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18 Um Pequeno Problema
Notas iniciais
Quando você acha que já sofreu o bastante, quando acha que tudo voltou ao normal, na verdade, só piora. Zack e Drake estavam trocando socos e chutes quando cheguei no prédio com Max.
– Mas o que eles estão fazendo?! – Perguntou Max aparentemente preocupado.
– Não sei... – Disse. De longe encarei Drake e pude perceber algumas lágrimas descendo pelo seu rosto... Ele parecia tão desconcentrado, tão desorientado... Comecei a andar em sua direção assim que ouvi-o gritar.
– NUNCA MAIS FALE DELA!
Sua voz parecia dolorida... Ele com certeza estava abalado, mas... Quem seria “ela”? Lembrei-me da garota da foto. Apertei o passo e comecei a abrir caminho entre a multidão, Max fazia o mesmo vindo atrás de mim. Ele pedia para que eu esperasse, mas algo me dizia que não deveria esperar... Na verdade, uma força maior me fazia andar em direção a ele. Eu estava preocupada. Quando me aproximei mais, podendo enxerga-lo com clareza vi que suas roupas estavam horríveis. Sua camisa estava rasgada e sua bermuda também, ambos sujos. Senti meu peito doer ao ver os hematomas roxos e inchados nos braços, os cortes leves em sua bochecha e o sangue que escorria do lado direito se sua testa... Ele estava horrível. Olhei para Zack e percebi que ele estava melhor do que o Drake. Suas roupas e seu corpo estavam molhados, mas fora isso, e muitos poucos arranhões no rosto ou no corpo...
– Drake... Zack... — Sussurrei seus nomes. O que havia acontecido? Por que eles estavam brigando? Senti uma mão pousar em meu ombro, era o Max.
– Zack fez alguma coisa... — Comentou.
– O que ele poderia ter feito? — Perguntei. Por algum motivo meu peito doía ao ver aquela cena de Drake. Max balançou a cabeça de um lado a outro.
– Não faço a menor ideia... — Ele estava um pouco aflito vendo aquela cena, não a cena da luta e sim das pessoas ao redor. Em nenhum momento elas tentaram interferir naquela briga... Sim, eu sei que haviam poucas pessoas porque o resto cuidava dos feridos, mas mesmo assim, por que ninguém parava eles?!
– Onde está a Lauren?! — Perguntei a um dos garotos que estava ao meu lado.
– Ela saiu com o Ryan a algum tempo... Foi comprar alguns remédios. — Ele respondeu.
– Droga... Porque ela sumiu logo agora?! — Comecei a ficar nervosa... Drake era forte, mas estava em um estado horrível. Zack também era forte, mas seu psicológico não estava abalado, aparentemente...
Em certo momento Zack avançou com sua super velocidade para cima do Drake e acertou um soco em sua barriga e, antes que ele se inclinasse de dor, deu um gancho de esquerda em seu rosto. Drake caiu de costas no chão e se debruçou sobre sua barriga.
– Drake! — Gritei. Ele estava de olhos fechados, gemendo. Zack percebeu minha presença somente quando gritei. Ele me olhou e pediu desculpas silenciosamente, mas não poderia desculpa-lo assim... Não sem antes saber o motivo dele ter deixado o Drake assim!
Tentei avançar para frente para ajudar Drake a se levantar, mas no momento em que dei um passo senti meus pés ficarem gelados. Olhei para o chão e vi gelo. Ele se espalhava ao redor prendendo todos no chão impedindo seus movimentos.
– Mas que droga... — Max resmungou, ele esticou sua mão sobre o gelo e tentou destruí-lo, mas conseguiu somente uma pequena rachadura — Esse gelo é duro demais...
Encarei Drake se levantar devagar e Zack completamente imóvel. Algo me dizia para interferir naquilo... Mas quando pensei em fazer algo, Drake se pronunciou.
– Você sempre soube de como eu era... De como eu reagia a certas coisas... Mas mesmo assim você decidiu me provocar, e por cima, com a pior delas! — Ele fez uma pausa. Sua voz estava totalmente dolorida e magoada, Zack havia dito algo muito errado a Drake... — Você sabe o quanto eu sofri com aquilo e ainda assim você me provoca com o nome dela! Eu nunca confiei em você. — Ele disse. Nesse momento um alarme dentro de meu consciente foi ligado.
Chamas irromperam em minhas mãos e eu comecei a derreter o gelo de meus pés. Zack estava congelado até a cintura o que impedia seus movimentos. Drake simplesmente se aproximou e começou a dar vários socos no rosto, no peito e no abdômen dele, enquanto o moreno tentava se desvencilhar, contorcia-se de dor. Aprecei-me em derreter o gelo e, quando consegui, corri em direção a eles dois. Drake estava para dar um soco com seu punho coberto por uma bola de gelo, ele continha ainda lágrimas descendo pelo seu rosto e arfava continuamente. No momento em que ele levantou o braço para dar seu "último" golpe, segurei sua mão e ele me encarou.
– Já chega, Drake. — Falei séria. Ele me encarou confuso. Seus olhos continham um misto de sentimentos... Dor, angústia... Naquele momento até mesmo pareciam me agradecer por ter parado ele. Ouvi um suspiro de Zack, que agora já estava mais ferido. Deixei uma chama acender em minha mão a qual segurava a dele e comecei a derreter o gelo dela, em poucos segundos já sentia sua mão macia. Olhei em seus olhos e ele abaixou sua cabeça.
– Desculpe — Sussurrou.
O clima estava estranhamente tenso. As poucas pessoas ao redor olhavam apenas quietas, atentas, e minha presença fez com que as poucas vozes se calassem, fez, ao menos, que os rapazes tomassem consciência de suas ações...
Ele soltou minha mão da dele e caminhou com um pouco de dificuldade até o elevador e sumiu dentro dele quando as portas se fecharam. Suspirei. Olhei em volta e vi que todos ainda estavam com seus pés congelados, toquei o chão e imediatamente o gelo começou a derreter. Max foi o primeiro a se aproximar de mim, ele havia destruído o gelo de seus pés.
– Sofia, você está bem? — Perguntou preocupado.
– Sim... Estou bem... Eu só tenho uma dúvida — Disse encarando Zack que ainda estava preso. – Por que você provocou ele?
– Foram ordens da Lauren... — Ele disse surpreso por minha pergunta.
– Eu não acredito que ela mandaria você provoca-lo! Isso é um absurdo!
– Bom... Tecnicamente ela mandou que eu tirasse ele de lá e, o único jeito era provocando-o... — Respondeu. Todos já estavam livres do gelo, menos ele que continuava preso. As pessoas já começaram a voltar para seus respectivos deveres...
– Você está errado! — Falei irritada. Como ele pode ter feito o Drake sofrer tanto assim só com uma provocação?! Obviamente, sabia de algo sobre seu passado... algo que eu queria descobrir. Toquei o gelo ao redor de sua cintura fazendo-o derreter lentamente e comecei a andar em direção ao refeitório. Entrei nele sendo seguido pelo Max e peguei um grande kit médico. Caminhei até o elevador e, mas antes de entrar me voltei para o platinado.
– Quero que você fique aqui... Cuide dos machucados de Zack... Eu vou ver o Drake...
– Mas, Sofia... — Ele não queria aceitar que eu fosse sozinha até o Drake cuidar dele... Ou estava com ciúmes, ou tinha medo que ele me machucasse. Ou os dois.
– Não, Max, eu sou a parceira dele, preciso cuidar dele sozinha... — Falei. Ele me olhou preocupado e balançou a cabeça em uma afirmação.
– Tudo bem. — Se aproximou de mim e depositou um beijo em minha bochecha. — Se cuide.
Ele se virou e partiu em direção ao Zack que ainda estava sendo libertado de sua "prisão" de gelo. Entrei no elevador e apertei o número do andar de Drake.
Várias coisas passaram pela minha mente quando cheguei à porta de seu quarto... ou melhor, ao que sobrou da porta de seu quarto, ela estava totalmente destruída... pulei os destroços da porta e entrei no quarto dele cautelosamente... espantei-me ao ver o estado dele... assim como sua porta, quase tudo dentro estava destruído.
– Drake... — Chamei-o. Ele estava encostado na parede de frente para a porta abraçando suas pernas... Aquela cena era estranha vinda dele, mas levando em conta o que ele possa ter passado... Sim, levando em conta tudo o que ele passou, era a mais natural do mundo.
Alguns segundos depois de ter chamado, ouvi um leve resmungo.
– O que é? — Encarei-o de cabeça baixa... Senti pena dele pelo que estava passando... Desde a volta da missão de resgate ele estava ficando cada vez pior... Seu humor, seu semblante... Sua aura... Ele estava muito pra baixo.
– E... Eu vim aqui ver como você estava... — Respondi um pouco hesitante. Ele levantou sua cabeça o suficiente para que somente seus olhos pudessem ser vistos. Olhos cheios de dor, angústia, sofrimento e solidão...
– Agora que já viu vá embora. — Resmungou novamente. No mesmo instante me senti irritada com ele, apoiei minhas mãos em minha cintura e encarei aqueles olhos ainda erguidos.
– Olha aqui Drake! — Comecei — Você está parecendo uma criança de quatro anos de idade! Pare de reclamar, pare de ser tão idiota!! As pessoas ao seu redor estão preocupadas com você! Desde a missão de resgate você tem tratado todos com ignorância além da conta! — Eu estava me sentindo uma mãe por dar bronca nele, e quase ri por causa disso, mas, não podia perder o foco... Ou era isso... Ou ele só pioraria. — Você não consegue enxergar a preocupação dos outros?! Você não consegue enxergar a minha preocupação?! — Lentamente ele começou a se levantar. — Eu espero que você não esteja planejando me expulsar desses quarto. — Avisei ameaçadoramente. Uma chama se acendeu em minha mão livre. Por um segundo ele parou para repensar seus atos e, quando senti que ele não iria mais tentar me expulsar... O desgraçado simplesmente fugiu pela janela! Filho da mãe... — Você só pode estar brincando comigo... — Resmunguei.
Segurei firme os primeiros socorros e corri até a janela, pulando em seguida... Depois de tanta coisa que aconteceu comigo, havia aprendido a controlar melhor minhas chamas, então, sem muita dificuldade amorteci a queda com um pequeno "jato" de fogo. Olhei para o caminho que ele estava trilhando e comecei a correr atrás dele.
– Idiota, idiota, idiota... — Repetia várias vezes. Como ele pode ser tão retardado em pular daquela altura e correr para o meio da floresta?! Ele com certeza tem um parafuso a menos... Observei cada canto daquela trilha como cada poça de água... Pelo que me lembro, quando ele sai para esse lado da floresta a água "segue" ele, então, se eu visse uma poça apontar para a direita, ele estava para a direita e vice versa.
Após dez passos da terceira poça de água que vi, o som de uma leve corrente de água quase passou despercebida por mim. Olhei para frente e vi a pequena correnteza. É aqui, pensei. Da última vez que andei por esse caminho eu estava seguindo os rastros do Drake e acabei encontrando aquela casa na árvore...
– Espera... Ele está indo pra lá! — Comentei animada para mim mesma — Nossa, que óbvio... Como não percebeu isso, Sofia?- Briguei comigo mesma em seguida. Oh, mania de falar sozinha... Voltei a correr atrás dele e, agora que já havia percebido o óbvio, segui o caminho direto para a casa na árvore.
– É, ele esta aqui mesmo. — Eu estava parada em frente a casa na árvore observando-a congelar lentamente. — Por que você não deixa ninguém te ajudar, Drake? — Perguntei silenciosamente. Caminhei até a escada de corda, congelada, e subi até a casa rapidamente, já que se eu mantinha minha mão por muito tempo, doía. Quando entrei nela Drake estava na mesma posição que a do quarto... Esse garoto só me da problema.
– Drake. — Chamei-o. Ele não respondeu... Aah, vamos começar tudo de novo... — Drake. — Repeti. Sem resposta. Grr... que garoto, hein?! Andei até ele e sentei ao seu lado, ele estava frio, até demais... tipo, literalmente! — Drake, me ouça — Sussurrei.
– Me deixe em paz, Sparks... — Resmungou.
– Não vou. — Ele levantou seu rosto abatido e me encarou forçando um olhar ameaçador. Apenas o encarei com minha melhor cara de "vim para te ajudar/estou preocupada", o que pareceu funcionar! Suspirou de desistência e desabraçou as pernas.
– O que você quer, Sofia? — Indagou sem olhar para mim.
– Eu quero ver seus machucados. — Respondi. Ele me olhou, novamente, confuso. — Apenas me mostre onde está machucado! — Falei. Minhas bochechas ardiam um pouco...
Totalmente hesitante, ele estendeu seu braço e me mostrou os hematomas, comecei a limpar seu braço com um pouco de água que havia no kit e passei uma pomada. — Você está horrível!
– Eu sei disso, não precisa dizer o óbvio! – Bradou. Hesitei em enrolar seu braço com uma faixa e encarei seus olhos vidrados no nada.
– Por que você é assim comigo?
– Assim como?! — Perguntou em voz alta, totalmente ignorante. Ele se virou para mim e encarou-me com olhos cheios de raiva. Abaixei minha cabeça e suspirei.
– Desse jeito... — Sussurrei.
Ele pareceu surpreso com alguma coisa, pois quando o encarei novamente ele estava totalmente paralisado com sua boca entreaberta, como se fosse gritar, mas ficasse indeciso em seguida.
– Desde que cheguei aqui você tem me tratado assim, de forma grossa, seca e ignorante... E, mesmo que você aja assim comigo, eu ainda me preocupo... Você é meu parceiro, um... amigo... eu quero te ajudar, Drake, quero te tirar desse seu abismo... deixe-me te ajudar! — Eu havia, praticamente, implorado a ele. Seus olhos estavam confusos... parecia que ele estava entrando em um conflito psicológico, o que não era legal. Peguei seu braço e comecei a enfaixa-lo, dessa vez, sem hesitação. Drake também não havia impedido, ele apenas me olhava confuso. Passei para seu outro lado e comecei a fazer os curativos... ele havia apanhado muito... em certo momento ele deu um daqueles gritos "ai" de dor parecendo uma criança... aquilo me fez rir. Terminei de enfaixar seu outro braço e peguei um remédio para limpar seus cortes. — Vai arder um pouco... – avisei.
– Tudo bem... — Falou totalmente fora de si... ele estava viajando na maionese. Aproximei-me de seu rosto e ele me encarou... ficamos por alguns segundos cara a cara, talvez próximos de mais... afastei-me lentamente com as bochechas rosadas e comecei a passar o remédio em seus leves cortes. Ele fechou seus olhos com um pouco se força quando o algodão molhado tocou sua pele. Naquele momento eu estava tão concentrada em cuidar de seus ferimentos que não percebi quando simplesmente limpei a sujeira de seu rosto. Coloquei alguns curativos e suspirei de alívio.
– Ufa, terminei... — Encarei-o novamente esperando alguma reação, mas ele ainda — sim, ainda — estava em outro mundo. — Se você não acordar para a Terra eu vou ter que te bater. — Falei. Uma leve risada escapou de sua garganta, ele colocou sua mão sobre o curativo e sorriu levemente.
– Obrigado, Sofia... Por tudo... — ele disse. Ok. Isso não é normal, mas, cara, pela primeira vez ele me agradeceu realmente! Isso é incrível! Um sorriso alegre brotou em meus lábios.
– Não há de que, “Gelinho” — Brinquei. Novamente ele riu e ficou em silêncio, assim como eu. Passaram-se minutos e minutos até que, por ventura do destino, minha falta de paciência para o silêncio estourou. Estava curiosa demais com algumas coisas e precisava, com toda a certeza, descobri-las. — Drake...
– Hum? — Ele me encarou.
– Por que você e o Zack estavam brigando? — "Por favor, não me dê um gelo novamente" implorei mentalmente. Ele pareceu me analisar por alguns segundos até que, enfim, falou.
– Ele... bom, ele me provocou com coisas do meu passado... Coisas que me destruíram completamente... — Ele encostou sua cabeça na parede de madeira e olhou para o teto velho marrom claro. — De alguma forma ele conhece muito sobre meu passado sendo que ninguém sabe nada sobre ele.
– Nem o Peter?
– Tudo o que ele sabe é somente o básico... Meus pais morreram, meu irmão também, ganhei meus poderes... Só isso. — Para tudo. Drake acabou de me falar de seu passado?! Mas... Não, isso não pode ser verdade... Ele está escondendo alguma coisa, “ela” ainda não havia sido dita...
– Porque você não me conta a verdade? — Perguntei impulsionada pela curiosidade.
– Sofia... — Ele me olhou novamente. Seus olhos cor de mel por simples segundos me hipnotizaram... ele estava pensativo demais. Entre abriu sua boca para pronunciar algo, por um momento achei que ele falaria, mas... — Não é de sua conta.
Dessa vez, só dessa vez, ele falou de forma totalmente calma, clara e, até mesmo, fofa. Incrível né?! Ser rude e conseguir ser também: calmo, claro e fofo... Putz, fofo, véi?! Soltei uma leve risada e ele me olhou com uma sobrancelha levantada.
– Sabia que iria dizer isso... — Ele riu pela terceira vez... sim, meu povo! Ele riu três vezes em alguns minutos! Ficamos em silêncio novamente até que ele se levantasse.
– Está ficando tarde... É melhor irmos — Disse estendendo sua mão. Peguei-a e ele me puxou para cima. — Obrigado por tudo...
Okay, isto é um recorde... Três "obrigado" em uma noite... Isso é realmente incrível!! Sorri e descemos da casa. Ele me ajudou a descer a escada e voltamos para o prédio em um silêncio confortável.
Em um dia muita coisa ocorreu... Primeiro o encontro com Max, a revelação do seu passado... Drake e Zack brigaram... Drake bateu seu recorde de agradecimentos, sorrisos e risadas... E parte de seu passado me foi revelado. Ainda haviam coisas que precisava saber, mas para um único dia... aquilo já bastava.
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