eu sei bem o que passa pela cabeça dela.

— Eu nem acredito que você não está reclamando...

— Mamãe... – eu tento interrompê-la. Mesmo considerando tudo o que ela já disse, eu não quero entrar nesse assunto agora. Nem quando eu já estou usando o meu vestido, a passos de distância do meu futuro marido.

— Ah, Eloísa, me deixe falar! Você sempre foi tão invocada, sempre gostou de tudo do seu jeito e sempre reclamou de tudo o que era diferente disso...

— Mamãe! – a corto, mais uma vez, dessa vez um tanto mais ríspida.

— Não me entenda mal, eu estou orgulhosa de você...

— Mamãe, o que você queria que eu fizesse?

Mamãe suspira, quase como que para ignorar as minhas palavras. Ela está tentando bloquear qualquer coisa que possa dizer que esse momento é qualquer coisa abaixo do perfeito, eu sei disso. Não a culpo por isso. Ela diz que esse é o melhor dia da minha vida, mas tenho certeza que é o melhor da vida dela. Como se estivesse consertando tudo o que já nos fez passar.

Ah, Mamãe... Eu não te culpo por nada, sabia?

Ah, não. Mamãe, eu te entendo.

— Eu me surpreendi com isso, sabe? Quer dizer, você sempre gostou das coisas do seu jeito... Lembra dos seus namoradinhos? Ah, Deus, eles já quase me deixaram louca!

— Mamãe! É o dia do meu casamento, é sobre isso que você quer falar? – é o que eu digo, por fim.

Mas, apesar das minhas palavras, o que eu realmente tenho vontade de dizer é “você nem faz ideia de todos os problemas que eles já causaram, Mamãe”. Mas, bem, esse não é o momento de falar sobre isso. Na verdade, nem sei se, algum dia, haverá um momento para falar sobre isso.

Particularmente, eu não o anseio, devo admitir.

— Eu quero me casar, Mamãe. Eu realmente quero – eu volto a dizer, mas espero que ela não note a urgência em minha voz. Talvez, para ela, isso seja apenas normal. Eu conhecerei o meu marido daqui a apenas alguns minutos e eu vou passar o resto da minha vida com ele. Mamãe certamente espera que eu esteja nervosa com isso.

Todas as minhas tias ficaram nervosas quando passaram por isso.

Mas, bem, eu não estou.

Eu posso me preocupar com isso mais tarde. Terei tempo demais para me preocupar com isso depois, quando a morte for a única coisa capaz de nos separar.

Na verdade, tudo o que eu sinto é... Bem, alívio.

Eu preciso estar casada.

Eu ainda me lembro das coisas que as outras pessoas diziam sobre Mamãe – ou mesmo sobre mim! – quando acreditavam que nós duas não estávamos escutando... Ah, Deus, as pessoas podem ser cruéis quando querem.

E eu não quero passar por tudo isso novamente.

É por isso que eu preciso casar com um desconhecido.

Por mim.

E pelo bebê que, neste momento, está crescendo dentro de mim.

Notas finais
E então, o que acharam? :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!