Elo Irrevogável

18 Capítulo 18 - Desatando nós


***

Estrela olhou com certa superioridade como que desafiando Maria. Ela sempre fazia isso, Maria já havia inclusive se acostumado. A conversa entre as duas provocou tensão entre toda a família que estava sentada à mesa. Heitor e Estevão observavam a conversa como que assistindo àquele duelo de mulheres esperando para saber no que ia dar. Finalmente Estrela se decidiu dar a conhecer a condição que imporia para trabalhar com Maria na organização dos últimos detalhes do evento de lançamento da nova coleção de joias da Joalheria Acuña no dia seguinte:

_ Eu realmente agradeço ao convite que a senhora está me fazendo. – ela começou ainda que agradecendo, sem perder o ar impositivo. – Independente de qualquer diferença que possamos ter eu jamais vou deixar de reconhecer que sua joalheria é uma das mais importantes do país e trabalhar na organização de um evento como esse certamente será importante para minha carreira.

_ Exatamente, Estrela. – Estevão interveio na conversa. – Maria está te oferecendo uma oportunidade única e seria muita imaturidade de sua parte continuar se comportando como se você estivesse fazendo um favor a ela em aceitar e não o contrário. – repreendeu a filha por não desfazer sua postura impositiva.

_ E é claro que eu vou te pagar pelo trabalho que você realizar, Estrela. Vai ser muito importante para mim que você trabalhe comigo, você é uma futura joalheira que eu admiro muito desde o momento que te conheci e eu gosto muito de ter jovens com visão de futuro como você ao meu lado para estar atenta ao futuro do mercado. – explicou Maria.

Maria voltou a justificar o convite. Estrela sempre despertava sua debilidade, lhe retirava a segurança tão característica da mulher que ela havia se tornado. Isso deixava Maria muito suscetível e era uma sensação que ela não gostava de ter. O carinho e o respeito da jovem eram tudo o que ela mais queria e algo pelo qual ela tinha verdadeiras ganas de lutar. Por ele, por esse carinho, havia também permitido que caísse outra barreira levantada por ela: a barreira do amor. Sem completa confiança e sem certeza de nada, como quase sempre é o amor, estava se atirando no precipício do sentimento que ainda nutria vivo por Estevão. E ela sabia, tinha consciência que tudo aquilo era por Estrela. “Mas ela vale!” disse para si mesma.

_ Sim, eu já disse que não há necessidade de justificar. – Estrela respondeu sem perder a altivez ainda que houvera sido repreendida. – Eu aceito o convite da senhora com a condição de que a senhora me pague o valor justo pelo meu trabalho.

_ Eu não pensava em fazer diferente. – justificou Maria.

_ Não quero receber privilégios ou nenhum tratamento diferenciado pelo nosso... parentesco. Quero receber apenas o justo e ser tratada como qualquer funcionário. Pode ser assim? – indagou.

_ Claro! – Maria aceitou de pronto. Obviamente não daria oportunidade para que a jovem mudasse de ideia e recusasse o convite que representava para ela uma chance única de despertar algum tipo de sentimento de carinho de uma filha para com sua mãe.

_ Então a que horas eu tenho que chegar à joalheria?

_ Vamos começar a preparar tudo às 9 da manhã.

_ Estarei lá, não vou me atrasar. – se comprometeu antes de levantar-se da mesa e sair com uma despedida fria.

***

_ Ainda bem que você me convidou para almoçar, amiga. Temos muito o que conversar. – Camila cumprimentou Maria já com seu jeito apressado que a caracterizava quando se encontraram em seu restaurante preferido.

_ Eu também preciso muito conversar com você, Camila. – ela falou um pouco aflita. – Você sabe...

_ Sim, Maria. Eu sei que há coisas da sua vida que você só aclara bem quando fala comigo, assim como eu também. – disse sorrindo segurando a mão de Maria.

_ Exato! – Maria concordou devolvendo o sorriso e apertando sua mão.

_ Me conte, quais as novidades desse imbróglio em que você se meteu?

_ Poucas, Camila, bem poucas. Eu estou muito dividida.

_ As coisas com Estrela não avançaram?

_ Nada! Consegui uma oportunidade. A convidei para me ajudar a organizar o evento do lançamento da nova coleção de joias amanhã e surpreendentemente ela aceitou.

_ Mas isso é um grande passo. – Camila demonstrou otimismo como raramente fazia.

_ Eu não sei, Camila. Eu pensava que as coisas seriam diferentes...

_ Maria, você sabe que eu fui quem mais te deu força para não fazer essa lou... Para não se casar com Estevão porque isso seria um atentado contra você mesma e os seus sentimentos. – Camila relembrou

_ Sim, eu estou consciente disso. E, apesar de ter feito tudo ao contrário do que você disse, pode ter certeza que eu escutei com muita atenção o que você me disse, amiga. E esse também é um dos motivos para que eu tenha tantas dúvidas e me sinta dividida nesse momento.

_ Sim, eu te dei força para que você não fizesse o que planejou, mas você fez. E agora o que você quer? Que tudo se resolva de imediato? Você está há apenas 15 dias sob o mesmo teto que sua filha. Ganhar seu carinho levará tempo não só pelo que você me contou, mas pelo que eu mesma pude comprovar quando estive com ela no dia do seu casamento.

_ Sim, Estrela é uma menina muito geniosa, segura de si e, quando se empenha em algo, se mantém bem firme naquilo...

_ Hum, parece que você está falando de alguém que eu conheço bem – Camila brincou com a semelhança no modo de ser de Maria e da filha.

_ Não é que eu ache uma má característica, pelo contrário, a admiro por ser assim, mas...

_ Mas isso torna mais difícil que você consiga aproximar-se dela, não é isso?

_ Sim, ela não abre uma brecha, uma oportunidade que seja e, além disso, há Estevão...

_ Sim, amiga, me fale dele, como você está levando essa situação?

_ É por isso que eu estou dividida. Estevão é tão terno, tão apaixonado, mas como vou saber que ele não tem nada a ver com o sequestro de minha filha? Como vou saber como Estrela chegou à sua casa?

_ Luciano não descobriu nada?

_ Ele está muito desconfiado que Evandro tem algo a ver, na verdade, disso ela está quase completamente seguro e eu também. Mas ele não sabe se Estevão foi cúmplice ou conivente. É que a morte de Consuelo torna tudo mais complicado.

_ E por isso você está dividida? – indagou Camila.

_ É que eu vou perdê-lo, Camila. De todas as maneiras eu vou perde-lo. – disse com imenso pesar e um medo e uma fragilidade que ainda não havia demonstrado frente a ninguém e, muito menos, em se tratando de amor.

_ Por que você tem tanta certeza que vai perdê-lo, Maria? Vocês podem conseguir superar tudo isso.

_ Não vejo muitas probabilidades para isso, Camila. Eu o amo, você sabe o quanto é difícil para mim reconhecer, mas eu o amo. E se ele foi responsável ou conivente com o sequestro da minha filha, ele terá me dado um golpe impossível de superar, pior do que todo o demais que ele me fez e você bem sabe que não é pouco. Mas, com seu amor, com seu carinho e com sua ternura eu estou conseguindo superar tudo o que ele me decepcionou no passado por não ter acreditado em mim e ficado do meu lado.

_ Então, amiga. O amor pode superar, o amor pode! – Camila se emocionou. Ela sempre se animava e se emocionava quando se tratava de amor, de ele vencer os obstáculos e de ver duas pessoas tão envolvidas e apaixonadas. Isso vinha do seu sonho de também viver um amor assim, um amor perfeito, suficiente para enfrentar as adversidades da vida juntos e, inclusive, os conflitos entre si como ocorria com Estevão e Maria.

_ É que, de toda maneira, se ele não está me enganando, eu o estou enganando, Camila e não sei o que fazer. Você tem que ver que lindo ele se comporta comigo. É o melhor dos maridos, está sempre tentando me ajudar a superar meus medos, meus receios. Se martiriza pelo que aconteceu entre nós no passado e quer fazer com que eu supere o que aconteceu com o Evandro.

_ Você pretende contar a ele que foi Evandro quem fez aquela monstruosidade com você?

_ Eu não sei, sinceramente não sei Camila. Não consigo planejar o que vou fazer quando se trata de Estevão e isso é uma das coisas que mais me assustam. Quando ele chega perto de mim, diz aquelas coisas bonitas e...

_ E te beija e te toma nos seus braços apaixonadamente você perde totalmente o controle, não é isso? – ela perguntou animada. Maria somente assentiu com a cabeça bastante aflita. – Isso é maravilhoso, amiga. Quantas pessoas não desejam a vida toda viver um amor assim?

_ Maravilhoso, Camila? Maravilhoso não ter o controle sobre você, sobre suas emoções? Maravilhoso que com só a proximidade de alguém te deixe nervosa, aflita, cheia de desejo? Maravilhoso que você desconfie de uma pessoa, mas ao mesmo tempo não consiga impedir que essa pessoa se aproxime e ganhe seu coração e você se entregue inteira, sem defesa? Isso me deixa extremamente assustada, Camila!

_ O seu problema, Maria é que você quer controlar tudo. E quem é que controla as próprias emoções? Se você ama uma pessoa vai agir exatamente como você está agindo, se entregar, confiar, se deixar conquistar e ser amada. O que há de assustador nisso, minha amiga? Você tem ideia de quantas pessoas não daria a vida para ter o que você e Estevão têm?

_ Eu reconheço que é maravilhoso amar, sei que várias pessoas desejam esse sentimento e a ideia de que são correspondidas na sua vida. Mas não com tanta aflição, tanto medo, tanto receio de que tudo pode acabar, de que não é real, mas apenas uma ilusão. Estevão não vai me perdoar quando souber que eu sou a mãe de Estrela e que me casei com ele para aproximar-se dela. Vai querer se afastar de mim e eu... Eu vou sofrer com isso.

_ O que você precisa é viver o presente, amiga. Deixar de se preocupar tanto com o futuro. E, se eu fosse você, contaria a verdade ainda que aos poucos para o Estevão.

_ Qual das verdades? – Maria indagou cheia de tensão

_ Sobre o Evandro e que você teve um bebê.

_ E se ele... – Maria teve medo.

_ Amiga, ele te ama. Você viu tudo o que ele fez para se casar com você e retomar a história de vocês de onde pararam há mais de 20 anos?

_ Sim, ele foi... Ele foi maravilhoso. – Maria disse orgulhosa.

_ Ele vai te proteger, ficar ao seu lado, te dar carinho e apoio como quando soube que você havia sido violentada.

_ Eu vou pensar, Camila, prometo que vou pensar.

***

Falar com Camila, como sempre, fez muito bem à Maria. Ela voltou para o trabalho na joalheria pensando em todas as palavras ditas ali pela amiga e por ela. Era bom desabafar, colocar em palavras tudo o que a atormentava por dentro. “E se contasse a verdade para Estevão, ou parte dela?”, pensou. Isso poderia aliviá-la um pouco e tornar menos tensa a convivência com ele. O sentimento de culpa por está-lo enganando se dissiparia um pouco e talvez ela pudesse ao menos começar a desatar todos os nós de sua complicada história.

O trabalho na joalheria estava intenso. Os funcionários todos empenhados na organização do evento do dia seguinte e Maria extremamente aérea e imersa em seus problemas. No fim da tarde Luciano chegou para falar com ela. Ela viu quando ele entrou e logo levou-o para seu escritório.

_ Você sabe que eu estou despachando quase todos os dias do Escritório San Roman que é seu e... E de seu marido, por que me chamou aqui? – Luciano estranhou.

_ Quero conversar com você sobre a investigação do sequestro da minha filha. E, como você poderá entender é melhor que falemos longe de Estevão, seu filho, bem... do Escritório San Roman. – Maria justificou

_ Claro, agora entendo. – Luciano sempre compreensivo. – E eu tenho realmente que falar com você sobre esse assunto, ia justamente marcar um encontro com você para te passar umas informações.

_ Isso quer dizer que você tem novidades, para mim? Descobriu alguma coisa?

_ Sim, Maria. Eu estive verificando os registros da cidade em que Estrela foi registrada e descobri que ela foi registrada somente por Consuelo, Estevão não estava com ela.

_ Mas você me disse, quando a encontrou que ela foi registrada pelos dois. – Maria recordou.

_ Sim, mas Consuelo registrou Estevão como o pai da menina apresentando, junto com um advogado sua certidão de casamento. Por isso ela pode registrar a menina sem o pai da criança presente.

_ Um advogado? E esse advogado...

_ É exatamente quem você está pensando, Evandro Maldonado! Sua assinatura consta no documento que autorizou o registro da criança sem a presença do pai.

_ Isso quer dizer que os dois foram cúmplices, Luciano? Que provavelmente Evandro e Consuelo sequestraram minha filha?

_ Provavelmente! – Luciano confirmou.

_ Maldito! Esse desgraçado tem muitas contas à acertar comigo! Como ele pôde? Como se não fosse suficiente ter me enganado e me provocado tanto sofrimento ao me violentar, também tirou a minha filha de mim! Eu vou acabar com esse desgraçado. Vou cobrar cada uma que ele me deve! Ele vai se acertar comigo! Isso não vai ficar assim. – Maria esbravejava ferida de ódio.

_ Maria se acalme... – Luciano tentou tranquilizá-la, em vão.

_ Não me peça isso, Luciano! – ela disse subindo o tom da voz – Foi você quem me disse que os culpados pelo sequestro da minha filha não podem mais pagar na justiça por esse crime. Como eu posso ficar calma imaginando um criminoso como Evandro, impune, desfrutando da liberdade depois de ter me tirado tudo, Luciano, tudo!

_ Eu sei, Maria. Eu sei tudo o que você perdeu por culpa desses desgraçados.

_ E Estevão, Luciano? Ele está envolvido?

_ Esses dados que eu descobri deixam claro que Estevão não participou do registro da criança. Você sabe que eu te amo, Maria. Sabe que eu faria qualquer coisa para ter uma oportunidade com você...

_ Por favor, Luciano, não é o momento. – ela o interrompeu.

_ Eu sei que você ama a Estevão e vou respeitar seus sentimentos, Maria. E vou te contar, de tudo que eu descobrir, apenas a verdade.

_ Então você acha que Estevão é inocente?

_ Como eu te disse, não posso ter certeza. Estevão também é advogado. Porque não estava do lado de Consuelo quando ela registrou a criança? Por que ela teve que recorrer a Evandro para conseguir registrar a filha? É muito improvável que Estevão soubesse de tudo. O mais provável é que justamente Evandro e Consuelo tenham enganado a ele, como a Estrela e à todos.

_ Isso me mata nessa história toda, Luciano. A falta de certezas! Eu estou muito confusa e dividida. Eu juro para você que, se eu tivesse essa certeza agora, eu abriria tudo! Contaria toda a verdade a Estevão e a Estrela. É que é muito absurdo que Evandro permaneça impune. Tem que existir algo que possamos fazer contra ele.

_ Você disse bem, Maria. Poucas são as armas legais que podemos usar contra Evandro com relação à esse crime. A única arma que possuímos contra ela é a verdade. Se você decidir, podemos imediatamente destruir sua reputação entre todos. Com relação à isso é tudo o que podemos fazer.

_ Eu não aceito, Luciano, não posso aceitar! – Maria voltou a se revoltar. – E quem vai me devolver o amor da minha filha? – gritou – E quem vai me devolver minha vida? – voltou a gritar antes de se romper em lágrimas.

Luciano, ao vê-la tão frágil e chorando instintivamente a abraçou para consolá-la. Ela aceitou o abraço desvalida, se entregando de vez àquelas lágrimas que a invadiam pelo desespero de se dar conta de tudo o que não poderia recuperar em sua vida. Luciano amava tanto à Maria que era capaz de renunciar à ela, de renunciar ao seu desejo desesperado de receber de volta o seu amor. Contentava-se com sua felicidade. Mas não podia resistir à sua tristeza, não podia manter-se longe ao vê-la tão desprotegida, seu impulso o aventava a protegê-la.

***

Estevão chegou à joalheria com um buquê de rosas para Maria. Havia ido buscá-la com a intenção de fazer uma surpresa. Imaginou que ela estaria tendo muito trabalho com os preparativos do evento que ocorreria no dia seguinte. Ao entrar na joalheria já percebeu o grande movimento. Os funcionários nem se deram conta de sua presença porque corriam apressados de um lado para o outro. Embora o evento só fosse acontecer no dia seguinte, o salão onde eram expostas as peças para a venda sofria algumas alterações, stands eram removidos de lugar, móveis arrastados e peças de joias vistoriadas para limpeza. Algumas das peças que estariam expostas no lançamentos sequer haviam ido para a loja e estavam sendo preparadas no setor de produção.

Nenhum funcionário da parte inferior, onde funcionava a loja se deu conta quando Estevão subiu para o piso superior, onde ficavam os escritórios. Ele havia procurado Maria com os olhos por ali e não a havia visto. Imaginou que ela pudesse estar no setor de produção, mas o mais provável era que ela estivesse em sua sala. Quando chegou ao espaço da recepção da sala de Maria, estranhou que Joyce não estava em sua mesa. “Provavelmente também estivesse envolvida nos preparativos para o evento do dia seguinte”, pensou. “Certamente gostará da surpresa!”, se disse confiante. Caminhou a passos tranquilos até a porta da sala e abriu-a com as flores na mão, na frente de seu corpo:

_ Meu amor, eu...

Interrompeu as palavras ao ver Maria e Luciano abraçados. A cena o enlouqueceu de ciúmes. Não suportava ver outro homem tão perto de Maria. “O que significava aquela cena?” se perguntou desesperado e, ao mesmo tempo, tomado de raiva. Maria e Luciano se afastaram surpresos pela presença dele.

_ O que está acontecendo aqui, Maria? – Estevão perguntou com um olhar acusador.

Notas finais
Não deixem de comentar, pessoal, comentários sempre são um estímulo para quem escreve continuar com a história. Beijos e até o próximo!