Elemento da Liberdade
1 Capítulo 1 - Um Copo D'água
Patrick está sentado em sua sala olhando o relógio e contando as horas para ir embora. O barulho incessante do seu ar-condicionado está lhe dando mais sono, fazendo com que se lembre de sua confortável casa. Após dar um jeito em sua quase infinita papelada, Patrick se levanta ,caminha até a imensa janela no canto esquerdo de sua sala e observa o grande império que sua família ajudou a construir. Um sorriso brota em seu rosto ao lembrar-se que um dia tudo isso poderá ser seu. Seus pensamentos são interrompidos por uma batida na porta.
—Patrick... — diz uma voz baixa atrás dele.
—Sim?
Patrick se vira e dá de cara com sua secretária pouco inexpressiva e misteriosa, Vitória. A jovem de estatura média e pele branca estava carregando uma pilha de papéis maior que ela mesma. Ela caminha até a mesa de Patrick e larga sem o mínimo cuidado, fazendo um barulho alto e irritante.
—Mais papéis? Eu acabei de terminar uma pilha!
Vitória, que não é uma pessoa de muitas palavras, simplesmente levantou as sobrancelhas e deu de ombros.
—Vitória, dê uma explicação! — diz Patrick sem paciência.
—Seu pai mandou te entregar. Mas cê tá brava?
—Peste. Pode sair. Ah, e busca um café.
Vitória concorda com a cabeça e sai da sala. “Maldita” pensa Patrick.
Vitória é uma pessoa difícil. Uma personalidade forte, poucas palavras e, palavras estas que sempre estão relacionadas a algum tipo de deboche ou ironia. Patrick a conheceu na faculdade e ofereceu uma vaga de assistente para quando tomasse posse de seu cargo. Vitória, apesar de seu árduo temperamento, é uma boa pessoa. Sempre está disposta a ajudar quem ela ama. Pouco se sabe sobre sua vida, já que são raras situações de desabafo. O pouco que ela revela é o bastante para entender seu comportamento diferente: crises familiares e crises existenciais. Sua amizade com Patrick mantém seus pés no chão e lhe dá forças para continuar.
Vitória volta com dois cafés, quase os derrubando.
—Eu pedi só um. —diz Patrick risonho.
—Babaca, não é só você que está trabalhando. —responde Vitória sem pensar.
—Olha ela, sempre com uma resposta na ponta da língua. Quero ver quando eu cortar sua língua fora.
—Ah, foda-se. —diz Vitória rindo.
—Se eu cortar, seu sucesso nessa empresa acaba.
—QUE? Nunca nem vi... — responde Vitória olhando para os lados.
—Ah ta. Semana passada no corredor, você e aquela moça da limpeza, lá no segundo andar. Nem pra ir no armário de vassouras,miga? Tive que ir ao banheiro sem fazer um barulho pra não assustar vocês.
—Eu não sei do que você está falando, cara. Eu tô aqui única e exclusivamente pelo meu esforço.
—Ah, claro... Foi uma das suas quinze irmãs gêmeas que eu vi, né? — diz Patrick caindo na gargalhada.
Vitória segura o riso e revira os olhos para Patrick. Recolhe as canecas e quando está prestes a sair, Patrick lhe faz um convite:
—Amiga, sério, vamos fazer alguma coisa esse fim de semana. Assistir um filme, sei lá. Tu levas uma girl, eu levo um boy, o que acha?
—Yep. Vou ver se escapo de casa pra ir. Te aviso por mensagem.
—Ótimo... Ah, amiga. Fica aqui comigo pra me ajudar a resolver essa papelada?— pede Patrick fazendo biquinho.
—Eu adoraria ajudar, mas tenho algo importante pra resolver no segundo andar... — diz Vitória com um sorriso malicioso.
—Vagabunda!
Patrick joga uma bolinha de papel em Vitória, que sai gargalhando da sala. Ao olhar para a pilha de papel sobre sua mesa, Patrick vê as horas se tornarem anos. São inúmeros papéis sobre os programas que serão exibidos na TV. Patrick é o herdeiro da liderança do entretenimento da sociedade. O Sistema precisa controlar bem o que é transmitido pela mídia e tudo isso passa pelas mãos de Patrick. Seu pai está de férias e deixou o filho para ver como irá se sair no seu futuro emprego. Patrick é empenhado e um bom líder, porém um pouco autoritário. Todos os projetos de entretenimento são aprovados por ele, sempre tomando cuidado para tomar as decisões corretas, analisando de acordo com o Manual do Sistema para o Entretenimento.
Após ficar horas sentado observando e lendo cada coisinha, finalmente chegou a hora de ir embora. Patrick passou no setor de entregas e falou com Emanuelle, a menina bonita de fartos seios que faz as entregas. Ela entregou todas as cartas para Patrick, apesar de parecer meio distraída. Patrick pegou as correspondências e seguiu para seu carro conversível. Checou seu celular para saber se Vitória iria querer carona, mas Vitória ainda está ocupada resolvendo assuntos importantes no segundo andar. Ligou o carro e partiu para casa.
Patrick não morava muito longe de sua empresa. Chegou em casa, se jogou no sofá e fechou os olhos. Começou a refletir sobre sua vida. “Vivendo ou existindo? Minha vida não passa de ir para o trabalho, ler e dormir. Sinto-me como uma formiga. Não é possível que a vida seja só isso. Tem que ter algo mais, tem que haver um propósito.” Pensou. Pegou sua correspondência em sua bolsa de grife e começou a olhar. Contas, cartas de admirador secreto, mais contas, panfletos de pizzarias, farmácias e até kit-gás. Havia também um último panfleto, que parece que foi feito a mão. Patrick olhou com certa estranheza e decidiu analisar melhor. Era um panfleto branco com desenhos em sua volta e com um convite para uma exposição de arte no dia seguinte. Exposições de arte geralmente eram proibidas, as permitidas sempre deviam passar pelas mãos de Patrick, que ao terminar de ler não conseguia lembrar-se de ter aprovado nada, o que o deixa mais curioso para visitar. Teria que prender o autor de um jeito ou de outro, mas sem uma abordagem violenta.
Patrick pega o celular e manda a seguinte mensagem para Vitória: “Amiga, então, planos alterados. Sem boys e girls pra amanhã, só eu e você numa exposição de arte.” Espera por uma resposta que não chega, então deduz que Vitória ainda esteja ocupada na empresa.
Do outro lado da cidade, em uma garagem escura e relativamente grande, localizada ao lado de dois galpões, está uma artista plástica de aparência excêntrica organizando o local. Com cabelos coloridos de maneira peculiar e roupas um tanto largadas, a jovem está muito entusiasmada com a estreia de sua nova exposição, chamada “O Elemento da Liberdade”. Após ser presa um total de sete vezes, Dandara desta vez está mais cheia de ódio do Sistema do que nunca. Suas exposições nunca são aprovadas e sempre são descobertas, o que sempre acaba envolvendo tiroteios e algemas. Desta vez convidou apenas pessoas de sua confiança, que propagarão sua mensagem por aí. A exposição fala sobre a sensação de falsa liberdade e só a conscientização da sociedade pode mudar isto.
—Amiga. São 23h40. Se ficar fazendo essa barulhada toda vai ser descoberta antes mesmo da exposição acontecer. —diz Julia.
—Eu sei, mana. Só mais uns detalhes e eu já acabo.
—Não, Danda. Amanhã Manu aparece aqui cedo e a gente te ajuda a terminar. E ainda tem o Raoni pra dar um help também. Relaxa, vamos dormir.
—Ok... Cara, nem acredito que já é amanhã! Passei um ano inteirinho pintando e finalizando isso tudo, mal posso esperar!
Apesar de Julia não estar botando muita fé no sucesso dessa exposição, após tantos fracassos, está feliz por ver Dandara feliz. As duas seguem para o quarto de Danda, onde ficam batendo papo até caírem no sono.
Finalmente o grande dia chegou. Emanuelle e Julia estão bem vestidas para a ocasião, enquanto Dandara está com sua típica calça rasgada, havaianas e blusa preta. Os convidados vão chegando e admirando as obras de arte. Raoni, o irmão de Dandara passa servindo lanches e bebidas. Tudo estava indo bem. Dandara faz diversos discursos revolucionários e promove muitos debates no início. Depois de um tempo, um carro lindo estaciona na frente da garagem. Danda estranha a presença do carro e chama suas amigas para darem uma olhada. Emanuelle na mesma hora congela, fazendo com que Dandara e Julia suspeitem de algo. Por um tempo, ninguém saía do carro, o que só piorava o nervosismo e a dor de estômago de Dandara.
—Amiga, calma. Vai dar tudo certo, às vezes é só alguém perdido. — diz Julia.
Até mesmo Julia estava preocupada. Ainda mais após a reação de Manu. Será que ela sempre foi a traidora das exposições?
As figuras finalmente saíram do carro. Era ninguém menos que o homem mais poderoso do meio do entretenimento... com uma figurante ao lado. Dandara engole em seco ver Patrick e sente seu coração falhar algumas batidas. Emanuelle bota a mão sobre a testa lembrando-se do momento em que deu as correspondências para Patrick. Todos no local começaram a se entreolhar na tentativa de identificar o traidor.
—Fui eu. — diz Emanuelle— Eu entreguei sem querer o panfleto para ele ontem no trabal...
Manu não pôde terminar sua fala, pois Dandara avançou sobre a garota. Com as mãos sobre o pescoço de Manu, Dandara gritava xingamentos diversos. Uma parte do público conseguiu tirar Dandara de cima de Manu, que estava com o medo estampado no rosto. Julia estava no canto filmando tudo e parou quando Patrick adentrou no recinto e atraiu todos os olhares pra si. Dandara baixou a cabeça e suspirou.
Patrick, com suas roupas de marca e olhar intimidador encara todas as pessoas ali presentes. Todos estão fazendo absoluto silêncio diante daquele superior. Patrick observou cada uma das pinturas. Cada pintura ia contra tudo o que ele sempre acreditou, mas isso não era algo ruim. Muito pelo contrário. Patrick teve um choque de realidade ao observar aquelas pinturas. O ponto de vista de uma pessoa totalmente diferente dele. Patrick gostou muito das pinturas, mas não podia demonstrar, já que nunca poderia aprovar tudo aquilo. Estava muito confuso, intrigado e precisava pensar. Começou a fotografar com seu celular cada uma delas. Após admirar a última pintura da exposição, Patrick se virou. Todos estavam apavorados com o que poderia acontecer e não tiravam os olhos de Patrick uma vez sequer.
—Quem é a responsável por isto? Quem é Dandara?
Ninguém disse uma palavra. Não queriam entregar a dona da exposição.
—Eu não quero ter que perguntar duas vezes.
Dandara respira fundo e caminha até Patrick. Ele representava para ela todo o tipo de tirania autoritária que censura e tira liberdades. Estava queimando por dentro, mas isso logo foi quebrado a partir do momento em que Patrick estende a mão para cumprimentá-la.
—Parabéns por isso. —diz Patrick muito sério.
Dandara olha ao redor com um semblante confuso, provocando riso em algumas pessoas.
—Desculpa... Mas o senhor tá bem? Quer uma água? — pergunta Dandara cumprimentando o homem sem acreditar
—Estou bem, mas aceito uma água,sim. —diz Patrick muito tranquilo— Vitória! Entre!
Então uma garota misteriosa entra de cabeça baixa na garagem. Dandara olha aquele rosto de pessoa complicada e cheia de problemas e instantaneamente sente seu coração acelerar e esquentar. A garota caminha até Patrick, que com um sorriso apresenta as duas.
—Dandara, essa é a Vitória, minha assistente. Vitória, essa é a dona da exposição, a Dandara.
As duas se cumprimentam meio tímidas, Dandara não para um minuto de olhar apaixonadamente para Vitória, que não demonstra muito interesse, mas por dentro estava muito interessada.
—Vitória, dá uma olhada aí na exposição e nas obras. Dandara, me dê um pouco d’água, por favor, não quero ter que pedir mais uma vez.
—Claro.
Dandara vai até Julia e as duas ficam gritando uma para a outra de felicidade. Não estavam acreditando naquilo.
—Raoni! Traz um copo d’água para ele aqui! — diz Dandara.
Raoni,um pouco atrapalhado, traz água para Patrick, que nota algo de diferente no comportamento de Raoni. Patrick fica surpreso com a capacidade de Raoni fazer as coisas e olha para Dandara imediatamente, que na mesma hora lembra que crianças autistas não são permitidas pelo Sistema. Dandara corre até Raoni e o abraça. Em seguida olha séria para Patrick, que devolve o semblante sério na mesma hora. Dandara tenta argumentar, mas Patrick apenas vai embora e arrasta Vitória pelo braço com ele. Dandara corre até o carro.
—Patrick! — grita Dandara na calçada.
—Amanhã eu volto aqui e vamos conversar. Adeus. —responde Patrick de maneira fria.
Patrick e Vitória partiram, Dandara está parada na rua olhando o carro tomar distância.
Notas finais
Respostas nos próximos capítulos!
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