Elo Irrevogável

29 Capítulo 29 - O Fim de um Covarde (+18) - Penúltimo capítulo


Notas iniciais
Aline Costa sua linda, muito obrigada por ter recomendado a fic ❤ A todos, muito obrigadas pelos favoritos, comentários e elogios!!

***

Estevão não podia dissimular os ciúmes que ainda sentia de Luciano. Ainda recordava a primeira vez que o viu com Maria, entrando em seu escritório com a mão nas costas dela. Seu mundo veio abaixo ao vê-lo tocando-a, era como se ele lhe estivesse arrebatando seu mundo. Sua possessividade com relação a ela era incontrolável. Mas naquela situação era ele quem se sentia numa encruzilhada, como justificar que não queria que ele a levasse? Iria gritar a ela que queria que ela ficasse, dormisse de novo ao seu lado, lhe acalmasse a ânsia de sentir de novo seu corpo entre seus braços, de aninhá-la enquanto dormia, de sentir sua respiração de sentir de novo que era completo. Mas ainda tinha aquela mágoa, aquele sentimento de traição por suas razões para se aproximar dele. Não sabia o que responder, mas tinha que impedi-la de ir com Luciano.

_ Não me parece conveniente que você vá com Luciano. – foi a primeira coisa que ocorreu a Estevão para impedir que ela fosse embora com Luciano.

_ Por que não Estevão? Que bobagem. Não me diga que você está com ciúmes? – ela perguntou com um meio sorriso no rosto. Desfrutava dos ciúmes dele, desfrutava do poder que tinha sobre ele mesmo naquela situação.

_ Não é isso... – ele tentava dissimular, mas o que dizer se era a mais pura verdade? Morria de ciúmes de Luciano. O desesperava pensar que Luciano era apaixonado por Maria e estaria perto dela.

_ Então o que é? – ela perguntou sem poder evitar sorrir, mesmo que as lágrimas ainda não tivessem secado do seu rosto.

_ Maria, você sabe que Luciano tem interesse em você, não é conveniente que você dê esperanças a ele.

_ Ah, agora você se preocupa com os sentimentos do Luciano? – ela indagou irônica.

_ Me preocupo com os seus. Não quero que você se machuque. Independente do que tenha acontecido entre nós, quero que você esteja bem. – ele disse sincero.

_ Não se preocupe. Luciano não vai me machucar, nos conhecemos há 18 anos e ele sempre foi muito cuidadoso com meus sentimentos.

Essas palavras que, em teoria, seriam para tranquilizar Estevão o enlouqueceram. Sentiu que Luciano possuía com ela uma cumplicidade que ele jamais havia tido e, provavelmente nunca teria. Ela se virou e começou a caminhar em direção a escada e ele correu atrás dela segurando fortemente seu braço fazendo com que ela olhasse para ele interrogativa, poderia se dizer até que, quase desafiadora.

_ Não, você não vai com ele, Maria! – disse Estevão firme.

_ Estevão, você está se comportando de maneira infantil. Luciano está aí na porta e eu não posso deixá-lo de molho, esperando enquanto você resolve suas... suas dúvidas. – ela disse sem deixar de olhá-lo de maneira desafiadora.

Que Estevão entendesse essas palavras com sentido duplo foi inevitável. Ele sentiu que Maria lhe dizia que, se ele não se decidia, nada a impedia de dar uma chance a Luciano. E era a verdade, Maria era a mulher mais linda que ele havia conhecido e Luciano, independente da rivalidade com ele, podia reconhecer suas qualidades. Era um grande advogado, investigador, dedicado ao seu trabalho e a ela. Um grande homem. A perderia? Isso ele não podia suportar, que Maria o trocasse por Luciano. Mas, se ela se decidisse por Luciano não o estaria trocando por ele porque ela havia deixado muito claro que, se não retomavam o casamento deles era por decisão dele próprio. Até a aliança ela conservava no dedo enquanto ele havia tirado a dele. “Vou enlouquecer!”, pensou Estevão.

_ Por favor! Me deixe te levar, nós temos que falar sobre Estrela. – ele voltou a insistir.

_ Estrela pediu para ficar sozinha. Creio que foi sua maneira de dizer que tem que refletir sobre tudo isso. Vamos dar-lhe esse tempo. E nós dois também façamos o mesmo, Estevão. – ela disse ponderada.

_ O que você quer dizer? – ele entendeu que ela claramente não falava daquela simples carona.

_Tomemos um tempo para refletir sobre... sobre tudo, meu amor. – as palavras carinhosas escaparam quase que por acidente, mas ela não tentou evitar. – Você não pode nos submeter às suas dúvidas, Estevão, nem a mim nem a você, nosso amor não merece isso.

_ Eu sei. – ele aceitou austero.

_ Eu ainda trago a aliança no meu dedo. – ela mostrou a ele algo que ele já havia notado. – Ainda acredito no nosso casamento, só não sei até quando. Tudo. Absolutamente tudo está em suas mãos.

Com essas palavras, Maria baixou os olhos e começou a descer a escada e Estevão ficou imóvel olhando para ela. Ainda teve tempo de ir até a janela. Do andar de cima de sua casa, observava como ela atravessava a rua caminhando imponente antes de entrar no carro de Luciano que ele podia jurar que sorria vitorioso mesmo que não pudesse vê-lo. Aquela sensação de que ela estava escapando dele, que a estava perdendo, já havia sentido duas vezes e não queria que voltasse a ocorrer, não poderia. Há alguns dias sentira aquele mesmo desgarramento quando Maria havia ido embora de casa e também naquele dia, naquele dia que seria o mais feliz de sua vida...

***

Flashback On

Estevão não marcou com Maria ao lado daquela joalheria por acaso. Alguns dias antes havia ido até lá e escolhido um anel para colocar em sua mão selando o compromisso deles e queria marcar a data do casamento com ela enquanto na joalheria tomariam as medidas para o anel. Seria sua esposa, aquela mulher pelo qual ele estava completamente apaixonado desde que a vira pela primeira vez. Ahhh, a primeira vez. A primeira vez que a vira, a primeira vez que se beijaram, quando ela aceitou ser sua namorada, a primeira vez que fizeram amor, tudo com ela era maravilhoso.

Um pouco mais de longe Consuelo e Alba observavam como Estevão se aproximava do restaurante abobado. Ele havia comentado com sua tia que ia ver Maria ali, ela encarou isso como a oportunidade perfeita para tirar de vez aquela garota de sua vida. Não suportava o relacionamento de Estevão com ela, sentia que ele queria se casar com ela e isso não ia aceitar, não podia. As duas se olhavam cúmplices e sorriam. Sentiam que tinham tirado um obstáculo do caminho.

Estevão ia entrar no restaurante e falar sobre sua reserva quando percebeu uma confusão na joalheria onde levaria Maria logo depois do almoço para tomar as medidas do anel que ele havia escolhido para ela. Havia uma aglomeração de gente, algumas gritavam e uma voz de mulher chorando. Ele foi se aproximando, afastando as pessoas, tentando entender o que se passava quando viu: era Maria! Não podia ser. Um segurança a segurava por um braço e sacudia sua bolsa na outra mão. O que estava acontecendo?

_ Então você não roubou nada? – perguntava o segurança – Em sua bolsa você carregava uma pequena fortuna em joias.

_ Eu não sei explicar como foram parar aí. – repetia ela chorando desesperada – Eu não roubei nada...

_ Você vai ter bastante tempo para explicar para a polícia que está a caminho. – ela fez um gesto para se soltar dele. – Nem pense em fugir, eu não vou soltar seu braço! Daqui você só sai para a cadeia.

Ela levantou os olhos e viu Estevão ali. Sentiu de início um grande alívio.

_ Estevão! Meu amor, me ajude! Eu não roubei nada, não sei o que está acontecendo.

_ Você conhece essa mulher? – perguntou o gerente da joalheria que estava ao lado do segurança.

_ Conheço. – ele confirmou totalmente incrédulo. – O que aconteceu Maria? – ele tentava entender.

_ Aconteceu que sua conhecida é uma ladra. Olha só a fortuna em joias que flagramos na bolsa dela!

_ Não! – Maria negava em desespero. – Eu não roubei nada! Você acredita em mim, Estevão, não acredita? – era quase uma súplica aflita.

Estevão somente a olhava cético. Não proferiu uma palavra. A cena era clara. Várias testemunhas a apontavam, as joias estavam dentro de sua bolsa, a decepção não podia ser maior. Porém havia uma decepção maior: a que sentia Maria. Ela não podia crer que Estevão não movia um dedo para ajudá-la. Estava mais que claro que não acreditava nela. Antes de ser levada pela polícia ele ainda a olhou penalizado. Chorava.

_ Como você pôde, Maria? – foram suas únicas palavras.

Maria seguiu para a delegacia destroçada. Naquele momento perdera sua liberdade, a confiança no mundo e nas pessoas e o homem que amava. Tudo de uma vez, de golpe. Estevão olhou como a levavam sentindo que seu mundo ia embora, sentindo que perdia tudo. Por quê? Se perguntava! Por quê?

Flashback Off

***

Quando chegou em sua casa, Luciano percebeu que Maria não queria que ele entrasse. Ela falou um pouco de como havia sido contar a verdade para Estrela e ele lhe deu força como o bom amigo que era. Luciano percebeu como o momento de seu casamento com Estevão a afetava, mas não podia se aproveitar daquele momento para tentar nova aproximação, já se havia conformado em ser só amigo e, desde que ela se casou com Estevão, ele tinha mais certeza que ela não o via como algo mais, havia decidido seguir em frente e transformar aquele amor apenas em uma recordação, mas jamais se afastaria de Maria. Se ela lhe desse um sinal, um pequeno sinal que fosse, mas ela o considerava demais para fazer algo que o pudesse machucar. Maria agradeceu a carona e a amizade de Luciano e caminhou pensativa até a porta de sua casa para sua realidade de sempre: a solidão.

Estrela não a havia rejeitado abertamente, mas tampouco a havia recebido como mãe. Estevão demonstrava que não a havia esquecido, mas seguia tomado por suas dúvidas, não se decidia. Entrar em seu mundo de solidão era o que lhe havia restado. Abriu a porta com mais nostalgia que de costume. Sua casa, onde havia vivido sozinha por tantos anos, nunca parecera tão grande. Os móveis, as coisas, nada tinha significado, nada. Quando se aproximou do bar ouviu um barulho no corredor e estranhou. A casa devia estar vazia, o que seria? Caminhou devagar e foi tomada por um grande susto quando deu de cara com Evandro. Ele estava armado. Como havia entrado? A porta estava trancada quando ela chegou! O medo a envolveu totalmente.

_ E então, Maria? Sentiu saudades de mim? – ele deu uma gargalhada com o cinismo de sempre.

_ Evandro! Quando é que você vai nos deixar em paz?

_ “Nos”? – ele indagou caçoando – Não estou vendo ninguém além de você aqui. Eu vim até aqui porque eu queria sentir de novo a deliciosa sensação de ter você...

_ Você nunca me teve, seu desgraçado! Você me forçou, me forçou, destruiu a minha vida e ainda foi capaz de também manipular a vida de Estrela! – ela gritou chorando atemorizada pela ameaça que ele lhe fez.

_ Maria, você não precisa fingir. Nós estamos sozinhos aqui. Nem Estevão e nem nossa filha estão aqui para que você encene seu número de mulher de valores. Você é uma vagabunda, um furacão insaciável na cama e eu estou aqui! Estou aqui para apagar o seu fogo, sua vadia. Eu sei que você queima de desejo por mim como eu por você! Vamos resolver isso de uma vez. – disse se aproximando e passando de leve os dedos nos cabelos dela fazendo com que ela fechasse os olhos e fosse quase que totalmente tomada pelo medo, sentiu pânico.

Maria revivia aqueles momentos de desespero do dia em que Evandro supostamente foi à sua casa para falar sobre o fim do processo dela. Como ela ia desconfiar do homem que a havia ajudado? Que havia confiado em sua inocência e se oferecido para defendê-la. Ela tentou fugir, tentou evitar quando ele começou com suas insinuações, mas Evandro era daquele tipo de homem que enxergam as mulheres apenas como objetos sexuais. Ele ignorou cada uma de suas negativas, seus gritos, seu choro, o desespero que ela sentia. E ainda gritava palavras de ofensas a ela fazendo com que ela se sentisse ainda mais enojada. Um nojo e um asco que só se sente quando um homem destrói sua dignidade para saciar seus desejos sexuais.

Ele roçava a arma no rosto dela, mas o desespero tomou conta e ela correu rumo a porta. Ela sabia que ele podia atirar, mas não se importou. Teve tempo de destrancar a porta e fazer menção de sair quando ele a alcançou:

_ Você não tem medo que eu te mate? – indagou ele forçando o revólver contra a testa dela.

_ Não! – ela gritou tomada por aquela sensação de asco e nojo. – Eu prefiro! Você vai me matar é isso? Vai me matar se eu não permitir que você me toque, pois faça! – voltou a gritar. – Prefiro morrer, prefiro que você me dê um tiro do que voltar a ser estuprada por você!

Ele a jogou no sofá e sentou-se em cima dela olhando-a de maneira assustadora.

_ Não, a morte não, seria um desperdício. Um monumento de mulher como você morta não serviria para nada, mas viva...Você não vai evitar, Maria. Não vai evitar porque não pode. Não vai evitar por dois motivos: eu sou muito mais forte do que você e você quer! Eu posso ver que você quer.

_ Seu maldito desgraçado me solte! – ela gritava enquanto ele entre as negativas e unhadas dela colocou a arma sobre a mesinha de centro.

Com seu corpo ele firmava o dela sobre o sofá, por mais que tentasse, ela não conseguia se mexer da cintura para baixo. Com uma mão ele segurava as duas dela sem muita dificuldade por mais que ela lutasse desesperadamente e com a outra ele começou a desabotoar a blusa dela. Maria chorava e fazia força. Lutava com suas forças e tudo o que possuía para se soltar e não conseguia, havia dito a verdade: preferia a morte a voltar a ser estuprada por Evandro.

***

Durante alguns momentos Estevão ficou naquela janela pensando em sua história com Maria. Em sua prisão, nos anos em que estiveram separados. Não se deu conta quando Estrela se aproximou dele. Ainda tinha os olhos inchados de chorar e muita confusão em seu peito.

_ E Maria?

_ Filha! Que bom que você saiu do quarto. Maria acabou de ir para casa.

_ Eu achei que ela fosse ficar... – comentou Estrela.

_ Você fala por você? – Estevão indagou.

_ Não, por você!

_ Por que você fala isso, filha?

_ Ela te ama, pai. Você a ama. Por que estão separados?

_ Ela não foi totalmente honesta comigo – Estevão justificou.

_ E isso vale mais que as outras coisas? Me doeu saber tudo que eu soube aqui hoje, mas, sei lá, foi uma maneira de entender muitas coisas.

_ Que coisas, minha menina?

_ Maria errou muito, como ela mesma admitiu aqui, mas você já parou para pensar na barra que ela enfrentou, pai?

_ Algumas vezes. – suspirou Estevão.

_ Então por que não a perdoa? Ela errou com você, mas por amor, numa tentativa de recuperar um pedacinho da vida dela que ela perdeu. Perdeu não, tiraram dela!

_ Que curioso que seja justamente você a me dizer isso. Você que está diretamente envolvida.

_ É porque o que aconteceu hoje foi como se eu finalmente conhecesse Maria de verdade. Vá falar com ela! Se acertem os dois merecem isso e se amam tanto. – Estrela deu força a Estevão.

_ Você tem razão, filha! Eu já te disse que sempre consigo ver as coisas com mais clareza quando falo com você? – ele indagou sorrindo.

_ Algumas vezes. – ela sorriu balançando a cabeça. – Vá atrás dela! Não deixe escapar a mulher que você ama por uma mágoa que não vai te dar nada de bom.

_ Sim! – concordou Estevão beijando-a na testa e decidido a ir atrás de Maria.

***

Estevão dirigiu rápido até lá, chegou poucos minutos depois que ela havia chegado. “E se ela estiver com Luciano?”, pensou. Não, ela não vai estar com ele. Ela ainda tinha a aliança no dedo, está esperando eu me decidir. Caminhou inseguro no corredor como um adolescente que vai procurar a mulher que ama quando ouviu algo que identificou como um grito. Vinha da casa de Maria. Evandro! Pensou ele de imediato, como um aviso. Tirou o celular do bolso e sem perder tempo chamou a polícia. Foi caminhando devagar até próximo da porta que estava entreaberta e teve a certeza de suas suspeitas ao ouvir o choro de Maria.

_ Eu nunca pude me recuperar da sensação deliciosa de sentir o seu corpo, sabe, Maria? – Estevão ouviu a asquerosa voz de Evandro. – Você estava um pouco resistente, eu não nego, mas admita: eu fui muito mais homem para você do que o Estevão!

_ Não! – ela gritou entre lágrimas. – Estevão é um homem de verdade. Com Estevão eu conheci o amor e com você.... Com você eu só conheci o desespero e a sensação de nojo! Me solte, você não vai fazer isso comigo de novo!

_ Aceite, Maria, você quer! Você quer que eu te faça uma mulher de verdade, esse furacão que você é precisa de um homem como eu. Tenho certeza que Estevão nunca te tocou como eu.

Ele se deitou sobre ia e ameaçou retirar seu membro que estava ereto quando Estevão não se conteve e invadiu a casa. Ao ouvir o barulho ele saiu de cima de Maria que soltou uma lágrima de alívio e correu dali. Agarrou a arma e mirou em Estevão que fez um sinal de rendição.

_ Agora eu não vou errar! – disse ameaçador.

De repente, ele sentiu o impacto sobre sua cabeça e o sangue escorrer quente por seus cabelos, seu rosto caucasiano até sua boca. Maria havia quebrado uma garrafa de bebida em sua cabeça. Fora da casa, o som das sirenes da polícia se ouvia. Estevão ameaçou ir para cima dele, mas ele, ainda que um pouco mareado jogou seu corpo forte para cima de Estevão que caiu e correu para fora. Estevão e Maria se abraçaram chorando. Ainda ouviram misturados ao som da sirene gritos e tiros na rua da casa de Maria. Quando saíram de casa e se aproximaram da rua puderam ver o corpo de Evandro estendido no chão contornado por uma poça de sangue. Sua miserável vida tinha chegado ao fim.

***