Elo Irrevogável

10 Capítulo 10 - Lágrimas de Amor


***

Maria arregalou os olhos, descrente, depois de ele lhe ter dito aquelas palavras. Seria possível que tivesse conseguido o que queria em tão pouco tempo? Tinha pouco mais de uma semana que os dois haviam se reencontrado, havia usado muito pouco dos ‘seus encantos’, como havia planejado, como, de repente, ouvia aquela proposta de Estevão? Das duas, uma: ou era muito eficiente em enlouquecer um homem, ou a vida e a sorte estavam do seu lado. Apesar de confiante em si mesma, acreditou que a segunda hipótese era a mais possível.

Ao mesmo tempo, sentia uma estranha felicidade. Não felicidade por seu plano ou por sua filha como queria acreditar, mas felicidade porque Estevão, aquele que tinha sido o amor de sua vida, pela primeira vez lhe pedia em casamento. De repente, se sentiu uma menina, uma adolescente que sonha com seu príncipe e ele lhe faz a tão esperada proposta sacudindo seu coração que estava tão rigorosamente envolto num escudo que ela própria havia criado há muitos anos para se defender dos sofrimentos que ao expô-lo, ela acreditava que certamente lhe atingiriam.

Essa sensação fez Maria se atemorizar. Pela primeira vez ela titubeou em seu plano. “Estaria fazendo a coisa certa?”, se perguntou. Talvez Camila tivesse razão e aquele plano poderia machucá-la mais do que ela pudesse suportar. Talvez ela não fosse tão forte para brincar com o amor. Isso era mais do que brincar com fogo, era arriscar tudo e isso dava medo. Esse tipo de sentimento era atípico em Maria. Sempre muito decidida e confiante, não deixava que nada a abalasse, não se acovardava frente a nada, muito menos quando se tratava de recuperar a sua menininha. Mas com Estevão era diferente. Com ele, Maria sentia medo. Sim, medo, essa era a palavra que ela não ousava pronunciar nem sequer para si mesma: medo de perder o domínio de suas emoções. Ficou muito tempo imóvel olhando para a mão de Estevão segurando a sua e o modo aflito como ele olhava para ela esperando por sua resposta.

_ Eu entendo seu desconcerto. – ele rompeu aquele longo silêncio provocado por sua proposta tão repentina. – Foi inesperado, nem eu planejei te dizer isso, mas...

_ O que foi que você disse? – Maria indagou ainda incrédula

_ Eu te perguntei se você quer se casar comigo. Quando você queira, amanhã mesmo se for sua vontade, daqui a uma semana, um mês, eu só quero que você diga sim. Eu estou te devendo esse pedido há 22 anos. – ele disse com um pequeno sorriso de pesar.

_ Estevão, você sim me surpreendeu com esse pedido. Você tem ideia que me pediu em casamento?

_ Sim! E como você não disse não até agora, não me bateu, não gritou, não reclamou como sempre faz, vou entender que a ideia te agradou.

_ Estevão, a ideia me... Me... Eu não sei o que dizer.

Ele então segurou suas duas mãos sorrindo e olhando-a nos olhos de maneira pícara.

_ Não é tão difícil, meu amor. Você só tem que dizer sim. São só três letras: “Sim!” – ele enfatizou aumentando o sorriso e beijando a mão dela.

Maria se soltou dele confusa e caminhou até a cadeira onde havia colocado sua bolsa durante a discussão deles. Abriu a bolsa, retirou um cartão, foi até a mesa, pegou uma caneta e começou a escrever no verso. Depois de alguns segundos, se virou para ele entregando o cartão.

_ Aqui estão todos os meus telefones e o meu endereço. Você tem ideia que está pedindo em casamento uma mulher que você não sabe nem o telefone e nem onde mora? – ela perguntou sorrindo.

_ E você me entregar esses dados quer dizer que você aceita? – ele perguntou sorrindo.

_ Quer dizer que eu aceito... Jantar com você essa noite! – ela respondeu com outro sorriso, se divertindo com a expectativa que provocou nele. – Me pegue às 8. Acho que temos muito o que conversar. De uma maneira mais tranquila, sem discussões, animosidades...

_ E sem tantos beijos quentes! – ele completou malicioso

_ Estevão! – ela o repreendeu.

Ele se aproximou dela, segurou seu rosto com a mão esquerda e se aproximou sua boca do ouvido direito dela como para dar-lhe mais carícias:

_ É a verdade, meu amor. – disse quase cochichando antes de beijá-la perto da orelha, afastando seus cabelos. – Quando você está perto de mim, eu perco a concentração em todas as outras coisas. – continuou sem parar de beijar todos os espaços de seu rosto com a voz rumorejante e roçando sua pele na dela. Tudo no que eu penso é em te beijar, te acariciar, te ter juntinho de mim. Fico louco de desejo por você...

Ele seguiu enchendo seu rosto de carícias, beijando-a no pescoço, nos olhos, na orelha. Ela não reagia. Apenas sentia. Fechou seus olhos e apenas vivenciou aquele contato que lhe fazia bem, lhe tirava o medo, lhe devolvia a segurança. Então ele, finalmente, envolveu com seus lábios os dela, girando lentamente suas bocas e suas cabeças. Ele conduzia o beijo de maneira terna saciando aquela necessidade que sempre tinha por beijá-la, por sentir seu gosto, mordiscando seus lábios deixando-a inebriada com o beijo. Essa estranha necessidade que era como um vício, quanto mais ele tinha da sua boca, mais ansiava por ela. Se beijaram durante e incontáveis segundos, enquanto conseguiram conciliar suas respirações com aquele contato. Estevão parou de beijá-la lentamente, segurou o rosto dela frente ao dele com as duas mãos e ela abriu os olhos devagar, olhando-o como uma aparição, como se ainda estivesse em transe:

_ Eu te amo, Maria. Te amo! Sempre te amei e fui um idiota em deixar que nossa história se acabasse daquele jeito. Me deixe te fazer feliz? Prometo que não vou te decepcionar uma segunda vez, eu prometo! – disse suplicante.

Quando Maria se deu conta, uma lágrima escorria por seu rosto. A emoção havia sido muito forte para ela suportar, eram tantas, tantas coisas.

_ Eu preciso ir embora! – ela disse se virando tentando conter e esconder sua emoção.

Ele percebeu que ela se sentia desconfortável porque chorara com suas palavras e com o momento que viveram. Não quis constrangê-la porque foi capaz de compreender parte de seus sentimentos. A abraçou por trás, aproximou, seu rosto do ouvido dela e disse baixinho:

_ Você acha que nosso amor também não me emociona? Sinta o meu coração, veja como estão minhas mãos. – falou passando as mãos pelos braços dela. – Perto de você eu sou como um menino indefeso, desesperado por estar tão apaixonado.

Soltou-a, e ficou de frente a ela. Maria apertava fortemente seus lábios como que obrigando-se a não chorar, mas, mas era inútil, as lágrimas seguiam caindo. Estevão passou a mão por seu rosto secando suas lágrimas compreensivamente olhando-a de maneira terna. Maria não conseguia respondê-lo. Como poucas vezes na vida, fora dominada, pela emoção. Se afastou dele caminhando até a porta sem dizer nada. Respirou fundo, olhou-lhe firme e disse:

_ 8 horas! Não se atrase!

_ Não se preocupe. Eu nunca mais vou te deixar esperando por mim! – ele respondeu sorrindo.

***

_ Por que o papai não veio almoçar em casa, Heitor? – perguntou Estrela interrompendo os pensamentos do irmão que almoçava meditativo.

_ Ai, Estrela. Aconteceram tantas coisas no escritório hoje...

_ E por que você está aí calado como um zumbi e não me falou nada?

_ Porque acho que ainda estou digerindo tudo o que aconteceu. É claro que eu ia te contar, maninha. – ele disse segurando sua mão. – É que há coisas que eu vou te dizer que você não vai gostar.

_ Heitor, fale de uma vez, já estou morta de curiosidade. Manda tudo! Sem anestesia, sem meias palavras, sem se importar se vou gostar ou não. O que foi? – Estrela ficou aflita com as palavras do irmão.

_ Finalmente conhecemos a pessoa que comprou as ações do tio Evandro...

_ Como assim? Eu nem sabia que ele já tinha vendido! Naquele dia que veio aqui, me presentear com as ações que passou para meu nome me disse que estava negociando com um advogado, mas que não tinha nada certo.

_ Pois as negociações se encerraram. Ele fechou com esse advogado mesmo e você não vai acreditar quem é a pessoa que ele representa!

_ Quem?

_ Maria, a mulher que foi namorada do nosso pai no passado e que ele reencontrou há alguns dias.

_ Maria... – Estrela divagou pensando no nome, mas não a ligou à mulher que ela tanto admirava. – Mas Heitor, isso é muito estranho! O que essa mulher quer comprando parte do escritório do nosso pai, um homem com quem ela teve um relacionamento no passado? Ela quer voltar com ele?

_ Isso eu não sei. Ela deu explicações por ter investido no escritório. Disse que é uma empresária e gosta muito de diversificar investimentos e que pediu a seu advogado que escolhesse um novo investimento e ele falou do escritório antes que ela e nosso pai tivessem se reencontrado. Mas que não costuma misturar assuntos pessoais com trabalho.

_ Ah, por favor! Como assim não quer misturar vida pessoal com trabalho? Está na cara que ela está de olho nele. Talvez queira recuperá-lo através dos negócios...

_ Olha, Estrela, a mim também não agrada nenhum pouco que os dois estejam perto, já te falei como também falei para o papai que não queria que os dois revivessem sua história. Mas você tem que ter claro uma coisa.

_ O quê? Não me diga que os dois já estão juntos! – ela perguntou já nervosa levando a mão a cabeça, impaciente como de costume.

_ Não, não é isso. Quer dizer, não é isso pelo que eu sei. Mas, pelo que eu percebi hoje na reunião, entre os dois há sim um clima, mas se há algum interesse muito visível ali não é da parte dela pelo papai, mas, da dele por ela. Você tinha que ver como ele a olhava, parecia abobado, fascinado. E eu não posso te enganar, ela é uma mulher linda. Acredito que, por mais que nós dois nos coloquemos contra, é um fato consumado, esse relacionamento vai acontecer. Não sei como se posicione ela porque só a conheci hoje, mas o meu pai, que eu conheço muito bem está visivelmente muito apaixonado por ela.

_ Ai, Heitor, isso é péssimo! Você acha mesmo?

_ Acho, acho que ele está muito interessado e, se já a amou no passado, não acredito que leve em conta nossas opiniões para deixar de viver um relacionamento, até porque, não somos mais crianças...

_ Eu não estou nem aí! E justamente por não ser mais criança não vou deixar isso acontecer! Se depender de mim não vai ter namoro nenhum do meu pai com essa mulher, com essa mulher que fez a nossa mãe sofrer. Eu não vou suportar ver meu pai apaixonado, ele que sempre é tão atento comigo, vou perder sua atenção.

_ Ah, e o que a menina adulta vai fazer? – Heitor debochou. – Preste atenção, Estrela, na mesma frase que você diz que é adulta você fala como uma menininha morta de ciúmes do papai. Ele não vai ser só seu para sempre, mana. Você tem que entender que meu pai foi só pai a vida toda. Você não acha que ele tem direito de viver um amor?

_ Não! Quer dizer... – ela se interrompeu confusa. No fundo sabia que não era justo a condição que queria impor ao pai só por amá-lo tanto. Era necessário deixa-lo viver. Mas não queria, não estava pronta! – Ah, Heitor, não me venha com as suas ponderações. Você não sabe como é chato quando você é tão... Tão racional!

_ Maninha, eu estou vivendo o mesmo conflito que você, por mais que não tenha tantos ciúmes do meu pai, não queria que ele se envolvesse com essa mulher, já te falei. Mas, não é justo que o que eu queira ou deixe de querer direcione a vida de nosso pai. Eu tenho o direito de gostar ou não da mulher que ele escolha para amar, viver sua vida, como você também tem. Mas a vida amorosa dele, só diz respeito à ele. Ele pode escolher uma mulher que nós não gostemos. Ele pode se envolver com alguma mulher porque merece ser feliz.

_ Não, eu não aceito, Heitor! Não estou nem aí se parece justo ou não. Não vou entregar os pontos sem fazer nada. Essa Maria que me aguarde! – falou como que ditando uma sentença.

***

Maria chegou em casa como que caminhando entre nuvens, totalmente absorta na multidão de pensamentos que enchiam sua mente. Não voltou à joalheria, foi direto pra casa, sabia que não se concentraria no trabalho, não conseguiria pensar em mais nada depois de... Decidiu passar a tarde pensando em tudo o que aconteceu no escritório de Estevão desde os beijos e carícias íntimas que haviam trocado até sua proposta e a emoção dela com a situação.

Tirou os sapatos e se sentou no sofá com os olhos no vazio. Pensou em ligar para Camila para contar o que aconteceu, mas não se acreditou capaz. Além disso, o que ia lhe dizer? Que seu plano estava saindo mais perfeito do que ela queria, mas que ela se sentia presa em um labirinto por finalmente se dar conta que ainda era apaixonada por Estevão, que o amava independente de tudo que ele lhe havia feito e do que ela suspeitava que ele pudesse ter feito com sua filha? Que tipo de vida teria se aceitava aquele casamento?

Começou a pensar que lhe machucaria se Estevão se magoasse com ela, ao descobrir a verdade, ao descobrir que, para ela, ele foi uma peça de um jogo que ela traçou para recuperar sua filha. Afinal, ele estava sendo maravilhoso com ela: atencioso, apaixonado, arrependido, entregue... Mas o que ela sentiria se viesse a se dar conta que confiou novamente nele, se entregou com a alma, com o coração e ele era o responsável pelo rapto de sua filha, por ter feito aquela monstruosidade que lhe marcou alterando drasticamente o rumo de sua vida e o tipo de pessoa que ela era.

De repente viu que revivia todos aqueles sentimentos que há tanto havia renunciado: amor, desejo, medo, aquele desejo enorme de lançar-se no vazio, pois o amor te convida sedutor e, por mais que você tenha medo do terreno íngreme e desconhecido desse sentimento, você anseia por vivê-lo, por concretizá-lo. Caminhou até o bar, colocou as mãos no balcão e se disse firmemente:

_ Eu vou seguir em frente com meu plano! Não vou voltar a entregar meu coração para esse homem! Não posso voltar a entregar minha vida à ele!

De repente a campainha tocou. Maria demorou alguns minutos antes de abrir a porta. Surpreendeu-se ao ver que era Estrela.

_ A senhora? Maria.... Maria Acuña! A senhora! – se repetia incrédula pela surpresa!

_ Estrela? Que surpresa você na minha casa. Não me... – antes que ela pudesse concluir a frase a jovem começou a atacá-la.

_ Então a senhora é a mulher que comprou parte do meu tio Evandro no escritório do meu pai? É a tal ex que está mexendo com a cabeça dele? Isso sim me surpreendeu. Não esperava que a senhora Maria Acuña, que eu admirava sua biografia fosse uma pessoa que tivesse feito parte do passado dos meus pais e trazido tanto sofrimento à minha mãe!

Maria sentiu o golpe quando ela falou daquela maneira. Especialmente pelas acusações com relação à Consuelo e por chamá-la de mãe defendendo-a frente a ela. Baixou os olhos.

_ A senhora não vai dizer nada? Se fica calada eu vou acreditar que é ainda pior do que eu penso!

_ Por favor, não fale assim, Estrela. Você não sabe o que está dizendo. Você não acha que é injusto julgar sem conhecer a história da qual você fala? – questionou-a fazendo com que Estrela reagisse olhando-a de forma desafiadora. – Vem, entre. Pelo que vejo você está disposta a ter uma conversa longa e é melhor que a tenhamos dentro de casa, não na porta.

Estrela baixou temporariamente a guarda e entrou. Olhou toda a sala de cima a baixo como que analisando a casa. Achou uma casa muito bonita e decorada com ótimo gosto. Achou até que se parecia com Maria, aquela mulher que ele sempre havia admirado e que a estava decepcionando naquele exato momento.

_ Você me interrompeu. Eu me surpreendi ao te ver aqui porque não sabia que você tinha meu endereço. – Maria iniciou uma conversa.

_ Eu não tinha! Mas não foi difícil descobrir. Eu sou uma pessoa perseverante, quando quero uma coisa, eu consigo.

Maria olhou-a com uma expressão interrogativa.

_ Fui até o escritório, peguei os dados do seu advogado, liguei pra ele e perguntei qual era seu endereço. Acho que ele gostou de mim, porque quando me identifiquei como Estrela San Roman, rapidamente ele me deu. – ainda que chateada não perdeu seu bom humor

_ Ah, agora entendo. O Luciano... Não é que me chateie que você venha à minha casa, apenas estranhei...

_ Ah, por favor, senhora. Vamos pular os números! Eu não vim aqui fazer uma visita social. Vim porque sei que a senhora teve um romance com meu pai no passado e que ele ficou muito mexido ao voltar a te ver. Eu planejava chegar aqui e tentar perceber que tipo de mulher a senhora era e te deixar claro que meu pai tem quem o defenda, não vou permitir que uma mulher calculista e manipuladora o enrede em uma história que ofende só pelo fato de que você se meteu entre meus pais!

_ Eu não me meti entre seus... Entre Estevão e Consuelo. Quando o conheci, os dois já não tinham um relacionamento. Tinham um filho, mas haviam se separado há bastante tempo. O contato dos dois era só pela criança. – Maria respondeu magoada pelas ofensas que lhe lançara a jovem.

Estrela se virou sorrindo como que desdenhando das justificativas de Maria.

_ Como eu disse, eu planejava chegar aqui e lhe reclamar por isso, mas agora, quando eu percebo quem a senhora é e que não só está tentando enredar o meu pai sabe-se lá com finalidade, mas também a mim, quero saber o que é que a senhora pretende cercando a minha família?

_ O que eu pretendo...? – Maria indagou sem entender muito bem.

_ Primeiro você volta a se aproximar do meu pai deixando-o totalmente confuso ao falar-lhe do passado de vocês, depois se aproxima de mim se fazendo de simpática e interessada pelo meu futuro e sonhos profissionais e agora compra quase metade da empresa do meu pai. Senhora, Maria, o que você quer com a gente?

Notas finais
Obrigada a todos que estão acompanhando, comentando, favoritando e curtindo. Infelizmente, provavelmente agora vou diminuir a frequência das postagens por causa do meu trabalho que fica bem intenso agora nos últimos dias desse mês, mas vou tentar deixar, no mínimo, um capítulo por semana para vocês. Em outubro, tudo se normaliza. Beijos!