Ellerai
2 Ato I - O Começo
Castelo Real de Kingsleigh, perto da meia-noite. Aposentos da Rainha Alice
Alice estava sentada em uma poltrona em seu quarto e olhava aflita para uma carta escrita em um papel pardo. Vestia um vestido azul de mangas compridas e um cinto dourado em forma de anel. Um chapéu de abas curtas cheio de plumas estava pendurado não muito longe dali. Tudo estava em silencio e a península da cidade estava na mais completa escuridão já que todos os seus habitantes estavam dormindo profundamente. Até o movimentado porto estava calmo como as pequenas ondas que batiam em seu cais. A luz do quarto da rainha servia como um farol simbólico.
Um guarda entrou no quarto e anunciou a entrada de Catarina, a Marquesa de Savin.
A Marquesa era uma mulher de quase 60 anos magra e graciosa, de cabelos completamente prateados sempre presos elegantemente. Usava o mesmo vestido do jantar á algumas horas atrás, um longo vestido verde esmeralda bordado á mão e inúmeras joias de bom gosto. Usava um diadema de rubis. Os Savin eram a família nobre mais antiga daquele mundo, estando na corte á centenas de anos. Sua expressão, sempre tão centrada e calma, naquele momento estava nervosa. Segurava, assim como Alice, uma carta. Mas logo se via a diferença entre as duas; enquanto a de Alice foi escrita em um papel pobre e apressadamente, a da Marquesa era de um papel fino e continha um selo de uma família da nobreza.
– Pediu para me ver majestade?
– Sim Catarina. Por favor, sente-se. – A Marquesa se sentou em uma poltrona em frente da rainha – Quer chá?
– Sim, e não economize no açúcar. Meus pobres nervos estão em frangalhos. – A voz dela era oscilante – Vamos logo ao assunto. Vossa Majestade sabe que detesto mistérios.
– Então deve estar bem frustrada, presumo – Alice entregou a xícara com o chá quente e se sentou novamente – Porque a carta que tem em mãos guarda um grande mistério, não?
– Sabe do que a carta que recebi se trata? Mas como?
– Porque eu recebi uma carta que fala da sua carta. Se estou certa, a carta que você recebeu é dos Blackstone e diz que eles acharam o seu neto, que está desaparecido a muitos anos.
Catarina deixou cair a sua xícara. Estava em choque. Olhou pasma para a jovem rainha, que também possuía uma expressão sombria em seu rosto.
– Falo isso, minha cara Milady, porque a carta que recebi é de uma mulher que talvez você conheça. – Alice mostra a carta para a Marquesa – Ela se chama Emma Lyon. Sua família serviu o Ducado de Silverlake por mais de sete gerações.
– Sim, sim. – Catarina enruga a testa, pensativa — Me lembro dela. Nunca a vi pessoalmente. Mas foi ela quem me mandou uma carta avisando quando a minha filha e o então duque... Era uma boa moça, esta senhorita Lyon. Mas porque ela mandou uma carta para você? E como ela sabe da carta que aquele homem repulsivo, Kraus Blackstone, mandou para mim?
– Bom, Emma Lyon diz que mora em Ellerai e que é tutora da filha do homem que você citou, Lorde Blackstone...
– E então?
– Bom, e então ela fala que não é só tutora da filha dele, mas também de um menino que eles chamam de “James VI” – Alice sentia os olhos da Marquesa aumentando mais e mais – Que, supostamente, seria o filho perdido de James V, o Duque de Silverlake e de sua filha milady, Lady Cassandra de Savin...
– Oh! Não fale do nome dessa inconsequente nunca mais! Não a considero mais minha filha! – A Marquesa levantou-se, muito exaltada e ferida.
– Desculpe-me, Catarina, não o farei de novo. A questão é que a Srta. Lyon diz que esse suposto herdeiro é uma fraude orquestrada pelos Blackstone para tomar a fortuna dos Silverlake. Um fato que apoia esta declaração tão polêmica é que “James” também estaria muito oportunamente noivo da filha de Kraus, Sylvia.
– Os Blackstone sempre quiseram tudo do que foi dos Silverlake. Tentaram diversas vezes entrar na família através de casamentos arranjados e trapaças. Não me surpreenderia se isso fosse realmente verdade, vossa Majestade. Mas como a Srta. Lyon pode provar a fraude?
Alice retira um pequeno anel de seu bolso. O anel contem as iniciais S e L e um brasão.
– Emma Lyon mandou este anel junto com a carta. Ela afirma que o anel é o mesmo que está na família dos Silverlake desde o primeiro patriarca e que ele passou de geração a geração. No dia do incêndio no Palácio de Ellerai, o anel foi perdido, assim como o duque, sua esposa, e o filho de ambos que agora os Blackstone dizem que está sob a tutela deles; Acontece que a Srta. Lyon disse que, antes do incêndio, o duque lhe deu o anel para que o guarda-se para o filho dele. O incêndio foi bem na época que Iracabeth, a Rainha Vermelha estava tramando o seu golpe e todos estavam assustados. – Alice entregou o anel para Catarina – Ele é verdadeiro?
Catarina o examinou por mais de 10 minutos em silêncio. O vento aumentava e as cortinas do quarto balançavam.
– Sem dúvida nenhuma é o anel do meu falecido genro; os Lyon eram grandes amigos dos Silverlake, grandes confidentes, e estavam a dois passos de conseguir um título de casa vassala, então não duvido da história dessa moça sobre o anel. E se o anel esta em posse dela quer dizer que...
– Esse James não é quem diz quem é, ou quem os Blackstone dizem que ele é. Mas tem outro detalhe que fez você perceber logo que se tratava de um impostor, não é marquesa...?
– Sim. A última carta em que tive notícias sobre o meu neto foi uma carta que o Duque mandou para a Rainha Branca, antes de golpe, e que a Rainha teve a bondade de ler para mim já que eu queimava todas as cartas que minha filha me mandava... Enfim. Na carta, ele dizia claramente que não queria que o filho se chamasse James também; queria um nome que nenhum de seus antepassados tivesse tido, porque ele tinha a impressão que seu filho estava “ (...) destinado a fazer grandes coisas...” Mas não tive a oportunidade de saber o nome do meu neto porque logo após a Rainha receber aquele carta houve o incêndio e o golpe e as coisas nunca mais foram as mesmas.
As duas ficaram em silêncio. A Marquesa pensava em todas as coisas horríveis que aconteceram nos últimos 15 anos e Alice olhava para aquela mulher que se mostrava sempre tão forte e racional, sendo apenas uma mãe amargurada e uma avó preocupada. Alice agachou-se delicadamente para ficar de frente para a Marquesa e segurou a sua mão.
– Eu vou achar o seu neto Catarina. Eu te dou a minha palavra.
Um outro guarda entrou na sala e anunciou a chegada de Tom, o Conde de Kingsleigh.
– Tom, meu amigo, por favor, sirva outra xícara de chá para a Marquesa. Você chegou bem a tempo de ouvir o meu plano.
– E que plano seria este, majestade? – Disse Tom, um pouco assustado, servindo o chá para uma atordoada Marquesa.
– O plano para desmascarar os Blackstone e achar o neto da Marquesa de Savin. Já estou decidida: Vou para Ellerai.
– Acho que a nossa Rainha perdeu completamente a cabeça, meu caro Conde. Como pode ir para aquele lugar terrível que se tornou Ellerai?
– Simples. Vou disfarçada. Respondi Emma Lyon, milady. Vou me hospedar com ela e o filho, e ela vai dizer a ele que sou uma sobrinha dela.
Tom e Catarina olhavam para a rainha, chocados e preocupados. Tom deu um passo para frente.
– Me desespera um pouco, vossa majestade, porque nunca conheceu a pobreza de perto; eu já. Quando fui caixeiro-viajante, visitei Ellerai varias e varias vezes e é um dos lugares mais tristes do mundo. Não sei se você suportaria a cidade.
– Mas você vai me ajudar, não vai meu caro amigo? – Alice estava cara a cara com o jovem conde envelhecido pelo trabalho dos anos de comerciante ambulante — Não se recusaria.
– Vossa Majestade sabe que estou sempre ao seu lado – o conde abaixou a cabeça, preocupado, mas sabia que não conseguiria ir contra a vontade da mulher que tanto o ajudou no passado.
A rainha abriu um enorme sorriso e Tom levantou o rosto em direção a ela, com um sorriso fraco.
– Agradeço todos os dias por tê-lo ao meu lado Tom. Mas então vamos começar! Preciso dos tecidos mais baratos e feios que consiga arranjar – Os olhos dela brilhavam e ela começou a correr pelo quarto, excitada com o que estava por vir – E uma capa! E sapatos velhos. Quero partir o quanto antes!
A Marquesa de Savin permanecia sentada, mas uma ponta de esperança começava a surgir em seu coração. O sol finalmente nascia em Kingsleigh e a cidade começava a acordar.
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