Elo Irrevogável
23 Capítulo 23 - Tormenta
Notas iniciais

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Estevão se assustou, seria mentira se dissesse que ele não sentia medo naquele instante. Maria e seus filhos observavam a cena desesperados e impotentes. Para Estevão era difícil enfrentar uma situação como aquela frente às três pessoas que mais amava na vida, às que se sentia na obrigação de proteger. Evandro tinha um ar de deboche em seu rosto. O cinismo fazia parte de sua personalidade deturpada e ele desfrutava do terror que produzia na família de Estevão e no próprio, sobretudo nele. A inveja de Estevão ocupara praticamente toda sua vida adulta, desde que o conhecera. Mesmo antes de que Estevão iniciasse seu romance com Maria Evandro tivera despeito pela pessoa que ele era e o efeito que sua presença provocava nas pessoas. O que Estevão dissera estava correto: sempre vivera à sua sombra. Sempre quisera ser como ele, ter o que ele possuía, dispor de sua história de sua vida.
Entretanto, o despeito de Evandro possuía um objeto específico que era maior do que qualquer outra coisa: o amor de Maria. Como desejara essa mulher toda sua vida. Como quisera que ela fosse dele e somente a havia possuído à força. Com Maria ele percebera que havia coisas que o dinheiro não o trariam. Jamais pudera ver nos olhos de Maria o brilho que via quando ela falava de Estevão ou olhava para ele. Como desejara que esse brilho alguma vez houvesse sido provocado por ele, que ele fosse seu alvo. Ver Estevão em sua casa lançando tantas verdades em sua cara, consciente de sua mesquinhez o fizeram tomar aquela atitude extrema de apontar aquela arma para Estevão naquele momento. Foi a única maneira que ele encontrou de, uma vez na vida, se sentir superior à Estevão.
_ Abaixe essa arma, Evandro. – Estevão pediu movimentando as mãos frente à ele.
_ Agora eu não sou nada, não é mesmo? – exclamou Evandro com um leve sorriso cínico no rosto.
_ Tio, você está louco, você não vai fazer isso! – pediu Heitor.
_ Por favor, tio, abaixe a arma. – disse Estrela fazendo menção de se aproximar.
_ Não faça isso! – Evandro gritou. – Estrela, fique totalmente fora disso! – disse com certo tom de preocupação na voz.
_ Evandro, abaixe essa arma, o que você pretende? – Maria o indagou sempre altiva quando se tratava dele.
_ Estevão entrou em minha casa, quase às 4 da manhã, me fazendo acusações imprudentes e mentirosas, Maria. E, que curioso – ironizou – envolvem você! Estou em minha casa, me defendendo de um invasor que já me gritou mentiras na cara, me bateu. Temos nessa sala três advogados e os três sabemos que não será difícil numa situação como essa caracterizar legítima defesa!
_ Tio você está louco! O que você está dizendo? Vai matar meu pai? – Heitor se preocupou com suas palavras.
_ Foi ele quem falou em me matar! Foi ele que disse que eu era um nada, me difamou e disse várias calúnias sobre mim!
_ Evandro eu não disse nenhuma calúnia! Você é um covarde desgraçado! Acabe de uma vez com esse circo e abaixe essa arma! – disse Estevão se dando dois passos curtos.
_ Eu não seguiria com isso! – Gritou Evandro engatilhando a arma interrompendo a movimentação de Estevão. – Fique parado aí mesmo se tem alguma intenção de permanecer vivo!
_ Não, Evandro, não! – Implorou Maria sem poder evitar chorar.
_ Então você o ama? Sofreria muito se eu disparasse essa arma agora, Maria? É isso que essas lágrimas em seus olhos querem dizer? – se divertiu Evandro com o sofrimento dela.
_ Por favor! Não faça isso! – implorou Maria mais uma vez em desespero.
_ O que me impediria? Vocês dois jogaram com a minha vida. Brincam com a minha cara e me fazem de idiota há mais de 20 anos. Essa é a oportunidade que eu tenho de terminar com tudo isso. – Evandro tentava dar um sentido oposto às coisas. – Disparar essa arma agora é o mínimo que você merece por tudo o que fez contra mim, Estevão!
_ Não tio, não! – Estrela não suportou mais a tensão e correu frente a Estevão agarrando-se a ele.
_ Filha, se afaste! – pediu Estevão extremamente preocupado pelo bem estar de Estrela.
_ Estrela, eu disse para que você não se metesse! Esse é um assunto entre homens! – gritou Evandro transtornando virando-se alguns segundos.
Heitor se aproveitou da curta distração de Evandro e correu até ele agarrando-o por trás. Estevão se soltou de Estrela e correu para ajuda-lo e os três entraram em uma grande e tensa luta corporal. Heitor e Estevão tentavam arrancar a arma das mãos de Evandro enquanto ele lutava pela posse dela. Essa luta durou alguns segundos de muita tensão, Maria e Estrela gritavam e tentavam lidar com a angústia desse momento até que Evandro deu um chute forte na perna de Heitor derrubando-o e o impacto fez com que Estevão também se afastasse um pouco de Evandro. Estevão tentou correr até ele para arrancar-lhe a arma, mas, para impedir e tentar terminar com aquilo, ele disparou.
Uma forte tensão se formou na sala durante a fração de segundos em que a bala saiu da arma até que atingisse um alvo. Nas expressões de todos, o reflexo da tensão que aquele momento significava. Das mãos de Evandro, a arma tinha disparado. Seu alvo era Estevão. Todos fizeram um silêncio assustador até o impacto de uma pessoa caindo no chão. Maria gritou desesperada e correu até a filha.
_ Estrela! Estrela! Minha pequena! – gritava Maria tentando reanimar Estrela.
Evandro não podia acreditar no que tinha feito. Estrela estava caída no chão desacordada. Havia sido atingida por um tiro disparado por ele.
_ Não era pra ser assim! Não era pra ser assim! – gritava Evandro transtornado andando em círculos com as mãos na cabeça.
O desapontamento tomou conta de Evandro ao ver que machucara Estrela. Talvez... talvez até a tivesse matado. A jovem sempre fora alvo de sua preocupação, tinha muito carinho por ela desde que era só um bebê por motivos desconhecidos para Estevão e Heitor. Mas era visível que a jovem lhe importava. A doação de parte de seu patrimônio no escritório com Estevão era uma prova disso, sobretudo por seu caráter mesquinho e avarento, jamais dava nada a alguém gratuitamente. Estava transtornado com o que havia feito. Queria atingir Estevão, não Estrela, esse tiro fora um grande acidente.
Estevão e Heitor se despreocuparam de Evandro ao ver Estrela caída no chão e correram para ela aflitos.
_ Ela está respirando! – indicou Estevão tranquilizando um pouco a todos na sala.
Heitor tirou o celular do bolso e ligou pedindo uma ambulância.
_ Meu Deus, meu Deus, meu Deus! – era só o que sabia dizer Maria.
A extrema preocupação de Maria pela jovem surpreendeu Estevão. Ele sabia que ela tinha muito carinho por seus filhos, mas vê-la tão aflita por Estrela era algo estranho a ele. Não a questionou naquele momento porque ela estava sofrendo e ele também, muito preocupado pelo que passaria com Estrela. Foram quase 5 minutos pra que eles se lembrassem de Evandro e se dessem conta que ele não estava na sala.
_ Onde está Evandro? – Heitor foi o primeiro a notar.
_ Ele não está aqui? – surpreendeu-se Estevão.
_ Será que ele fugiu? – questionou Heitor.
_ É provável. – Estevão concluiu. – Chame a polícia, filho.
_ Claro. – Heitor imediatamente atendeu ao pedido de Estevão.
A ambulância e a polícia chegaram praticamente juntas. Estevão e Maria acompanharam Estrela na ambulância e Heitor ficou no local para conversar com a polícia e explicar o que aconteceu auxiliando na investigação e em explicar o crime que ocorrera naquela madrugada na casa de Evandro. Os policiais procuraram Evandro pela casa, mas não encontraram nem sinal dele. Durante a distração de todos com o ferimento de Estrela, ele se aproveitou para pegar alguma coisa e fugir pelos fundos da casa. Continuava à solta e representando um perigo para a família porque seu ódio e inveja eram ainda maiores. E o fato de Estrela ser atingida pelo tiro era um fato que o deixava preocupado o que o tornava um perigo ainda mais iminente.
***
Estrela seguiu para o atendimento de urgência no hospital enquanto Estevão e Maria permaneceram cheios de tensão na sala de espera. Estevão estava sentado no sofá, com a cabeça entre as mãos, muito preocupado. Chorou algumas vezes. Maria estava muito nervosa. Ela sim não parava de chorar um só instante. Andava de um lado para o outro na sala angustiada à espera de notícias da filha. Sentia um desgarramento na alma com aquela situação. A perderia? Se perguntava desesperada. A filha que buscara por tantos anos agora estava correndo um grande risco. Não podia suportar o desespero de imaginar que podia perdê-la sem que ela sequer houvesse conhecido a verdade. Que ela era sua mãe, havia passado toda sua vida tentando encontrá-la, para lhe dar amor, para ser a mãe de que ela tanto havia sentido falta toda a vida.
_ Ela vai ficar bem! – determinou Estevão baixinho mais para si mesmo do que para Maria que dividia a sala de espera com ele.
_ Ela tem que ficar bem! – assegurou Maria sem conter a emoção. – Evandro não pode me tirar mais isso. O que mais esse desgraçado vai tirar de mim?
A emoção era latente em Estevão, ele estava frágil, vulnerável, mas pôde notar a forma como ela se referia a Estrela. Ele estava prestes a saber toda a verdade, conhecia grande parte de sua história e ao vê-la tão preocupada pela filha, sentiu que era algo que teria ligação com a parte do segredo que ele desconhecia. Mesmo que não tenha matado a charada de imediato, algo ficou no ar, ele pôde sentir.
_ Maria, eu sei que você tem muito carinho por meus filhos, sempre pude sentir isso e mais no que se refere à Estrela. Por mais que ela sempre seja desagradável com você, você a trata com imenso carinho.
_ Sim, tenho um carinho infinito por Estrela. – disse emocionada. Não queria dizer que tinha carinho por ela. Queria dizer que a amava e tinha uma grande preocupação por ela, preocupação de mãe. Que daria a própria vida para que ela não estivesse enfrentando aquele risco naquele hospital, mas não podia. Agora não podia seguir revelando verdades a Estevão.
_ Mesmo assim me parece exagerada sua preocupação por ela. Você está aflita, angustiada. Parece estar sofrendo por ela mais do que eu que sou seu pai. – ele disse com toda a racionalidade que o momento permitiu.
_ Eu não posso explicar, Estevão, mas preciso que sua filha fique bem. Nada de mal pode acontecer a Estrela, eu não suportaria. – disse sentando-se no sofá e abraçando-o.
Estevão correspondeu ao abraço mesmo sem entender sua atitude. Também a abraçou, precisava do apoio da mulher que amava naquele momento em que sua menininha corria risco de vida e ele não podia fazer nada. A impotência o consumia, ao mesmo tempo em que era invadido pela culpa...
_ Foi tudo culpa minha. – disse baixinho sem conter a emoção na sua voz – Se eu não tivesse ido à casa de Evandro nada disso teria acontecido...
_ Não diga isso! – Maria o repreendeu afastando-o de seu peito que representava conforto naquele momento. – Nada foi sua culpa. A culpa foi daquele maldito. A culpa de tudo...
_ É que vocês foram atrás de mim por minha atitude intempestiva.
_ Se fosse assim, eu devia dizer que a culpa foi minha, não?
_ Por que você diz isso? – Estevão se surpreendeu.
_ Porque se eu não tivesse te contado a verdade você não teria saído...
_ Não diga isso, Maria. Você tinha que me dizer. Não é nada justo que você tivesse que arcar sozinha com toda aquela dor.
_ E fui eu quem levou os garotos até lá. É que eu estava muito nervosa para dirigir e pedi a ajuda do Heitor. Estrela ouviu nossos ruídos e nos acompanhou.
_ Meu amor, a culpa não foi sua. – Estevão disse segurando o rosto de Maria com as duas mãos e olhando em seus belos olhos verdes que estavam úmidos e vermelhos de chorar.
_ E nem sua. – ela disse segurando sua mão direita com a sua esquerda.
Ele a beijou ternamente no rosto e a aninhou em seus braços. Ela voltou a chorar.
_ Você sabe que seus braços são o lugar onde me sinto mais segura? – perguntou sem se afastar de seu peito que ela sentia como seu abrigo naquele momento e, talvez, sempre sentisse.
O dia amanhecia. Os raios de sol davam as cores da manhã daquele domingo que começava muito agitado. Heitor chegou ao hospital dando a notícia do que acontecera na casa de Evandro. De fato, ele fugira e a polícia não havia podido localizá-lo. O jovem também estava aflito por notícias da irmã.
_ Nós não sabemos nada ainda. – respondeu Maria muito aflita.
_ Ela levou um tiro na barriga. – repetiu Heitor o que todos já sabiam cheio de preocupação. – É uma área muito delicada. Meu Deus, o que será que está acontecendo agora?
_ Vieram nos dizer que ela está sendo operada para retirada da bala e avaliação da lesão... – Estevão respondeu.
_ Mas isso foi há mais de 2 horas. É muito tempo que nós estamos aqui sem notícias. – Maria não podia evitar a aflição. O próprio Heitor estranhou tanta preocupação da madrasta pela irmã que hipoteticamente ela conhecia há tão pouco tempo.
_ Maria, a senhora está muito nervosa... – o jovem observou.
_ Ela está muito preocupada com a sua irmã além disso... foi o dia difícil para Maria. – recordou tudo o que haviam vivenciado naquela noite, desde seus ciúmes, os momentos de paixão e toda a verdade colocada na mesa.
Estevão se aproximou de Maria e a abraçou instintivamente. Seu impulso por protege-la eram maiores que as dúvidas que estavam girando por sua cabeça naquele momento. Permaneceram esperando mais um instante quando o médico chegou à sala procurando a família de Estrela.
_ Aqui estamos doutor! – Estevão se aproximou aflito.
_ Olhem, o estado de Estrela é delicado. Ela foi submetida a uma cirurgia para retirar a bala que atingiu o fígado, como vocês sabem bem, um órgão vital.
_ Ela corre risco de vida? – Heitor indagou apreensivo sem poder esperar que o doutor concluísse seu raciocínio.
_ Eu gostaria de lhes dizer que não, mas sim, como eu disse, seu estado é delicado. Nós conseguimos impedir uma hemorragia interna e procuramos reconstituir o dano do projétil no órgão que possui o poder de regeneração. É com isso que estamos contando: com sua juventude e a capacidade de regeneração de seu fígado. Ela logo será transferida para o quarto, porém estaremos empreendendo um cuidado intensivo para que possamos dizer que ela está completamente fora de risco.
_ Ela está consciente doutor? – Maria também se lançou ao interrogatório aflitivo.
_ Não, mas não por seu estado e sim pelo efeito da anestesia. Está no centro de tratamento intensivo até se recuperar da anestesia e quando for para o quarto vai estar consciente, apesar de sonolenta. Ela precisa de muita tranquilidade e repouso para sua recuperação.
_ Nós podemos vê-la? – Estevão estava ansioso por ver sua menininha.
_ Ainda não. Em alguns minutos mais vocês poderão estar com ela alguns instantes no quarto. A enfermeira irá avisá-los. – concluiu o médico deixando-os um pouco mais aliviados.
_ Ela vai ficar bem, vai ficar bem! – Estevão disse com um médio sorriso a Heitor e Maria que lhe corresponderam a confiança com um sorriso.
_ Vocês deviam ir para casa. – Heitor sugeriu
_ De jeito nenhum! – Maria se negou retundamente – Não vou me mover de perto da Estrela.
_ Eu também quero estar perto da sua irmã para vê-la quando acordar. – Estevão avisou.
_ Justamente por isso vocês deviam para casa. – Heitor explicou. – Sei que vocês vão querer ficar ao seu lado o tempo todo, mas olhem para vocês. – ele apontou o estado em que os dois estavam. – Estão de roupas de dormir, sujos de sangue. Deviam ir para casa, tomar um banho e se trocar para estar aqui quando Estrela recobrar os sentidos e poder lhe dar o apoio necessário.
_ Eu não sei... – Maria duvidou
_ Talvez Heitor tenha razão, meu amor. – Estevão justificou.
_ Sim, eu fico aqui. Sei que vocês não vão demorar. – ele insistiu finalmente convencendo a persistente Maria.
_ Está bem. – ela concordou. – Mas vamos logo Estevão. Só tomar um banho, trocar de roupa e estar aqui quando Estrela estiver no quarto.
***
Maria chegou em casa e rapidamente tomou banho e desceu para esperar Estevão no andar de baixo. A casa estava vazia, era domingo, dia de folga de todos os empregados. O banho a ajudou a se sentir um pouco menos cansada e se preparar para o longo dia que teria no hospital ao lado da filha. A campainha tocou e ela foi atender preocupada por quem seria já que estava aflita por voltar ao hospital esperando apenas que Estevão terminasse seu banho. Se surpreendeu ao dar de cara com Evandro.
_ Seu desgraçado! O que você faz aqui? Eu vou chamar a polícia!
_ Eu não faria isso! – ele disse sacando a arma com a qual havia ferido Estrela e apontando para ela fazendo com que ela recuasse abrindo espaço para que ele entrasse na casa.
_ O que você quer aqui. – Maria perguntou ainda assustada.
_ Eu só quero saber notícias de Estrela. Não sabia para qual hospital a levaram e só me ocorreu vir até aqui para saber como ela está. Não é minha intenção te machucar, a não ser que isso seja estritamente necessário. – advertiu olhando preocupado para os lados.
_ Você sabe não é seu desgraçado? Você sabe! É claro, foi você quem a roubou...
_ Do que você está falando? – ele fingiu não entender suas palavras.
_ Que Estrela é minha filha. A que desapareceu da minha casa há 19 anos.
_ Eu... – ele ameaçou negar mais uma vez, mas desistiu. Percebeu que a verdade era evidente e que tinha muito pouco a perder depois do incidente daquela madrugada. – Sim, é isso mesmo! Eu sei que Estrela é a filha que você e eu tivemos! – gritou. – Eu sei que ela é nossa filha e quero saber como ela está!
_ O que você disse? – perguntou Estevão do alto da escada incrédulo.
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