Elos- O Início

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Aew pessoas, espero que gostem!

É sempre assim, não sei por que fazia isso.

Acabara de tocar o sino da última aula, ajeitava meus livros na mochila e colocava o moletom preto, não que estivesse fazendo frio, em um país tropical, na região centro-oeste, não é um lugar que faria ninguém tremer por um vento que passou pela janela. Eu o vestia, pois não cabia na mochila, e aguentava o calor, mas isso era devido o fato de eu ser um preguiçoso e não querer levar o maldito moletom na mão. Ah, para que o trazia mesmo? Não sei o ar-condicionado da minha sala nem gelava tanto assim.

Olhei para frente, procurava passando os olhos pela sala exaustivamente branca, em busca de algum dos meus, assim ditos, amigos.

Fanta-Uva falava com a Golfinho, Cabelinho explicava para Ana que um gay não é gay porque quer vestir um vestido branco no seu casamento, e Trackinas falava do seu ídolo musical- que era até bom, mas ela falava tanto dele que ninguém queria mais ouvir nada- para suas amigas. Então a mim, restou apenas colocar a mochila nas costas, enfiar as mãos nos bolsos do moletom, e andar sozinho, da sala até as escadas, até o portão da escola, e daí à minha casa, tentando não ser morto ao atravessar a avenida no meio do caminho. Sempre era um desafio.

-Cheguei. –disse aos ventos abrindo a porta de casa.

Ninguém respondeu. Oaviti mexia freneticamente no seu tablet, com fones de ouvido conectados, meus pais já tinham ido trabalhar e minha irmã via televisão, vidrada. Dei “oi” para a empregada “que chamava de ajudante porque é mais respeitoso”, segundo meu pai. Larguei a mochila em um canto no corredor da entrada e fui ao meu quarto- meu, e infelizmente, do meu irmão, sempre quis um quarto só para mim, assim eu poderia fazer o que eu quisesse com ele, nada erótico... – tirei a camisa da escola, que larguei também em algum canto do quarto, coloquei meus óculos na escrivaninha e pensei “por que eu comprei esse óculos horrível?”, era muito estilo velhote e frágil, não tinha nada segurando as lentes a não ser as pequenas, muito vermelhas, e finas hastes que se ligavam às lentes.

Terminei de almoçar e fazer meus deveres de casa rapidamente para que então pudesse começar a tocar meu violão — na verdade não era meu por completo, era um velho violão que meu primo havia me emprestado. Era um ritual, pegava meu computador, trancava a porta do quarto dos meus pais –onde eu estava- sentava na cama, e começava a procurar por cifras de músicas que eu gostava, para aprender a tocar. Durante um tempo, não havia muitas finalidades esse ritual, aprendia por gostar mesmo, porém, descobri que Fanta-Uva tocava baixo elétrico, Cabelinho guitarra, e como eu não era tão ruim assim com a voz, chamei-os para formarmos uma banda, um conjunto, qualquer coisa que envolvesse um guitarrista, um baixista e um pianista que tocava violão por hobbie e cantava por acaso, sem um baterista, tocando juntos. Bem, o que importa é que aceitaram.

Cabelinho na verdade era um apelido que fizeram para meu melhor amigo, Daniel, ele tinha uma juba ondulada e preta que lhe alcançava os ombros- daí o nome de gozação, Cabelinho- e lembrava algum músico dos anos setenta, só que muito mais forte e, com grandes chances, menor que um músico dos anos setenta, mas ele era assim somente porque a puberdade o havia atingido em cheio antes que qualquer pessoa da escola tivesse um fio mais grosso saindo do queixo. Ele era a pessoa mais próxima de mim, confiava nele como jamais confiei em alguém. Deveras, éramos bons amigos desde a infância. A única coisa que me fazia mais distante dele era que ele gostava, do que o sexo que eu gostava, gostava. Resumindo, ele era homossexual, por isso explicava para Ana que um gay não o era por querer vestir um vestido de noiva em seu casamento com outro homem.

Fanta-Uva, era na verdade, um apelido dado a Vinícius, — outro amigo de infância que eu considerava pacas- devido à alta taxa desse refrigerante que corre pelo seu corpo constantemente. Ele meio que idolatrava a Fanta-Uva, e ficava triste por não conseguir achar mais para vender em lugar algum da cidade, quando achava, comprava aos montes para estocar em seu freezer. Pelo tanto de refrigerante que ele consumia, ele deveria ser alguém raquítico, porém os anos de natação praticados com muitas contusões na batata da perna o fez muito alto e realmente de um físico forte, bem, quanto à altura não posso zombar, também era eu um boneco de Olinda. Mas ele tocava o baixo com paixão.

Dado o fim do dia, meus pais chegaram em casa, mandaram eu arrumar umas bagunças envolvendo a camisa e a minha mochila largadas pela área chamada apartamento pequeno com 3 centímetros cúbicos de bagunça onde era impossível achar algo, disse isso a ele, mas mesmo assim fui obrigado a arrumar tudo.

Escovei os dentes, arrumei minhas coisas para amanha, mandei meu irmão ir dormir logo, e deitei na cama, mas não dormi. Liguei o cronômetro de meu celular. 40 minutos. Esperei até que o alarme avisasse que já podia sair da cama. Levantei-me, chequei meu irmão, minha irmã e meus pais, estavam todos dormindo. Vesti uma calça jeans e uma camiseta preta.

Atravessei do quarto até a sala de estar silenciosamente, e, com muito cuidado para não fazer barulho, tranquei a porta do apartamento, a chave no meu bolso.

Chamei o elevador e esperei com calma. “Talvez hoje aconteça alguma coisa...”.

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A alguns dias haviam convidado meus pais para uma festa de confraternização de sei-lá-o-que, e me arrastaram junto com eles. Eu particularmente não tinha nada melhor para fazer, porém, também não queria ficar sentado duas horas com um som alto no meio de gente chata sem assunto que fica olhando um para o outro e também não queria estar lá. Pela comida.

Estava aguentando até metade da festa, mas não consegui ficar quieto por muito tempo mais e sai do local para andar um pouco por aí e ver s relaxava um pouco. Passei por ruas e ruas, quando vi uma coisa diferente do que normalmente é visto em uma cidade grande anoite nas ruas. Um menino com praticamente a mesma idade que eu tentava enfiar uma batata em uma máquina de refrigerante. Aquele menino estranho de cabelo arrepiado, com roupas sujas e uma cartola intacta levada na mão, conseguiu enfiar a batata na máquina.

E o pior de toda aquela situação, é que a parede que estava logo atrás da máquina se abriu, engoliu a máquina, e deu passagem para o menino entrar, como se estivesse dizendo: “Demorou hein.”. Parecia que ninguém havia visto nada do que acabara de acontecer, e pareceu que o menino não me viu espiando, e se tivesse visto, pareceu nem se importar. Ele entrou pela passagem escura e desapareceu, eu, como curioso que sou segui-o correndo, com receio de que a passagem se fechasse. Ainda bem que havia me preocupado, logo a estreita e escura passagem estava se estreitando mais ainda e começava a dar forma a uma máquina de refrigerante barato.

Corri em toda velocidade, antes que a passagem se fechasse, eu pulei dentro dela. Claro, eu poderia ter batido a cabeça em qualquer coisa e caído no chão semiconsciente feito um idiota louco. Mas consegui adentrar o escuro. Senti o escuro, literalmente. Era tão escuro que eu podia sentir o frio de estar completamente sozinho em um mudo isolado, senti algo completamente apavorante, um medo terrífico invadindo minha alma, algo passando por dentro de mim como uma lâmina gelada que perfurava meu peito me deixando em agonia. Cogitei a possibilidade de retornar e comecei a procurar uma saída, mas não havia nada lá além da escuridão, comecei a me debater com aquela dor terrível.

Pisquei. Ao abrir os olhos estava deitado em um banco de praça de madeira, em posição fetal pela dor que agora não sentia mais. Olhei em volta, mas não pude definir nada. Era muita névoa, e era muito espessa, não se via um braço a frente. Levantei-me e comecei a andar confuso. “Que diabos está acontecendo?”. Andei, andei. Não chegava a lugar nenhum, porém, logo a frente, vi uma luz fraca, algo movimentado, e murmúrios distantes. Comecei a me aproximar, e os murmúrios se tornaram vozes misturadas. Logo depois de alguns passos já definia o movimento de carros e pessoas andando em calçadas. Corri em direção à imagem.

Cheguei a rua que eu estava antes de tudo, igualzinho, a minha frente, a máquina de refrigerante sem menino tentando enfiar batata nela. Virei-me rapidamente para trás, e não havia nada mais de neblina, somente a cidade.

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Hoje eu vou repetir tudo de novo. Olhei para o bolso para checar se a batata estava em minha mão.