Electus
13 Capítulo 12
Notas iniciais
Capítulo 13
— Valkyon, pode me ajudar um pouco? — Ykhar falou, acenando da cozinha. Tirando-me do devaneio de observar a lua.
Vê-la cozinhar não era a coisa mais absurda que acontecia naquele dia. Miiko e Nevra estavam surtando na sala depois de serem atualizados da nossa situação e como iam as coisas em Eldarya. Lysandre estava cumprindo com a sua palavra sobre nos abrigar, assim cada um de nós tinha uma cama confortável para dormir hoje.
O problema era que eu ficaria no mesmo quarto que Nevra, já até previa o vampiro fazendo monólogos de planos mirabolantes de resgatar Olimpya e se fazer de Príncipe Encantado. Era engraçada a fixação dele pela nossa amiga, já que ele não tinha reais intenções de paquerá-la. Ezarel, Ykhar e eu sabíamos quem realmente morava no coração endurecido dele. Então, chutávamos que ele fazia isso para arrancar um pouco de ciúmes da pessoa que desejava.
Miiko.
Que por sinal se via caída de amores por Leiftan. Soltei um suspiro, encostando-me no balcão. Adorava o fato de não ter uma vida amorosa, as que presenciei eram confusas demais para desejar uma.
— O que foi? — a brownie pediu, franzindo o cenho.
— Apenas agradecendo mentalmente por não estar enrolado com alguém – comentei em voz baixa, indicando os dois na sala com a cabeça.
Inesperadamente as bochechas dela se tornaram rubras, deixando-me confuso.
— Agradecendo? Que interessante – ela deu uma risada um tanto aguda e passou a mexer na massa que tinha a sua frente.
Puxei a massa de suas mãos, começando a enrolá-las como Olimpya havia me ensinado. Como era o nome do prato mesmo?
— Sim, – continuei conversando, mesmo que ela não tivesse feito uma pergunta de verdade – nem quero imaginar como é estar apaixonado por alguém que nem lhe nota. Deve ser terrível. Por isso, fico feliz de não estar envolvido em algo assim.
Ykhar parecia pronta para me dar um sermão quando Kentin adentrou no recinto, trazendo um masso de plantas na mão.
— Chega pra lá – ele falou, sorrindo e ocupou o outro lado de Ykhar.
— O que é isso? — ela pediu, curiosa.
Quase estranhei a sua súbita mudança de atenção, mas de fato nunca havíamos visto aquela panta. Estiquei meu pescoço por cima da cabeça dela, querendo saber o que era também.
— Cheiro verde – o humano respondeu, começando a picar o item – é um ótimo tempero. Vai ficar uma delícia com a nossa panqueca não-tão-panqueca.
Ergui minha sobrancelha, intrigado. O nome do alimento não era apenas panqueca?
— Isso definitivamente não é uma panqueca – Lysandre surgiu na cozinha, rindo de leve da nossa massa.
Olhei para o que Ykhar e eu fazíamos e constatei que os rolos de massa que pretendíamos fazer pareciam um emaranhado disforme.
— Certo. Meu ponto forte não é cozinhar – admiti, fazendo uma careta.
Kentin riu e continuou cortando o Cheiro Verde. Lysandre aproximou-se de nós do outro lado da mesa e puxou um pouco da nossa tragédia pra ele.
— Kentin me alcança o leite, por favor – ele pediu, jogando a massa numa tigela.
Ele então jogou leite por cima da massa e passou a mexê-la com uma colher, deixando-a com uma consistência mais fina. Enquanto isso, Kentin ligou um aparelho que produzia fogo e colocou uma forma de metal em cima do calor.
— Vocês precisam formar as rodelas de massa no fogo primeiro, mas com uma textura fina ou pode ficar pesada demais para comer – o dono da fazenda foi explicando enquanto derramava a massa na forma redonda de metal.
— E vocês precisam fazer o recheio para colocar no meio da panqueca – Kentin indicou a rodela de massa, agora levemente dourada e firme que Lysandre despejava numa travessa.
Ykhar praticamente sugava as informações que os dois forneciam durante o preparo, rindo as vezes das piadas de Kentin. Analisando de fora, ela até parecia a vontade com eles. De todos nós, ela e Kero eram os que se davam melhor com os novatos no QG.
E passada a primeira impressão que tive de Lysandre, percebia-se que ele era uma boa pessoa. Tinha uma calma em lidar com os demais, de vez em quando fazia pequenas piadas, ascendendo sua personalidade. Todavia, ainda sentia uma pequena inquietação sobre seu respeito, como se houvesse algo forte se escondendo atrás daqueles olhos díspares.
A sensação de conhecimento me veio cada vez mais forte, igual ao que senti quando olhei o retrato em cima da lareira. Como poderia tê-los visto antes se jamais deixei Eldarya? Acredito que eu realmente precisava era de um bom sono para descansar minha mente do turbilhão de coisas que aconteceram.
— Está pronto! — Ykhar exclamou, animada.
Deixei meus pensamentos de lado e fui chamar os demais da sala para jantar.
(…)
Haviam quatro quartos no total, mas um deles era permanentemente impossibilitado de ser ocupado, o antigo quarto dos pais de Lysandre. Assim, ficamos com dois para dividirmos o pessoal. Miiko e Ykhar ficaram com um e Ezarel reivindicou um só para ele. Assim, Nevra e eu fomos para o porão da casa.
Apesar de ser um porão, o local parecia uma pequena casa. Tinha duas camas – depois de remover a cama extra do então quarto de Ezarel para baixo – uma mesa e vários armários. Era perfeito para o vampiro, afinal não existiam meios da luz solar humana entrar no recinto.
— Eu fico com a cama do canto – Nevra falou, dirigindo-se para o lado mais fundo do local, abaixo da escada que dava acesso ao porão.
Dei de ombros e me dirigi para a que trouxemos e instalamos do lado da mesa, no canto oposto de onde a escada terminava. Tinha acabado de me acomodar, quando ouvi Nevra se remexendo em seu lugar.
— O que é? — pedi, suspirando, sabendo que o outro queria conversar.
— O que você acha de tudo isso?
Eu sabia que ele se referia ao plano de Leiftan e de como ele estava protegendo todos sozinho.
— É típico dele tomar a responsabilidade e as dores – respondi.
Lembro-me de quando cheguei ao QG e enfrentei o preconceito dos demais sobre a minha raça desconhecida, Leiftan ficou ao meu lado e suportou a chacota dos demais membros. Ele era o elo que ligava todos em harmonia, a pessoa sensata que todos podiam contar com ajuda, seja ela com uma conversa ou uma tarefa mais perigosa além dos muros do QG.
— Se eu tivesse a mesma oportunidade que ele, de salvar todos, eu faria. Mesmo que o preço fosse vestir-se como vilão – continuei, expondo meus pensamentos – E convenhamos que o nosso ódio tinha de ser real ou o inimigo desconfiaria da traição dele.
Nevra suspirou.
— Confesso que estou aliviado. Não queria pensar que um amigo nosso tivesse nos esfaqueado pelas costas.
— Mesmo que isso diminua suas chances com a Miiko? — cutuquei, incapaz de me segurar.
Sentia a necessidade de fazer brincadeiras, em parte para me vingar das dele e também para minguar o clima que se estabeleceu.
— Não sei do que está falando, seu velho – ele resmungou, usando o velho apelido por conta da tonalidade do meu cabelo.
— Sabe muito bem, não se faça de bobo – respondi, rindo – apesar de que seria um golpe baixo se aproveitar de um coração partido.
Ouvi um leve rosnado e então um travesseiro estatelou-se na minha cara.
— Ouch – resmunguei.
— Experimente cuidar da sua vida amorosa e não da minha. Ykhar não vai ficar à disposição para sempre.
Franzi o cenho e arremessei o travesseiro de volta.
— Eu não tenho vida amorosa.
— Apenas por que é um parvo e não consegue enxergar o que está debaixo do seu nariz – Nevra zombou.
Inesperadamente a conversa que tive com a brownie me veio a mente. O modo como havia ficado estranha diante meu alívio em não estar apaixonado por alguém me incomodou de um jeito inusitado.
— Explique – praticamente grunhi.
— Ykhar suspira por você a muito tempo, Valkyon. Apenas você que não percebe – ele comentou, assustando-me – e ultimamente ela tem se afastado por conta da Olimpya, já que vocês ficaram bem amigos.
Minhas sobrancelhas se ergueram até a raiz dos cabelos em choque. Por essa eu jamais esperava.
— O que sinto pela Olimpya é algo fraterno. Como irmãos e não como… namorados.
Nevra riu.
— Eu sei. Quase todos sabem. Caso contrário Ezarel já estaria no seu pé a muito tempo se não soubesse disso.
Meu cérebro já em choque ficou ainda mais bagunçado.
— Que?!
Nevra apareceu do meu lado, sentando-se na minha cama sem ser convidado.
— Eis aqui a relação amorosa dos nossos amados membros da Guarda de Eel! — comentou como um narrador de histórias – Ykhar gosta de você. Ezarel gosta da Olimpya. O pobre Chrome tem uma profunda queda pela minha irmã. Você é um alienado. Olimpya está fugindo de relações amorosas. E sim, eu estou encantado pela Miiko. Mas, ela só tem olhos pro Leiftan.
Minha boca se escancarou que foi um espanto ela não ter ido ao chão.
— Isso é uma merda monstruosa – falei, espantado.
Nevra riu e me deu tapinhas no ombro.
— Então amigão, aproveite que a Ykhar não está enrolada como no meu caso e mexa-se.
Com essa frase, o vampiro voltou para sua cama e me deixou rolando em pensamentos cada vez mais caóticos que possivelmente me tirariam o sono.
(…)
Lembre-se.
Sentia meu corpo leve, flutuando. E ao meu redor várias imagens me circulavam, mostrando trechos de uma criança de cabelo platinado e olhos dourados. Minha infância.
Lembre-se.
Esse sussurro era igual ao de quando tomei a poção para recuperar as memórias. A sensação de ser jogado em lembranças era igual. Mas, por quê isso agora?
Lembre-se.
A parte consciente da minha mente me deu a resposta. O pedaço da minha vida que havia sido apagado a muito tempo estava retornando por conta da poção. O meu passado, a minha infância.
Eu quero me lembrar. Pensei, abrindo os braços para as imagens.
(…)
No fundo eu sabia que era uma viagem aos meus mais profundos pensamentos e que eu estava dormindo no momento, mas ainda era impressionante como me sentia verdadeiramente ali naquele local. A minha frente havia uma cidade bem estruturada, seus prédios organizados em torno de uma grande praça e ao centro dela erguia-se um estonteante palácio. Não parecia com nenhum lugar que visitei em Eldarya, entretanto ao em mim sabia que essa cidade pertencia ao nosso mundo.
— Chama-se Dragen – uma voz feminina e cadenciada soou atrás de mim.
Virei-me, surpreso. A dona da voz era da minha altura, os cabelos platinados estavam na altura da cintura, vestia um longo vestido de cor verde. Porém, seu rosto era indefinido. Havia uma névoa que me impedia de enxergar seus traços. E estranhamente eu me sentia a vontade com a misteriosa figura.
— Quem é você? — pedi.
A figura se aproximou, ficando ao meu lado.
— Sua guia. Pode me chamar de M.
Assenti e voltei a observar a cidade.
— Onde estou? — perguntei apenas para confirmar o que imaginava.
— São suas lembranças de vinte e dois anos atrás. Elas foram tomadas de você por um trauma, mas agora estão retornando pouco a pouco a ti – M me ofereceu sua mão – pronto para recebê-las?
Tomando uma longa respiração, enlacei minha mão na sua.
— Sim.
M me levou pelas ruas de Dragen, com havia me esclarecido, mostrando os locais que pouco a pouco foram sendo refrescados em minha mente. A loja de doces que eu adorava visitar, o hospital que sempre queria evitar e a praça onde tinha minhas aulas introdutórias.
Ao longe via-se uma pequena roda de crianças sentadas na grama, observando um senhor contar histórias. Meus olhos caíram na pequena figura mais a margem da roda, tímido. Um Valkyon pequeno com três anos de idade.
“Toda Eldarya sabe que os Dragões se sacrificaram naquele fatídico dia em prol da criação deste mundo. Mas, o que poucos sabem é que eles não se foram para sempre, e que ainda existem descendentes deles aqui, os poderosos Drarosh!”
Franzi o cenho, prestando atenção ao que o senhor dizia.
“O que aconteceu com os Dragões, senhor?” Uma garotinha perguntou, erguendo a mão gordinha.
O homem ajeitou o capuz da veste, mostrando um pouco melhor o terceiro olho tatuado em sua testa.
— Ele é um sacerdote – M explicou, indicando a tatuagem – este é o sinal de sua ocupação, a arte de ensinar e prever o futuro. Porém, são poucos que tem o dom da vidência. Este senhor era o único vivo naquela época que podia fazer isso.
“Aqueles ferozes guerreiros doaram sua forma de dragão naquele feitiço, perdendo a essência de se transformar naquele ser poderoso e brutal, sendo confinados a sua forma comum. Infelizmente muitos não conseguiram suportar esse corte e faleceram, mas alguns resistiram e fundaram o nosso povo, como foi o caso do Segundo Príncipe, Orsh.”
Meu coração se acelerou com a resposta, algo em meu ser rugiu que era a mais pura verdade. Que a história contada no QG e por toda Eldarya era apenas uma parte do que realmente havia acontecido.
— Como pôde perceber, ainda existiam descendentes dos Dragões em Eldarya, escondidos nessa vila. E você, Valkyon, é um membro desse povo.
Pouco a pouco a peças foram se encaixando em minha mente, como se pedaços estivessem voltando ao seu lugar de origem. A verdade por trás da minha raça, sobre quem eu era. Isso explicava o porquê não conseguíamos encontrar a origem de quem eu era, afinal, eles não sabiam sobre os Drarosh.
Sem querer, acabei apertando a mão de M. Ela apenas segurou mais forte, apoiando-me.
“E o Primeiro Príncipe, Olim Coração Valente?”
Inclinei a cabeça de lado, notando que a menção do nome me fez uma coceira, como se fosse algo importante. Porém, deixei de lado por enquanto e procurei quem havia falado. Praticamente engasguei quando vi quem havia feito a pergunta ao sacerdote. Pisquei com força para ter certeza de que não era alucinação, e quando olhei novamente a figura ainda era a mesma. O cabelo loiro com mechas pretas e os olhos verdes vivazes.
Leiftan.
— O que? — pedi, confuso.
M soltou um riso harmonioso, acalmando-me.
— Aquele menino, Leiftan, também é do mesmo povo que o seu. Na verdade, vocês são bem próximos – havia um leve humor em seu tom voz.
— Como assim?
De fato, Leiftan estava próximo de mim. O meu pequeno eu o olhava com admiração.
— Ele é seu primo – ela respondeu.
Apesar do choque da verdade, meu coração se aqueceu em familiaridade. Demonstrando que o afeto que sentia por Leiftan era verdadeiro e que havia algo que nos ligava. O fato de ele me proteger no QG me veio naquele momento.
— Ele se lembra? — pedi.
M suspirou.
— Sim, ele lembra. Mas, acredito que essa conversa deve ser feita entre vocês dois futuramente.
Assenti e voltei a me concentrar na cena que ocorria.
“Ele ficou no mundo humano para proteger sua amada e para que o mal não viesse para Eldarya, Leiftan” o sacerdote respondeu, piscando o olho.
Ouve um suspiro coletivo das meninas.
“Por conta da traição dos Demônios naquela época, nosso povo precisou se esconder. Pois, o Rei deles queria o poder dos Dragões para si, planejando tomá-lo enquanto nos recuperávamos do feitiço. É por isso que nossos guerreiros criaram esse local isolado para nos abrigarmos e sermos protegidos. Até que o descendente de Olim apareça e limpe os Demônios desse mundo.”
Os pequenos ouviam ávidos o que o senhor dizia, querendo saber mais sobre o passado de seu povo. Mas, o sacerdote levantou-se e espanou as vestes.
“Então, lembrem-se de jamais sair das linhas de proteção e não fazerem contato com estranhos!”
Com isso, parecia que a aula havia acabado.
Acompanhei junto de M as crianças saírem dispersas, ficando para trás apenas o pequeno Valkyon e Leiftan. Então um homem alto se aproximou dos dois, agachando-se para ficar na altura deles. M me conduziu para mais perto, podendo assim ouvir o que eles falavam.
“Eles nasceram!”
O homem exclamou, arrancando gritos estéricos dos dois meninos.
Meu peito se apertou em ver aquela figura. Algo no seu porte forte, no olhar caloroso e no jeito amoroso que falava com o meu eu criança me fez sentir uma profunda saudade. Não precisei consultar M para saber quem era.
Meu pai.
Pisquei meus olhos para afastar as lágrimas que ameaçavam cair. Agora me lembrava de seu nome, Varon, e de eu tinha uma família naquele tempo. Aos poucos pedaços foram voltando a mim e eu fui lembrando da minha relação com eles.
Meu pai era irmão do pai de Leiftan, Ashkore. E naquela época as nossas mães estavam prestes a dar a luz aos seus segundos filhos. Nossa família era famosa, pois foram os únicos a terem as duas gestações em conjunto, tanto quando eu e Leiftan nascemos, como agora.
M levou-me junto dos três, seguindo para dentro da praça em direção ao palácio.
— Varon e Ashkore eram protetores do Rei do seu povo – ela disse, indicando o caminho e adicionando detalhes das lembranças durante o percurso – vocês moraram próximo ao palácio por conta do cargo deles.
Ficamos em silêncio o restante do caminho, comigo absorvendo os detalhes que tinham sido esquecidos, desde os mais pequenos pensamentos que tive naquela época. Pouco a pouco ia me sentindo ser completo.
“Eu quero vê-los!” o pequeno Valkyon exclamou, pulando animado em frente a porta de um quarto.
Os segui conforme eles entraram no aposento, praticamente correndo em direção aos dois berços no centro do local. Aproximei-me com cuidado e observei os dois pacotinhos de gente que olhavam tudo com os olhos arregalados. Era um menino e uma menina.
“A minha irmã é a mais linda”
Me vi tentando tocar a mãozinha do bebê, encantando. Eu tinha uma irmã!
“Nem pensar. O meu irmão que é”
Leiftan resmungava em voz baixa, olhando admirado para seu irmão.
Uma mulher de características iguais ao de Leiftan apareceu atrás dele, um tanto pálida, mas inegavelmente feliz. Sua mãe.
“Seu nome é Lysandre. Como você tinha sugerido, meu querido” ela comentou, acariciando a cabeça do filho.
Senti minha respiração ficar presa, mas minha atenção logo se voltou para o outro berço, quando M pousou a mão nele.
— E o nome da sua irmã é Rosalya.
O rosto de M então tomou foco. A lembrança se misturando com a minha guia. Caí de joelhos, as lágrimas já não podendo ser contidas.
— Mãe – sussurrei.
Senti seus braços me rodearem, segurando-me. Aparando meu choro enquanto tudo ao meu redor se desfazia e se tornava um redemoinho de imagens ao meu redor. Minha mãe continuou me embalando conforme as lembranças iam se encaixando em mim numa velocidade assustadora, tornando-me consciente do meu passado. De cada pedaço dele. Segurei-a mais apertado conforme ia me lembrando e chegava mais perto do fatídico dia que sofri o trauma que me deixou inconsciente sobre quem eu era.
Lembrei-me de quando dois anos mais tarde a nossa vila foi atacada e destruída por Demônios. De como minha mãe e minha tia lutaram até o último segundo de vida por nós. Lembrei-me de quando meu pai e meu tio se jogaram no ataque para que minha mãe pudesse fugir com Lysandre e Rosalya e minha tia fugir com Leifan e eu. E de como fomos surpreendidos por outro ataque. Lembrei-me de como minha tia foi morta e de eu e Leiftan fomos capturados por um Demônio e quase mortos se não fosse pelo sacrifício do meu tio. De como meu primo havia nos guiado para um rio tentando fugir do perigo e então sermos separados pela correnteza.
E então, lembrei-me de bater a cabeça com força em uma pedra e esquecer de tudo o que havia vivido até o momento e ser resgatado por uma senhora um dia depois.
— Meu amor, preste bem atenção – minha mãe, a guia de agora, apertou-me com força para me fazer prestar atenção – seu pai, sua irmã e seu primo mais novo ainda estão vivos.
— Como? — pedi confuso.
— Só estou aqui por um último pedido que fiz a uma sacerdotisa antes de falecer. De poder me reencontrar com meu filho, mesmo que em espírito. Eu sentia em minha alma que você estava vivo. Essa poção lhe fez lembrar-se de mim e assim pude chegar até você. Então, posso lhe contar que no meio daquela confusão do ataque, seu pai, as crianças e eu tropeçamos um portal esquecido em nossa cidade e viemos parar no mundo humano. Infelizmente acabei falecendo devido a um grave ferimento que recebi no ataque.
Ergui minha cabeça, tentando me recuperar, e notei que presença de minha mãe ia se tornando mais fraca.
— Não vá! — exclamei como se ainda fosse aquela criança das memórias.
Ela sorriu e me deu um beijo na testa.
— Eu sempre estarei contigo – disse, colocando a palma em cima do meu coração – aqui dentro. Agora, prometa-me que vai me escutar com atenção, pois não temos muito tempo.
Franzi o cenho, confuso. Minha mãe olhou-me séria, buscando minha profunda atenção.
— Dias antes do ataque, a nossa família recebeu uma missão do oráculo. Uma missão que pode ajudar toda Eldarya. Ache seu pai e o ajude com isso. Prometa-me.
No fundo, uma parte egoísta minha não queria prometer, pois eu sabia que assim que o fizesse a sua presença desapareceria.
— Como vou achá-los?
Ela pousou a mão em seu pescoço, fazendo aparecer um colar delicado.
— Procure por um objeto igual a esse. A pessoa dona desse colar é a sacerdotisa, ela poderá te ajudar.
As mãos que me seguravam começaram a perder o tato, seu contorno agora era apenas um borrão.
— Eu te amo – ela sussurrou.
Com aquila frase, quebrei-me.
— Eu prometo – sussurrei, antes dela partir.
Meu coração se rasgava enquanto eu emergia daquele local, do fundo da minha mente, para a realidade vazia e fria.
Eu prometo. Repeti, abrindo os olhos para a escuridão do porão que havia adormecido. Determinado com o novo objetivo que tinha.
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