Elo Irrevogável
21 Capítulo 21 - Paixão e Verdade
Notas iniciais

***
Maria sabia que era chegado um momento decisivo. Um momento em que ela contaria ao menos parte de sua história a Estevão. História esta que estava, de alguma maneira, ligada a ele. A atemorizava que aquele momento fosse justo quando ele se mostrava inseguro e possessivo com relação à ela, mas não podia evitar, tinha que dizer-lhe, precisava embora tivesse muito receio de sua reação, de que ele não a apoiasse como ela necessitava, mas não aguentava mais guardar dentro de si tudo aquilo.
Enquanto tomava banho e sentia a água cair sobre seu corpo, refletia sobre aquele passado que traria à tona naquela noite. Trazê-lo à tona era uma decisão que já havia tomado. Não naquela noite, mas no momento em que Luciano lhe deixou quase certo de que Estevão não tinha culpa no rapto de sua filha. As chances de que ele houvesse participado eram remotas, precisava se abrir com ele ao menos para tatear o terreno antes de revelar toda a verdade. “Eu não poderia enfrentar a verdade com Estrela sem o apoio dele”, pensou Maria enquanto a água deslizava por seu corpo desenhado misturado à espuma do sabonete.
Estevão havia insistido para tomar banho com ela, havia utilizado de suas armas pícaras de sedução enchendo-a de beijos e carícias na boca, na orelha, no colo. A ideia de que ela estava nua por baixo do roupão o enchiam de ideias, sua imaginação fervilhava como seu corpo envolvido pelo desejo e faziam com que ele intensificasse essas carícias. Maria aceitava e também lhe dava carícias beijando-o de maneira divertida, brincando com sua língua na boca dele e mordiscando seu queixo e os dois riam sem nem resquício do momento tenso que tiveram depois de reviverem a discussão.
Estevão estava cheio de desejo mesmo depois de os dois terem feito amor duas vezes na sequência e há pouco tempo, mas Maria o dissuadiu de tomarem banho juntos apesar de, para ela ser difícil desvencilhar-se de seus beijos e carícias que ela também correspondia, pois o amava e também tinha muito desejo por ele. Sabia que se tomassem banho juntos, voltariam a fazer amor, já estava quase se entregando ali no meio do quarto, não conseguiria negar-se às investidas dele que certamente aconteceriam, pois ele já estava tomando a ideia de tomar banho com ela cheio de malícia.
Apesar daquelas recentes crises de ciúmes que ele havia demonstrado num período recente, eram um típico casal em lua-de-mel. Cheios de carinhos um para com o outro, sobretudo da parte de Estevão para com Maria, pois ele sentia imensa vontade de segui-la conquistando diariamente como o homem romântico e apaixonado que era com ela, só com ela.
Sabia que fazer com que Maria se abrisse, se revelasse para ele não seria tarefa fácil. Apesar de não terem falado muito sobre isso, ele sabia que ela possuía muitos mistérios, como todas as mulheres interessantes, estava evidente em seu comportamento, em seus olhos que ele desvendava com facilidade. Não desvendava os fatos, mas os mistérios estavam ali na forma como ela dirigia o olhar a ele e até em como ela o desviava dos lancinantes olhos dele no que se referia a ela.
Ele se casou com ela sabendo disso. Não claramente porque ela havia se aberto pouco para com ele, mas sentindo em si, por conhecê-la, por havê-la conhecido na juventude, por perceber sua mudança daquela menina que ele amara anos atrás, ou uma vida atrás como ela costumava dizer. Ele tinha consciência de que também não era o mesmo, mas a mudanças que o tempo e as amargas experiências da vida provocaram em Maria eram tão perceptíveis como a água cristalina. Grande parte de sua alegria, de seu agradecimento para com a vida haviam desaparecido. Maria parecia somente haver provado o trago amargo durante esse tempo e isso a tornou também um pouco amarga.
O doce daquele amor a estavam tocando no fundo da alma e, talvez, resgatando a essência daquela menina que, apesar de viver dentro dela, estava adormecida. Ele tinha uma ínfima ânsia por desvendá-la, por conhecer seus sentimentos, seu comportamento e sua história que ele sabia que, como a dele, estava cheia de dor. “É provável que ela tenha enfrentado mais dores do que eu em seu caminho por ser mulher e estar sozinha”, refletiu Estevão na saleta, frente à lareira, para onde havia ido tentar acalmar o calor de seu corpo depois dos momentos de paixão que ele e Maria tiveram. Ligou o som e começou a tomar vinho ouvindo uma canção bastante conveniente para o momento.
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar e urgentemente
Estevão tomava vinho iluminado apenas pela luz da lareira e pensava que coisas Maria lhe revelaria àquela noite. Voltou a sentir-se culpado por sua crise de ciúmes. Queria demonstrar-lhe apoio confiança, que ela sentisse que podia confiar nele e dizer-lhe qualquer coisa sem culpa. Mas o amor que sentia por Maria era tão grande que a presença de Luciano, que ele percebia como a amava e como ela confiava nele, pareciam uma ameaça para ele, o desesperava a ideia de perdê-la, quando sentia esse medo não conseguia pensar racionalmente. “Tanto tempo que eu demorei para reencontrá-la, preciso conhecê-la, decifrá-la, fazê-la feliz, entender seus sentimentos.” Seus pensamentos iam e vinham ao som da canção...
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Maria chegou à sala exalando um perfume sedutor que fez com que Estevão sentisse extrema vontade de se aproximar e a convidasse para dançar com o rosto colado. Maria sorriu como um sinal de positivo, como a encantava o romantismo que ele sempre demonstrava para com ela. Não entendia como era possível ela ficar cada dia mais apaixonada por ele. Estevão ficou inebriado com o aroma de seu perfume e não resistiu a começar a dar-lhe carícias enquanto dançavam. A casa estava silenciosa, era madrugada. Estrela e Heitor já dormiam há muito e a meia luz daquela sala, misturada com o amor e a paixão que sentiam um pelo outro deixava-os tomados pela atração que tinham um pelo outro.
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Estevão vestia um pijama sofisticado cinza coberto por um robe azul escuro bastante elegante. Tomando vinho à meia luz frente à lareira era o puro charme, sua figura encantou Maria e sob o som de uma canção tão romântica, pouco podia pensar. Maria portava uma linda camisola de seda cor-de-rosa e também trazia um robe de seda amarrado na cintura que a enchiam ainda mais de charme ornando com sua beleza e suas curvas sutis, porém belas e atraentes, fascinantes para os homens que a cercavam. Como sempre, ela não precisava de um grande esforço para seduzir Estevão mesmo que sem intenção. Ao dançar com ela, sentir seu cheiro, o calor de seu corpo e a pulsação agitada dela junto dele, a envolveu num beijo quente por não resistir à presença dela tão perto, acariciava suas costas cobertas pela leve textura da seda da camisola desesperado por sentir em suas mãos a pele sedosa da mulher que amava enquanto tornava o beijo mais profundo, mais quente. Se perdiam juntos quando beijavam-se.
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu
Acariciava suas costas imaginando que ela estava nua por baixo dela, como era toda linda, como tinha o corpo atraente, queria arrancar-lhe aquela camisola e fazer amor ardentemente com ela ali naquele sofá, com a adrenalina do silêncio da madrugada. Subia suas mãos fortes e grandes por seus cabelos que o fascinavam, descia os beijos cálidos pelo colo e, ao chegar a orelha deu uma leve mordida fazendo com que Maria se arrepiasse dos pés à cabeça e cravasse seus dedos sob os cabelos de Estevão, deixando-a também envolvida na sensação de embevecimento do desejo. Com ele, Maria perdia a noção de espaço, se esquecia que estava na saleta que era um lugar de trânsito comum na casa, como se esquecia que estava no escritório dele ou no dela, sempre acabava envolvida por suas cálidas carícias. Não só era envolvida por elas como as devolvia com o mesmo ardor e calor;
_ Seu cheiro é maravilhoso. – disse Estevão baixinho no seu ouvido – Me deixa louco. – disse roçando seu rosto no dela, se perdendo entre seus cabelos negros enquanto dançavam totalmente envolvidos.
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu
Antes que Estevão seguisse beijando-a, e roubando-lhe deliciosamente a razão, ele o deteve como que caindo em si. “Que homem incansável!”, pensou ao notar suas intenções e como a beijava desde que ela chegara. Ela também sabia que não resistiria e terminaria por se entregar se seguisse assim, tão perto dele trocando carícias apaixonadas.
_ Me sirva uma taça de vinho. Vamos conversar. – ela disse saindo de seus beijos, se afastando dele como quem dava uma ordem.
_ Sim senhora, como queira – brincou com seu tom autoritário dirigindo-se à bandeja com a garrafa de vinho e as taças sobre a mesinha. – E esse milagre que você vai beber?
_ Hoje eu preciso. – ela o encarou firme sentando-se no sofá que ficava rente à lareira – Não é fácil para mim falar sobre o que tenho que te contar, creio que você possa imaginar.
_ Pode abrir seu coração, eu estou aqui para te escutar, meu amor. – disse ele entregando-lhe a taça de vinho e detendo-se alguns segundos segurando a mão dela acariciando-a para demonstrar seu carinho e lhe dar força, confiança.
_ Eu preciso que você realmente me escute com o coração aberto, que me escute até o final, que me deixe falar tudo o que eu conseguir. – ela sabia que não seria uma conversa fácil, tinha medo de não conseguir dizer tudo.
_ Como você quiser, meu amor. Amanhã é domingo, temos todo o tempo do mundo.
_ Você sabe o que me aconteceu logo que eu saí da cadeia, não é? Que as coisas não foram fáceis para mim mesmo tendo provado minha liberdade. – ela começou tomando um largo gole de vinho.
_ Sim. Eu tinha que ter estado lá para te proteger. – ele baixou os olhos enquanto lamentava. – Nada do que aconteceu na minha vida eu lamento tanto quanto isso que te aconteceu, Maria.
_ Mas isso não é tudo, Estevão. – ela tomou ar antes de continuar a falar. – Eu fiquei grávida desse maldito que me violentou. Eu tive uma filha dele. – seus olhos se encheram de lágrimas.
Estevão se levantou muito tocado. Experimentava uma nociva mistura de sentimentos ao começar a conhecer a história de Maria. Sentia raiva, ciúmes, culpa e muita impotência. Isso era o que ele mais queria, saber tudo o que estava dentro dela, mas o machucava. Ele sabia que seu casamento com Consuelo e a forma como a mãe de seus filhos morreu eram algo pesado, mas, ao ouvir Maria, e mesmo antes, sabia que não se comparava com a dor dela. Ela parou de falar. Talvez esperando que ele digerisse aquela informação ou esperando com receio a reação dele. Ele colocou a mão sobre o acabamento da lareira e respirou fundo.
_ Meu Deus! – foi só o que pôde pronunciar e seguiu assim alguns segundos, em silêncio fitando o fogo da lareira, de costas para Maria, sem coragem de olhá-la.
Maria tomou de um gole todo o vinho que restava em sua taça e também se levantou. Caminhou devagar até o outro lada da saleta, respirou fundo e tentou voltar a falar.
_ Foi muito difícil descobrir que eu estava grávida de um monstro. E além de tudo, sozinha. Você pode imaginar como eu me senti desesperada ao saber que ia ter um filho? Eu não vou mentir para você, Estevão, em um momento de desespero, tive o impulso de me desfazer da criança e não uma única vez pensei em... em... em acabar com a minha vida. – seu rosto já estava totalmente banhado em lágrimas, era inevitável. Seu autocontrole e medo de demonstrar emoções iam por água abaixo quando se tratava de remexer seu passado, por isso o guardava.
_ Maria, Maria, eu sinto tanto. – disse Estevão emocionado olhando-a com ternura do outro lado da saleta.
_ Mas não sente como eu! – ela esbravejou, não pôde evitar. – Isso aconteceu há quase 20 anos, Estevão, e eu não consigo falar sem que me doa. – levantou a voz – Marcou profundamente a minha vida, eu nunca vou me livrar de tudo isso com a consequência que me deixou! – a revolta era um sentimento que aparecia em Maria ao falar desse fato, ela jamais poderia se conformar, aceitar sua história.
_ Eu sei, meu amor, eu posso imaginar. – Estevão se mostrou compreensivo com a sua dor. Era visível em seus olhos, em sua voz, nas lágrimas que derramava.
_ Eu duvido! – afirmou com um certo cinismo. A revolta fazia com que ela se voltasse um pouco contra Estevão. Era a amargura que a vida lhe deixou se manifestando.
_ Não duvide. – ele disse se aproximando dela e segurando sua mão conduzindo a para voltar a se sentar no sofá – Tudo o que você sente ou tenha sentido me interessa, meu amor. Estou ao seu lado. Como seu marido, como a pessoa que mais te ama nesse mundo.
Maria baixou os olhos em um rompante de choro. Cobriu o rosto com as duas mãos e Estevão a abraçou. Queria protegê-la do mundo, de tanta dor. Sabia que Maria não só precisava ser protegida dos perigos externos da vida, mas das marcas que trazia dentro de si, na alma.
_ Você me disse que tinha uma filha quando nos reencontramos. – ele disse sem deixar de abraça-la. Ela só se aninhava em seus braços onde recebia o conforto que durante tanto tempo a vida lhe negara. – Você se lembra? – perguntou terno.
_ Sim. Eu estranhei muito que você não tenha me perguntado nada. Joguei no ar naquele momento que ainda tinha tanta tensão entre nós e você jamais voltou a mencionar. – Maria recordou.
_ Eu sabia que não era um assunto fácil para você. Não imaginava que essa criança fosse fruto desse e... “evento” tão doloroso, mas sabia que era uma parte da sua história que te doía, Maria. Pelo que eu conhecia da sua história e pela forma que você falou aquele dia.
_ Foi algo tão rápido. – disse Maria um pouco mais calma – Você conseguiu observar que era algo que me incomodava?
_ Tudo de você eu observo intensamente. – ele disse acariciando o nariz dela de maneira terna. – Eu já não te disse que tenho um imenso afã de te desvendar?
_ E eu já te disse que tenho um certo receio dessa maneira que você diz que quer me conhecer? – ela respondeu interrogativamente sorrindo.
_ Não tenha medo, receio, temor, nada parecido com isso com relação a mim. – Estevão devolveu o sorriso. – Só quero conhecer os fascinantes mistérios da mulher que eu amo.
_ E eu sou uma mulher tão fascinante como você diz?
_ Não tenha dúvidas disso. Por isso às vezes eu ajo como um adolescente inseguro ciumento.
_ Um bobo... – ela disse sorrindo.
_ Bobo por você. – ele sorriu beijando-a carinhosamente.
_ Mas isso não é tudo que eu quero te contar, amor. – disse baixinho saindo de seu beijo.
_ Vai me dizer onde está sua filha? Quem a tirou de você?
_ Eu te disse que ela foi tirada de mim?
_ Sim, você disse no dia que eu fui à sua joalheria comprar o presente de Estrela.
_ Ah, é verdade. Eu não me lembrava.
_ Mas eu não me esqueço. – Estevão sentenciou.
_ Quando nos encontramos eu havia chegado ao fim de uma busca, Estevão. Luciano... – ela disse levantando-se de novo e caminhando em direção à lareira. – Por isso minha amizade com Luciano, Estevão. Há 18 anos ele me ajuda na busca da minha filha. Naquela ocasião, ele acabara de me dizer que havia encontrado minha filha. Mas por razões que eu ainda não posso te dizer, eu fui impedida de me aproximar dela imediatamente.
_ Então você sabe onde está sua filha?
_ Sim, eu sei, mas ela acredita que é filha de outra pessoa. E eu ainda não posso revelar a verdade à ela. Mas tinha que te dizer porquê eu não posso ser completa. Você merece saber e eu te quero do meu lado.
_ Eu estou do seu lado, Maria. E faria qualquer coisa por você, qualquer coisa!
_ Por isso eu tenho medo de te contar quem é o homem que me violentou. Não quero que você se prejudique.
_ Estou do teu lado, Maria. Do teu lado, meu amor! Confie em mim. Divida sua dor comigo.
_ É o que eu estou fazendo, mas quero te proteger. Você entende? Quando você sente ciúmes não controla seus sentimentos, e eu tenho certeza que quando você souber quem foi a pessoa vai ficar muito bravo e eu quero que você me prometa que vai ficar comigo, que não vai fazer nenhuma loucura. – Maria demonstrou a seriedade do assunto.
_ Você está me assustando...
_ É sério, Estevão, você tem que prometer.
_ Eu prometo, Maria. Não vou fazer nada no impulso.
_ Isso, meu amor. Nada no impulso.
_ Eu já te disse que quando você me chama de meu amor, me convence de qualquer coisa, sim? – disse com um sorriso nervoso.
_ Então te direi muito: meu amor, meu amor, meu amor! – Ela brincou e Estevão sorriu, mas reconheceu a seriedade da conversa. – Foi Evandro! – Maria soltou de uma vez.
Estevão se levantou enlouquecido e esmurrou a parede da lareira cheia de ódio. Se sentiu enganado com aquela revelação. Ou melhor, tomou conhecimento de que havia sido enganado. Maria correu e o abraçou por trás tentando acalmá-lo.
_ Eu não acredito que aquele maldito, que se dizia meu amigo de toda a vida, estudamos juntos, planejamos uma vida juntos, e ele teve coragem de fazer isso com você!
_ Calma, Estevão, calma, olhe para mim. – Maria pediu.
_ Eu vou matar esse desgraçado! – Estevão parecia não ouvir a voz de Maria e nem sentir as mãos dela que o haviam agarrado por trás como que segurando-o.
_ Não, não você não vai fazer isso. Já faz muito tempo e... – Maria tentou acalmá-lo.
_ Já faz muito tempo e continua te machucando. Marcou a sua vida, é incompreensível! Como foi isso? Você precisa me contar tudo! – Ele se virou para Maria segurando-a pelos ombros.
_ Eu vou te contar, meu amor. – Maria voltou a abraçá-lo tentando acalmá-lo com sua ternura. – É pra isso que estamos aqui essa noite. Para que eu te conte tudo. Tudo o que seja possível.
Ela o puxou pelas mãos e o conduziu para sentar-se no sofá.
_ Você sabe que não é nada fácil para mim falar sobre isso. Então se acalme e me escute, meu amor, por favor. – Maria implorou acariciando o rosto dele.
_ Sim. – Estevão respirou fundo. – Eu prometo ficar calmo e não te deixar mais nervoso. Me conte como foi isso.
_ Quando nós nos separamos, Evandro me procurou na cadeia. Me disse que acreditava em minha inocência, que queria me ajudar, me defender...
_ Claro, por isso quando eu pedi seu processo ele fez de tudo para me dissuadir de poder vê-lo. Não queria que eu soubesse que ele havia te defendido. Mentiu para mim! Toda a sua miserável vida Evandro mentiu para mim! – Ao perceber como havia sido enganado, a raiva tomava conta de Estevão.
_ Ele me defendeu muito bem, conseguiu facilmente provar minha inocência, ganhou minha confiança, minha amizade. Me disse que fazia pela amizade que sentia por mim do tempo que havíamos convivido quando você e eu namorávamos.
_ Que desgraçado! O mais provável é que ele sempre tenha sentido algo por você. Claro! – as ideias pareciam fervilhar na cabeça de Estevão. – Ele sempre falou de você de uma maneira estranha. Como eu pude não ter percebido? Como eu pude ser tão imbecil?
_ Estevão, eu preciso que você se acalme, meu amor, eu preciso. – Maria implorou.
_ Me desculpe, realmente não é algo fácil de lidar. Fale meu amor, fale. – ele pediu.
_ Quando eu saí da cadeia ele foi até minha casa. Eu o recebi como amigo, mas ele... ele começou a me dizer coisas horríveis, me disse coisas baixas e que agora ia ter tudo o que sempre quis ter de mim. – ela irrompeu outra vez em lágrimas. – Eu tentei fugir, Estevão, juro que tentei escapar, mas ele rasgou minhas roupas, me jogou no chão e segurou meus braços ali, eu não pude evitar...
_ Maldito, maldito! E ainda se atreveu a te ameaçar quando você voltou para minha vida! Por isso eu os surpreendi na noite do aniversário de Estrela. Maria, me desculpe, mas eu não posso cumprir o que te prometi.
_ Do que você está falando, Estevão?
_ Fique aqui, em casa você está segura. Eu vou acertar as contas com esse desgraçado. – Disse ele pegando as chaves do carro que estavam num porta-chaves ainda ali na saleta.
_ Não! – Maria implorou em lágrimas.
Estevão não lhe deu ouvidos e saiu de casa com carro acelerado e cantando pneus.
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