Elos- O Início

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Demorou esse >.

Escuro. Onde estou? Não enxergo meu corpo. Estou de olhos abertos? Quem sou eu? O que aconteceu, ou, está acontecendo? Ah, eu estava naquela sala, com aquelas pessoas estranhas.

Como vim parar aqui?

Quantas perguntas eu tenho. Ninguém para me responder. Em algum lugar dessa escuridão vejo uma luz vermelha tremeluzir como uma chama ao vento. Começo a ficar tonto, parece que minha existência está sendo torcida como um pano úmido quando dele é retirada a água. A luz vermelha começou a crescer, ficar cada vez maior, como uma bomba no ápice de sua explosão.

De repente vejo uma figura bizarra, algo como um pedaço de algo mastigado e cuspido no lixo, espera... É a chama vermelha de antes, ela parece se distorcer em algum código, se transformar em algo que não é possível distinguir apenas com o conhecimento do que existe no planeta Terra. A coisa para. Ela aproxima-se do meu “Eu”, existente nesse lugar estranho, e começa a tentar como me ler, como se fizesse o que um bebê faz quando quer dizer algo. Transformou-se em uma pedra, mas pareceu não conseguir o que queria. Transferiu sua forma para uma roda, pareceu ter evoluído. Cansou-se de procurar alguma coisa plausível à humanidade e concretizou-se em um pingente vermelho em forma de uma flor de lótus, ele começou a girar em torno de si mesmo e desapareceu. Senti grande paz neste momento, algo que me fazia levitar como um balão de hélio.

Abro os olhos subitamente. Escorre suor frio de minha testa, estou em minha cama. Mas que droga! Toda vez será assim? Sempre que eu entrar naquele lugar acabarei voltando para casa sem nenhuma explicação? Que diabo de sonho foi aquele? Pareceu até real, por mais que não houvesse nada lá que indicasse um resquício de verdade.

Revirei-me na cama e senti algo duro embaixo de meu travesseiro. Enfie a mão por baixo dele e senti algo frio e duro, metálico, era também pontudo nas suas extremidades, puxei o objeto e sentei-me na cama, eita, agora fiquei preocupado. Era o pingente do meu sonho! Uma flor de lótus vermelha, do tamanho de meu pulso, fria e metálica. Droga, droga, por quê? Estou de saco cheio! Essas coisas estranhas acontecendo e eu não consigo nenhuma resposta, algo que me diga o que devo fazer em relação a isso tudo. Pois quer saber? Eu não ligo mais. Se algo tiver que acontecer, que aconteça! Não vou mais ficar xeretando por aí, ficarei quieto em meu canto, vivendo o de costume, não me importo. Pulei da cama decidido, fui até a sacada de meu quarto, abri as janelas e joguei a flor do prédio, não vi onde caiu, tomara que tenha quebrado e deixado de existir. Arrumei-me normalmente sem grandes complicações.

“Estou atrasado para a aula”, pensei. Mas quando olhei no relógio da cabeceira de minha cama vi que dia era hoje, era domingo. EU ME ARRUEI AS CINCO DA MANHÃ DE UM DOMINGO PARA IR À ESCOLA!!

Onde estão meus pais, meus irmãos e o barulho da cidade?

Fui a todos os quartos da casa, sem ninguém neles. Onde poderiam estar a essa hora no domingo? Não deixaram nenhum recado. Peguei o elevador e desci até o térreo, não havia porteiro. Sai do prédio e comecei a andar pelas ruas, estavam muito quietas, não havia nenhum barulho, nenhum pássaro, um passo, uma brisa, nada. Andei até a esquina-da-morte no caminho da escola, não havia nenhum carro vindo nem indo, de nenhum sentido da via.

Comecei a ficar assustado, essa sensação de vazio, sem ninguém para dizer como me sinto, sem ninguém para ver passar e pensar em como ela pode ser legal. Comecei a correr por qualquer lugar. Correndo rápido e sem parar. Toda rua, ninguém. Toda loja, ninguém. Parques e praças. Ninguém. Ninguém. Onde eu estava? Por que todos haviam desaparecido?

–Alguém! Alguém aqui!?- gritava para o alto. –por favor, alguém responda! Onde estou?- minhas pernas começaram a ficar bambas.

Lágrimas molharam as maçãs de meu rosto e caí de joelhos no chão.

–Será que você poderia parar com o drama, por favor?

Assustei-me. De onde veio essa voz? Reconhecera-a de pronto, como uma voz que eu não podia facilmente esquecer. Escutei um tilintar de metal. Tirei as mãos do rosto e encarei minha frente. A flor de lótus estava caída perto de meus joelhos, e atrás dela estava Aamári me encarando.

–Isso é algo curioso, você deveria cuidar melhor dele.

Ela me puxou pelo braço e encarou-me com cara de que pergunta: “Você tem quantos anos para se jogar no chão porque não achou os pais?”. Olhei para ela surpreso, é claro que eles tinham que ter algo a ver com essa situação. Limpei meu rosto com as costas da mão e funguei. Aamári andou uns cinco passos e olhou para mim, percebeu que eu não estava a seguindo e fez um sinal com a mão, com um sorriso no canto da boca.

Começamos a andar em silêncio por dez minutos indo para onde ela conduzia, viramos quatro ruas com cinco metros entre elas. Já estava eu a ficar angustiado com o silencio e a demora da caminhada, eu atrás dela três metros continuamente. Ela começara a assobiar, e parecia saltitar ao ritmo da música estranha, nem devia lembrar que eu estava aqui.

–Você gostou daqui?- pergunta ela de repente, calmamente.

–Bem... É meio, solitário não acha?- respondi sem muita convicção na voz, como se estivesse só de passagem.

–De fato é. Mas fiz o melhor que pude, — ela rebateu como que estivesse magoada- se eu fosse recriar tudo o que você já tivesse visto e escutado, eu estaria morta agora, e você provavelmente também.

–Como assim?- perguntei completamente desnorteado.

Ela olhou para mim como se estivesse se divertindo imensamente com aquela conversa.

–Eu posso recriar coisas, pensamentos que alguém teve ou tem, posso invocar o que existe nesse e em outro universo, desde que alguém já o tenha visto e esteja no meu alcance mental. Antigamente eu tinha mais poder, aquela civilização... Egípcios, lembrei o nome deles. Davam-me o que eu pedia como um garçom serve um cliente em um restaurante. Nomearam-me Aam, até que gostei desse nome, mas preferi usar Aamári.

Eu passei alguns minutos em silêncio tentando entender o que ela dissera. Foram minutos desperdiçados, pois não cheguei a lugar nenhum.

Ela se calara. Estávamos agora passando por um beco que ia ficando escuro, cada vez mais, até não poder mais se diferenciar o chão de uma parede. Só passos eram ouvidos, os meus e os de Aamári. Aquela escuridão era-me familiar, era como a que eu havia passado quando entrei pela parede da máquina de refrigerante.

–Aqui é a separação de um mundo entre o outro Dave, é sim o por onde passou quando seguiu Abadone. — ela leu meus pensamentos- Após este estágio de vazio, vem o mundo das ideias, dos sonhos, onde tudo é possível, ele cria o que você quer, parte de meu poder veio de lá.

Quando ela terminou de falar, começaram a aparecer na escuridão, rachados brancos, finos inicialmente, mas foram se abrindo, mais e mais, até o ponto que uma fresta era a entrada para o que ela dissera ser o mundo dos sonhos.

Ela parou em minha frente e pegou a flor de lótus de minha mão.

–É hora de sabermos quem é você Dave...

A flor começou a vibrar e ficar quente.