Elo Irrevogável

5 Capítulo 5 - Contatos Inquietantes


Notas iniciais
Desfrutem o capítulo, meu preferido até agora

***

Estrela era uma pessoa bastante inquieta. Foi uma das primeiras coisas que Maria notou naquele contato com a filha. Ela tinha certa dificuldade de permanecer imóvel, e essa inquietude se mostrava não só nos seus gestos, mas, sobretudo, em seus olhos azuis. Eram olhos extremamente vivos, de quem anseia abraçar o mundo, de quem é feliz. Isso dava a Maria um pouco de calma. Constatar, ao olhar-lhe nos olhos que ela era feliz. Não poderia suportar descobrir que sua vida tivesse sido triste, infeliz. Que em todo aquele tem no qual a buscou, sua falta tivesse sido mais danosa do que o esperado. Mas olhando-a nos olhos ela viu que a jovem era feliz.

_ Sim, a senhora teve uma grande influência na minha vida. – ela respondeu. – Eu sempre fui muito volúvel e isso, que esteja claro, que não digo eu, dizem meu pai e meu irmão que são quem mais me conhecem.

_ Então eu te influenciei a ser volúvel? – Maria perguntou sorrindo. O sorriso era uma maneira de tentar conter a emoção daquele encontro.

_ Não, claro que não. – disse ela dando uma gostosa gargalhada – É exatamente o contrário. Quando eu tinha 15 anos eu li sua biografia numa revista de joalheria. Ainda não sabia o que queria da vida e isso não é surpresa com esse meu espírito volúvel. E quem sabe o que quer da vida aos 15 anos?

_ Você tem toda razão. Ninguém sabe e nem tem a obrigação de saber o que quer da vida aos 15 anos.

_ Mas a sua biografia me fascinou. Li que a senhora iniciou seu negócio do nada e a joalheria Acuña é hoje uma referência em todo país. Não há ninguém nesse meio que não saiba quem é Maria Acuña. E, além disso, suas peças são lindas. Têm uma inspiração diferente, e eu imagino que isso venha da senhora. Ao te ver na revista, vi que era linda, exuberante e agora que estamos nos falando, essa impressão só se confirmou. E percebo o motivo da valorização de suas peças.

_ Eu agradeço. É muito importante ouvir algo como isso de você. – Estrela mudou a expressão surpresa, ela logo justificou – Uma jovem estudante que inicia os passos na minha profissão.

_ Não, não agradeça, é a verdade. E isso influenciou muito minha escolha. Por isso lhe disse que a senhora influenciou minha vida. Se eu não tivesse lhe conhecido aos 15 anos, hoje não estaria aqui. E estou apenas no início do curso, mas já amando. Quando visitei a joalheria Acuña, minha paixão por essa carreira foi ainda maior...

_ Você já foi à minha joalheria? – Maria a interrompeu surpresa

_ Muitas vezes! – Estrela respondeu. – Inclusive antes de começar a faculdade. Eu a visitava e ficava admirando as peças. Também tenho algumas peças suas, mas eu gostava mesmo era do processo, de admirar, sentia uma ligação com elas, com aquele lugar. Até que terminei aqui: nessa faculdade e você... Perdão, a senhora, foi e é a minha grande inspiração.

_ Obrigada. – Maria se emocionou com suas palavras. Era muito, muito difícil conter os sentimentos em um momento como aquele. A sua filha, sua menininha, a admirava e a considerava uma inspiração – Eu não me lembro de ver você por lá.

_ Ah, mas eu já vi a senhora por lá muitas vezes. Considero esse nosso primeiro contato porque é a primeira vez que nos falamos, mas já lhe observei algumas vezes. Eram das coisas que eu ficava admirando: a maneira como lidava com as peças, com os empregados, o amor e o cuidado que colocava nesse trabalho. Foi aí que eu soube que queria ser como a senhora. Mas sei que ainda falta muito.

_ Falta, mas você está no caminho certo. Como é o seu nome?

_ Estrela. Me chamo Estrela San Roman.

_ Você está no caminho certo Estrela San Roman. Você já entende que produzir joias e desenhar peças não é um processo mecânico. Muito disso não se pode aprender aqui, mas na experiência de lidar com as peças, a matéria prima e o processo de criação. É preciso respeito pelos objetos e o processo de transformação que o seu trabalho dará a ele. Tenho certeza que você escolheu bem sua profissão, você fala como uma pessoa que tem vocação. É importante amar o que se faz e eu vejo que você tem uma ótima relação com a profissão que pretende exercer.

Falar com a filha emocionava Maria ao mesmo tempo que a revoltava. Por que ela teve que crescer longe dela? Por que lhe tiraram seu bem mais precioso? Não era justo que nem sequer o nome que ela lhe deu era o seu. Isso era algo que a magoava. Mas a pessoa que ela se tornou a enchia de orgulho, que mãe não se orgulharia de uma jovem como Estrela?

_ Que coisas lindas a senhora disse. E diz de uma maneira tão apaixonada, nem parece que somos duas estranhas.

_ Mas nós não somos, Estrela. Você me falou do seu amor pelas joias e seu processo de produção e são sentimentos iguais aos que eu tenho com elas. Isso nos dá uma proximidade, isso faz com que não sejamos estranhas.

_ De fato, eu senti uma empatia à primeira vista com a senhora, mas creio que seja porque eu já conhecia sua história e já te admirava.

_ Sim, deve ser por isso. E olhe, quando você quiser me procurar na joalheria, pode ir e falar comigo. Terei imenso prazer em te mostrar o processo de produção desde que tocamos e selecionamos a matéria prima, até o processo de criação das peças, do desenho ao desenvolvimento.

_ É sério? – Estrela se surpreendeu.

_ Claro que sim! Assim como você mesma disse que valoriza minha trajetória porque eu comecei do nada, eu valorizo a paixão de estudantes como você por essa profissão. É por isso que estou aqui hoje, para demonstrar a vocês o caminho tão bonito que escolheram seguir e até onde podem chegar. Pode ir à Joalheria Acuña quando queira e me procurar.

_ A senhora não sabe como foi bom te conhecer pessoalmente, que tenhamos tido a oportunidade de nos falar. Eu vou te tomar a palavra! Prometo que vou à sua joalheria o mais breve possível. E não vou mais tomar o seu tempo. Foi um prazer.

_ O prazer foi meu – Maria respondeu com a voz um pouco embargada.

Aquela situação superou as expectativas de Maria. Estrela era uma pessoa muito melhor do que ela imaginava. Não só constatou que a jovem era feliz, como percebeu que era uma pessoa admirável, que tinha um espírito fascinante, apaixonado, inquieto e mais do que nunca queria estar perto dela. “Não posso negar que Estevão fez um bom trabalho”, repetiu para si.

***

Estevão não conseguia disfarçar a inquietação que tomou conta dele ao pensar que veria Maria novamente naquela tarde. Estava tenso, nervoso e sabia bem porquê. Voltar a vê-la depois de tantos anos, tão linda e exuberante o deixava extremamente mexido. Mais do que isso, revolvia todos os seus sentidos. Sempre a havia a amado e se afastou-se dela foi por acreditar que ela era uma pessoa desonesta, mentirosa e uma criminosa. Nunca imaginou ter a oportunidade de voltar a vê-la e perceber que podia ter sido tão injusto com ela. Decidiu falar com Evandro.

_ Evandro, eu posso entrar?

_ Claro, entre, Estevão.

_ Quero conversar com você sobre um assunto importante.

_ Já estou terminando de preparar os papéis, à noite levo a sua casa para Estrelinha assinar e ela já será uma acionista do nosso escritório.

_ Não, não é sobre isso. Tenho que te contar sobre Maria. A reencontrei ontem.

Evandro arrefeceu com todo seu corpo. Não podia acreditar naquela coincidência. Acreditava ser possível que os dois voltassem a se encontrar, mas, na verdade, nunca esteve preparado para ouvir aquilo. Maria era um assunto ‘tabu’ para Evandro. A culpa o corroía. O estava corroendo há mais de 20 anos. Nunca lhe havia falado sobre seus sentimentos por Maria e, muito menos, da brutalidade que havia sido capaz de cometer em nome daquele amor. Seria mesmo amor?

Quando ouviu aquela frase da boca de Estevão os sentimentos se acumularam nele. Suas culpas, seus remorsos, sua desonestidade para com seu amigo tão fiel. Sempre havia sabido da inocência de Maria e nunca havia lhe dito, pelo contrário. Até havia ajudado Consuelo e Alba a incitarem na mente de Estevão um sentimento de traição com relação à conduta de Maria. Jamais lhe disse que a representou, poucas vezes falaram sobre ela. Não porque Estevão tivesse algum problema em fazê-lo, mas porque sempre que tocava no assunto Evandro se incomodava e fazia tudo para fugir dessa conversa, para escapar de suas próprias culpas. Aquele era mais um desses momentos. Ela tinha regressado. Voltara e agora seria novamente parte de suas vidas. Isso era algo atemorizante para Evandro.

_ Maria? – ele indagou assustado – Maria que foi sua namorada?

_ Sim, ela. O que foi Evandro? Parece que você se assustou muito.

_ Não, Estevão, só me surpreendi. – procurou disfarçar o grande incômodo – É uma pessoa da qual não ouvimos falar há mais de 20 anos, não esperava.

_ Muito menos eu. Imagine o que eu senti quando ouvi a sua voz ontem na joalheria na qual eu estava escolhendo o presente de Estrela?

_ Eu imagino. Sei que ela foi muito importante pra você.

_ Muito... – ele disse divagando.

Evandro percebia a distração e a emoção com a qual Estevão falava dela. Isso era uma prova de que, ao menos da parte de Estevão, ainda havia algo daquele sentimento antigo, estava claro. E ele? Havia podido esquecê-la? Havia podido conviver com o que foi capaz de fazer com ela? Nunca se preocupou se aquilo havia tido consequências, até porque, por sua parte, carregava as consequências por toda vida, jamais teve paz. Agora, a vida os confrontaria inevitavelmente mais uma vez, era uma questão de tempo, Evandro pressentiu.

_ Mas o que eu quero falar com você, Evandro é sobre o processo...

_ O de Maria? Do roubo das joias?

_ Sim, esse processo.

_ Por que você quer falar sobre ele comigo?

_ É que eu me lembro que uma vez você me disse que havia consultado esse processo em uma de suas visitas ao fórum.

_ Ah, eu disse? Não me lembrava disso – por ser tão mentiroso era difícil lembrar o que havia sido dito e o que não numa história tão antiga, ainda que tão viva.

_ Sim, você me disse. E eu não quis saber muito, estava em um momento de tentativa de esquecer à Maria e falar sobre ela não me fazia bem. Mas falhei nas duas coisas: em tentar esquecê-la e em não me lembrar de coisas relacionadas a ela como essa nossa conversa.

_ Eu sinto muito. É muito triste viver com algo que nos atormente toda a vida. Mesmo que seja o amor... – Evandro refletiu.

_ Sim, não é fácil. Ainda mais que com o péssimo casamento que eu tive e a forma como Consuelo se foi. Eu fui obrigado a me recluir em uma vida soturna, fria, triste. Entretanto, reencontrar Maria me fez repensar muitas coisas. Principalmente pelo que ela me disse...

_ O que ela te disse? – perguntou alterando a voz porque se assustou. O medo de que toda a parte tão feia daquela história viesse a tona frente à Estevão, que era praticamente a única pessoa que confiava nele atemoriza a Evandro.

_ Calma, Evandro! Estou vendo que falar sobre isso te altera muito e não entendo...

_ Sim, me altera, recordar o passado... Ainda que seja o seu passado, não me faz muito bem.

_ Então vou direto ao ponto. Ela me disse provou sua inocência na justiça. Você entende o que isso significa? Entende que eu posso ter sido muito injusto com a mulher que eu sempre amei? Eu não dei a chance de ela se defender, não a defendi, não fiz nada, absolutamente nada por ela além de abandoná-la. Escolhi acreditar em sua culpa, fui um imbecil.

_ Mas você sabe se isso é realmente verdade, Estevão?

_ O quê? Sobre ela ter provado a inocência?

_ Sim, sobre ela ter dito que provou sua inocência...

_ Eu não sei, mas acho que tem tudo para ser verdade. Maria não é mais aquela jovem desprotegida e ingênua, Evandro. É uma grande empresária, se superou e é dona de uma grande joalheria e, pelo que eu soube, muito reconhecida na produção de peças exclusivas. O que ela produz é praticamente obra de arte, e arte das mais valorizadas. Se ela tivesse uma dívida com a justiça com relação à joias seria muito difícil ela ser tão reconhecida nesse mercado. Essa é a que me parece a maior prova de sua inocência. O fato de ela ter se tornado uma empresária tão respeitada e reconhecida justamente no ramo de joias, no qual ela foi acusada daquele crime.

_ Isso realmente é um forte indício.

_ Por isso eu vim falar com você. Quando você consultou seu processo, encontrou algo sobre isso? Você tinha ideia de que ela é inocente?

_ Não, eu não sabia. Assim como você, eu evitei remexer esse passado, voltar a tocar nessa história justamente porque eu sabia que te machucava. Que era incômodo pra você. – mentiu.

_ Eu vou falar com uns contatos meus no fórum onde o processo dela foi julgado, e tentar conseguir informações, ainda que seja um processo antigo...

_ Não faz isso! – Evandro voltou a se alterar, levantando-se. Se Estevão o fazia, parte de suas mentiras estariam descobertas. Ele saberia que ele foi seu advogado e nunca disse nada. Teria que impedi-lo.

_ Por que não? – Estevão estava confuso

_ Porque... Bem, porque eu sei como essa história mexe com você. E você sabe que realmente consultar um processo tão antigo é um trabalho que seria estranho para um advogado importante como você, daria o que falar, pois isso é coisa para um estagiário. E eu tenho a pessoa perfeita para fazer isso e trazer uma cópia desse processo caso ele ainda exista.

_ Ah, mas não seria nenhum problema que eu fosse até o fórum e encarregasse esse trabalho à algum estagiário... Você está muito estranho. Tem certeza que você está bem, Evandro?

_ Sim, é que eu me preocupo com você, Estevão. Eu sei como esse reencontro afeta você e não quero que remexer nesse processo te traga momentos desagradáveis e lembranças dolorosas. Eu me encarrego disso pra você, não se preocupe. Seria uma maneira de eu me despedir da nossa sociedade te fazendo um favor. Isso, se o negócio com o tal advogado Martins se concluir.

_ Tudo bem, se você quer me ajudar, eu não vou negar. Realmente seria desagradável para mim remexer no passado ainda mais sabendo que posso ter sido tão injusto com Maria. É melhor que eu receba esse impacto de uma vez. Eu te agradeço por essa prova de amizade, Evandro.

Estevão não sabia o que dizia. Mas a vida estava lhe dando a oportunidade de colocar em xeque todos os momentos decisivos do seu passado. E a amizade com Evandro seria também desafiada naquele momento e confrontada. E as surpresas não seriam nada boas para ele embora, naquele momento, ele ainda não soubesse.

***

Estevão entrou na joalheria e com os olhos bastante inquietos começou a procurar Maria. Não a viu. Aproximou-se de uma das vendedoras e perguntou por ela.

_ O senhor é Estevão San Roman?

_ Sim, sou eu.

_ Ela pediu para avisar quando o senhor chegasse, está te esperando.

Quando Joyce avisou a Maria que Estevão havia chegado ela se levantou apurada. Foi ao banheiro, olhou-se no espelho e ajeitou seus lindos cabelos negros. Estava muito bonita, a certeza do controle de sua aparência lhe dava muita confiança. Sabia o que tinha que fazer.

Estevão entrou, acompanhado por Joyce, que logo os deixou sozinhos. Ele sorriu enquanto a olhava de cima abaixo como que medindo-lhe. Maria estava com uma blusa preta bastante elegante que tinha um pequeno decote que aumentava a curiosidade sobre seu corpo bem desenhado. No pescoço trazia uma gargantilha de prata com brilhantes cravejados que lhe davam uma certa altivez. Altivez que ela já possuía independente das joias que usasse. O rosto estava bem maquiado, ressaltando seus belhos olhos verdes, mas sem exagero e na boca um batom cor chocolate que evidenciava bem mais seus lábios convidativos. Em um minuto concluiu sua observação, mas poderia fazê-lo por horas: “Está linda!”, repetiu para si.

_ Boa tarde, Estevão, sente-se, eu estava te esperando.

_ E eu esperei todo o dia para vir aqui – ele disse ensaiando um sorriso. – Você está magnificamente linda. Eu não te disse isso ontem, mas os anos somente te fizeram bem. Hoje você está mais linda do que há 20 anos.

_ Obrigada pelo elogio. Vindo de você é valioso. Aqui está sua peça. – ela deslizou a caixa com a gargantilha sobre a mesa em sua direção, sem deixar de olhá-lo provocante. – Não mudou de ideia? É essa mesmo a joia com a qual você quer presentear sua filha?

_ Não mudei de ideia, sua sugestão foi perfeita. Nem mesmo tive dúvidas ontem. Quando você me mostrou, acreditei que a joia se parecia muito com Estrela. Como se você a conhecesse.

_ É que eu tenho muita experiência nesse ramo. Quando as pessoas me falam sobre suas relações com as que serão presenteadas, já imagino a peça, é uma habilidade inerente do meu trabalho. Ou talvez seja algo de vocação. Mas, se você não teve dúvidas... – ela disse se levantando, rodeando a mesa em passos curtos, que ele acompanhou, e parando atrás da cadeira na qual ele estava, inquietando-o – Por que você não levou a joia ontem? Fiquei me perguntando isso. Qual seria a razão para que você voltasse hoje?

_ Você não sabe? – ele se levantou ficando de frente pra ela.

_ Não, eu não sei. – ela disse olhando-o firmemente nos olhos estabelecendo aquele contato que tanto o afetava – Me surpreendi muito ao voltar a te ver, você foi uma pessoa muito importante na minha vida, mas realmente não sei o que te fez querer voltar.

_ Por que seria estranho? Quando você me falou sobre o seu processo, sobre você ter provado sua inocência, meu mundo veio abaixo, Maria. Você não sabe o que foram todos esses anos sem você... – ele disse com tanto pesar na voz, seu coração estava disparado.

Maria o olhava agitada, sabia que o modo como ele descortinava seu rosto, seus olhos e sua boca era com desejo. Conhecia o poder que tinha sobre ele, desejava muito que ele a beijasse para ter a oportunidade de iniciar o seu plano. Seria só por isso? Seu corpo respondia à inquietação daquele momento, e da proximidade que ela provocara. Tremia. Sua respiração se alterou. Estar tão perto dele outra vez, ouvir sua voz lhe provocava um sentimento de proteção e ao mesmo tempo de vulnerabilidade, tinha medo de se entregar, de entregar tudo, de perder o controle. E perder o controle era algo que ela não se permitia, muito menos naquele momento. Nunca havia se sentido assim com homem nenhum. “Por que com ele, meu Deus?”

_ Ah, então me diga, Estevão? O que foram esses anos sem mim? – ela indagou fitando-o com um olhar convidativo e um pequeno sorriso enquanto se aproximava um pouco mais dele.

Estevão estava bastante nervoso, ansiava pelo contato com sua boca, não resistiu. Acariciou suavemente sua face, aproximou-se do seu rosto enquanto olhava aflitivamente seus olhos e sua boca e a beijou. Foi um beijo terno, lento no início como que experimentando nos gostos de suas bocas todos os sentimentos que se tinham um para com o outro. Com o passar dos segundos, o beijo foi ficando mais intenso. Estevão envolveu a cintura de Maria com seus braços apertando o corpo dela contra o dele como se os dois se ajustassem, se encaixassem. Suas línguas se encontraram e eles se perderam, se esqueceram de tudo, estavam exatamente no lugar onde queriam estar naquele longo e desesperado beijo.