Eles Não se Importam
9 A Queda da Bastilha
Notas iniciais

Salvador, Bahia (6 anos depois) – 13:06 hrs
Jota estava a pouco de terminar o ensino médio. Estava voltando para casa, das suas aulas matinais, pelo mesmo percurso que sempre fez desde os seus oito anos de idade. Sempre passava pela mesma casinha, a macieira já cortada, o terreno vendido à prefeitura e transformado em uma casa fantasma. Um lugar que antes tinha cor, agora tinha um aspecto funesto. O rapaz olhou para aquela construção, lembrando-se de cada palavra, de cada momento que vivenciou: da sua melhor festa de aniversário, dos passeios e das conversas filosóficas, dos seus melhores amigos, das suas paixões…
Tudo havia ficado no passado.
Jota agora fazia 18 anos. Alto, pele escura, os olhos grandes e pretinhos, os cabelos curtos e cacheados. Como uma sina, como uma maldição, sua mãe sempre o dizia que olhava para aquele homem quando olhava para ele, como se a visão daquele manifestante, de alguma forma, assombrasse os pensamentos dela. Jota não se achava parecido, porém, após tanto tempo ouvindo a mesma coisa, passou a notar alguns traços de semelhança. Por isso, nunca mais se olhou no espelho.
Estava voltando para casa. Adentrou ao local, a mesma casinha de sempre, e encontrou um bolinho de chocolate na mesa. Ao lado, um cartãozinho de feliz aniversário: "fui ao trabalho. Que o seu dia seja mais que especial, meu amor. Voltarei logo pra comemorarmos juntos!" No fim das contas, nada havia mudado: sua mãe continuava trabalhando, recebendo o mesmo salário, e ele continuava estudando, com o adicional de que, agora, tentava pequenos bicos. Jota jogou a bolsa pro lado e se acomodou para comer um pequeno pedaço daquele bolo. Mal teve tempo de tirar a farda, alguém bateu à sua porta.
Ele se levantou e foi atender sem maiores expectativas. Todavia, quando abriu a porta, seus olhos inexpressivos, pela primeira vez em anos, se iluminaram diante de uma pessoa que não via há muito tempo.
— Oi, Jota… posso entrar?
Luna.
A moça estava nos seus 30 e poucos anos. Não havia mudado muito, exceto, talvez, ficado um pouco mais alta. Seu rosto trazia traços de maturidade, seus cabelos eram curtos em um estilo pixie cacheado. Era linda, ainda era tão linda, Jota já não negava mais que tinha uma queda por ela desde que a viu quando era moleque.
Sem dizer uma palavra, despertou do seu transe com duas piscadelas rápidas. Logo deixou a mulher entrar e fechou a porta.
— F-fica à vontade…
Ele jogou os travesseiros de lado para que ela tivesse espaço no sofá, mas Luna preferiu sentar-se à mesa. Assim que se acomodou, ela viu o pedaço de bolo.
— Hum… hoje é seu aniversário, né? Se não me engano, é hoje.
— É sim. Quer um pedaço?
— Não, obrigada — ela se levantou e abraçou o menino, que se sentiu um pouco desestabilizado. Certamente não esperava um abraço dela —, meus parabéns, Jota!
Ele devolveu com um pouco de timidez.
— Er… por que veio me ver depois de tanto tempo?
Aquela pergunta fez com que o sorriso dela lentamente se desfizesse para um mais fraco e receoso. Ela apertou os lábios e se sentou novamente.
— Preciso falar com você sobre o dia da morte dele.
Jota não reagiu à princípio. Pensou sobre aquelas palavras, não sabia se queria voltar a se envolver com aquelas coisas, mas, se ela veio ao seu encontro, ele não a deixaria perder o seu tempo. Sentou-se ao lado dela e moveu a cabeça para que prosseguisse.
— Bom… no dia que acharam o corpo dele e tudo… eu achei aquela morte muito estranha. Ele se matar, sabe? Ele não faria isso… Então eu comecei a xeretar as coisas dele, Michael deixou um monte de coisas nas minhas mãos, disse pra eu levar comigo se acontecesse alguma coisa com ele. E, poucos dias depois disso, eu achei uma carta.
Jota elevou suas sobrancelhas de forma sutil, redobrou sua atenção.
— Ele te citou nessa carta, achei que você deveria saber.
Ela removeu um papelzinho do bolso, em seguida cedeu ao rapaz que leu em silêncio.
"Luna,
Deixe todos cientes do que acontecerá nas próximas horas.
Eu recebi uma ligação do gabinete do prefeito, negociando um acordo que pode beneficiar o nosso movimento. Novas terras serão distribuídas, mas, para isso, eu preciso me entregar. Estou sendo breve, quero pôr tudo o que preciso dizer em um papel apenas: há uma possibilidade enorme de isso ser uma armadilha, eu estou ciente, mas não posso arriscar o povo nas ruas, vulnerável às ações policiais. As pessoas estão revoltadas, estão se machucando, as coisas estão saindo de controle. Você sabe que nunca foi minha intenção que se chegasse a esse ponto. Por isso, vou arriscar.
Contudo, se o movimento ruir, apascente o povo. Quero que guarde essa carta contigo até o aniversário de 18 anos do Jota, eu o quero na frente do movimento. Eu nunca quis ser líder, eu tinha medo que a concentração em uma figura fragilizasse a nossa causa, mas talvez vocês precisassem de um, e eu vi essa necessidade tarde demais.
Se o Jota estiver lendo essa carta…
Eu vou viver em você. Continue o que eu comecei. Eu confio em você, assim como você confiou em mim. Eu não sou pai e não sei se um dia terei essa oportunidade, mas pude viver um pouco disso contigo. Obrigado por ter feito parte da minha história. Você é meu filho, e eu te amo muito.
Lembre-se da nossa resistência:
'Me espanque, me odeie… você nunca vai me machucar. Me obrigue, me aterrorize… você nunca vai me matar.'
Nós somos o povo."
Jota não soube explicar a sensação estranha que sentiu ao ler aquela carta. Sentiu os olhos arderem e embaçarem, sentiu o nó na garganta, mas conseguiu manter os seus sentimentos dentro do peito. Apertou a carta com uma das mãos e devolveu à mulher, sem dizer uma palavra.
— Eu sei… eu sei que é muita coisa pra assimilar, mas… ele…
— Eu… — ele a interrompeu. Sentiu a voz embargar, então engoliu seco e, após dar um tempo a si próprio para que pudesse se recompor, prosseguiu — A última conversa que eu tive com ele, eu tava com muita raiva. Eu pensei… eu pensei, de verdade, em esquecer tudo isso. Pensei que ele era um covarde…
Jota suspirou, passou a mão no rosto, tentando manter aquele sentimento no peito a todo custo. Lembrou-se da conversa que teve com o homem, lembrou-se de quando chorou pela primeira vez na sua frente e Michael lhe disse para não ter vergonha; ele se lembrava de cada palavra.
Luna lentamente levou as mãos ao rosto dele, com muita calma para se certificar de que ele deixaria. Jota não a impediu, e então a morena o puxou e beijou sua bochecha, em seguida lhe deu um abraço que terminou com o rosto do garoto em seu ombro, chorando compulsivamente. Ela nunca havia o visto demonstrar tanto o seu sentimento… Jota não era frio como aparentava.
— Era tão lindo o que vocês sentiam um pelo outro…
— E-ele… a minha mãe… a minha mãe nunca aceitou… — ele murmurava, entre engasgos — Ele foi o meu pai por poucos meses. O pouco tempo que a gente passou… eu odiei tanto quando ele morreu…
Por fim, o rapaz se afastou e limpou o rosto rapidamente, ainda rejeitando aquela fraqueza. Luna suspirou e o ajudou, passando o polegar em sua bochecha. Jota prosseguiu:
— Eu pensei que ele era um covarde…
— E o que você pensa agora, Jota?
Ele suspirou e olhou para a mulher.
— Ele mudou a minha vida.
Luna sorriu fraco e, enfim, fez a tão famigerada pergunta.
— Você vai voltar pro movimento?
Jota relaxou os ombros e se afastou para se sentar no sofá. Ele ponderou por alguns instantes, em seguida passou as duas mãos nos cabelos, parecia aflito.
— Eu não tenho dinheiro, Luna… eu não tenho nada. Eu só tenho o ensino médio, não sei nada de leis, não sou inteligente como ele foi. Como eu posso ajudar vocês? Como eu posso ficar na frente disso? Ser um líder? Além do mais, eu não sei se teria saúde mental pra isso… — ele suspirou pesarosamente — Eu não sou "paz e amor" como o Michael era. Eu não sou nem dez por cento do que o Michael era! Eu estou puto! Eu odeio esse prefeito, esse vagabundo fez o que fez com a comunidade e conseguiu ser reeleito! Eu odeio essas pessoas, Luna, eu odeio! Por causa delas, o Michael morreu! Eu não sei como posso ajudar vocês com isso…
A mulher cruzou os braços e pensou sobre o assunto. Ela não conhecia todas as nuances do Jota, nunca teve tanta intimidade com ele, tinha medo do que todo esse seu rancor poderia acarretar, mas, acima de tudo, ela confiava em Michael e confiava em cada uma das suas decisões.
— Se Michael fez essa escolha, ele tinha bons motivos, Jota — ela sorriu enquanto voltava a olhar para ele. — Ele viu potencial em você. Eu não sei como você vai fazer, mas a gente confiava no Michael, vamos confiar em você também.
Isso somente o deixou mais nervoso ainda. Ele ponderou por longos minutos… Luna não quis apressá-lo, nem induzi-lo a tomar alguma decisão precipitada, então o deixou totalmente à vontade.
— Se quiser ficar sozinho pra pensar, eu posso voltar outr…
— Eu quero… — ele voltou a encarar a mulher — mas eu vou fazer do meu jeito. Vocês topam?
— O que você tá planejando?
Ela perguntou, tinha receio pelo tom da sua voz e pelo teor da sua confissão. Já o rapaz, pensou se diria à ela agora. Não queria preocupá-la, mas um novo líder dita novas regras, e Jota estava disposto a não cometer as mesmas falhas que o seu pai de consideração havia cometido.
Olhou para Luna com convicção.
— A queda da Bastilha.
Ela entendeu e ponderou.
— Vamos pro refúgio.
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(2 meses depois) – 15:00 hrs
Reforços policiais foram chamados para atender a uma solicitação da prefeitura: um dos seus terrenos havia sido invadido.
As antigas moradias haviam sido derrubadas para que o terreno limpo pudesse ser repassado à empresas privadas, e esta "reforma" perdurava, incompleta, por longos 3 anos, quando a prefeitura finalmente havia decidido o que fazer com esse espaço. Totalmente destituídas, famílias desamparadas, tudo para que as autoridades simplesmente deixassem as terras inutilizadas.
Agora, os antigos proprietários voltaram para reexigi-las: espantaram os funcionários com violência, tomaram os seus pertences, queimaram suas ferramentas e seus veículos de trabalho, desapropriaram todos os alojamentos e tomaram a posse total do terreno. Paralelo a isso, no centro da cidade de Salvador, um novo protesto se formava. Uma onda de outras pequenas manifestações se iniciaram concomitantemente em pequenos bairros ao redor do Pelourinho, e tudo isso provocou alerta de um princípio de caos generalizado, pois não havia policiais suficientes para enfrentar tantos grupos de pessoas em tantas partes diferentes da cidade.
No centro, as pessoas saíam de seus carros e os abandonavam no meio do trânsito. Os manifestantes estavam expulsando os motoristas que insistiam em ficar para proteger os seus bens. No meio do grupo, um se destacava: um coberto de vestes vermelhas.
— Só queimem os carros daqueles que podem pagar por outro!
Os manifestantes empurravam as pessoas para fora, ateavam álcool no interior e incendiavam. Um homem ficou preso em seu cinto de segurança, quando viu um pequeno grupo de mascarados cercar o seu land rover.
— Levem, levem tudo!
Ele gritou. Uma das pessoas quebrou o vidro e abriu, fazendo o alarme disparar. Nesse momento, aquele homem virou o rosto e viu, diante de seus olhos, um moreno alto passar por defronte de seu carro. Ele rodeou, disse alguma coisa para a mulher que havia aberto a porta, e então ela se afastou, dando espaço à ele. Moreno, alto, pele escura e cabelos cacheados, tinha uma máscara vermelha muito idêntica à usada pelo antigo grupo de manifestantes que haviam parado com suas ações desde a morte de seu líder. Sua camisa de mangas curtas e vermelhas, sobreposta a uma branca de mangas longas, calças jeans e sapatos pretos eram detalhes que se assemelhavam àquele antigo movimento, mas o que lhe arrancou palavras foram aqueles olhos escuros, negros como a mais pura noite, de sobrancelhas arqueadas e que sibilavam revolta; olhos esses que arrancaram, do passado daquele cidadão, uma lembrança incomensurável da dor e do ódio pela morte de um homem inocente: um homem que disse que iria voltar, e havia voltado.
— Oi, prefeito…
— Quem é você??
Jota acendeu um isqueiro e pôs um pedaço de papel para queimar.
— … o povo.
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