Elevador
1 Cactos e Jalapeños
Plim.
O som do elevador a pega de surpresa, quase a fazendo derrubar seus pertences. Quando as portas se abrem, o espelho parece grande demais. Olhos inchados, olheiras, cansaço. Camila quase não se reconhece, mas respira fundo e se encolhe no canto gelado depois de apertar o térreo.
O elevador vai descendo devagar e, honestamente, parece tortura. Ficar sozinha tem sido o maior desafio. A mente corre solta, como carro sem freio numa rodovia engarrafada às seis da tarde. Só resta esperar o pior.
Um movimento a tira do looping. O elevador para e porta se abre lentamente. Camila se sente confusa por um milésimo de segundo. Não era o térreo — era o sétimo.
— Boa noite. — Diz um homem, educado. Ela não o encara muito, mas ajeita a postura e seca o rosto.
— Boa noite. — Ela responde, soando mais fanha do que imaginava.
Camila o reconhece. Já se esbarram pelo condomínio: acenos de cabeça, sorrisos simpáticos — nada demais. Ela sabe pouco dele. Um cara alto, negro, forte mas não musculoso. Tem jeito de trabalhar com coisa séria, e dada a quantidade de vezes em que o viu em shorts esportivos e blusas com proteção UV, sabia que ele tinha um estilo de vida ativo. O cara exala energia de comercial de jeep — aventura, beleza e... De repente, ela se pergunta o que ele deve estar pensando dela.
Provavelmente algo mais próximo de banner de funerária, ela pensa e quase ri de si mesma.
— Comida mexicana. — ele sinaliza a embalagem de isopor, sorrindo sem graça.
Ela só então percebe que o encarava.
— Arriba! — arrisca, mas imediatamente reza para que um buraco negro se abra e a transforme em poeira cósmica para toda a eternidade. — Achei que fosse só o seu perfume.
Ela sorri, aflita, e encara o número três no visor, que desce devagar demais.
Um momento se passa, e um solavanco dissipa a nuvem de constrangimento. Camila se assusta, e se aproxima. O visor se apaga. As luzes de emergência se acendem. Camila e o quase-estranho se olham sem acreditar: estavam presos. Os olhos da moça se enchem de lágrimas, pegando ambos de surpresa. Ele franze a testa enquanto a observa.
— Meu Deus, eu não sabia que você detestava jalapeño tanto assim. — E, surpreendentemente, ela ri, enquanto seca as lágrimas insistentes.
— Cara... Eu chutaria o Murphy agora.
— Ah sim, — Ele vai em direção ao telefone na parede — "Se algo pode dar errado, dará".
O rapaz disca para a portaria, mas Camila mal ouve a conversa — ansiedade, medo e tristeza tiram se discernimento. A ligação termina, e ele se vira para ela.
— Bom, já sabem que estamos aqui, mas... talvez precisem chamar os bombeiros. Pode demorar...
Ele se senta, encostando a cabeça na parede. A comida fica ao lado.
— Como você está tão calmo?
Ele abre a boca mas hesita, e a observa por um segundo além do socialmente aceitável. Ela desvia o olhar.
— Dia difícil? — Camila solta o ar. Quando foi que ela começou a prender a respiração?
— Não sei, eu... Acho que sou alérgica a elevadores.
— Muitos botões, muitos cacos de coração para colar... Também fui alérgico. A elevadores. E a mulher bonita.
Ela o encara com os olhos semicerrados e a boca entreaberta.
— Eu só liguei os pontos. — ele levanta as mãos em rendição. — Nada a ver com esse cacto desidratado, e essa foto de um cara numa fantasia esquisita na sua mão.
— E essa nem foi a pior, tá? — ela ri, passando a mão pelos cachos desgrenhados numa tentativa boba de melhorar a aparência.
— Teve piores?
— Uma vez ele foi de globo terrestre.
— Nossa... meus pêsames pela sua perda. — ele devolve o sorriso, e pela primeira vez ela repara em como ele é realmente bonito. Um sorriso largo, quente. Verdadeiro.
— Eu sou Camila, aliás. — diz, e se senta ao lado dele.
Os ombros se encostam. Ele a sente relaxar um pouco.
— Joaquim. Ou Joca, pros amigos. Combina melhor com elevadores travados e confissões aleatórias?
— Definitivamente...
O silêncio entre os dois cresce. O elevador encolhe.
— Alguma ideia de tempo? — Joca a olha, confuso. — Sabe, os bombeiros... Seria uma pena ter que beber água do coitado do meu cacto.
Ele ri, com a leveza de uma pena.
— Não sei se ele resistiria. Mas não devem demorar...
De repente, a luzes tremeluzem e morrem. Tudo vira escuro, denso, como se o tempo tivesse segurado o ar. Camila prende a respiração novamente, sem perceber.
— Ah, ótimo — murmura. A própria voz parece estranha, mais alta do que devia.
Lá fora, nenhum som. Lá dentro, o cheiro de comida, o calor da presença dele.
Silêncio.
— Sabe... Eu te entendo.
— Como assim? — ela o ouve suspirar lentamente.
— Passei muito tempo recolhendo os meus cacos, descontando em Deus e o mundo. Doze anos juntos, entende? Eu não me via mais sem ela. Antes de dormir eu deitava com a certeza de um futuro. A gente velhinhos, nossos netos brincando enquanto eu preparava alguma receita de família com ingredientes fresquinhos, do pé... Quando acabou, chorei dois dias direto. Não tinha fome, não saia da cama... Não conseguia abrir as janelas com medo do que eu poderia fazer. Até que... passou. A dor foi ficando menor, ocupando menos espaço, e eu entendi que, na verdade, eu não gosto tanto assim de hip-hop. Amo comida mexicana... e que estar comigo mesmo não é nada assustador.
Ela não responde. Não saberia o que dizer se tentasse. Ao invés disso, respira as palavras dele e as deixa assentar.
— Camila?
— Oi...?
— Eu não consigo te ver. Fala alguma coisa... pra eu não parecer um maluco desabafando com o nada.
— Você não é um maluco. — Ele escuta o sorriso dela dançando com as palavras, e sente a mão dela alcançar a dele.
Joaquim não recua. É estranho, mas parece certo. Estranhamente certo.
— Obrigada por partilhar parte de você comigo, Joca. — Camila aperta suavemente a mão dele, e a solta devagar. — Como ela chama? A moça...
— Alice. E ele?
— Caio.
As luzes do elevador piscam algumas vezes, os deixando um pouco desorientados. Um solavanco faz o coração de Camila disparar. Quando o telefone toca, Joaquim já está de pé.
— Oi. — ele pausa. — Sim, eu imaginei... Tudo bem. Ok.
O rapaz desliga, e se vira para ela. A moça ainda se adapta à luz, mas há algo nela... mais leve. Mais vivo.
— Uau. — ela esfrega os olhos suavemente. — Oi de novo, eu acho?
O elevador sacode e, finalmente, volta a descer. Uma leve tristeza invade Camila, mas agora ela não entende o porquê.
— Bom, aparentemente fomos vítimas de uma pane no painel de controle. A boa notícia é que estamos quase livres.
Eles se olham, em silêncio. Um momento depois Joca pega sua comida, e Camila o acompanha. A porta se abre no térreo, mas nenhum deles se move.
— Então é isso... obrigada pelo papo, vizinho. Bom jalapeño pra você. — ela sorri de canto.
Ele acena com a cabeça, e ela se vira para sair, mas ele a interrompe.
— Próxima pane no elevador: tacos?
Camila se permite ficar naquele instante, só mais um pouquinho. Totalmente presente.
— Talvez, Joca...
A porta do elevador se fecha lentamente, mas algo permanece. O silêncio agora parece outro.
Fale com o autor