Elementais
2 Capítulo 2
Enquanto comiam, o único ruído que podia ser escutado era o barulho dos talheres nos pratos e das taças na mesa. O rei estava sentado na ponta, com uma cara emburrada como de costume. Os cabelos grisalhos e a barba de um castanho escuro, os mesmos olhos verdes que Senera – a única semelhança que partilhavam. A rainha, sentada na outra ponta, tinha os cabelos negros, assim como seus olhos. Baeth comia sem dar importância a tensão a qual seu pai transmitia. Sempre fora assim, não havia motivo para se importar. Há tempos sabem que o reino passa por problemas bélicos. Porém, o rei nada falava sobre isso. Apenas sentava-se para jantar, com uma cara fechada e irritada, como se mil problemas procurassem respostas em sua mente. Sua mãe estava sempre calma, como se tudo estivesse normal. Ela sempre fora assim, quieta. Talvez fosse dela que Senera puxasse a incompatibilidade com o próprio elemento – ser tão diferente e tão igual a terra.
Aquela família, de apenas quatro pessoas, mostrava quanto um elemento pode variar entre os Elementais. Senera era inquieta, impulsiva, dominadora. Lutava pelo que queria, mas ao mesmo tempo não se importava com coisas pelo qual deveria. A rainha, sendo do mesmo elemento, era calma. Era graciosa como uma flor, obedecia quaisquer ordem que lhe fosse dada. Enquanto as mulheres eram Elementais de terra, os homens eram escuridão. O rei era irritado, severo. Porém, muitas vezes podia ser frio como uma noite de inverno. Baeth era quieto, mas conseguia ser alegre. Era atencioso e um bom irmão.
Enquanto pensava em todos os assuntos sobre os Elementais, ramos cresciam nos espaços entre seus dedos, nos buracos da mesa de madeira. Envolviam seus dedos, mesmo pequenos, sem ela notar. Isso acontecia quando pensava muito e ficava distante, deixando seu poder fluir entre seus dedos. Baeth, sentado a sua frente, segurou sua mão, dispersando-a dos pensamentos.
–Senera. – Disse o rei. Ela virou-se, encarando aquele rosto cansado que a olhava friamente. – Se não pretende continuar comendo, retire-se da mesa, ao invés de envolver seus talheres com plantas. – Ela se levantou da mesa, fazendo uma pequena reverência. Deixou o salão sem olhar para o rosto de ninguém. Chegando a seu quarto, atirou-se na cama. Estava cansada, tanto fisicamente quanto mentalmente. Lembrou então de mais um pesadelo pelo qual deveria se preocupar no momento – o dragão. O ovo permanecia igual. Ao menos, para ela. Estava tão exausta que não percebera a inclinação deste para o lado, como se estivesse para cair. Não percebeu quando caiu no sono, muito menos quando o ovo se chocou contra o chão.
Acordou sentindo algo entre seus braços. Já era de manhã, e a primeira visão que teve foi o pedestal vazio, com a palha espalhada. Sentou-se rapidamente, assustada, procurando pela criatura. Antes que pudesse levantar da cama, um dragão negro, deitado ao seu lado, subiu em seu colo e aconchegou-se, voltando a dormir. “Um dragão negro”- pensou — “dragões de ar são alaranjados”. A criatura era pequena, metade do tamanho do ovo. Se fosse levantada, caberia perfeitamente em suas mãos. As escamas eram pontiagudas, com uma trilha espetada seguindo sua coluna, da cabeça ao curto rabo. Seus olhos eram laranjas, com um risco preto em cada. Haviam pequenos chifres brotando de sua cabeça.
O dragão não pareceu se importar quando Senera o colocou entre os braços. Abriu a porta, e andou rapidamente até o quarto de Baeth, que ainda dormia. Ao ouvir o estrondo da porta, ele despertou com um susto. Olhou para Sera, que estava assustada, e desceu os olhos até encontrar a pequena criatura que dormia em seus braços, tão pequena quanto um gato. Ele levantou apressadamente, e pegou-a.
–O que... –Ele começou. – Isso, não é, não pode se- Antes que pudesse continuar, a criatura acordou, e pulou de seus braços. Tentara voar, mas tudo que conseguira fora atrasar seu encontro ao chão. Corria desengonçadamente, procurando por Senera, mas sendo encurralado em um dos cantos do quarto. Sem saída – e tão assustado quanto qualquer filhote poderia estar – ele abriu a boca e soltou uma rajada de ar, derrubando Baeth, que continuou sentado no chão. – Bem, ao menos sabemos que esse é o seu dragão de ar. –Ele se levantou. — Um dragão Negro.
– Isso é possível? Nenhum dragão de ar que eu já tenha visto se assemelha a isso. – Senera já havia tomado a criatura de volta a seus braços.
–Tudo é possível quando se trata dessas criaturinhas, Sera. Isso acontece, as vezes, mas todos os registros deixam claro não ser algo especial. De qualquer forma, escolha um nome.
– Ewalene. –A criatura parecia ter aprovado o nome, subindo para o ombro da garota.
–Então você já havia notado que era uma fêmea?
Senera estranhou. Ela não sabia.
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